{"id":238526,"date":"2026-01-21T18:50:08","date_gmt":"2026-01-21T18:50:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/238526\/"},"modified":"2026-01-21T18:50:08","modified_gmt":"2026-01-21T18:50:08","slug":"como-parar-de-taxar-os-ricos-mudou-a-suecia-ja-nao-construimos-nada-em-conjunto-suecia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/238526\/","title":{"rendered":"Como parar de taxar os ricos mudou a Su\u00e9cia: \u201cJ\u00e1 n\u00e3o constru\u00edmos nada em conjunto\u201d | Su\u00e9cia"},"content":{"rendered":"<p class=\"resumo-p3\"><b>Resumo<\/b><br \/><b>&#8211;<\/b> A Su\u00e9cia passou de modelo igualit\u00e1rio a pa\u00eds com forte concentra\u00e7\u00e3o de riqueza.<br \/><b>&#8211;<\/b> A aboli\u00e7\u00e3o do imposto sobre grandes fortunas marcou o recuo do Estado social.<br \/><b>&#8211;<\/b> Reformados lamentam a perda do projecto colectivo e o aumento da desigualdade.<\/p>\n<p>Durante grande parte do s\u00e9culo XX, a Su\u00e9cia gozou de uma reputa\u00e7\u00e3o merecida como um dos pa\u00edses mais igualit\u00e1rios da Europa. No entanto, ao longo das \u00faltimas duas d\u00e9cadas, transformou-se naquilo que o jornalista e autor Andreas Cervenka descreve como um \u201cpara\u00edso para os super-ricos\u201d.<\/p>\n<p>Hoje, a Su\u00e9cia tem uma das mais elevadas propor\u00e7\u00f5es de multimilion\u00e1rios em d\u00f3lares a n\u00edvel mundial e \u00e9 lar para numerosas empresas tecnol\u00f3gicas \u201cunic\u00f3rnio\u201d, avaliadas em pelo menos mil milh\u00f5es de d\u00f3lares (cerca de 860 milh\u00f5es de euros), incluindo a plataforma de pagamentos Klarna e o servi\u00e7o de streaming de \u00e1udio Spotify.<\/p>\n<p>A aboli\u00e7\u00e3o do imposto sobre grandes fortunas (f\u00f6rm\u00f6genhetsskatten), h\u00e1 20 anos, faz parte desta hist\u00f3ria \u2014 assim como, no mesmo ano, a introdu\u00e7\u00e3o de generosas dedu\u00e7\u00f5es fiscais para servi\u00e7os dom\u00e9sticos e obras de melhoria habitacional. Duas d\u00e9cadas depois, o n\u00famero de casas suecas que empregam pessoal de limpeza \u00e9 um dos indicadores de que o pa\u00eds se est\u00e1 a tornar cada vez mais uma sociedade de dois n\u00edveis.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito da minha investiga\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica sobre as rela\u00e7\u00f5es sociais produzidas por diferentes sistemas fiscais, tenho trabalhado com reformados nos sub\u00farbios a Sul da capital sueca, Estocolmo, para compreender como se sentem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de tributa\u00e7\u00e3o nas fases mais avan\u00e7adas das suas vidas.<\/p>\n<p>Esta tend\u00eancia foi acompanhada por um encolhimento gradual do Estado social. Muitos dos meus entrevistados lamentam que a Su\u00e9cia j\u00e1 n\u00e3o tenha um projecto colectivo para construir uma sociedade mais coesa.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s, reformados, conseguimos ver a destrui\u00e7\u00e3o daquilo que constru\u00edmos, do que foi iniciado quando \u00e9ramos crian\u00e7as\u201d, explicou Kjerstin, de 74 anos. \u201cNasci ap\u00f3s o fim da guerra e constru\u00ed esta sociedade ao longo da minha vida, juntamente com os meus concidad\u00e3os. [Mas] com a redu\u00e7\u00e3o dos impostos e a retirada da nossa protec\u00e7\u00e3o social\u2026 j\u00e1 n\u00e3o estamos a construir nada em conjunto.\u201d<\/p>\n<p>O coeficiente de Gini da Su\u00e9cia, a forma mais comum de medir a desigualdade, atingiu 0,3 nos \u00faltimos anos (em que 0 representa igualdade total e 1 desigualdade total), mais do que os 0,2 que se registavam nos anos 1980. A m\u00e9dia da Uni\u00e3o Europeia \u00e9 de 0,29. \u201cH\u00e1 agora 42 multimilion\u00e1rios na Su\u00e9cia \u2014 aumentou imenso\u201d, disse-me Bengt, de 70 anos. \u201cDe onde vieram? Antes, este n\u00e3o era um pa\u00eds onde as pessoas pudessem tornar-se t\u00e3o ricas com facilidade.\u201d<\/p>\n<p>Mas, tal como outros reformados que conheci, Bengt reconheceu o papel da sua pr\u00f3pria gera\u00e7\u00e3o nesta mudan\u00e7a. \u201cPerten\u00e7o a uma gera\u00e7\u00e3o que se lembra de como constru\u00edmos a Su\u00e9cia como um Estado social, mas muita coisa mudou. O problema \u00e9 que n\u00e3o protest\u00e1mos. N\u00e3o percebemos que nos est\u00e1vamos a tornar este pa\u00eds de gente rica.\u201d<\/p>\n<p>O oposto do sonho americano<\/p>\n<p>O imposto sobre grandes fortunas foi introduzido na Su\u00e9cia em 1911, com o montante a pagar inicialmente baseado numa combina\u00e7\u00e3o de riqueza e rendimento. Por essa altura, foram tamb\u00e9m dados alguns dos primeiros passos em direc\u00e7\u00e3o ao Estado social sueco \u2014 nomeadamente a introdu\u00e7\u00e3o da pens\u00e3o estatal em 1913.<\/p>\n<p>O termo utilizado para descrever este modelo, folkhemmet (\u201ca casa do povo\u201d), evocava conforto e seguran\u00e7a para todos em igual medida. Era, indiscutivelmente, o oposto ideol\u00f3gico do sonho americano \u2014 n\u00e3o visava o excepcionalismo, mas sim n\u00edveis de vida razo\u00e1veis e servi\u00e7os universais.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, o imposto sobre grandes fortunas \u2014 ent\u00e3o separado do rendimento \u2014 foi novamente aumentado em v\u00e1rias fases, atingindo um m\u00e1ximo hist\u00f3rico nos anos 1980, com uma taxa marginal de 4% para indiv\u00edduos mais ricos, embora a carga fiscal efectiva seja menos clara devido a regras complexas de isen\u00e7\u00e3o. Ainda assim, a receita total gerada pelo <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2022\/04\/30\/mundo\/noticia\/suecia-comecou-tributar-cerca-2500-residentes-portugal-janeiro-2004393\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">imposto <\/a>foi relativamente baixa. Como percentagem do PIB anual da Su\u00e9cia, nunca ultrapassou 0,4% no per\u00edodo do p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>No final dos anos 1980, os ventos pol\u00edticos come\u00e7aram a mudar na Su\u00e9cia, acompanhando a viragem para a privatiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos e a desregula\u00e7\u00e3o dos mercados financeiros em v\u00e1rios pa\u00edses europeus, incluindo o Reino Unido sob Margaret Thatcher, bem como os Estados Unidos.<\/p>\n<p>Uma cr\u00edtica recorrente ao imposto sueco sobre grandes fortunas era o seu car\u00e1cter regressivo, por tributar a riqueza da classe m\u00e9dia (sobretudo habita\u00e7\u00e3o e activos financeiros) enquanto isentava os mais ricos, detentores de grandes empresas ou de cargos de topo em sociedades cotadas. Outra cr\u00edtica era a de que o imposto incentivava a evas\u00e3o fiscal, especialmente atrav\u00e9s da fuga de capitais para para\u00edsos fiscais.<\/p>\n<p>Embora um imposto sobre grandes fortunas possa parecer um sinal do compromisso de um pa\u00eds com a <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/12\/10\/economia\/noticia\/mundo-60-mil-pessoas-triplo-riqueza-metade-populacao-2157580\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">igualdade socioecon\u00f3mica<\/a>, os meus entrevistados afirmaram que raramente pensavam nisso at\u00e9 \u00e0 sua aboli\u00e7\u00e3o, em 2006, pelo ent\u00e3o governo de direita da Su\u00e9cia, ap\u00f3s a elimina\u00e7\u00e3o do imposto sucess\u00f3rio um ano antes pelo anterior governo social-democrata.<\/p>\n<p>\u201cQuando o imposto sobre grandes fortunas foi abolido\u201d, contou-me Marianne, de 77 anos, \u201cn\u00e3o estava a pensar que os milion\u00e1rios estavam a receber um benef\u00edcio, porque n\u00e3o t\u00ednhamos muitos aristocratas ricos donos de tudo. A aboli\u00e7\u00e3o dos impostos sobre a riqueza e as heran\u00e7as pareceu-me uma decis\u00e3o pr\u00e1tica, n\u00e3o particularmente pol\u00edtica.\u201d<\/p>\n<p>Marianne e outros reformados com quem falei relataram o Estado social como algo constru\u00eddo atrav\u00e9s de esfor\u00e7o colectivo, e n\u00e3o como um projecto \u00e0 Robin dos Bosques \u2014 tirar aos ricos para dar aos pobres. Esta ideia do Estado social sueco como obra de iguais, de uma popula\u00e7\u00e3o inicialmente maioritariamente rural e pobre, ter\u00e1 afastado estes reformados das quest\u00f5es da acumula\u00e7\u00e3o de riqueza.<\/p>\n<p>Embora a Su\u00e9cia continue a tributar a propriedade e v\u00e1rias formas de rendimento do capital, em retrospectiva, muitos dos meus entrevistados idosos encaram agora a aboli\u00e7\u00e3o do imposto sobre grandes fortunas \u201cdurante o seu tempo\u201d como um passo crucial na transforma\u00e7\u00e3o da sociedade sueca, afastando-a de um Estado social de matriz social-democrata para algo diferente \u2014 um pa\u00eds de multimilion\u00e1rios e de maior desintegra\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>\u201cPenso nos meus filhos, nas minhas duas filhas que trabalham e t\u00eam fam\u00edlias jovens\u201d, disse-me Jan, de 72 anos. \u201cEm crian\u00e7as, foram amparadas pelo Estado social, frequentaram boas escolas e tiveram acesso ao futebol, \u00e0s aulas de teatro e ao dentista \u2014 mas agora preocupo-me que a sociedade venha a piorar para elas.\u201d<\/p>\n<p>Tal como outros com quem falei, Jan expressou arrependimento pelo seu pr\u00f3prio papel nesta mudan\u00e7a. \u201cAcho agora que isso \u00e9, em parte, culpa minha\u201d, afirmou. \u201cTorn\u00e1mo-nos pregui\u00e7osos e complacentes, pens\u00e1mos que o Estado social sueco estava garantido, n\u00e3o nos preocup\u00e1mos com a aboli\u00e7\u00e3o do imposto sobre grandes fortunas, n\u00e3o ach\u00e1mos que isso fosse mudar alguma coisa\u2026 mas mudou.\u201d<\/p>\n<p>\u201cUma sociedade mais humana\u201d<\/p>\n<p>A minha investiga\u00e7\u00e3o sugere que os impactos dos impostos sobre grandes fortunas, ou da sua aus\u00eancia, n\u00e3o se limitam \u00e0 arrecada\u00e7\u00e3o fiscal e \u00e0 redistribui\u00e7\u00e3o da riqueza. T\u00eam repercuss\u00f5es sociais mais amplas e podem ser fundamentais para a forma como as pessoas imaginam a sociedade.<\/p>\n<p>Actualmente, apenas tr\u00eas pa\u00edses europeus aplicam um imposto geral sobre grandes fortunas: Noruega, Espanha e Su\u00ed\u00e7a. Al\u00e9m disso, Fran\u00e7a, It\u00e1lia, B\u00e9lgica e Pa\u00edses Baixos imp\u00f5em impostos sobre determinados activos, mas n\u00e3o sobre a riqueza total de uma pessoa.<\/p>\n<p>Na Su\u00e9cia, pelo menos, a quest\u00e3o hoje n\u00e3o \u00e9 apenas saber se os impostos sobre grandes fortunas funcionam ou n\u00e3o, mas que tipo de sociedade projectam \u2014 uma sociedade do folkhemmet ou um para\u00edso para os ricos.<\/p>\n<p>\u201cOs impostos eram algo natural [quando] cresci nos anos 1950\u201d, recordou Kjerstin. \u201cLembro-me de pensar, quando estava na segunda classe, que seria sempre cuidada, que nunca teria de me preocupar.\u201d<\/p>\n<p>Reflectindo sobre como \u00e9 diferente viver hoje na Su\u00e9cia, acrescentou: \u201cAgora as pessoas n\u00e3o querem pagar impostos \u2014 por vezes, nem eu quero pagar impostos. Toda a gente pensa no que recebe em troca e em como enriquecer, em vez de construir algo em conjunto.\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o acho que se possa dizer: \u2018Pago tanto em impostos, logo devo receber o mesmo de volta\u2019. Em vez disso, devemos ter em conta que vivemos numa sociedade mais humana, onde todos sabem, desde a segunda classe, que ser\u00e3o cuidados.\u201d<\/p>\n<p>Os nomes dos entrevistados foram alterados<\/p>\n<p>Exclusivo P3\/The Conversation<br \/>Miranda Sheild Johansson \u00e9 investigadora s\u00e9nior em Antropologia Social na University College London<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Resumo&#8211; A Su\u00e9cia passou de modelo igualit\u00e1rio a pa\u00eds com forte concentra\u00e7\u00e3o de riqueza.&#8211; A aboli\u00e7\u00e3o do imposto&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":238527,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[27,28,15,16,301,14,2501,25,26,21,22,12,13,19,20,534,542,32,23,24,33,5928,17,18,29,30,31,636],"class_list":{"0":"post-238526","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-principais-noticias","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-featured-news","11":"tag-featurednews","12":"tag-governo","13":"tag-headlines","14":"tag-impostos","15":"tag-latest-news","16":"tag-latestnews","17":"tag-main-news","18":"tag-mainnews","19":"tag-news","20":"tag-noticias","21":"tag-noticias-principais","22":"tag-noticiasprincipais","23":"tag-p3","24":"tag-para-redes","25":"tag-portugal","26":"tag-principais-noticias","27":"tag-principaisnoticias","28":"tag-pt","29":"tag-suecia","30":"tag-top-stories","31":"tag-topstories","32":"tag-ultimas","33":"tag-ultimas-noticias","34":"tag-ultimasnoticias","35":"tag-uniao-europeia"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/238526","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=238526"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/238526\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/238527"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=238526"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=238526"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=238526"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}