{"id":239267,"date":"2026-01-22T09:24:08","date_gmt":"2026-01-22T09:24:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/239267\/"},"modified":"2026-01-22T09:24:08","modified_gmt":"2026-01-22T09:24:08","slug":"por-que-razao-portugal-continua-a-guardar-centenas-de-toneladas-de-ouro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/239267\/","title":{"rendered":"Por que raz\u00e3o Portugal continua a guardar centenas de toneladas de ouro?"},"content":{"rendered":"<p>Num mundo em que os pagamentos s\u00e3o digitais e as transfer\u00eancias est\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia de um clique, que sentido faz guardar toneladas de um metal precioso em cofres blindados? <\/p>\n<p>A raz\u00e3o \u00e9 simples: quando tudo se torna incerto, <strong>o ouro \u00e9 a \u00fanica garantia<\/strong>. \u00c9 um ativo isento de risco de cr\u00e9dito, independente das decis\u00f5es de pol\u00edtica monet\u00e1ria de outros pa\u00edses e resistente a choques financeiros.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses, o ouro tem registado valoriza\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, quebrando novos recordes de pre\u00e7o. No passado m\u00eas de dezembro, a <strong>cota\u00e7\u00e3o do metal precioso atingiu o m\u00e1ximo hist\u00f3rico de 4 400 d\u00f3lares<\/strong> (3 756 euros) por on\u00e7a, impulsionada pelas tens\u00f5es geopol\u00edticas, com a Venezuela no epicentro das preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Esse valor j\u00e1 foi superado nos primeiros dias de janeiro. A cota\u00e7\u00e3o da on\u00e7a de ouro esta quarta-feira fixava-se nos 4 151 euros.<\/p>\n<p>Para Portugal, que continua a confiar neste bem m\u00f3vel valioso, foram boas not\u00edcias. Segundo os dados mais recentes do World Gold Council, entidade que regista as reservas de ouro dos v\u00e1rios pa\u00edses, <strong>Portugal possui 382,66 toneladas de ouro, com as reservas do Banco de Portugal a valer j\u00e1 47 mil milh\u00f5es de euros.<\/strong> <\/p>\n<p>Cerca de metade desse ouro est\u00e1 guardada num edif\u00edcio de alta seguran\u00e7a no Carregado, propriedade do Banco de Portugal, a poucos quil\u00f3metros a norte de Lisboa. A outra metade est\u00e1 depositada em Londres.<\/p>\n<p>A procura por ativos seguros, as expetativas de corte nas taxas de juro e as compras sistem\u00e1ticas dos bancos centrais tamb\u00e9m ajudaram a elevar o pre\u00e7o do ouro, com o valor das reservas globais de ouro a subir para cerca de 4 bili\u00f5es de euros.<\/p>\n<p>As reservas de ouro s\u00e3o, sobretudo, um <strong>pilar de credibilidade<\/strong>. Quando os investidores analisam um pa\u00eds para avaliar o risco, seja ao conceder cr\u00e9dito, julgar a solidez da moeda ou antecipar riscos pol\u00edticos, o volume de ouro detido pelo Estado \u00e9 um fator relevante. <\/p>\n<p>Portugal, com a <strong>14.\u00aa maior reserva de ouro do mundo e a s\u00e9tima maior da Europa Ocidental<\/strong>, superado apenas por Alemanha, It\u00e1lia, Fran\u00e7a, Su\u00ed\u00e7a, Pa\u00edses Baixos e Pol\u00f3nia, disp\u00f5e, neste dom\u00ednio, de um ativo estrat\u00e9gico importante.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o ouro funciona como um <strong>mecanismo de prote\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es de crise monet\u00e1ria ou cambial<\/strong>. Caso o euro sofresse um colapso ou o acesso \u00e0 liquidez internacional fosse interrompido, os bancos centrais poderiam converter ouro em moeda forte ou utiliz\u00e1-lo como garantia para obter financiamento. <\/p>\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria, v\u00e1rios pa\u00edses recorreram a esta solu\u00e7\u00e3o em contextos de guerra ou de colapso financeiro, incluindo Portugal durante as tr\u00eas interven\u00e7\u00f5es do FMI, em 1977, 1983 e 2011. Embora seja um cen\u00e1rio indesej\u00e1vel, \u00e9 precisamente essa possibilidade que continua a justificar a manuten\u00e7\u00e3o de reservas de ouro.<\/p>\n<p>Por fim, o ouro tem tamb\u00e9m uma fun\u00e7\u00e3o contabil\u00edstica: o seu valor integra o balan\u00e7o do banco central e <strong>contribui para a sua solv\u00eancia<\/strong>. Um banco central financeiramente s\u00f3lido refor\u00e7a a confian\u00e7a e a estabilidade do sistema financeiro que supervisiona.<\/p>\n<p>De acordo com o Conselho Mundial de Ouro, v\u00e1rios bancos centrais t\u00eam vindo a comprar este metal precioso para <strong>diminuir a exposi\u00e7\u00e3o face \u00e0 moeda norte-americana<\/strong>. A procura tem sido especialmente robusta na China, que tem comprado centenas de toneladas de ouro nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Mas foi a <a href=\"https:\/\/pt.euronews.com\/2026\/01\/19\/polonia-ja-tem-mais-ouro-do-que-o-banco-central-europeu-e-nao-tem-intencao-de-abrandar\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><strong>Pol\u00f3nia o comprador mais ativo durante o ano passado<\/strong><\/a>, tendo acrescentado 82,67 toneladas \u00e0s suas reservas, que, em dezembro \u00faltimo, ascendiam a 530,9 toneladas. <\/p>\n<p>O <strong>Cazaquist\u00e3o<\/strong>, o <strong>Brasil<\/strong> e a <strong>Turquia<\/strong> tamb\u00e9m foram dois dos pa\u00edses que mais acumularam. O Cazaquist\u00e3o adicionou 40,97 toneladas, o Brasil 31,48 toneladas e a Turquia 26,68 toneladas. A China adicionou mais 24,88 toneladas \u00e0s suas reservas, agora avaliadas em cerca de 283,2 mil milh\u00f5es de euros, e a Ch\u00e9quia somou mais 18 toneladas.<\/p>\n<p>Por outro lado, os maiores vendedores do ano foram <strong>Singapura<\/strong>, tendo o seu banco central vendido 15,24 toneladas de ouro, seguida de <strong>Uzbequist\u00e3o,<\/strong> que se desfez de 11,82 toneladas do metal dourado. A <strong>R\u00fassia<\/strong> vendeu 6,22 toneladas e a <strong>Alemanha<\/strong> 1,28 toneladas.<\/p>\n<p>Do volfr\u00e2mio da guerra ao cofre do Banco de Portugal: as origens do ouro portugu\u00eas<\/p>\n<p>Portugal atingiu o m\u00e1ximo de reservas em 1974, com mais de 800 toneladas. A grande quantidade de ouro que o pa\u00eds acumulou n\u00e3o surgiu de um dia para o outro. Deve-se, em grande parte, \u00e0 hist\u00f3ria da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa no Brasil e \u00e0s trocas comerciais durante o per\u00edodo moderno, especialmente durante o regime do <strong>Estado Novo<\/strong> <strong>(1926\u20131974).<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de haver muita discuss\u00e3o em torno do ouro proveniente do Brasil, que se tornou, no s\u00e9culo XVIII, o principal produto de exporta\u00e7\u00e3o entre a ent\u00e3o col\u00f3nia e a metr\u00f3pole, n\u00e3o \u00e9 prov\u00e1vel que algum desse ouro tenha resistido at\u00e9 aos tempos do Estado Novo.<\/p>\n<p>Sabe-se, no entanto, que grande parte do ouro acumulado por Ant\u00f3nio de Oliveira Salazar, movido pela sua obsess\u00e3o em mat\u00e9rias de equil\u00edbrio or\u00e7amental, teve origem na Alemanha nazi.<\/p>\n<p>Durante a <strong>Segunda Guerra Mundial (1939\u20131945)<\/strong>, Portugal declarou neutralidade, mas conseguiu manter rela\u00e7\u00f5es comerciais com ambos os lados do conflito**.** Um dos principais produtos estrat\u00e9gicos que Portugal exportou nessa fase foi o <strong>volfr\u00e2mio<\/strong>, um metal crucial para a ind\u00fastria b\u00e9lica por permitir endurecer o a\u00e7o utilizado em canh\u00f5es, muni\u00e7\u00f5es e maquinaria de guerra.<\/p>\n<p>Devido \u00e0 elevada qualidade e quantidade das suas reservas, Portugal tornou-se <strong>um dos principais fornecedores mundiais de volfr\u00e2mio<\/strong>, especialmente para a Alemanha nazi, que dependia praticamente desse metal para a sua produ\u00e7\u00e3o industrial de armamento, sendo que grande parte dos pagamentos foi feita em ouro, uma exig\u00eancia de Salazar para proteger a economia portuguesa.<\/p>\n<p>De acordo com o relat\u00f3rio dispon\u00edvel no site da Secretaria-Geral do Minist\u00e9rio das Finan\u00e7as, as <strong>reservas de ouro do Banco de Portugal eram de 65 toneladas em 1939 e aumentaram para 306 toneladas em 1945<\/strong>. As reservas chegariam \u00e0s t\u00e3o referidas 866 toneladas aquando da revolu\u00e7\u00e3o em Portugal, em 1974.<\/p>\n<p>Ao longo do tempo, a Rep\u00fablica foi-se desfazendo do ouro, principalmente devido \u00e0 perda do seu papel monet\u00e1rio. At\u00e9 1971, o ouro detido por cada pa\u00eds era a refer\u00eancia para a emiss\u00e3o de moeda, mas a partir dessa data, o metal precioso deixou de ter essa fun\u00e7\u00e3o. A emiss\u00e3o de moeda passou a estar dependente de outros fatores, como o Produto Interno Bruto (PIB) do pa\u00eds.<\/p>\n<p>No in\u00edcio deste s\u00e9culo, o pa\u00eds tinha quase 600 toneladas de ouro. O ent\u00e3o governador do Banco de Portugal, V\u00edtor Const\u00e2ncio, <strong>decidiu vender parte da reserva do metal dourado<\/strong>, numa altura em que n\u00e3o se antecipavaa crise financeira de 2008, a crise das d\u00edvidas soberanas, a crise pand\u00e9mica e todas estas convuls\u00f5es geopol\u00edticas que conhecemos agora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Num mundo em que os pagamentos s\u00e3o digitais e as transfer\u00eancias est\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia de um clique, que&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":239268,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[83],"tags":[30314,88,476,33759,89,90,9399,15644,32,33],"class_list":["post-239267","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-empresas","tag-bancos","tag-business","tag-economia","tag-economia-portuguesa","tag-economy","tag-empresas","tag-investimento","tag-ouro","tag-portugal","tag-pt"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115938031320822968","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/239267","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=239267"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/239267\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/239268"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=239267"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=239267"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=239267"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}