{"id":24499,"date":"2025-08-11T07:40:07","date_gmt":"2025-08-11T07:40:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/24499\/"},"modified":"2025-08-11T07:40:07","modified_gmt":"2025-08-11T07:40:07","slug":"um-quinteto-de-escritores-muito-afinado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/24499\/","title":{"rendered":"Um quinteto de escritores muito afinado"},"content":{"rendered":"<p>A TERR\u00cdVEL POL\u00cdCIA<\/p>\n<p>Como \u00e9 que a tristemente famosa pol\u00edcia de estado da Alemanha, a Gestapo, se tornou t\u00e3o poderosa e controladora da vida de milh\u00f5es de v\u00edtimas. Nesta hist\u00f3ria sobre a organiza\u00e7\u00e3o existe uma explica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 de somenos, de que muitos alem\u00e3es contribu\u00edram com informa\u00e7\u00f5es: \u201cA Gestapo utilizou estas pessoas para criar uma sociedade de terror e para emular uma situa\u00e7\u00e3o de omnipresen\u00e7a.\u201d N\u00e3o era uma novidade, em Portugal a PIDE tamb\u00e9m se alimentava de muitos informadores que, tal como entre os alem\u00e3es, acreditavam na promessa autorit\u00e1ria de regenera\u00e7\u00e3o do regime.Somadas as p\u00e1ginas de tr\u00eas \u201ccalhama\u00e7os\u201d que sa\u00edram nos \u00faltimos meses, rapidamente se conclui que o leitor n\u00e3o ter\u00e1 tido tempo para devorar o seu impressionante n\u00famero: 1355 p\u00e1ginas. No entanto, as f\u00e9rias s\u00e3o o momento em que entre uma distra\u00e7\u00e3o e outra se pode dar aten\u00e7\u00e3o a um deles ou, se pouco mais fizer, regressar com o trio integralmente lido. A saber: o di\u00e1rio\u00a0Conta-Corrente (1969-1981)\u00a0de Verg\u00edlio Ferreira,\u00a0As Cartas do Boom\u00a0de quatro dos grandes autores latino-americanos e\u00a0Contos Completos (1945-1966)\u00a0de Julio Cort\u00e1zar.<\/p>\n<p>Os di\u00e1rios de Verg\u00edlio Ferreira est\u00e3o entre os mais pol\u00e9micos escritos por autores portugueses. O escritor n\u00e3o se impediu de dizer o que pensava sobre o pa\u00eds, os protagonistas da sociedade e da cultura, elaborar sobre a teoria liter\u00e1ria e as vozes \u201cinovadoras\u201d que causavam sensa\u00e7\u00e3o a cada chegada \u00e0s livrarias. N\u00e3o ser\u00e1 uma cole\u00e7\u00e3o de cantigas de esc\u00e1rnio e maldizer, no entanto a m\u00e3o do escritor n\u00e3o sente trav\u00e3o e o que pensa sai de forma clara ao longo destas p\u00e1ginas [tamb\u00e9m no segundo volume, entretanto publicado, sobre os anos 1982 a 1985].<\/p>\n<p>Curiosamente, na primeira entrada \u2013 1\/02\/1969 &#8211; parece que Verg\u00edlio iria entrar com p\u00e9s de l\u00e3 no relato da sua vida e do que o rodeia: \u201cFiz cinquenta e tr\u00eas anos h\u00e1 dias. Como \u00e9 \u00f3bvio, n\u00e3o acredito. Mas \u00e9 a opini\u00e3o do Registo civil\u201d. Com um dia sem escrever, o dia 3 j\u00e1 plasmar\u00e1 o registo desta diar\u00edstica, com uma diminui\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia de Ant\u00f3nio S\u00e9rgio poucos dias ap\u00f3s a sua morte: \u201cA verdade \u00e9 que a obra dele vive largamente \u00e0\u00a0custa\u00a0da dos outros.\u201d Tr\u00eas anos depois, regista o massacre dos atletas de Israel nas Olimp\u00edadas de Munique, mas a raz\u00e3o \u00e9 \u201cbeneficiar-se\u201d do seu tempo para o questionamento liter\u00e1rio em que se encontra: \u201cUm colaborador da revista\u00a0L\u2019Herne\u00a0demonstra num n\u00famero dedicado a Borges que a\u00a0Biblioteca de Babel\u00a0\u00e9 absurda\u201d. Linhas \u00e0 frente, exp\u00f5e a sua crise: \u201cTremenda dificuldade com o romance. Porqu\u00ea insistir?\u201d Vai buscar ajuda a Fernando Namora: \u201cEsteve a\u00ed h\u00e1 dias. Como de costume, ca\u00edmos ambos no balan\u00e7o da nossa gera\u00e7\u00e3o como quem d\u00e1 por encerrada a vida\u201d. A Revolu\u00e7\u00e3o de Abril d\u00e1 pano para mangas ao diarista, que rapidamente se desilude e aponta armas aos defensores da cultura \u201cpopular\u201d, como Vasco Gon\u00e7alves\u2026 mas \u00e9 a vida interior de um escritor, a constru\u00e7\u00e3o da obra, a ilus\u00e3o e a desilus\u00e3o sobre os seus pares, as modas liter\u00e1rias, os sucessos f\u00fateis, bem como o estado da intelectualidade e da sociedade portuguesa que esta mem\u00f3ria mais questiona e que surpreende por se manter com tanta atualidade d\u00e9cadas depois.<\/p>\n<p>Se o di\u00e1rio de Verg\u00edlio Ferreira \u00e9 um espelho mais tristonho de uma viv\u00eancia nacional, o volume que re\u00fane a correspond\u00eancia trocada entre quatro dos principais nomes da literatura latino americana \u00e9 como um filme liter\u00e1rio que decorre em cen\u00e1rios onde a cultura brilha como se fosse o farol dessas sociedades vibrantes do p\u00f3s-guerra, e a descri\u00e7\u00e3o epistolar ilustra um per\u00edodo de ouro na confirma\u00e7\u00e3o da arte destes autores e de como se influenciaram ou abriram janelas uns aos outros: Julio Cort\u00e1zar, Carlos Fuentes, Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez e Mario Vargas Llosa. Em muito tiveram a ajuda da agente liter\u00e1ria Carmen Balcells, que os elevou \u00e0 categoria de deuses enquanto o sucesso de um impulsionava o sucesso dos restantes. N\u00e3o eram os \u00fanicos\u00a0deuses\u00a0da literatura daquele continente abaixo da Am\u00e9rica do norte, mas a converg\u00eancia criativa e a troca de experi\u00eancias em determinada \u00e9poca das suas vidas permitiu que se constru\u00edsse este volume, que refaz uma boa parte das raz\u00f5es para o sucesso liter\u00e1rio que aquela parte do mundo n\u00e3o tinha direito face \u00e0 import\u00e2ncia hist\u00f3rica da literatura francesa e angl\u00f3fona. Al\u00e9m de recolher tamb\u00e9m uma vis\u00e3o do mundo destes quatro autores ao longo de quase duas d\u00e9cadas e de lutas pelo espa\u00e7o das suas literaturas, o que esta correspond\u00eancia mostra \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel ocorrer um milagre de companheirismo entre escritores que v\u00e3o tomando consci\u00eancia do seu papel na literatura. Todo um cen\u00e1rio que se observa nesta recolha de mais de duzentas cartas trocadas entre eles.<\/p>\n<p>Entre os escritores de\u00a0As Cartas do Boom, houve um que teve direito recentemente \u00e0 edi\u00e7\u00e3o de um primeiro de dois volumes de uma excecional colet\u00e2nea de contos: Cort\u00e1zar. Reconhecido como um dos grandes mestres deste registo liter\u00e1rio, o autor argentino regressa \u00e0s livrarias numa edi\u00e7\u00e3o com centenas de p\u00e1ginas que re\u00fane as duas primeiras d\u00e9cadas de produ\u00e7\u00e3o sob este formato, que revolucionou como no volume intitulado\u00a0Besti\u00e1rio\u00a0(1951), o seu primeiro livro. Este volume, no entanto, cont\u00e9m um conjunto de primeiros contos, reunidos sob o t\u00edtulo\u00a0A Outra Margem, que s\u00e3o de datas anteriores, a partir de 1937.\u00a0<\/p>\n<p>Apesar de todos estes volumes serem espessos, t\u00eam uma b\u00ean\u00e7\u00e3o como leitura de f\u00e9rias e para serem lidos entre interrup\u00e7\u00f5es por serem uma leitura \u201cfragmentada\u201d e n\u00e3o um romance com cap\u00edtulos extensos: o primeiro, de Verg\u00edlio Ferreira dividido em muitas entradas, o do\u00a0Boom\u00a0composto de cartas e o de Cort\u00e1zar no registo de conto. Ou seja, entre um banho e outro v\u00e3o-se lendo estes calhama\u00e7os imperd\u00edveis.\u00a0 \u00a0\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A TERR\u00cdVEL POL\u00cdCIA Como \u00e9 que a tristemente famosa pol\u00edcia de estado da Alemanha, a Gestapo, se tornou&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":24500,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,315,306,114,115,864,170,8467,32,33],"class_list":{"0":"post-24499","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-cultura","10":"tag-edicao-impressa","11":"tag-entertainment","12":"tag-entretenimento","13":"tag-literatura","14":"tag-livros","15":"tag-livros-da-semana","16":"tag-portugal","17":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24499","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24499"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24499\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/24500"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24499"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24499"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24499"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}