{"id":24806,"date":"2025-08-11T12:51:08","date_gmt":"2025-08-11T12:51:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/24806\/"},"modified":"2025-08-11T12:51:08","modified_gmt":"2025-08-11T12:51:08","slug":"do-dracula-de-radu-jude-ninguem-sai-morto-vivo-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/24806\/","title":{"rendered":"Do Dracula de Radu Jude ningu\u00e9m sai morto-vivo | Cinema"},"content":{"rendered":"<p>Sabia o leitor que em tempos se quis criar na Rom\u00e9nia um parque de divers\u00f5es chamado Dracula Park, para capitalizar o facto de um dos grandes mitos da literatura ocidental ser oriundo da Transilv\u00e2nia? Os investidores ficaram sem o seu dinheiro e o parque nunca foi constru\u00eddo \u2014 mas o fait-divers vai direitinho ao cora\u00e7\u00e3o do Dracula que o cineasta romeno Radu Jude estreou este domingo no <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/festival-de-locarno\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Festival de Locarno<\/a>.<\/p>\n<p>Cronista impiedoso do seu pa\u00eds e da sua hist\u00f3ria, <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/radu-jude\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Radu Jude<\/a> (Bucareste, 1977) j\u00e1 saiu duas vezes agraciado do festival su\u00ed\u00e7o, por Scarred Hearts (Pr\u00e9mio do J\u00fari em 2016) e <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2024\/04\/30\/culturaipsilon\/critica\/nao-esperes-demasiado-fim-mundo-filmes-ano-2088382\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">N\u00e3o Esperes Demasiado do Fim do Mundo<\/a> (Pr\u00e9mio do J\u00fari em 2023), e recebeu h\u00e1 poucos meses, com <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/02\/19\/culturaipsilon\/noticia\/radu-jude-rossellini-iphone-olhar-europa-dias-2123110\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Kontinental \u201825<\/a>, o pr\u00e9mio de Melhor Argumento no Festival de Berlim (onde M\u00e1 Sorte no Sexo ou Porno Acidental \u200blhe deu o Urso de Ouro em 2021). Mas o cineasta tem vindo a transcender a cr\u00f3nica de costumes da Rom\u00e9nia moderna para se alargar \u00e0 cr\u00edtica de toda a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental apanhada nas garras do capitalismo terminal, chegando \u00e0 \u00faltima fronteira dessa abordagem nas quase tr\u00eas horas deste Dracula \u2014 que, escusado ser\u00e1 dizer, nada tem a ver com as vers\u00f5es que todos conhecemos.<\/p>\n<p>O Dr\u00e1cula de Radu Jude n\u00e3o \u00e9 apenas Vlad Tepes, o nobre nacionalista da Idade M\u00e9dia que esteve na origem do mito liter\u00e1rio, nem \u00e9 apenas o vampiro sedutor das vers\u00f5es hollywoodianas. \u00c9 tamb\u00e9m todos aqueles que vampirizam uma sociedade ou uma classe em proveito pr\u00f3prio, sejam eles um patr\u00e3o que explora os empregados para maximizar os seus lucros ou um Z\u00e9-ningu\u00e9m que defende a lei do mais forte. No caso, o vampiro \u00e9 um cineasta (Adonis Tanta) que recorre \u00e0 <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/inteligencia-artificial\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">intelig\u00eancia artificial<\/a> (IA) para (como alter ego do pr\u00f3prio Radu Jude) criar um filme sem dinheiro, solicitando a v\u00e1rias ferramentas que produzam varia\u00e7\u00f5es sobre o tema de acordo com as suas sugest\u00f5es.<\/p>\n<p>        &#13;<br \/>\n             <a class=\"embedly-card\" data-card-controls=\"0\" href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=p94-xq_0TR8\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">&#13;<\/p>\n<p>\u00c9 talvez aqui que reside a grande ousadia do filme: recorrer \u00e0 IA generativa para criar breves interl\u00fadios propositadamente grotescos (cerca de 20 minutos dos 170 do filme) como den\u00fancia da \u201cvampiriza\u00e7\u00e3o\u201d a que esta nova ind\u00fastria submete a imagem. A certa altura, o nosso realizador pede \u00e0 tecnologia que produza uma varia\u00e7\u00e3o do Dr\u00e1cula de Francis Ford Coppola, ao que o computador responde: \u201cN\u00e3o posso porque n\u00e3o disponho dos direitos.\u201d Mas explorar a sexualidade feminina ou criar imagens grotescas que nada t\u00eam a ver com a realidade? Isso ela faz enquanto o diabo esfrega um olho \u2014 por que raz\u00e3o, afinal, haver\u00edamos de esperar que a tecnologia tivesse moral, se quem a cria n\u00e3o a tem?<\/p>\n<p>Kontinental \u201825 era a hist\u00f3ria de um dilema moral (uma mulher que receava ter levado um homem \u00e0 morte apenas por estar a fazer o seu trabalho); Dracula, que Radi Jude rodou ao mesmo tempo e que define como filme-complemento daquele, \u00e9 o retrato de uma sociedade onde a moral j\u00e1 n\u00e3o tem significado de esp\u00e9cie alguma. Como se v\u00ea num epis\u00f3dio em que um pequeno grupo de pessoas discute a tortura \u2014 perd\u00e3o, o \u201cinterrogat\u00f3rio refor\u00e7ado\u201d \u2014 do ex\u00e9rcito americano em Guant\u00e1namo como uma pr\u00e1tica \u00fatil, se salvar vidas humanas. A mesma pessoa que responder\u00e1 que \u201cnunca se provou que a tortura tivesse salvado uma \u00fanica vida\u201d, v\u00ea-la-emos a continuar a sua persegui\u00e7\u00e3o a um pobre coitado que se diz ser um vampiro.<\/p>\n<p>Foi sempre nesta direc\u00e7\u00e3o que o cinema de Radu Jude seguiu: a de um olhar aparentemente subversivo, mas de uma lucidez perturbadora, que faz explodir os limites do bom gosto e confronta o espectador com a sua complac\u00eancia e com a sua cumplicidade. Um dos filmes dentro do filme, uma adapta\u00e7\u00e3o do primeiro romance romeno sobre vampiros, invoca os teledram\u00e1ticos da era Ceausescu, e ao mesmo tempo o pensamento de Heidegger e Schoppenhauer, para falar da religi\u00e3o como vampiro da alma. Noutro epis\u00f3dio, Dr\u00e1cula \u00e9 um patr\u00e3o latifundi\u00e1rio enfrentando a revolta dos oper\u00e1rios que querem fazer valer os seus direitos; um \u201cDr\u00e1cula Tik Tok\u201d prop\u00f5e por sua vez Vlad Tepes como o homem forte totalitarista de que a Rom\u00e9nia precisa; uma hist\u00f3ria de amor nos tempos comunistas faz do macho um sedutor vampiresco. Tudo isto orbitando em torno de uma noite num \u201crestaurante t\u00edpico\u201d, vulgo \u201carmadilha para turistas\u201d, que segue as regras do capitalismo selvagem do s\u00e9culo XXI \u2014 lucro sim, remunera\u00e7\u00e3o n\u00e3o.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>E isto \u00e9 s\u00f3 uma frac\u00e7\u00e3o do que se passa nas tr\u00eas horas deste Dracula, ele pr\u00f3prio vampiro de outros filmes e da energia do espectador, medicamento de dissipa\u00e7\u00e3o lenta que o realizador diz marcar o fim de um ciclo. J\u00e1 n\u00e3o se trata de esperar demasiado do fim do mundo; trata-se mesmo de j\u00e1 n\u00e3o esperar nada a n\u00e3o ser o fim do mundo. E daqui, literalmente, ningu\u00e9m sai vivo. Nem mesmo morto-vivo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Sabia o leitor que em tempos se quis criar na Rom\u00e9nia um parque de divers\u00f5es chamado Dracula Park,&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":24807,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[140],"tags":[470,315,1413,114,115,8544,147,148,146,32,33,8545],"class_list":{"0":"post-24806","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-filmes","8":"tag-cinema","9":"tag-cultura","10":"tag-cultura-ipsilon","11":"tag-entertainment","12":"tag-entretenimento","13":"tag-festival-de-locarno","14":"tag-film","15":"tag-filmes","16":"tag-movies","17":"tag-portugal","18":"tag-pt","19":"tag-radu-jude"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24806","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24806"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24806\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/24807"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24806"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24806"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24806"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}