{"id":256164,"date":"2026-02-04T03:59:15","date_gmt":"2026-02-04T03:59:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/256164\/"},"modified":"2026-02-04T03:59:15","modified_gmt":"2026-02-04T03:59:15","slug":"mostra-reve-arte-abstrata-feita-por-mulheres-no-brasil-03-02-2026-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/256164\/","title":{"rendered":"Mostra rev\u00ea arte abstrata feita por mulheres no Brasil &#8211; 03\/02\/2026 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>Uma estrutura rosa, mole e cheia de dobras se ergue sobre um pequeno pedestal. Envolta em pel\u00facia, a superf\u00edcie ati\u00e7a o desejo t\u00e1til, enquanto a forma gira em torno de si mesma.<\/p>\n<p>Premissas como o apelo t\u00e1til e as formas moles, fluidas e informes \u2014presentes na obra &#8220;Incha\u00e7os&#8221;, de Jessica Costa\u2014 atravessam a expografia e outros trabalhos da exposi\u00e7\u00e3o &#8220;Inconformadas&#8221;, na<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/monicabergamo\/2026\/01\/claraboia-inaugura-duas-exposicoes-com-obras-de-artistas-brasileiros.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> Galeria Claraboia<\/a>, na zona oeste de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/sao-paulo\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">S\u00e3o Paulo<\/a>.<\/p>\n<p>Ao reunir superf\u00edcies inst\u00e1veis e volumes que recusam a rigidez geom\u00e9trica, a mostra questiona leituras cr\u00edticas que associaram a fluidez \u00e0 fragilidade e prop\u00f5e outra chave para pensar a forma na <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/arte\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">arte<\/a> brasileira produzida por artistas mulheres.<\/p>\n<p>Idealizada pela curadora <a href=\"https:\/\/fotografia.folha.uol.com.br\/galerias\/1854881130923608-monica-bergamo\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Ana Avelar<\/a>, a mostra resulta de uma investiga\u00e7\u00e3o de longo prazo sobre a arte abstrata feita por mulheres no Brasil, sobretudo a partir de meados do s\u00e9culo 20. O projeto foi concebido h\u00e1 cerca de cinco anos, mas se apoia em mais de duas d\u00e9cadas de pesquisa da curadora sobre abstra\u00e7\u00e3o moderna e contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Ao revisitar textos cr\u00edticos do per\u00edodo, Avelar identificou um padr\u00e3o recorrente \u2014artistas que trabalhavam com formas fluidas ou n\u00e3o geom\u00e9tricas eram descritas como &#8220;delicadas&#8221;, &#8220;fr\u00e1geis&#8221; ou &#8220;maternais&#8221;, numa leitura que confundia a obra com uma suposta ess\u00eancia feminina. &#8220;Essas categorias apareciam quase sempre como desqualifica\u00e7\u00e3o, nunca como pot\u00eancia&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Cr\u00edticas de nomes centrais do modernismo brasileiro, como<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2024\/02\/livro-ilumina-atuacao-de-mario-pedrosa-em-arte-e-politica.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> M\u00e1rio Pedrosa<\/a>, sustentam essa hip\u00f3tese. Segundo Avelar, enquanto artistas como<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2023\/05\/pancetti-e-leontina-investigam-o-brasil-moderno-em-mostras.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> Maria Leontina <\/a>ou <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2021\/02\/por-que-fayga-ostrower-pioneira-da-gravura-era-um-exemplo-a-nao-ser-seguido.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Fayga Ostrower <\/a>eram associadas \u00e0 imaturidade ou \u00e0 maternidade, pintores homens que exploravam a gestualidade e a fluidez \u2014caso de<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2024\/09\/mostra-de-ibere-camargo-reve-relacao-do-artista-e-de-sua-mulher-com-lago-guaiba.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> Iber\u00ea Camargo<\/a>\u2014 eram lidos como viris e intelectualmente densos, ainda que operassem em campos formais semelhantes.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o se constr\u00f3i a partir dessa assimetria. Re\u00fane artistas hist\u00f3ricas, como Maria Polo, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/acontece\/ac0512200901.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Yolanda Mohalyi<\/a> e Mira Schendel, a nomes contempor\u00e2neos como Jessica Costa, Paula Juchem, Fl\u00e1via Ventura e <a href=\"https:\/\/fotografia.folha.uol.com.br\/galerias\/1660546887627872-veja-votos-das-artistas-elle-de-bernardini-e-lyz-parayzo\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Elle de Bernardini<\/a>.<\/p>\n<p>O eixo comum \u00e9 a recorr\u00eancia do que Avelar chama de formas moles \u2014volumes abertos, contornos inst\u00e1veis e uma recusa da rigidez geom\u00e9trica.<\/p>\n<p>Essa escolha formal n\u00e3o \u00e9 tratada como estilo, mas como campo simb\u00f3lico. Segundo a curadora, quando essas formas aparecem na produ\u00e7\u00e3o de mulheres, s\u00e3o historicamente associadas ao corpo \u2014\u00fatero, vulva, v\u00edsceras\u2014 e carregadas de sentidos negativos. &#8220;O mesmo n\u00e3o acontece quando artistas homens trabalham com a fluidez&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Nesse ponto, &#8220;Inconformadas&#8221; tensiona leituras consagradas da cr\u00edtica brasileira, como a no\u00e7\u00e3o de &#8220;forma dif\u00edcil&#8221;, formulada por <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2020\/05\/rodrigo-naves-comenta-john-wayne-e-clint-eastwood-em-narrativa-inedita.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Rodrigo Naves<\/a> para pensar a instabilidade da forma na arte moderna do pa\u00eds. Embora reconhe\u00e7a a import\u00e2ncia do diagn\u00f3stico, Avelar se distancia dessa interpreta\u00e7\u00e3o. Para ela, a fluidez n\u00e3o indica falha ou incapacidade de assimila\u00e7\u00e3o dos discursos modernos, mas uma escolha est\u00e9tica e hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o acredito que a forma brasileira n\u00e3o se estabele\u00e7a. O capitalismo se estabeleceu aqui. O que n\u00e3o se consolidou foi uma distribui\u00e7\u00e3o justa&#8221;, afirma. A instabilidade formal, nesse sentido, n\u00e3o seria sinal de incompletude, mas resposta a uma experi\u00eancia social marcada pela coloniza\u00e7\u00e3o, pela explora\u00e7\u00e3o e pelo sincretismo cultural. &#8220;H\u00e1 muitas formas brasileiras, assim como h\u00e1 muitas identidades brasileiras.&#8221;<\/p>\n<p>A mostra amplia o debate ao incluir t\u00e9cnicas tradicionalmente relegadas ao campo das chamadas manualidades, como o t\u00eaxtil e a cer\u00e2mica. Trabalhos de<a href=\"https:\/\/f5.folha.uol.com.br\/celebridades\/2021\/03\/lidi-lisboa-diz-que-e-alvo-de-racismo-e-chamada-de-macaca.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"> L\u00eddia Lisboa<\/a>, Cl\u00e1udia Lara e Paula Jochen evidenciam como materiais flex\u00edveis enfrentam um duplo preconceito: por serem associados ao feminino e por ocuparem um lugar secund\u00e1rio na hierarquia das artes visuais.<\/p>\n<p>Avelar chama aten\u00e7\u00e3o para o fato de que essas t\u00e9cnicas, muitas vezes transmitidas entre gera\u00e7\u00f5es, sempre desempenharam papel social e pol\u00edtico relevante, ainda que desvalorizado pela historiografia da arte. &#8220;O bordado, por exemplo, foi durante s\u00e9culos um espa\u00e7o de troca, de elabora\u00e7\u00e3o coletiva e at\u00e9 de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entre mulheres, mas sempre visto como algo menor&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>O projeto tamb\u00e9m questiona a ideia de que a abstra\u00e7\u00e3o seria neutra ou destitu\u00edda de conte\u00fado \u2014no\u00e7\u00e3o difundida pela cr\u00edtica modernista. Para Avelar, toda abstra\u00e7\u00e3o carrega sentidos culturais, simb\u00f3licos e afetivos, ainda que n\u00e3o literais.<\/p>\n<p>Essa leitura se materializa em obras como as <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2021\/11\/falta-de-diversidade-regional-no-salao-dos-artistas-sem-galeria-gera-onda-de-criticas.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">pinturas de Fl\u00e1via Ventura<\/a>, que abordam rela\u00e7\u00f5es afetivas e de g\u00eanero por meio de campos crom\u00e1ticos inst\u00e1veis, ou nas <a href=\"https:\/\/guia.folha.uol.com.br\/exposicoes\/2016\/09\/tudo-o-que-voce-precisa-saber-para-visitar-a-32a-bienal-de-sao-paulo.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">cer\u00e2micas de Paula Jochen<\/a>, que evocam organismos e formas biol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>    Para Curtir SP<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Receba no seu email um guia com a programa\u00e7\u00e3o cultural da capital paulista<\/p>\n<p>A expografia, assinada por Alberto e Bruna Sperling, refor\u00e7a esse discurso ao transformar a galeria em um espa\u00e7o macio e acolhedor, em contraste com a tradi\u00e7\u00e3o dos ambientes expositivos r\u00edgidos. &#8220;Queria um lugar de afeto, n\u00e3o de conten\u00e7\u00e3o&#8221;, diz a curadora.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo da mostra sintetiza essa postura. &#8220;Inconformadas&#8221; remete tanto \u00e0s formas que n\u00e3o se fixam quanto \u00e0s artistas que recusam se moldar a expectativas normativas. Mais do que oposi\u00e7\u00e3o frontal, trata-se de deslocamento. &#8220;\u00c9 uma forma de existir de lado, com flexibilidade, com ginga \u2014algo que tamb\u00e9m diz muito sobre a experi\u00eancia brasileira&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Ao reunir gera\u00e7\u00f5es distintas e obras de naturezas diversas, &#8220;Inconformadas&#8221; prop\u00f5e uma revis\u00e3o cr\u00edtica da hist\u00f3ria da abstra\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, apontando lacunas e leituras enviesadas. &#8220;Ainda sabemos muito pouco sobre v\u00e1rias dessas artistas. Em alguns casos, nem sabemos onde est\u00e3o suas obras&#8221;, afirma Avelar.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a exposi\u00e7\u00e3o funciona tamb\u00e9m como gesto historiogr\u00e1fico: uma tentativa de reinscrever essas produ\u00e7\u00f5es num campo que, por muito tempo, lhes foi hostil \u2014e de afirmar que as formas moles podem sustentar tens\u00f5es centrais da arte brasileira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Uma estrutura rosa, mole e cheia de dobras se ergue sobre um pequeno pedestal. 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