{"id":25704,"date":"2025-08-12T01:06:14","date_gmt":"2025-08-12T01:06:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/25704\/"},"modified":"2025-08-12T01:06:14","modified_gmt":"2025-08-12T01:06:14","slug":"a-clareza-e-o-caos-de-raymundo-colares-e-seus-onibus-espetaculares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/25704\/","title":{"rendered":"A clareza e o caos de Raymundo Colares e seus \u00f4nibus espetaculares"},"content":{"rendered":"<p>\u201cA arte est\u00e1 morta, mas eu estou vivo!\u201d gritou Raymundo Colares antes de jogar uma pedra no vidro da entrada do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, dias antes da abertura do Sal\u00e3o de Arte Moderna.<\/p>\n<p>O cr\u00edtico de arte M\u00e1rio Oliveira relatou esta performance e escreveu certa vez que \u201co mais curioso desse fato \u00e9 que ele tamb\u00e9m seria o grande vencedor desse Sal\u00e3o de Arte Moderna, n\u00e3o pela a\u00e7\u00e3o\/happening, mas sim pelo quadro Pintura preta e vermelha, que recebeu o pr\u00eamio m\u00e1ximo de viagem internacional,\u201d escreveu Oliveira em artigo sobre o artista.<\/p>\n<p>Colares criou uma linguagem pr\u00f3pria, uma fus\u00e3o entre o neoconcretismo e o pop art. Sua obra foi produzida entre o final da d\u00e9cada de 1960 e o come\u00e7o dos anos 1980, per\u00edodo em que criou pinturas, livros\/objetos (os famosos gibis) e algumas experi\u00eancias com filmes.<\/p>\n<p>Ganhou diversos pr\u00eamios e bolsas para estudar no exterior, vivendo nos anos 70 em Nova Iorque e Mil\u00e3o.<\/p>\n<p>O \u00f4nibus foi uma imagem recorrente em sua produ\u00e7\u00e3o: um s\u00edmbolo da vida urbana, veloz e fragmentada. Usando cores fortes e cortes abruptos nos desenhos geom\u00e9tricos, o artista capturava o fluxo acelerado da cidade grande.<\/p>\n<p>\u201cReconhe\u00e7o, sim, a influ\u00eancia do cinema nos meus quadros. A influ\u00eancia dos cortes, da din\u00e2mica. E, nesse caso, reconhe\u00e7o tamb\u00e9m a influ\u00eancia do cinema americano, que era o que existia para se ver em toda a minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia. E tamb\u00e9m a influ\u00eancia das hist\u00f3rias em quadrinhos, inven\u00e7\u00e3o americana e leitura dos meus tempos de crian\u00e7a,\u201d disse em uma entrevista ao Correio da Manh\u00e3. \u201cMas os \u00f4nibus que retrato, garanto, s\u00e3o inteiramente cariocas e urbanos.\u201d<\/p>\n<p>Colares morreu jovem, aos 42 anos, depois de uma s\u00e9rie de eventos tr\u00e1gicos. Curiosamente, o \u00f4nibus t\u00e3o presente em sua obra e imagin\u00e1rio o atropelou literalmente numa rua do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Mais do que as fraturas, o acidente exp\u00f4s sua crescente fragilidade psicol\u00f3gica, levando a uma interna\u00e7\u00e3o numa institui\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica em Montes Claros, onde Colares viria a morrer em decorr\u00eancia de um inc\u00eandio em seu quarto, um incidente nunca esclarecido.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0Mineiro, nascido em 1944, Colares passou a adolesc\u00eancia em Salvador at\u00e9 se mudar para o Rio, onde viveu a efervesc\u00eancia art\u00edstica da \u00e9poca com Roberto Magalh\u00e3es, Antonio Dias, Arthur Barrio, Antonio Manuel, Lygia Pape, Asc\u00e2nio MMM e H\u00e9lio Oiticica.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, o point do grupo era o bar do MAM Rio. Oiticica, um amigo pr\u00f3ximo, dizia que Colares tinha sensibilidade \u00e0 flor da pele e era um moderno fora de moda.\u00a0<\/p>\n<p>Sua carreira foi breve, mas teve um impacto relevante nos artistas de sua gera\u00e7\u00e3o e nos rumos da arte brasileira, ainda que seja o menos conhecido da sua gera\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Agora, depois de 15 anos sem uma individual em S\u00e3o Paulo, vem <b>Colares: Pista livre<\/b>, uma exposi\u00e7\u00e3o panor\u00e2mica do artista que acaba de abrir na galeria Almeida &amp; Dale, em S\u00e3o Paulo, sob curadoria de Ligia Canongia.<\/p>\n<p>\u201cDo jovem provinciano de Montes Claros ao sonhador que se projetava em James Dean, do intelectual interessado em Mondrian, Pollock e Warhol ao fl\u00e2neur solit\u00e1rio que perambulava da Zona Sul \u00e0 Av. Brasil, Raymundo Colares construiu uma obra parecida consigo mesmo: a mistura da alta precis\u00e3o com a ansiedade da urg\u00eancia, o embate do latino com o super-american hero, o limite entre o rigor e o desejo.\u201d Canongia disse ao <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/braziljournal\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\"><b>Brazil Journal<\/b><\/a>.<\/p>\n<p>Mondrian foi uma influ\u00eancia importante. Algumas obras t\u00eam homenagens expl\u00edcitas, como uma colagem de 1972, feita em Mil\u00e3o, chamada Eu ainda entendo Mondrian.<\/p>\n<p>Canongia acredita que havia uma diferen\u00e7a fundamental entre os dois artistas: enquanto Mondrian queria atingir a ess\u00eancia por meio de uma demonstra\u00e7\u00e3o quase cient\u00edfica da clareza da pintura, Colares, ao contr\u00e1rio, estava mais pr\u00f3ximo das disjun\u00e7\u00f5es cubistas, da ambiguidade e contradi\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cColares \u00e9 intelecto e emo\u00e7\u00e3o, clareza e caos. Ele consegue fazer conviver dom\u00ednios excludentes, confluir opostos. Enquanto Mondrian buscava a certeza, ele optava pela ambival\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>Com mais de 40 obras, incluindo pinturas e os emblem\u00e1ticos gibis (duas obras originais est\u00e3o dispon\u00edveis para intera\u00e7\u00e3o), a mostra inclui tamb\u00e9m um v\u00eddeo do carioca Marcos Chaves em homenagem a Colares, usando imagens em movimento, o universo visual dos \u00f4nibus que tanto o inspiraram.\u00a0<\/p>\n<p>Em setembro, a galeria lan\u00e7a o primeiro livro integral sobre a obra de Colares, com artigos hist\u00f3ricos e documentos in\u00e9ditos, como cartas e poemas visuais do pr\u00f3prio artista.<\/p>\n<p>No texto da exposi\u00e7\u00e3o, a curadora diz: \u201cColares compreendeu que a quest\u00e3o do movimento, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a quest\u00e3o do tempo, havia arremetido a experi\u00eancia da pintura para al\u00e9m da estabilidade que conhecera no passado hist\u00f3rico, respondendo aos avan\u00e7os da ci\u00eancia e ao viver moderno. Pressentiu que essa atualiza\u00e7\u00e3o se prolongaria na era contempor\u00e2nea, e que os efeitos da m\u00e1quina seriam intensos e irrevers\u00edveis, mesmo n\u00e3o tendo vivenciado o mundo digital de nossos dias.\u201d<\/p>\n<p>                                                        <a href=\"https:\/\/braziljournal.com\/author\/rita-drummond\/\" rel=\"author nofollow noopener\" title=\"Rita Drummond\" class=\"author url fn\" target=\"_blank\">Rita Drummond<\/a>                                                    <\/p>\n<p>                       <script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cA arte est\u00e1 morta, mas eu estou vivo!\u201d gritou Raymundo Colares antes de jogar uma pedra no vidro&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":25705,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[144],"tags":[207,205,206,203,201,202,204,114,115,32,33],"class_list":{"0":"post-25704","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-arte-e-design","8":"tag-arte","9":"tag-arte-e-design","10":"tag-artedesign","11":"tag-arts","12":"tag-arts-and-design","13":"tag-artsanddesign","14":"tag-design","15":"tag-entertainment","16":"tag-entretenimento","17":"tag-portugal","18":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25704","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25704"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25704\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25705"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25704"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25704"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25704"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}