{"id":26107,"date":"2025-08-12T10:56:08","date_gmt":"2025-08-12T10:56:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/26107\/"},"modified":"2025-08-12T10:56:08","modified_gmt":"2025-08-12T10:56:08","slug":"filmes-de-wim-wenders-80-questionam-o-proprio-cinema-12-08-2025-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/26107\/","title":{"rendered":"Filmes de Wim Wenders, 80, questionam o pr\u00f3prio cinema &#8211; 12\/08\/2025 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>Como todo bom cineasta moderno,<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/05\/vivi-80-anos-de-paz-mas-ela-nao-e-garantida-diz-wim-wenders-com-novo-curta.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> Wim Wenders<\/a>, que faz 80 anos nesta quinta-feira (14), sempre se pergunta o que \u00e9 <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/cinema\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">cinema<\/a>. Pode-se pensar numa resposta \u2014cinema \u00e9 movimento, deslocar-se, ir de um lugar a outro, experimentar o desterro, a dor, a orfandade.<\/p>\n<p>\u00c9 dessa mat\u00e9ria que se fizeram seus melhores filmes. Alguns deles estar\u00e3o sendo exibidos no miniciclo que acontece em S\u00e3o Paulo, nas salas Reag Belas Artes e Cinesystem Frei Caneca, e no Rio de Janeiro, na Cinesystem Botafogo, at\u00e9 3 de setembro.<\/p>\n<p>Nesses filmes passeiam almas vagabundas. Come\u00e7ando pelo come\u00e7o \u2014em &#8220;Alice nas Cidades&#8221;, de 1974, encontramos Phillip Winter (R\u00fcdiger Vogler), jornalista sofrendo de um bloqueio criativo que em princ\u00edpio deveria levar Alice, garota de nove anos, ao encontro da m\u00e3e em um aeroporto. Mas o desencontro acontece, o que far\u00e1 do jornalista o acompanhante da menina, enquanto roda em busca de um lugar em que possa ser acolhida.<\/p>\n<p>\u00c9 quase o vagabundo de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/06\/chaplin-ha-100-anos-fez-o-cinema-soar-simples-no-filme-em-busca-do-ouro.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Chaplin<\/a>, esse jornalista. Com uma diferen\u00e7a: sendo algu\u00e9m em busca de uma hist\u00f3ria, eis que a tal hist\u00f3ria surge inesperadamente diante dele. Como um aborrecimento, talvez, mas como afeto tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>S\u00e3o assim, afinal, as melhores hist\u00f3rias de Wenders: elas n\u00e3o existem e, ao mesmo tempo, est\u00e3o debaixo do nariz. H\u00e1 um n\u00e3o acontecer ali em que tudo acontece. De prefer\u00eancia com amplos deslocamentos, que se repetiriam em &#8220;No Decorrer do Tempo&#8221;, por exemplo, onde o errante \u00e9 um projecionista cinematogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>As coisas s\u00e3o um pouco diferentes, mas nem tanto, em &#8220;O Amigo Americano&#8221;, de 1977, baseado em Patricia Highsmith e que seria o passaporte para Wenders chegar aos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Ali o deslocamento se d\u00e1 entre Hamburgo e Paris, pois na primeira vive Jonathan (Bruno Ganz), moldureiro vitimado por um c\u00e2ncer, e na segunda ele vai a conselho de Tom Ripley (Dennis Hopper), para visitar m\u00e9dicos c\u00e9lebres. Na verdade, Ripley o induz a se tornar um assassino.<\/p>\n<p>Estranho passaporte, esse. Coloca o europeu nas m\u00e3os de um americano, como viria a acontecer com Wenders logo em seguida, em sua estranha passagem pelos Estados Unidos. O deslocamento o levou direto ao cinema-mito. E a um produtor com controle da forma final de seu &#8220;Hammet&#8221; (1982). E o produtor era <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/francis-ford-coppola\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Francis Ford Coppola<\/a>.<\/p>\n<p>Talvez tenha surgido a\u00ed seu filme mais soturno: &#8220;Paris, Texas&#8221;, de 1984 \u2014que, por sinal, n\u00e3o est\u00e1 na mostra. Ali tamb\u00e9m tudo \u00e9 quest\u00e3o de deslocamento: um homem vaga nos Estados Unidos pelo deserto, \u00e0 espera n\u00e3o se sabe bem do qu\u00ea \u2014bem, em certo momento se saber\u00e1.<\/p>\n<p>Esse deserto, a terra de ningu\u00e9m, esse vazio, essa desesperan\u00e7a, o que seriam? Talvez a desilus\u00e3o de Wenders com os Estados Unidos, sua terra prometida, a p\u00e1tria do cinema. E a desilus\u00e3o com o cinema, talvez.<\/p>\n<p>Antes desse, Wenders dirigiu &#8220;O Estado das Coisas&#8221; em 1982. Nesse existe menos movimento, em princ\u00edpio. H\u00e1 uma equipe de filmagem parada. Espera que o produtor volte da viagem aos EUA com dinheiro para completar a filmagem.<\/p>\n<p>Se a primeira parte da carreira de Wenders, na Alemanha, era quase uma alegre espera da ida aos Estados Unidos, &#8220;Paris, Texas&#8221; enuncia, j\u00e1 no t\u00edtulo, o deslocamento. De certa forma, a desilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Filmar em Lisboa enquanto se arrastava a montagem de &#8220;Hammet&#8221; era quase um sintoma dessa desilus\u00e3o. Mas Wenders a trabalhava bem, criativamente. O filme que se fazia era uma fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. O filme para o qual o produtor n\u00e3o encontrar\u00e1 dinheiro. \u00c9 como se Wenders pressentisse o fim da era do autor, mas n\u00e3o s\u00f3: o fim da predomin\u00e2ncia do cinema europeu no Ocidente.<\/p>\n<p>A It\u00e1lia j\u00e1 fraquejava, a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/webstories\/cultura\/2021\/09\/o-que-foi-a-nouvelle-vague\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">nouvelle vague<\/a> envelhecia, e agora o ciclo da Alemanha Ocidental parecia chegar a seus \u00faltimos dias.<\/p>\n<p>&#8220;O C\u00e9u de Lisboa&#8221;, de 1984, parece confirmar esse caminho. Ali, um t\u00e9cnico de som \u00e9 chamado para trabalhar em um filme. Ao chegar, n\u00e3o encontra mais o filme. Ele foi abandonado pelo diretor. O t\u00e9cnico vagueia ent\u00e3o por Lisboa e aproveita para recolher que sirvam ao seu trabalho. Em dado momento, encontra Friedrich, o diretor, mas n\u00e3o exatamente o diretor que ele esperava.<\/p>\n<p>Friedrich \u00e9 um diretor cheio de d\u00favidas. E sua d\u00favida maior \u00e9 sobre o cinema: existir\u00e1 ainda? E para qu\u00ea? Para produzir imagens prostitu\u00eddas?<\/p>\n<p>O &#8220;C\u00e9u de Lisboa&#8221; \u00e9, de certo modo, o filme do fim do cinema moderno e de todas as esperan\u00e7as que trouxera de conciliar de maneira saud\u00e1vel a arte e o dinheiro. Wenders, como Friedrich, sabe que perdeu.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, a carreira de Wenders decai da\u00ed por diante. Com exce\u00e7\u00e3o, talvez, de &#8220;Asas do Desejo&#8221;, lan\u00e7ado em 1987, que anuncia seu retorno a uma Berlim ent\u00e3o ainda t\u00e3o dividida quanto o pr\u00f3prio Wim Wenders esteve, sempre, dividido entre Alemanha e EUA.<\/p>\n<p>Esses quatro filmes que o ciclo do Belas Artes exibe celebram com justi\u00e7a os 80 anos de Wim Wenders e resumem bem os altos e baixos n\u00e3o tanto da carreira do cineasta, como de seus sentimentos em rela\u00e7\u00e3o a uma arte que a toda hora parece namorar o seu fim. Toda a obra de Wenders, no que tem de melhor, parece um prel\u00fadio desse fim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Como todo bom cineasta moderno, Wim Wenders, que faz 80 anos nesta quinta-feira (14), sempre se pergunta o&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":26108,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[140],"tags":[470,114,115,147,148,236,146,32,33,9061],"class_list":{"0":"post-26107","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-filmes","8":"tag-cinema","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-film","12":"tag-filmes","13":"tag-folha","14":"tag-movies","15":"tag-portugal","16":"tag-pt","17":"tag-wim-wenders"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26107","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26107"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26107\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/26108"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26107"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26107"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26107"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}