{"id":26115,"date":"2025-08-12T11:02:37","date_gmt":"2025-08-12T11:02:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/26115\/"},"modified":"2025-08-12T11:02:37","modified_gmt":"2025-08-12T11:02:37","slug":"risco-de-rutura-eua-europa-ocidental-e-pior-pesadelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/26115\/","title":{"rendered":"Risco de Rutura EUA-Europa Ocidental \u00e9 pior pesadelo"},"content":{"rendered":"<p>Depois do 25 de Abril e do sucesso da transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, Portugal fez da linha europe\u00edsta de M\u00e1rio Soares, conjugada com a vincula\u00e7\u00e3o \u00e0 NATO, a prioridade. Essa op\u00e7\u00e3o foi determinante para o que Portugal \u00e9 hoje e a nossa posi\u00e7\u00e3o no mundo? <\/p>\n<p>Decisiva. Desde logo \u00e9 insepar\u00e1vel da democratiza\u00e7\u00e3o. Retrospectivamente, a democratiza\u00e7\u00e3o e a europeiza\u00e7\u00e3o s\u00e3o paralelas e refor\u00e7am-se reciprocamente. \u00c9 a primeira vez que essa combina\u00e7\u00e3o se faz, e vai repetir-se depois em Espanha, vai repetir-se na Europa do Leste, depois de 1989, mas Portugal \u00e9 o ensaio geral. E n\u00e3o tinha que correr bem. A posi\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio Soares \u00e9 importante, duplamente. Em primeiro lugar porque na oposi\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio do que acontecia nas fileiras do regime, havia muito poucos europe\u00edstas. N\u00e3o havia nenhum outro dirigente pol\u00edtico da oposi\u00e7\u00e3o que defendesse n\u00e3o s\u00f3 o regresso \u00e0 Europa, mas a entrada de Portugal nas Comunidades Europeias, que \u00e9 uma coisa espec\u00edfica. N\u00f3s j\u00e1 est\u00e1vamos na EFTA e na NATO. Ao contr\u00e1rio do que \u00e9 vis\u00e3o comum, n\u00e3o \u00e9ramos uns dissidentes africanistas. Mas M\u00e1rio Soares achava que precis\u00e1vamos de aderir \u00e0s Comunidades Europeias como membro de pleno direito e n\u00e3o apenas atrav\u00e9s de um tratado ou acordo de associa\u00e7\u00e3o. E ele tem essa ideia clara desde os tempos do ex\u00edlio, mas  que era minorit\u00e1ria mesmo no Partido Socialista. Mas ele vai seguir essa linha. Soares tinha essa grande ideia de que democratiza\u00e7\u00e3o e europeiza\u00e7\u00e3o eram uma e a mesma coisa e era o caminho certo. Soares imp\u00f4s a sua linha estrat\u00e9gica e n\u00e3o foi f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Portugal foi um dos fundadores da NATO em 1949, mesmo n\u00e3o sendo uma democracia&#8230; <\/p>\n<p>Sim. Portugal insistiu que a Espanha devia tamb\u00e9m ser um dos membros fundadores, mas o regime espanhol era um regime que tinha sido imposto pelas armas do fascismo italiano e do nazismo alem\u00e3o. N\u00f3s \u00e9ramos apenas um regime autorit\u00e1rio nativo, n\u00e3o faz\u00edamos parte da vaga totalit\u00e1ria. E havia do lado dos EUA uma vis\u00e3o de que o regime salazarista era um regime autorit\u00e1rio benigno. N\u00e3o tinham raz\u00e3o, mas era a vis\u00e3o deles. E a de muitos conservadores brit\u00e2nicos, e os gaullistas, a mesma coisa. Ao contr\u00e1rio, o franquismo era um regime terrorista, imposto pelo fascismo e ningu\u00e9m queria ter nada a ver com ele.<\/p>\n<p>Hoje, a NATO, que alguns davam como morta, voltou a ganhar import\u00e2ncia com a guerra na Ucr\u00e2nia. E os aliados americanos est\u00e3o a pressionar para todos os pa\u00edses gastarem n\u00e3o 2% do PIB em defesa, mas 5%. Esta \u00e9 a oportunidade para a Europa finalmente assumir a sua defesa e n\u00e3o depender tanto dos EUA?<\/p>\n<p>J\u00e1 o devia ter feito h\u00e1 imenso tempo. Adiou sempre, mesmo no fim da Guerra Fria. Os EUA, ali\u00e1s, tamb\u00e9m reduziram significativamente os gastos de defesa depois de 1991. Agora somos obrigados, pela invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia, a levar a s\u00e9rio a defesa europeia. N\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o inteiramente nova neste sentido em que julgo que era Paul-Henri Spaak que dizia que Estaline era o verdadeiro fundador da NATO. De certa maneira, Putin \u00e9 o primeiro respons\u00e1vel por termos deixado de achar que a NATO estava obsoleta, ou em morte cerebral.<\/p>\n<p>Como dizia o presidente Emmanuel Macron&#8230;<\/p>\n<p>Como dizia Macron, exato. \u00c9 uma oportunidade para a Europa fazer a sua parte.  A minha ideia \u00e9 que os europeus deviam ser metade da NATO, no sentido em que, em primeiro lugar, devem garantir a defesa convencional da NATO contra a R\u00fassia. Isto \u00e9, fora a quest\u00e3o da dissuas\u00e3o estrat\u00e9gica nuclear, as for\u00e7as armadas europeias devem poder derrotar a tentativa convencional russa de atacar um membro da NATO. \u00c9 uma coisa muito precisa e concreta, e \u00e9 o que se est\u00e1 a fazer. E por outro lado, devia ser a Europa a pagar metade, porque ainda n\u00e3o \u00e9 o caso. Mas vai ser e se calhar at\u00e9 mais do que a metade, embora a dissuas\u00e3o estrat\u00e9gica nuclear seja uma coisa que tamb\u00e9m custa dinheiro, como os franceses e os brit\u00e2nicos sabem.<\/p>\n<p>Nessa \u00e1rea, os franceses at\u00e9 s\u00e3o mais aut\u00f3nomos em rela\u00e7\u00e3o aos EUA do que os brit\u00e2nicos&#8230;<\/p>\n<p>O Programa Manhattan \u00e9 um programa ingl\u00eas que Churchill exporta para os EUA. Os EUA depois n\u00e3o partilham a informa\u00e7\u00e3o com os brit\u00e2nicos, mas eles t\u00eam suficientes cientistas no projeto para o reconstruir em 1952, por conta pr\u00f3pria. Mas, na dimens\u00e3o dos vetores de lan\u00e7amento, tiveram sempre uma parceria com os norte-americanos, que eram os m\u00edsseis, os avi\u00f5es, os bombardeiros. No caso dos franceses, escolheram desde o princ\u00edpio ser aut\u00f3nomos em tudo, incluindo os Rafale, os bombardeiros, que os brit\u00e2nicos n\u00e3o t\u00eam mas v\u00e3o ter porque v\u00e3o comprar F-35 com capacidade para ser um vetor de lan\u00e7amento.<\/p>\n<p>V\u00e3o comprar aos EUA&#8230;<\/p>\n<p>V\u00e3o comprar aos EUA, como os alem\u00e3es tamb\u00e9m v\u00e3o. A defesa europeia para os brit\u00e2nicos, para os alem\u00e3es e para os franceses \u00e9 uma alian\u00e7a transatl\u00e2ntica. Existe uma comunidade transatl\u00e2ntica e nenhum deles tem a ilus\u00e3o de que pode ser de outra maneira, enquanto pela frente tiver a R\u00fassia, que \u00e9 a outra grande pot\u00eancia nuclear.  <\/p>\n<p>No seu livro cita Medeiros Ferreira a dizer que \u201ca defesa das nossas fronteiras come\u00e7a na Alemanha Ocidental\u201d&#8230;<\/p>\n<p>\u201cCome\u00e7a no Elba\u201d. A frase dele era dirigida aos militares e dizia que a fronteira estrat\u00e9gica de Portugal j\u00e1 n\u00e3o estava no Rovuma, estava no Elba. Parece uma coisa trivial, mas foi preciso dizer isso em 1976. Medeiros Ferreira era ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros e disse-o com uma grande frontalidade.<\/p>\n<p>Hoje essa fronteira come\u00e7a na Ucr\u00e2nia?<\/p>\n<p>Claro. A fronteira da defesa europeia \u00e9 a fronteira entre a Ucr\u00e2nia e a R\u00fassia. Desde o dia 24 de fevereiro de 2022 e, mais uma vez, gra\u00e7as ao presidente Putin.<\/p>\n<p>Putin e a R\u00fassia acabam por moldar a geoestrat\u00e9gia mundial?<\/p>\n<p>Claro, sim. Como no passado. Os EUA a seguir \u00e0 II Guerra Mundial, queriam regressar para penates, como tinham feito em 1918. As tropas americanas n\u00e3o deviam ter ficado. A NATO n\u00e3o devia existir. Os EUA nunca tinham feito um acordo de alian\u00e7a em tempos de paz. Tudo aquilo s\u00f3 foi poss\u00edvel porque a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que logo depois de 1945 ainda n\u00e3o era uma pot\u00eancia nuclear, representava uma amea\u00e7a estrat\u00e9gica de longo prazo \u00e0 qual os EUA tinham que responder. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Depois do 25 de Abril e do sucesso da transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, Portugal fez da linha europe\u00edsta de M\u00e1rio&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":26116,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[84],"tags":[2534,109,107,108,306,9069,413,82,9067,3400,32,33,9068,105,103,104,106,110],"class_list":{"0":"post-26115","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-ciencia-e-tecnologia","8":"tag-25-de-abril","9":"tag-ciencia","10":"tag-ciencia-e-tecnologia","11":"tag-cienciaetecnologia","12":"tag-edicao-impressa","13":"tag-entrevista-dn","14":"tag-eua","15":"tag-internacional","16":"tag-mario-soares","17":"tag-nato","18":"tag-portugal","19":"tag-pt","20":"tag-salazar","21":"tag-science","22":"tag-science-and-technology","23":"tag-scienceandtechnology","24":"tag-technology","25":"tag-tecnologia"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26115","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26115"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26115\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/26116"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26115"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26115"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26115"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}