{"id":261474,"date":"2026-02-08T09:46:07","date_gmt":"2026-02-08T09:46:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/261474\/"},"modified":"2026-02-08T09:46:07","modified_gmt":"2026-02-08T09:46:07","slug":"ninguem-esta-a-salvo-como-uma-das-estrategias-mais-eficazes-da-ucrania-esta-a-fazer-o-que-as-sancoes-nao-conseguiram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/261474\/","title":{"rendered":"&#8220;Ningu\u00e9m est\u00e1 a salvo&#8221;. Como &#8220;uma das estrat\u00e9gias mais eficazes&#8221; da Ucr\u00e2nia est\u00e1 a fazer o que as san\u00e7\u00f5es n\u00e3o conseguiram"},"content":{"rendered":"<p>\t                Enquanto os governos ocidentais se perdem em burocracias e tetos de pre\u00e7os contorn\u00e1veis, Kiev decidiu levar a economia de guerra russa para o fundo do mar. Do Mar Negro ao Mediterr\u00e2neo, a frota-fantasma de Putin est\u00e1 a descobrir que n\u00e3o existem portos seguros<\/p>\n<p>\u00c9 uma combina\u00e7\u00e3o explosiva para o Kremlin. Ao longo de quatro anos, o governo russo surpreendeu o mundo com a sua capacidade de manter o elevado esfor\u00e7o de guerra, apesar de toda a press\u00e3o imposta pelo Ocidente. Subiram-se impostos e as taxas de juro alcan\u00e7aram n\u00edveis nunca antes vistos para fazer frente aos enormes custos do conflito mais violento na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Mas isso n\u00e3o era suficiente. Era preciso vender petr\u00f3leo, muito petr\u00f3leo. Durante quatro anos, o plano funcionou, mas agora est\u00e1 a falhar, tudo gra\u00e7as a uma mudan\u00e7a de estrat\u00e9gia ucraniana.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma das estrat\u00e9gias mais eficazes da Ucr\u00e2nia. Zelensky, com drones mar\u00edtimos, est\u00e1 a conseguir reduzir o n\u00famero de navios dispon\u00edveis e os armadores tamb\u00e9m ficam sem vontade de operar. Esta medida j\u00e1 levou a uma redu\u00e7\u00e3o significativa das receitas russas. A longo prazo, \u00e9 uma medida muito forte&#8221;, explica o tenente-general Rafael Martins.<\/p>\n<p>Como todas as guerras, a invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia \u00e9 um complexo jogo de adapta\u00e7\u00e3o, com cada lado a tentar adaptar a sua estrat\u00e9gia para contrariar a estrat\u00e9gia advers\u00e1ria. Durante os primeiros tr\u00eas anos do conflito, o governo ucraniano baseou a sua estrat\u00e9gia de ataque aos cofres do Kremlin atrav\u00e9s da press\u00e3o aos l\u00edderes ocidentais, para que estes tomassem medidas para restringir as receitas que o Estado russo obtinha para financiar uma ind\u00fastria de guerra que passou a consumir entre 6% a 7% do PIB do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O plano inicial dos pa\u00edses ocidentais foi a cria\u00e7\u00e3o de um mecanismo que estabelecia um teto no pre\u00e7o da compra do barril de petr\u00f3leo russo em 60 d\u00f3lares. Mas a R\u00fassia foi r\u00e1pida a adaptar-se e come\u00e7ou a adquirir centenas de navios petroleiros antigos com propriedade opaca para transportar petr\u00f3leo fora da jurisdi\u00e7\u00e3o de seguros ocidental. Pouco depois, foi a vez do corte gradual de 90% das importa\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo russo por via mar\u00edtima para a Europa, privando a R\u00fassia de um dos seus maiores mercados. Mas tamb\u00e9m aqui os russos se adaptaram, com a \u00c1sia a compensar a perda deste mercado, embora com margens de lucro menores devido aos custos log\u00edsticos.<\/p>\n<p>A inefic\u00e1cia das san\u00e7\u00f5es pol\u00edticas levou as autoridades em Kiev a adaptar a sua estrat\u00e9gia. Um novo tipo de san\u00e7\u00f5es era necess\u00e1rio para atingir as receitas do Kremlin e prejudicar a sua capacidade de financiar a guerra. O plano foi apresentado pelo chefe do Servi\u00e7o de Seguran\u00e7a da Ucr\u00e2nia (SBU), Vasyl Malyuk, e passa por uma s\u00e9rie de ataques diretos contra os navios da &#8220;frota-fantasma russa&#8221;. O chefe das secretas ucranianas chamou-lhes &#8220;san\u00e7\u00f5es cin\u00e9ticas&#8221;. E, ao contr\u00e1rio das medidas impostas pelo Ocidente, estas acabaram por ter um impacto quase imediato.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de dezembro do ano passado, o custo que a R\u00fassia tinha de suportar para garantir o seguro destes navios disparou 300%. Um m\u00eas depois, em janeiro, esse valor duplicou, depois do sucesso dos ataques ucranianos contra dois petroleiros gregos que se preparavam para serem carregados de petr\u00f3leo russo. Segundo fontes da ind\u00fastria, em declara\u00e7\u00f5es \u00e0 ag\u00eancia Reuters, os navios que navegam para portos russos ou ucranianos no Mar Negro ou terminais ao redor do Mar de Azov exigem um seguro adicional contra riscos de guerra, normalmente estabelecido por um per\u00edodo de sete dias, cujos termos s\u00e3o revistos a cada 24 horas. E estas condi\u00e7\u00f5es tornam os seus pre\u00e7os &#8220;extremamente vol\u00e1teis&#8221;.\u00a0<\/p>\n<p>E esta medida est\u00e1 a ter um impacto direto nos principais operadores. V\u00e1rios transportadores que inicialmente aceitaram continuar a operar na R\u00fassia, apesar de estarem a contribuir diretamente para o financiamento russo, est\u00e3o a equacionar as suas opera\u00e7\u00f5es. \u00c9 o caso de um dos maiores operadores turcos, Besiktas Shipping, que anunciou que vai deixar de transportar carga russa, depois de um dos seus petroleiros ter sofrido explos\u00f5es na costa do Senegal, no final do ano passado. A empresa decidiu parar a opera\u00e7\u00e3o por considerar que a situa\u00e7\u00e3o &#8220;escalou consideravelmente&#8221;.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o embarca\u00e7\u00f5es obsoletas, sem o m\u00ednimo requisito para navegar. E muitas delas funcionam sem os sistemas de georeferencia\u00e7\u00e3o que todos os navios t\u00eam de ter. A R\u00fassia alugou armadores e navios que estavam encostados. \u00c9 um risco para a seguran\u00e7a ambiental&#8221;, explica o tenente-general Marco Serronha.<\/p>\n<p>Laborat\u00f3rio da guerra assim\u00e9trica <\/p>\n<p>Tal como est\u00e1 a acontecer na Ucr\u00e2nia, onde a tecnologia de drones est\u00e1 a dominar por completo o campo de batalha, a mesma revolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 a ocorrer no mar alto. Desde os primeiros meses de guerra, quando a Marinha ucraniana foi privada de navios, os oficiais ucranianos recorreram ao desenvolvimento de drones para atingir a Marinha russa com sucesso. Nesse primeiro ano, os drones navios conseguiram atingir alvos a 400-600 quil+ometros. Desde ent\u00e3o, as dist\u00e2ncias n\u00e3o param de aumentar e os novos drones j\u00e1 percorrem dist\u00e2ncias de mil quil\u00f3metros, o que lhes permitiu atingir v\u00e1rias vezes o porto de Novorossiysk a partir de bases em Odessa.<\/p>\n<p>O custo benef\u00edcio destes ataques \u00e9 dif\u00edcil de descartar. Com apenas um drone Magura V5, que custa 250 mil euros, os ucranianos foram capazes de destruir navios de guerra que custam dezenas ou at\u00e9 mesmo centenas de milh\u00f5es de euros. Desde 24 de fevereiro de 2022, a Ucr\u00e2nia destruiu ou danificou 24 navios militares russos a operar no mar Negro, de acordo com o minist\u00e9rio da Defesa do Reino Unido.<\/p>\n<p>Mas esses ataques foram apenas o in\u00edcio para o que viria a ser uma verdadeiro laborat\u00f3rio de guerra assim\u00e9trica. Inicialmente os drones eram lan\u00e7ados da costa, o que fez com que a R\u00fassia se afastasse. Por isso, a Ucr\u00e2nia desenvolveu novas t\u00e1ticas. Para contornar as limita\u00e7\u00f5es de combust\u00edvel e bateria, os ucranianos passaram a utilizar barcos civis ou cargueiros comerciais como bases de lan\u00e7amento m\u00f3veis. S\u00e3o uma esp\u00e9cie de &#8220;navios-m\u00e3e&#8221; que transportam os drones escondidos em rampas camufladas e lan\u00e7ados contra o alvo quando est\u00e3o a 100 ou 200 quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, para contrariar os helic\u00f3pteros russos que ca\u00e7am drones \u00e0 superf\u00edcie, Kiev equipou as suas unidades navais com m\u00edsseis antia\u00e9reos R-73. Agora, o drone n\u00e3o \u00e9 apenas um proj\u00e9til, mas uma plataforma de combate capaz de abater amea\u00e7as a\u00e9reas para garantir que chega ao seu destino final: o casco de um petroleiro.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, desenvolvimentos tecnol\u00f3gicos criaram novas vers\u00f5es de drones que se tornaram muito mais dif\u00edceis de detetar. \u00c9 o caso do novo Sub Sea Baby, que \u00e9 capaz de navegar abaixo da linha da \u00e1gua, o que o torna praticamente invis\u00edvel aos radares e \u00e0s c\u00e2maras t\u00e9rmicas dos navios russos. . Foi esta tecnologia que permitiu o ataque cir\u00fargico ao submarino da classe Varshavyanka em pleno porto de Novorossiysk.<\/p>\n<p>&#8220;Para a R\u00fassia, o custo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 econ\u00f3mico. Isto \u00e9 uma humilha\u00e7\u00e3o. A R\u00fassia acredita ser uma superport\u00eancia mas a sua frota do Mar Negro foi obrigada a refugiar-se em novos portos, bem mais long\u00ednquos. E mesmo assim n\u00e3o est\u00e3o a salvo&#8221;, acrescenta Rafael Martins.<\/p>\n<p>Ca\u00e7a \u00e0 Frota-fantasma <\/p>\n<p>A aud\u00e1cia de Kiev n\u00e3o se limita \u00e0s \u00e1guas territoriais. O ano de 2025 tornou-se o &#8220;ano de ouro&#8221; da ca\u00e7a \u00e0 frota-fantasma, com pelo menos 11 navios atingidos, incluindo oito petroleiros. O que surpreende os analistas militares \u00e9 a expans\u00e3o geogr\u00e1fica. Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, registaram-se ataques a navios comerciais n\u00e3o militares no Mediterr\u00e2neo, ao largo das costas da L\u00edbia, Turquia e It\u00e1lia.<\/p>\n<p>At\u00e9 o Mar B\u00e1ltico, tradicionalmente sob vigil\u00e2ncia russa, foi palco de explos\u00f5es no porto de Ust-Luga. Esta capacidade de proje\u00e7\u00e3o de for\u00e7a sugere que a Ucr\u00e2nia n\u00e3o se sente limitada por fronteiras. Especialistas acreditam que muitos destes ataques, embora n\u00e3o assumidos oficialmente, utilizam minas magn\u00e9ticas, uma t\u00e1tica cl\u00e1ssica de sabotagem naval que exige uma informa\u00e7\u00e3o de proximidade excecional.<\/p>\n<p>Embora a frota-fantasma russa seja vasta, a estrat\u00e9gia ucraniana \u00e9 cir\u00fargica. Os ataques t\u00eam como alvo o chamado &#8220;n\u00facleo duro&#8221; da frota, um grupo restrito de navios que faz m\u00faltiplas escalas anuais em portos russos e que \u00e9 essencial para manter o fluxo de caixa do Kremlin. Estima-se que as opera\u00e7\u00f5es ucranianas j\u00e1 tenham neutralizado entre 5% a 10% deste n\u00facleo vital.<\/p>\n<p>Esta press\u00e3o &#8220;cin\u00e9tica&#8221; surge no pior momento poss\u00edvel para Moscovo. Com o recente endurecimento das san\u00e7\u00f5es ocidentais, que baixaram o teto do pre\u00e7o do petr\u00f3leo para 47,6 d\u00f3lares, e a sa\u00edda em massa de armadores gregos do mercado russo, o Kremlin debate-se com uma escassez de navios. Aqueles que restam enfrentam agora um dilema existencial sobre se o lucro da exporta\u00e7\u00e3o compensa o risco de uma explos\u00e3o em pleno mar.<\/p>\n<p>A Ucr\u00e2nia joga tamb\u00e9m com as zonas cinzentas do direito mar\u00edtimo. Muitos dos navios da frota-fantasma navegam com bandeiras falsas ou registos inexistentes. Quando dois petroleiros foram atingidos em novembro, descobriu-se que usavam ilegalmente a bandeira da G\u00e2mbia. Ao serem removidos do registo, estes navios tornaram-se &#8220;ap\u00e1tridas&#8221;, perdendo qualquer prote\u00e7\u00e3o legal ou direito a seguros, o que deixa os seus propriet\u00e1rios sem base para processos judiciais em tribunais internacionais.<\/p>\n<p>Enquanto a R\u00fassia tenta retaliar atacando portos ucranianos como Chornomorsk, o c\u00e1lculo de Kiev permanece inalterado. Para uma na\u00e7\u00e3o que enfrenta uma amea\u00e7a existencial, o risco de retalia\u00e7\u00e3o \u00e9 um pre\u00e7o aceit\u00e1vel para paralisar a economia de guerra do invasor. O cen\u00e1rio \u00e9 de uma vulnerabilidade russa sem precedentes.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;A mensagem \u00e9 de que n\u00e3o h\u00e1 navios a salvo: a Ucr\u00e2nia est\u00e1 a conseguir acertar no colosso russo com uma criatividade e um alcance extraordin\u00e1rio&#8221;, afirma o especialista Rafael Martins.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Enquanto os governos ocidentais se perdem em burocracias e tetos de pre\u00e7os contorn\u00e1veis, Kiev decidiu levar a economia&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":261475,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[85],"tags":[609,836,611,27,607,608,333,832,604,2537,135,610,837,48460,476,114,115,26456,301,830,603,570,831,833,62,834,13,835,602,48461,52,32,33,839,3193,840,29],"class_list":["post-261474","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-entretenimento","tag-alerta","tag-analise","tag-ao-minuto","tag-breaking-news","tag-cnn","tag-cnn-portugal","tag-comentadores","tag-costa","tag-crime","tag-defesa","tag-desporto","tag-direto","tag-drones","tag-drones-navais","tag-economia","tag-entertainment","tag-entretenimento","tag-estrategia","tag-governo","tag-guerra","tag-justica","tag-live","tag-mais-vistas","tag-marcelo","tag-mundo","tag-negocios","tag-noticias","tag-opiniao","tag-pais","tag-petroleiros","tag-politica","tag-portugal","tag-pt","tag-russia","tag-sancoes","tag-ucrania","tag-ultimas"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116034377184420786","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/261474","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=261474"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/261474\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/261475"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=261474"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=261474"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=261474"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}