{"id":266979,"date":"2026-02-12T13:24:26","date_gmt":"2026-02-12T13:24:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/266979\/"},"modified":"2026-02-12T13:24:26","modified_gmt":"2026-02-12T13:24:26","slug":"a-gargalhada-de-agnes-shakespeare-12-02-2026-tati-bernardi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/266979\/","title":{"rendered":"A gargalhada de Agnes Shakespeare &#8211; 12\/02\/2026 &#8211; Tati Bernardi"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2026\/01\/hamnet-transforma-teorias-sobre-a-vida-de-shakespeare-em-arte.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;Hamnet&#8221;<\/a> \u00e9 um dos melhores filmes que j\u00e1 vi na vida. Antes de seguir, aviso que darei fort\u00edssimos spoilers durante a cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>Chorar com hist\u00f3rias de m\u00e3es que perdem filhos ou com percal\u00e7os infinitos que resultam em finais triunfantes \u00e9 uma constante na vida de cin\u00e9filos. Mas chorar porque, al\u00e9m de estarmos assolados por cenas t\u00e3o fortes e belas e trist\u00edssimas, estamos embasbacados com a grandiosidade de uma obra, \u00e9 uma experi\u00eancia rara e memor\u00e1vel.<\/p>\n<p>Eu chorei de alagar o peito, de passar vergonha, de ressuscitar rinites, de seguir chorando por um tempo at\u00e9 chegar em casa. Eu chorei porque, no dia em que tinha lido com mais detalhe sobre os <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/jeffrey-epstein\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">arquivos Epstein<\/a> (e senti um medo e um nojo que ultrapassam a minha capacidade e a minha experi\u00eancia), fui salva pela arte de uma forma excepcional e irrevog\u00e1vel. Este filme \u00e9 exatamente o oposto de tudo o que \u00e9 podre e horr\u00edvel e masculinista e est\u00e1 nos jornais e encalacrado em nossas vidas.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, \u00e9 um filme que tem a ousadia de retratar um fragmento important\u00edssimo da hist\u00f3ria do magn\u00edfico <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/william-shakespeare\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">William Shakespeare<\/a> e, numa sacada genial, a gente s\u00f3 escuta o seu nome no final do segundo ato, quando Agnes, curiosa sobre a nova pe\u00e7a do marido, vai atr\u00e1s dele em Londres.<\/p>\n<p>Will estava ali meio angustiad\u00e3o, escrevendo uns garranchos nuns peda\u00e7os de papel, dando soquinhos na mesa, quando sua mulher decide: vai l\u00e1 tentar ser artista, ent\u00e3o, e deixa que eu seguro as pontas aqui com as crian\u00e7as. Nessa hora, tenho certeza de que mulheres do mundo inteiro pensam: era para ser a hist\u00f3ria do Shakespeare, mas ser\u00e1 que a diretora Chlo\u00e9 Zhao est\u00e1 falando de mim?<\/p>\n<p>A trama \u00e9 toda sobre a dor excruciante da m\u00e3e que ficou em casa com as crian\u00e7as e perdeu uma delas para a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2025\/08\/o-que-saber-sobre-a-peste-negra-apos-um-novo-caso-na-california.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">peste bub\u00f4nica<\/a>. Da mulher que entende n\u00e3o s\u00f3 de florestas, bruxarias, rem\u00e9dios, partos, crian\u00e7as, rela\u00e7\u00f5es, psique humana, como ainda \u00e9 interpretada por Jessie Buckley \u2014e, neste momento, n\u00e3o consigo pensar em nenhuma outra atriz que alcance tamanha entrega e sofistica\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica.<\/p>\n<p>Somos seres estragados por pequenas telas e seus picos de dopamina. &#8220;Hamnet&#8221; explodiu o tempo l\u00f3gico, anestesiou meu corpo, silenciou toda a vida que eu levo quando n\u00e3o estou em um encontro absoluto com o cinema. Eu me senti ali t\u00e3o inteira quanto foram as atua\u00e7\u00f5es, a dire\u00e7\u00e3o, o roteiro, a fotografia, a trilha. &#8220;Hamnet&#8221; \u00e9 um filme escandalosamente maduro e comprometido, e assim fui convocada a me portar.<\/p>\n<p>    Colunas<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Receba no seu email uma sele\u00e7\u00e3o de colunas da Folha<\/p>\n<p>A arte que nasce de um luto insuport\u00e1vel, de um \u00faltimo recurso diante do precip\u00edcio e da decis\u00e3o de &#8220;n\u00e3o ser&#8221; bastaria como enredo, mas essa arte que apazigua a maior das dores e faz Agnes Shakespeare soltar uma gargalhada diante do palco (diante do filho prestes a morrer encarnado no palco) \u00e9 a resposta mais audaz e deslumbrante perante a finitude. E nessa cena, nessa gargalhada infantil da m\u00e3e enlutada e envelhecida, na montanha de m\u00e3os de espectadores sobre a m\u00e3o do ator, a gente conclui que a arte vai ainda mais longe: ela n\u00e3o s\u00f3 provoca, chama para a batalha, mas tamb\u00e9m vence a morte. Em uma das cenas mais tristes do filme, a m\u00e3e de Shakespeare diz para Agnes que ningu\u00e9m vence a morte. Ela estava errada.<\/p>\n<p>E o conforto, a beleza, o tamanho disso! Est\u00e1 tudo ali. Na gargalhada da m\u00e3e e da atriz. Que filme, amigos!<\/p>\n<p>E fica uma pergunta em nossos cora\u00e7\u00f5es: Shakespeare seria s\u00f3 mais um esquerdomacho se n\u00e3o tivesse se tornado Shakespeare? (Melhorem, rapazes do s\u00e9culo 21!)<\/p>\n<p class=\"c-context__content\">&#13;<br \/>\n    <strong>LINK PRESENTE:<\/strong> Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. 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