{"id":267989,"date":"2026-02-13T08:55:10","date_gmt":"2026-02-13T08:55:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/267989\/"},"modified":"2026-02-13T08:55:10","modified_gmt":"2026-02-13T08:55:10","slug":"sem-a-barragem-da-aguieira-o-mondego-ficava-doido-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/267989\/","title":{"rendered":"Sem a barragem da Aguieira, &#8220;o Mondego ficava doido&#8221; \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>Perto da barragem fica a aldeia de <strong>Travanca do Mondego.<\/strong> Com galos a cantar e ovelhas a pastar, a pacata aldeia tem uma pequena igreja, onde esta quinta-feira ao meio-dia Maria do Ros\u00e1rio Palma tratava de uma \u00e1rvore. Questionada sobre a barragem, a mulher relata que \u201ctem-na visto a descarregar\u201d. \u201cMas \u00e9 raro descarregar assim, \u00e9 quando h\u00e1 estas cheias. \u00c9 s\u00f3 em \u00faltimo caso \u00e9 que se descarrega.\u201d<\/p>\n<p>O mau tempo ajuda a explicar as descargas com chuva intensa e persistente. \u201cO tempo aqui tem estado horr\u00edvel. \u00c9 telhados pelo ar, \u00e9 uma inquieta\u00e7\u00e3o. Aqui cheias n\u00e3o \u00e9 um problema, porque estamos numa altitude elevada, o vento \u00e9 que me preocupa\u201d, salienta Maria do Ros\u00e1rio Palma, natural dali, de Travanca do Mondego. \u201cA chuva tem ca\u00eddo todos os dias. Ontem [quarta-feira] estava um tempo terr\u00edvel. E amanh\u00e3 [sexta-feira] j\u00e1 vem chuva outra vez. <strong>Desde o Ano Novo, tem sido para esquecer, chuva sem parar\u201d<\/strong>, lamenta.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o tem sido transversal a toda a regi\u00e3o Centro, fustigada pelas tempestades Kristin e Marta. A chuva persistente levou a que v\u00e1rias bacias hidrogr\u00e1ficas em todo o pa\u00eds ficassem sob press\u00e3o h\u00eddrica, em particular a do Mondego. Na localidade do Chamadouro, no concelho de Santa Comba D\u00e3o, Esmeralda (que preferiu n\u00e3o revelar o apelido) tratava do pequeno quintal esta quinta-feira juntamente com o marido. Ainda n\u00e3o foi ver a barragem de Aguieira praticamente cheia: <strong>\u201cAinda h\u00e1 o risco de que me caia uma \u00e1rvore em cima\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>Queixa-se tamb\u00e9m do mau tempo que se tem feito sentir na regi\u00e3o. \u201cTem sido muito \u00e1gua. J\u00e1 estou com a cabe\u00e7a cheia do que se v\u00ea na televis\u00e3o, com a barba dos outros a arder, e <strong>agora at\u00e9 eu fiquei com<\/strong> <strong>medo<\/strong>\u201c, especialmente do temporal que se sentiu na zona no s\u00e1bado \u00e0 noite, durante a passagem da tempestade Marta. \u201c\u00c9 muito complicado. At\u00e9 tive medo de ir ao quintal\u201d, desabafa.<\/p>\n<p>\u00c9 a uma dist\u00e2ncia de nove quil\u00f3metros da barragem da Aguieira. Em meados dos 70, construiu-se o bairro da <strong>Nova Foz do D\u00e3o<\/strong>, para onde foram morar v\u00e1rios habitantes da aldeia submersa, quando come\u00e7ou a constru\u00e7\u00e3o. Esta quinta-feira, na pequena localidade de Santa Comba D\u00e3o, reinava a tranquilidade apenas interrompida pelo barulho dos p\u00e1ssaros, c\u00e3es e ovelhas. Raramente o som de um carro.<\/p>\n<p>Na localidade, h\u00e1 vivendas grandes de variadas cores. V\u00e1rios c\u00e3es e gatos vagueiam pelas ruas. O Observador tentou encontrar na localidade quem morasse na Foz do D\u00e3o antes de ter ficado submersa; uma mulher at\u00e9 tinha vivido l\u00e1, mas n\u00e3o quis partilhar as mem\u00f3rias por estar doente. Maria Alice, de 93 anos, nunca morou na aldeia agora debaixo de \u00e1gua. Viveu em Angola at\u00e9 1975, de onde veio, como afirma, \u201ccom uma m\u00e3o atr\u00e1s e \u00e0 frente\u201d.<\/p>\n<p>Chegou apenas \u00e0 Nova Foz do D\u00e3o ap\u00f3s o 25 de Abril juntamente com o marido e os filhos, numa altura em que a barragem da Aguieira j\u00e1 estava a ser constru\u00edda. \u201cNessa \u00e9poca, j\u00e1 havia gente a viver aqui que tinha vindo da Foz do D\u00e3o, mas n\u00e3o eram todos. <strong>Uns s\u00f3 chegaram depois\u201d,<\/strong> recorda a mulher desde a varanda da sua moradia, com um grande terreno onde corria um gato branco.<\/p>\n<p>As lembran\u00e7as dos outrora habitantes da Foz do D\u00e3o t\u00eam-se vindo a desvanecer. Muitos daqueles que viveram na aldeia submersa ou adoeceram ou acabaram por morrer. Para Jaime Vitorino e os filhos, mesmo que nunca tenham vivido na localidade, \u00e9 importante manter viva a mem\u00f3ria de Foz do D\u00e3o.<\/p>\n<p>Com 47 anos, e gerente do restaurante A Lampreia, Pedro Vitorino explica ao Observador que muitas pessoas tiveram de ir viver para outros s\u00edtios, especialmente para Nova Foz do D\u00e3o. <strong>\u201cO meu av\u00f4 foi o \u00fanico que n\u00e3o quis e quis fazer uma casa aqui\u201d,<\/strong> sublinha, aludindo \u00e0 localidade de Chamadouro, ponto de passagem da Estrada Nacional 2. \u201cA Nova Foz do D\u00e3o \u00e9 um bairro que foi criado para as pessoas que sa\u00edram da Foz do D\u00e3o. H\u00e1 algumas pessoas, pelo que sei e que n\u00e3o s\u00e3o da minha gera\u00e7\u00e3o, que at\u00e9 j\u00e1 acabaram por sair de barco\u201d, narra.<\/p>\n<p><strong>\u201cH\u00e1 muitos poucos moradores ainda vivos\u201d<\/strong>, prossegue Pedro Vitorino, que ainda tem um \u201cav\u00f4 de 92 anos vivo\u201d que viveu na original Foz do D\u00e3o. Quando as \u00e1guas est\u00e3o mais baixas, principalmente durante os meses de ver\u00e3o, ainda se v\u00ea parte da ilha. \u201cHavia dois cemit\u00e9rios, um mais antigo e um mais novo. O mais novo \u00e9 o que aparece quando a barragem est\u00e1 mais baixa. Ali\u00e1s, esta semana j\u00e1 se viu duas ou tr\u00eas vezes, mas a barragem est\u00e1 com uma amplitude muito grande<strong>: tanto desce como sobe.\u201d<\/strong><\/p>\n<p>No escrit\u00f3rio do restaurante, h\u00e1 v\u00e1rias fotografias de como era a Foz do D\u00e3o. Pedro Vitorino at\u00e9 tem um drone e tirou fotografias da parte da ilha que fica a descoberto. \u201cEsta aldeia hoje, se estivesse habit\u00e1vel e se n\u00e3o existisse a barragem, quase de certeza absoluta que era o maior ponto tur\u00edstico da cidade de Santa Comba D\u00e3o\u201d, considera o homem de 47 anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Perto da barragem fica a aldeia de Travanca do Mondego. 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