{"id":270277,"date":"2026-02-15T01:37:15","date_gmt":"2026-02-15T01:37:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/270277\/"},"modified":"2026-02-15T01:37:15","modified_gmt":"2026-02-15T01:37:15","slug":"sem-norte-claro-potencia-cientifica-do-brasil-gera-pouco-impacto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/270277\/","title":{"rendered":"Sem norte claro, pot\u00eancia cient\u00edfica do Brasil gera pouco impacto"},"content":{"rendered":"<p>PHILLIPPE WATANABE<br \/>FOLHAPRESS<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 considerado uma m\u00e1quina de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento cient\u00edfico, mas falta \u00e0 pesquisa nacional mais impacto. Do que precisamos, ent\u00e3o, para integrar grupos de pa\u00edses com pesquisa mais destacada e desenvolvida? Talvez as respostas n\u00e3o surpreendam, por tratarem de problemas postos h\u00e1 tempos: atratividade da carreira cient\u00edfica, financiamento e um norte claro para a ci\u00eancia nacional.<\/p>\n<p>Os relat\u00f3rios mundiais sobre pesquisa cient\u00edfica deixam clara a pot\u00eancia do Brasil. Uma das formas mais usadas para verificar a contribui\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds \u00e9 a partir dos estudos que cientistas de institui\u00e7\u00f5es da na\u00e7\u00e3o publicam em revistas especializadas, a exemplo de Science e Nature.<\/p>\n<p>Nesses termos, estamos muito bem. Olhando para um espa\u00e7o de cinco anos recentes, de 2019 a 2023, foram 458.370 publica\u00e7\u00f5es -o per\u00edodo e o n\u00fameros s\u00e3o referentes ao relat\u00f3rio da Clarivate, apresentado em 2024 pela Capes (Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior). Desde 2014, s\u00e3o mais de 50 mil publica\u00e7\u00f5es anuais.<\/p>\n<p>O pa\u00eds encontra-se um tanto quanto estagnado em sua atual posi\u00e7\u00e3o no ranking mundial de publica\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>De toda forma, isso n\u00e3o necessariamente \u00e9 negativo. O n\u00famero de anos recentes nos p\u00f5e pr\u00f3ximos aos dados da Coreia do Sul, internacionalmente reconhecida por inova\u00e7\u00e3o e import\u00e2ncia dada \u00e0 pesquisa cient\u00edfica. Al\u00e9m disso, \u00e0 nossa frente, encontram-se na\u00e7\u00f5es com pesquisa de ponta, como Estados Unidos -hoje com desafios \u00e0 ci\u00eancia sob o governo Trump-, China, Reino Unido e Alemanha.<\/p>\n<p>Mas s\u00f3 a quantidade total de artigos publicados n\u00e3o necessariamente \u00e9 o segredo da coisa. Um ponto de destaque a ser levado em considera\u00e7\u00e3o \u00e9 a quantidade de cita\u00e7\u00f5es, ou seja, quanto uma pesquisa \u00e9 citada por outras, o que pode demonstrar relev\u00e2ncia, visibilidade e influ\u00eancia cient\u00edfica.<\/p>\n<p>E nesse ponto o Brasil n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 muito bem. Considerando o total de estudos altamente citados, o pa\u00eds se encontra abaixo da m\u00e9dia mundial. Menos de 6% (dados de 2023) das publica\u00e7\u00f5es brasileiras est\u00e3o entre os 10% de pesquisas mais citadas no mundo e essa porcentagem est\u00e1 em queda desde 2019, de acordo com o relat\u00f3rio mencionado acima. A m\u00e9dia mundial \u00e9 de 10%.<\/p>\n<p>Analisar estat\u00edsticas mais espec\u00edficas \u00e9 importante, contudo n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ir t\u00e3o longe. Talvez a melhor forma de compreender as quest\u00f5es que afligem e freiam a ci\u00eancia nacional seja a partir da figura central da ci\u00eancia, sem a qual nada funciona: o cientista.<\/p>\n<p>\u201cEnquanto a ci\u00eancia de fora \u00e9 em especial feita pelos p\u00f3s-docs [p\u00f3s-doutorandos], no Brasil n\u00e3o tem p\u00f3s-doc\u201d, afirma Helena Nader, presidente da ABC (Academia Brasileira de Ci\u00eancias).<\/p>\n<p>Isso sem contar, claro, a quest\u00e3o financeira associada a decidir tomar o rumo da ci\u00eancia. No Brasil, quem se dedica \u00e0 p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o acaba sendo dependente de bolsas de aux\u00edlio que, em geral, s\u00e3o consideravelmente baixas, n\u00e3o incluem benef\u00edcios, como aux\u00edlio-sa\u00fade, tampouco contam com contribui\u00e7\u00e3o para o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).<\/p>\n<p>Para se ter uma ideia, ap\u00f3s uma d\u00e9cada sem aumento, o governo Lula (PT) reajustou as bolsas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em 40%. Com isso, em 2023, mestrandos, doutorandos e p\u00f3s-doutorando passaram a receber, respectivamente, R$ 2.100, R$ 3.100 e R$ 5.200, sem outros benef\u00edcios trabalhistas. Nos EUA, por exemplo, um p\u00f3s-doutorando pode ter ganhos a partir de mais de US$ 5.000 mensais -com um poder de compra totalmente diferente dos R$ 5.000 do Brasil.<\/p>\n<p>Segundo Nader, em meio a tantos entraves, cresce o desinteresse pela carreira. \u201cN\u00e3o tem um apelo. N\u00e3o tem uma cenourinha para voc\u00ea p\u00f4r para o coelho correr. Tem a raposa correndo atr\u00e1s do coelho.\u201d<\/p>\n<p>E \u00e9 exatamente isso que os n\u00fameros apontam. Dados da Capes mostram que, se de 2015 a 2019 crescia o ingresso de brasileiros na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, a partir de ent\u00e3o, a tend\u00eancia passou a ser de queda.<\/p>\n<p>O mesmo relat\u00f3rio aponta que, considerando dados de 2022, cerca de+t\u00eam mestrado. Em pa\u00edses da OCDE (Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico) a m\u00e9dia \u00e9 de 14,1%. Para doutorado, a situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 discrepante: 0,3% no Brasil contra 1,3%, na m\u00e9dia, na OCDE -s\u00f3 o M\u00e9xico tem uma taxa pior que a brasileira.<\/p>\n<p>\u201cEstes resultados colocam o Brasil em posi\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel no cen\u00e1rio internacional\u201d, consta no relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>A tudo isso ainda se junta a inseguran\u00e7a de verbas que ronda a ci\u00eancia nacional, governo sim e outro tamb\u00e9m, com n\u00e3o raros congelamentos, cortes e falta de verba -apesar do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico), hoje principal financiador da ci\u00eancia nacional, com mais de R$ 17 bilh\u00f5es de or\u00e7amento, em 2026, segundo o Portal da Transpar\u00eancia do Governo Federal.<\/p>\n<p>Falta um norte para direcionar a ci\u00eancia do Brasil, dizem especialistas. \u201cEu julgo importante a necessidade, em termos de pol\u00edtica de Estado, de diretrizes direcionadoras para essa massa de pesquisadores que a gente tem nos ambientes de pesquisa do pa\u00eds\u201d, afirma Francilene Proc\u00f3pio Garcia, presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia).<\/p>\n<p>Garcia cita os 14 anos que o Brasil passou sem uma Confer\u00eancia Nacional de Ci\u00eancia e Tecnologia, encontro que auxilia nos planos para ci\u00eancia. Agora, ap\u00f3s o evento, em 2024, est\u00e1 sendo desenhada uma estrat\u00e9gia nacional de ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o e, provavelmente, um plano decenal, diz a presidente da SBPC.<\/p>\n<p>Relat\u00f3rio do Minist\u00e9rio de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores (MRE) de 2025 elenca diversos pontos, colhidos entre pa\u00edses com realidades econ\u00f4micas distintas, que podem levar uma na\u00e7\u00e3o a ser l\u00edder da inova\u00e7\u00e3o. Um deles \u00e9 \u201co estabelecimento de metas expl\u00edcitas de investimento em pesquisa e desenvolvimento, visando garantir financiamento previs\u00edvel e sustent\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>Na mesma linha, as especialistas apontam como caminho a maior destina\u00e7\u00e3o do PIB (Produto Interno Bruto) para ci\u00eancia. O Brasil investe cerca de 1,2% de seu PIB em ci\u00eancia, segundo dados at\u00e9 2023 -as varia\u00e7\u00f5es de ano para ano se mant\u00eam pr\u00f3ximas a esse valor. A Coreia do Sul, sua vizinha de ranking de publica\u00e7\u00f5es, 5,2%, em 2022, segundo o relat\u00f3rio do MRE e dados do Banco Mundial.<\/p>\n<p>Nader, por\u00e9m, diz que antes era muito mais cr\u00edtica sobre como o pa\u00eds estava aqu\u00e9m. Hoje acha que, \u201cfrente ao que temos, estamos at\u00e9 que muito bem.\u201d<\/p>\n<p>E com os desenvolvimentos tecnol\u00f3gicos cada vez mais r\u00e1pidos, ainda h\u00e1 tempo para entrar de vez nessa corrida?<\/p>\n<p>\u201cD\u00e1 para entrar, mas n\u00e3o em todas. Algumas n\u00f3s vamos ter que fazer parcerias. Outras n\u00f3s podemos ainda ser lideran\u00e7a\u201d, afirma Nader.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"PHILLIPPE WATANABEFOLHAPRESS O Brasil \u00e9 considerado uma m\u00e1quina de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento cient\u00edfico, mas falta \u00e0 pesquisa nacional&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":270278,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[84],"tags":[2285,49744,726,109,107,108,49745,49746,49747,8622,16214,1348,3536,32,49748,33,105,103,104,106,110],"class_list":["post-270277","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-ciencia-e-tecnologia","tag-abc","tag-academia-brasileira-de-ciencias","tag-brasil","tag-ciencia","tag-ciencia-e-tecnologia","tag-cienciaetecnologia","tag-clarivate","tag-conhecimento-cientifico","tag-fndct","tag-governo-lula","tag-ocde","tag-pesquisa","tag-pesquisa-cientifica","tag-portugal","tag-potencia-cientifica","tag-pt","tag-science","tag-science-and-technology","tag-scienceandtechnology","tag-technology","tag-tecnologia"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116072090458177240","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/270277","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=270277"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/270277\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/270278"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=270277"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=270277"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=270277"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}