{"id":275453,"date":"2026-02-19T02:36:07","date_gmt":"2026-02-19T02:36:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/275453\/"},"modified":"2026-02-19T02:36:07","modified_gmt":"2026-02-19T02:36:07","slug":"sonhos-de-trem-critica-por-pablo-villaca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/275453\/","title":{"rendered":"Sonhos de Trem | Cr\u00edtica por Pablo Villa\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><strong>Dirigido por Clint Bentley. Roteiro de Clint Bentley e Greg Kwedar. Com: Joel Edgerton, Felicity Jones, Nathaniel Arcand, Paul Schneider, Clifton Collins Jr., Alfred Hsing, John Patrick Lowrie, John Diehl, William H. Macy, Kerry Condon e a voz de Will Patton.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o me lembro de seu nome e tenho apenas uma vaga mem\u00f3ria acerca de sua apar\u00eancia; afinal, mais de trinta anos se passaram desde nossa \u00fanica e breve intera\u00e7\u00e3o, quando, depois de comprar o acervo de filmes em VHS de uma locadora que encerrava suas atividades, tentava decidir como transport\u00e1-los para o carro, j\u00e1 que as centenas de fitas se encontravam divididas entre bolsas, caixas e sacos pl\u00e1sticos. Ao me ouvir tentando calcular o peso do material, ele come\u00e7ou a juntar v\u00e1rias das sacolas e, erguendo-as, disse: \u201cIh, rapaz, a gente mede o peso das coisas n\u00e3o \u00e9 no olhar; \u00e9 no jeito que a gente consegue acomodar tudo nos ombros\u201d. No momento, reagi \u00e0 fala com uma breve risada, j\u00e1 que o sorriso que a acompanhou sugeria uma piada, mas horas depois ela ainda permanecia comigo e ainda hoje penso em seu significado com certa frequ\u00eancia. Uma intera\u00e7\u00e3o de poucos minutos acabou se tornando uma das mem\u00f3rias mais duradouras nestes meus 51 anos \u2013 um impacto que, tenho certeza, ele jamais imaginou que provocaria naquele instante.<\/p>\n<p>Sonhos de Trem me fez pensar no potencial contido em cada um dos in\u00fameros encontros cotidianos e em como o ac\u00famulo do tempo traz consigo a constru\u00e7\u00e3o de um acervo formado pela sensibilidade de todos com quem esbarramos ao longo da vida.<\/p>\n<p>Dirigido por Clint Bentley a partir de um roteiro escrito por este ao lado de Greg Kwedar (e que por sua vez \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o do livro de Denis Johnson), o filme traz a hist\u00f3ria de um homem comum que, nos 80 anos de sua exist\u00eancia prosaica, apaixonou-se, construiu uma fam\u00edlia cuja falta sentia sempre que obrigado a viajar em busca de trabalho, testemunhou horrores, experimentou alegrias e ocasionalmente questionou se havia alguma grande raz\u00e3o por tr\u00e1s de tudo. Sujeito de poucas palavras, Robert Grainier (Edgerton) reconhece a felicidade simples de despertar sentindo o carinho feito em suas costas pelo toque gentil da esposa (Jones) e de ver a filha pequena notando pela primeira vez as chamas de uma vela, mas tamb\u00e9m se v\u00ea confuso diante da intoler\u00e2ncia alheia e da arbitrariedade com que, de um momento para o outro, tudo que conhecemos pode se transformar de modo brutal.<\/p>\n<p>Saltando entre diversos momentos da trajet\u00f3ria de Robert, o longa soa como uma jornada por passagens recordadas \u00e0 dist\u00e2ncia, com a subjetividade que frequentemente (re)colore nossas lembran\u00e7as, pintando incidentes felizes com tons quentes e trazendo cinza para aqueles vistos com dor e lamento. Neste sentido, a decis\u00e3o de rodar o longa em uma raz\u00e3o de aspecto reduzida \u00e9 perfeita ao instintivamente remeter o espectador \u2013 ao menos os mais velhos \u2013 \u00e0s imagens congeladas em papel fotogr\u00e1fico e revisitadas ocasionalmente em \u00e1lbuns que as expunham protegidas por um pl\u00e1stico cada vez mais empoeirado. Al\u00e9m disso, a magistral fotografia do brasileiro Adolpho Veloso explora a altura resultante dos quadros para ressaltar ao mesmo tempo a magnitude dos espa\u00e7os que cercam aquelas pessoas, com suas \u00e1rvores gigantescas (e tristemente vulner\u00e1veis \u00e0 a\u00e7\u00e3o humana), rios e, claro, o c\u00e9u \u2013 e n\u00e3o h\u00e1 \u201cregra dos ter\u00e7os\u201d, com suas conven\u00e7\u00f5es sobre a altura dos olhos do indiv\u00edduo no quadro, que se mostre v\u00e1lida diante das escolhas de Veloso, que encontra eleg\u00e2ncia e significado ao frequentemente enfocar os personagens na parte inferior de suas composi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E mais: ao investir na fluidez dos movimentos de c\u00e2mera para acompanhar o cotidiano de Robert, Gladys e a filha, o filme confere uma caracter\u00edstica quase on\u00edrica a estas sequ\u00eancias, fazendo jus ao t\u00edtulo da obra e \u00e0 felicidade daquela pequena fam\u00edlia \u2013 e mesmo que soe como um clich\u00ea de cr\u00edtico, n\u00e3o posso deixar de apontar como remetem \u00e0 est\u00e9tica <a target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\" class=\"text-primary underline cursor-pointer\" href=\"https:\/\/cinemaemcena.com.br\/pessoas\/terrence-malick\"><strong>malickiana<\/strong><\/a> e \u00e0 sua habilidade de construir uma atmosfera reflexiva a partir da natureza. J\u00e1 em outros momentos, Veloso inspira melancolia atrav\u00e9s de recursos mais r\u00edgidos, como os lentos zooms out que exp\u00f5em a figura diminuta do especialista em explos\u00f5es vivido lindamente por William H. Macy e que se tornam poesia ao surgirem justapostos em elipses criadas pela montagem de Parker Laramie. Ali\u00e1s, Laramie tamb\u00e9m faz um trabalho soberbo ao evocar o car\u00e1ter imprevis\u00edvel de nossas mem\u00f3rias, que podem ser disparadas a qualquer momento por imagens t\u00e3o d\u00edspares quanto uma cicatriz vertical no peito, um gesto casual ou uma tempestade que subitamente remete ao regador nas m\u00e3os de uma crian\u00e7a. Neste aspecto, Sonhos de Trem compreende como o passado jamais se encontra totalmente distante, moldando cada experi\u00eancia presente ainda que n\u00e3o tenhamos total consci\u00eancia de sua influ\u00eancia.<\/p>\n<p>Emprestando seu olhar triste a um personagem nem sempre capaz de processar e compreender as pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es, Joel Edgerton \u00e9 t\u00e3o h\u00e1bil ao projetar a ang\u00fastia diante da brutalidade inesperada de colegas quanto a alegria de voltar para casa e rever a fam\u00edlia depois de meses de dist\u00e2ncia (e o desenho de som merece cr\u00e9ditos pela delicadeza com que sugere o bater de cora\u00e7\u00f5es do casal em seu reencontro). Limitado pelas circunst\u00e2ncias de uma vida que j\u00e1 teve in\u00edcio em dificuldade, Robert escapa da raiva que cega muitos de seus companheiros, que preferem enxergar no Outro a responsabilidade por suas condi\u00e7\u00f5es, ao exercer a empatia b\u00e1sica de reconhecer como gentileza diz mais do que cor de pele e como dignidade e honra se definem por a\u00e7\u00f5es, n\u00e3o pelo pa\u00eds de origem ou pela religi\u00e3o professada (e, n\u00e3o raro, aqueles que mais insistem em se definir por sua F\u00e9 s\u00e3o tamb\u00e9m os que menos fazem jus \u00e0 generosidade que esta supostamente defenderia).<\/p>\n<p>Mas Robert conta com outra virtude importante: a capacidade de questionar a si mesmo. J\u00e1 mais velho, ele inicialmente se espanta com os modos bruscos dos colegas de trabalho mais jovens, tendendo a atribuir o comportamento a uma quest\u00e3o geracional \u2013 at\u00e9 se dar conta de que talvez se trate n\u00e3o de uma caracter\u00edstica de gera\u00e7\u00e3o, mas de idade: \u201cN\u00e3o sei se est\u00e1 diferente ou se sempre foi assim; talvez eu fosse mais bruto como esses garotos e s\u00f3 n\u00e3o me lembre\u201d. (E se os rapazes parecem mais agressivos, \u00e9 importante lembrar como a narrativa est\u00e1 presa \u00e0 percep\u00e7\u00e3o do protagonista, dando corpo \u00e0s suas impress\u00f5es.) Com isso, Sonhos de Trem nos oferece um tipo precioso de personagem: aquele cujo amadurecimento testemunhamos, algu\u00e9m que muda e aprende \u00e0 medida que envelhece.<\/p>\n<p>Ou que ao menos aprende nas \u00e1reas em que isto \u00e9 poss\u00edvel. Pois uma das indaga\u00e7\u00f5es recorrentes de Robert \u2013 e que certamente ecoam as nossas \u2013 jamais poder\u00e1 obter uma resposta definitiva e satisfat\u00f3ria: para qu\u00ea? por qu\u00ea? O que nossas vidas significam \u2013 se \u00e9 que significam algo. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que, em tr\u00eas ou quatro momentos do longa, o sujeito pergunta \u201co quanto voc\u00ea sabe?\u201d para a filha beb\u00ea, para um cachorro e para o mundo, esperando uma explica\u00e7\u00e3o que sabe que jamais vir\u00e1. O \u00fanico fato incontest\u00e1vel \u00e9 que tudo passa r\u00e1pido demais; em um milissegundo, acabamos antes que fosse poss\u00edvel deixarmos alguma marca de que existimos, produzindo um legado que s\u00f3 ir\u00e1 durar at\u00e9 a morte do \u00faltimo descendente que ainda se lembrava de nossos nomes \u2013 um neto ou, com muita sorte, um bisneto. Frequentemente, nem isso; somos esquecidos antes de virarmos p\u00f3.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o significa que n\u00e3o tenhamos valor, apenas que somos uma parte min\u00fascula de algo muito maior em escala. Quando Robert se d\u00e1 a oportunidade de um breve passeio de avi\u00e3o ou contempla o lugar onde sempre viveu a partir de uma torre de observa\u00e7\u00e3o, tudo se apresenta pequeno como \u00e9 na realidade \u2013 e at\u00e9 as barracas que abrigam seu grupo de lenhadores testemunharam mais do que estes jamais conseguir\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 por acaso que Veloso lentamente fecha o quadro no rosto da personagem de Kerry Condon enquanto esta aponta como toda aquela regi\u00e3o j\u00e1 esteve sob mil metros de gelo, j\u00e1 que tematicamente isto \u00e9 fundamental para ressaltar a efemeridade humana diante das transforma\u00e7\u00f5es do planeta \u2013 algo que pouco depois ser\u00e1 frisado pela dolorosa observa\u00e7\u00e3o de como j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel notar vest\u00edgios do inc\u00eandio florestal que tanto custou a Robert.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 apenas apropriado que o pr\u00f3prio filme se inicie e se encerre com os sons da natureza &#8211; p\u00e1ssaros, vento, o ranger dos troncos das \u00e1rvores -, j\u00e1 que as oito d\u00e9cadas do protagonista nada representam de um ponto de vista macrosc\u00f3pico. Por outro lado, a beleza de Sonhos de Trem reside em seu reconhecimento de que, microsc\u00f3picas como s\u00e3o, nossas curtas trajet\u00f3rias s\u00e3o repletas de dores, sonhos e alegria e que talvez esta seja uma justificativa em si mesma.<\/p>\n<p>Talvez ouvir a m\u00fasica de nosso nome na voz de quem amamos ou sofrer por sua aus\u00eancia n\u00e3o seja algo que deixe marcas no mundo, mas isto n\u00e3o significa que haja uma resposta mais importante para que tenhamos existido por umas poucas d\u00e9cadas. No fim das contas, por menores que tenhamos sido, o peso que acomodamos nas costas representa sua pr\u00f3pria e valiosa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>18 de Fevereiro de 2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Dirigido por Clint Bentley. Roteiro de Clint Bentley e Greg Kwedar. 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