{"id":2766,"date":"2025-07-26T17:31:10","date_gmt":"2025-07-26T17:31:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/2766\/"},"modified":"2025-07-26T17:31:10","modified_gmt":"2025-07-26T17:31:10","slug":"avos-contra-o-esquecimento-megafone","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/2766\/","title":{"rendered":"Av\u00f3s, contra o esquecimento | Megafone"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 dores que n\u00e3o pertencem ao presente, mas que nele insistem como se acabadas de nascer. N\u00e3o s\u00e3o feridas abertas pela faca do agora, mas cicatrizes que o tempo n\u00e3o conseguiu cerrar. V\u00eam de tr\u00e1s, de muito atr\u00e1s, de um lugar onde a mem\u00f3ria ainda respira, mesmo quando todos os outros j\u00e1 n\u00e3o respiram. No dia em que se celebram os Av\u00f3s, n\u00e3o se celebra apenas a velhice ou a ternura. Celebra-se, ou devia celebrar-se, a espessura do tempo. Porque \u00e9 nos Av\u00f3s que o tempo ganha rosto: neles habitam os s\u00e9culos, as casas demolidas, os gestos que j\u00e1 n\u00e3o se usam, as palavras que ca\u00edram em desuso. S\u00e3o arquivos vivos de um mundo que n\u00e3o volta. E o que nos fere, sem sabermos, \u00e9 perceber que esse mundo se extingue dentro deles e que tamb\u00e9m n\u00f3s seremos, um dia, essa \u00faltima dobra de uma p\u00e1gina esquecida.<\/p>\n<p>A consci\u00eancia humana \u00e9 curta. Duas gera\u00e7\u00f5es, talvez tr\u00eas, e depois come\u00e7a a n\u00e9voa. Um nome de batismo num \u00e1lbum, uma fotografia sem legenda, uma hist\u00f3ria que j\u00e1 ningu\u00e9m conta. O que fica dos nossos Av\u00f3s, dos Av\u00f3s dos nossos Av\u00f3s, \u00e9 um rumor: n\u00e3o mem\u00f3ria viva, mas eco distante. E \u00e9 esse destino, o de todos n\u00f3s, que nos assusta. Saber que seremos lembrados, porventura, como uma data de nascimento, uma receita de bolo, uma cadeira vazia na sala. No entanto, h\u00e1 uma dignidade profunda na finitude. Os Av\u00f3s ensinam-nos, mesmo sem palavras, que viver \u00e9 aceitar desaparecer. Mas tamb\u00e9m que o desaparecimento n\u00e3o \u00e9 total quando h\u00e1 continuidade. Quando h\u00e1 cuidado. Quando h\u00e1 transmiss\u00e3o. Ser neto \u00e9, antes de tudo, estar atento. Ouvir antes que o sil\u00eancio tome conta. Aprender antes que o livro se feche. Guardar o que pode ser guardado, n\u00e3o para idolatrar o passado, mas para que o futuro n\u00e3o nas\u00e7a \u00f3rf\u00e3o.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<blockquote><p>&#13;<\/p>\n<p>\u201cQue celebremos cada dia dos Av\u00f3s com gravidade. N\u00e3o com flores ou postais, mas com tempo, aten\u00e7\u00e3o, presen\u00e7a\u201d<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p><\/blockquote>\n<p>&#13;<br \/>\n&#13;<br \/>\n            &#13;<\/p>\n<p>O Dia dos Av\u00f3s n\u00e3o deve ser uma data de lembran\u00e7a superficial. Deve ser um instante de consci\u00eancia hist\u00f3rica e afetiva. Um gesto de resist\u00eancia contra o esquecimento. Porque o que morre sem ser escutado morre duas vezes: no corpo e no sentido. E o que se perde sem ser compreendido, n\u00e3o volta. Os Av\u00f3s n\u00e3o s\u00e3o apenas os nossos. S\u00e3o a nossa origem. E n\u00e3o h\u00e1 identidade poss\u00edvel sem esse fundamento. Aquele que n\u00e3o sabe de onde vem, tamb\u00e9m n\u00e3o sabe para onde vai. E aquele que n\u00e3o reconhece nos mais velhos uma luz, ainda que tr\u00e9mula, vive \u00e0s escuras, mesmo ao meio-dia.<\/p>\n<p>Que celebremos cada dia dos Av\u00f3s com gravidade. N\u00e3o com flores ou postais, mas com tempo, aten\u00e7\u00e3o, presen\u00e7a. Porque talvez o amor seja isso: resistir ao desaparecimento oferecendo escuta. E talvez a eternidade, no seu modo mais humano, consista apenas em ser recordado com verdade. Pelo menos assim \u00e9 a eternidade humanamente conceb\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"H\u00e1 dores que n\u00e3o pertencem ao presente, mas que nele insistem como se acabadas de nascer. 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