{"id":281232,"date":"2026-02-23T20:23:12","date_gmt":"2026-02-23T20:23:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/281232\/"},"modified":"2026-02-23T20:23:12","modified_gmt":"2026-02-23T20:23:12","slug":"plano-era-repetir-o-afeganistao-na-ucrania-mas-nao-funcionou-e-agora-a-russia-ja-esta-a-pensar-na-futura-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/281232\/","title":{"rendered":"Plano era &#8220;repetir&#8221; o Afeganist\u00e3o na Ucr\u00e2nia, mas n\u00e3o funcionou. E agora a R\u00fassia j\u00e1 est\u00e1 a pensar &#8220;na futura guerra&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>\t                ENTREVISTA || QUATRO ANOS DE INVAS\u00c3O || Depois da invas\u00e3o em larga escala da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia, o paralelismo que salta \u00e0 vista \u00e9 com a Guerra Civil de Espanha, defende o historiador Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Telo, numa conversa que vai dos planos furados da R\u00fassia em 2022, \u00e0 guerra de atrito agora em curso na Ucr\u00e2nia, passando pelas \u201ctrai\u00e7\u00f5es\u201d sofridas por uma \u201cna\u00e7\u00e3o martirizada\u201d durante mais de um s\u00e9culo que &#8220;est\u00e1 de p\u00e9 atr\u00e1s&#8221; em rela\u00e7\u00e3o ao Ocidente desde o final da I Guerra Mundial. \u201cN\u00e3o tenho d\u00favidas de que a R\u00fassia, na forma como conduz as negocia\u00e7\u00f5es, est\u00e1 j\u00e1 a pensar na futura guerra \u2013 n\u00e3o na atual, mas no seu posicionamento na futura guerra\u201d<\/p>\n<p><strong>T\u00eam sido feitas v\u00e1rias compara\u00e7\u00f5es entre a Guerra da Ucr\u00e2nia e outros conflitos e guerras do passado recente. H\u00e1 quem considere que o grande paralelo \u00e9 com a II Guerra Mundial porque, n\u00e3o sendo mundial, op\u00f5e grandes blocos de na\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m pelo seu impacto demogr\u00e1fico. Que paralelismo salta \u00e0 vista?<\/strong><\/p>\n<p>Pod\u00edamos tra\u00e7ar v\u00e1rios paralelos, mas o primeiro que me ocorre \u00e9 com a Guerra Civil de Espanha. Como \u00e9 evidente, esta guerra na Ucr\u00e2nia n\u00e3o \u00e9 civil, embora haja teoricamente alguns ucranianos que apoiam o lado russo \u2013 muito poucos, mas que devem ter aumentado, entretanto, nas zonas conquistadas, porque a R\u00fassia j\u00e1 ter\u00e1 tratado de expor a popula\u00e7\u00e3o \u00e0 sua vers\u00e3o. Mas sobretudo em termos internacionais, esse \u00e9 o paralelo mais evidente.<\/p>\n<p><strong>Porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>A Guerra Civil espanhola \u00e9 uma guerra que antecede uma guerra maior, que funciona como antec\u00e2mara de uma guerra maior. Tudo o que de novo houve na II Guerra Mundial foi experimentado em Espanha pelos dois lados, pela R\u00fassia ao lado da rep\u00fablica espanhola, e pela Espanha do lado franquista, ou nacionalista como se dizia na altura. A Espanha serviu como campo de ensaio em larga escala.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m podem ser comparadas pela sua dura\u00e7\u00e3o, embora esta guerra tenha j\u00e1 excedido a espanhola, em termos de baixas civis, que em Espanha foram arrasadoras, houve milh\u00f5es de mortos, e tamb\u00e9m em termos de refugiados \u2013 ainda que numa escala menor, na altura tamb\u00e9m houve muitos refugiados, que num primeiro momento atravessaram a fronteira portuguesa e depois a fronteira com Fran\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Quando diz que a guerra na Ucr\u00e2nia e a Guerra Civil espanhola s\u00e3o compar\u00e1veis tamb\u00e9m em termos internacionais, refere-se aos apoios de um lado e de outro?<\/strong><\/p>\n<p>Essa guerra, como esta, serviu para esclarecer alian\u00e7as na Europa e preparar a guerra que a\u00ed vinha. Os entendimentos na origem da II Guerra foram experimentados em Espanha, nomeadamente com a forma\u00e7\u00e3o de eixos, nomeadamente da Alemanha nazi e da It\u00e1lia fascista e, sobretudo, com a mudan\u00e7a que houve nas duas principais democracias da Europa \u00e0 data, Fran\u00e7a e Reino Unido.<\/p>\n<p>Desde o primeiro momento da interven\u00e7\u00e3o em Espanha, houve uma grande preocupa\u00e7\u00e3o de Fran\u00e7a e de Inglaterra em n\u00e3o provocar a Alemanha. Foi uma interven\u00e7\u00e3o a meia velocidade, enviavam alguma coisa, alguma ajuda, mas n\u00e3o o suficiente para a rep\u00fablica espanhola vencer. Quem foi o grande apoiante da rep\u00fablica foi a R\u00fassia, n\u00e3o foi Fran\u00e7a, inclusive Fran\u00e7a cola-se a Inglaterra, que forma uma Comiss\u00e3o de N\u00e3o Interven\u00e7\u00e3o, e o nome j\u00e1 diz tudo. A interven\u00e7\u00e3o da Alemanha e tamb\u00e9m de It\u00e1lia, ainda que esta fosse muito fraca, foi ampla, ao passo que Fran\u00e7a e It\u00e1lia tiveram uma interven\u00e7\u00e3o muito pequena logo desde 1937 a favor da rep\u00fablica espanhola.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/69983525d34e28842c80d921.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   Tributo \u00e0 Ucr\u00e2nia num memorial de homenagem aos mortos da Guerra Civil de Espanha em Guernica, no 85.\u00ba anivers\u00e1rio do ataque da Alemanha \u00e0 cidade basca em 1937. foto\u00a0Alvaro Barrientos\/AP <\/p>\n<p><strong>E de que forma \u00e9 que podemos comparar isso ao que est\u00e1 a acontecer na Ucr\u00e2nia?<\/strong><\/p>\n<p>A guerra na Ucr\u00e2nia faz lembrar, desde o primeiro momento, uma guerra internacional porque op\u00f5e dois lados, o lado russo com o apoio da Coreia do Norte e do Ir\u00e3o, e o lado da Ucr\u00e2nia com o apoio de um amplo leque de pa\u00edses, inclusive a NATO como um todo num primeiro momento. E no caso do apoio \u00e0 Ucr\u00e2nia, houve sempre uma preocupa\u00e7\u00e3o muito forte desde o primeiro momento \u2013 isto falando do presidente Biden e n\u00e3o de Trump \u2013 de n\u00e3o permitir uma derrota total da Ucr\u00e2nia, mas tamb\u00e9m n\u00e3o permitir uma vit\u00f3ria, sempre com receio da resposta russa, tal como houve receio da resposta alem\u00e3 no caso da Guerra Civil espanhola.<\/p>\n<p>Num primeiro momento, os Estados Unidos da Am\u00e9rica \u2013 de Biden, n\u00e3o de Trump, volto a frisar \u2013 tiveram a preocupa\u00e7\u00e3o de que esta guerra servisse para enfraquecer a R\u00fassia, n\u00e3o tanto para salvar a Ucr\u00e2nia. O prolongamento do conflito at\u00e9 era visto como algo favor\u00e1vel, da\u00ed a preocupa\u00e7\u00e3o ter sido dar tudo a conta gotas e n\u00e3o dar logo o que era mais avan\u00e7ado. Da\u00ed ter levado um ano e meio at\u00e9 os EUA aceitarem <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/guerra\/ucrania\/portugal-sondado-para-enviar-cacas-f-16-para-a-ucrania\/20230517\/646503bad34ea91b0aac9bff\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">enviar os F-16<\/a> para a Ucr\u00e2nia, da\u00ed ter levado tamb\u00e9m um ano e meio at\u00e9 aceitarem que <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/videos\/tres-leopard-2-de-portugal-18-da-alemanha-e-14-challenger-2-do-reino-unido-os-carros-de-combate-que-acabaram-de-chegar-a-ucrania\/64234bda0cf2dce741b1fc8e\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">os Leopard 2<\/a> fossem para a Ucr\u00e2nia \u2013 os Leopard 2 s\u00e3o alem\u00e3es, mas s\u00f3 foram dados quando houve luz verde dos EUA de Biden. E depois, sobretudo, quando houve a <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/guerra\/ucrania\/quanto-e-que-ja-avancou-a-contraofensiva-ucraniana-temos-de-estar-preparados-para-uma-guerra-mais-prolongada\/20230816\/64dbd70fd34e3ae5b8c4af15\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">ofensiva do ver\u00e3o de 2023<\/a>, que n\u00e3o correu muito bem \u00e0 Ucr\u00e2nia, houve uma preocupa\u00e7\u00e3o clara do Ocidente de recuar ainda mais, de dar ajuda a conta gotas e muito bem medida.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 que a postura dos EUA mudou com Donald Trump?<\/strong><\/p>\n<p>Com Trump, a preocupa\u00e7\u00e3o central \u00e9 acabar com a guerra \u2013 e, embora n\u00e3o seja dito oficialmente pelos EUA, est\u00e1 escrito na sua Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional que o objetivo \u00e9 restabelecer uma nova base de rela\u00e7\u00f5es com a R\u00fassia e arrastar a NATO europeia para esse novo entendimento. Isso \u00e9 algo que interessa aos EUA e que est\u00e1 no seu plano de m\u00e9dio prazo.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 quase uma trai\u00e7\u00e3o \u00e0 Ucr\u00e2nia e aos aliados\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Da perspetiva ucraniana, desde que \u00e9 independente, portanto desde 1991, a Ucr\u00e2nia foi tra\u00edda v\u00e1rias vezes pelo Ocidente, inclusive em 1994, com a ced\u00eancia do seu arsenal nuclear. O melhor arsenal nuclear da URSS estava na Ucr\u00e2nia, incluindo a maior parte dos [bombardeiros estrat\u00e9gicos supers\u00f3nicos] <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/ucrania\/russia\/russia-podera-levar-anos-a-substituir-os-bombardeiros-destruidos-pela-ucrania-na-operacao-teia-de-aranha\/20250606\/68432be5d34e3f0bae9f1bf4\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">TU-160<\/a> usados pela R\u00fassia contra a pr\u00f3pria Ucr\u00e2nia nesta guerra.<\/p>\n<p>A Ucr\u00e2nia abdicou desse arsenal e entregou-o \u00e0 R\u00fassia em troca de garantias fort\u00edssimas encabe\u00e7adas pela pr\u00f3pria R\u00fassia, de que iria respeitar e garantir as fronteiras da Ucr\u00e2nia e por a\u00ed fora, e os EUA e os europeus todos assinaram tamb\u00e9m esse documento sem qualquer problema. E de que valeu? De nada.<\/p>\n<p>Depois, foi novamente tra\u00edda em 2014, quando os ucranianos tentaram montar uma resposta mais firme contra a anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia e a opera\u00e7\u00e3o no Donbass, mais uma vez em troca de garantias de seguran\u00e7a dos EUA e dos europeus como um todo, de que as suas fronteiras eram inviol\u00e1veis e seriam defendidas at\u00e9 \u00e0 \u00faltima gota de sangue \u2013 e viu-se o que aconteceu, com a invas\u00e3o de 2022.<\/p>\n<p>Os ucranianos t\u00eam um historial muito claro e muito forte de trai\u00e7\u00f5es e o receio \u00f3bvio \u00e9 o de que a hist\u00f3ria se repita. As garantias anteriores eram as mais firmes de sempre no papel, oralmente, e viu-se no que deu \u2013 h\u00e1 um passado muito claro.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/69983882d34e6a48f446c3f9.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   O presidente da Ucr\u00e2nia, Volodymyr Zelensky, e a mulher prestam homenagem \u00e0s v\u00edtimas do holodomor, ou a Grande Fome, quando a coletiviza\u00e7\u00e3o imposta pela R\u00fassia matou milh\u00f5es de ucranianos. foto assessoria de imprensa da presid\u00eancia da Ucr\u00e2nia via AP\u200b\u200b\u200b\u200b\u200b <\/p>\n<p><strong>Como olha ent\u00e3o para o desenrolar desta guerra ao final de quatro anos?<\/strong><\/p>\n<p>Bom, esta n\u00e3o \u00e9 a primeira guerra entre a Ucr\u00e2nia e a R\u00fassia, no s\u00e9culo XX j\u00e1 houve outras duas, uma logo em 1919-1920, quando o Ex\u00e9rcito Vermelho ocupou a Ucr\u00e2nia e depois invadiu a Pol\u00f3nia. Houve ali\u00e1s a Batalha do Rio V\u00edstula, em que a R\u00fassia sofreu uma derrota tremenda, levou uma tareia monstruosa dos polacos, o que for\u00e7ou o Ex\u00e9rcito Vermelho a recuar, e a estabelecer as fronteiras da Pol\u00f3nia a Oriente com a URSS [sob o Tratado de Riga de 1921], que agora j\u00e1 n\u00e3o existem \u2013 mas n\u00e3o as fronteiras da Ucr\u00e2nia, que n\u00e3o participou nessa batalha, porque j\u00e1 estava ocupada pelos russos, e como tal perdeu a\u00ed essa oportunidade.<\/p>\n<p>Depois olhe-se para a coletiviza\u00e7\u00e3o imposta pela R\u00fassia no final dos anos 20, in\u00edcio dos anos 30, em que os mortos ucranianos na resist\u00eancia foram para cima de dois milh\u00f5es, bastante mais do que os desta guerra. E a\u00ed houve mais uma trai\u00e7\u00e3o, inesperada, quando houve a invas\u00e3o alem\u00e3 da URSS.<\/p>\n<p><strong>Que trai\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 que, num primeiro momento, muitos ucranianos que se ofereceram para lutar ao lado da Alemanha contra a URSS, simplesmente verificaram, ao fim de muito pouco tempo, semanas ou meses, que a Alemanha era ainda pior do que a R\u00fassia \u2013 n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o dava nenhuma garantia, nem sequer oralmente, como afastava totalmente a hip\u00f3tese da independ\u00eancia e tratava os ucranianos com m\u00e3o de ferro. A\u00ed \u00e9 que os ucranianos participaram fortemente no combate ao invasor alem\u00e3o. Ali\u00e1s, o principal grupo do Ex\u00e9rcito Vermelho sovi\u00e9tico, ativo na liberta\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia e na ofensiva contra a Alemanha nazi, chamava-se Primeira Frente Ucraniana \u2013 era da URSS, mas eram fundamentalmente ucranianos.<\/p>\n<p>Ucr\u00e2nia e R\u00fassia t\u00eam um longo historial de guerras no s\u00e9culo XX, algumas at\u00e9 esquisitas, como esta de 1941, em que grande parte dos ucranianos teve, num primeiro momento, a tend\u00eancia de apoiar a Alemanha por se lembrarem do que acontecera \u00e0s m\u00e3os dos russos no passado, com a coletiviza\u00e7\u00e3o e a\u00ed por diante. Depois h\u00e1 este historial de garantias do Ocidente que acabam por dar em nada, o que faz com que a Ucr\u00e2nia esteja de p\u00e9 atr\u00e1s desde o final da I Guerra Mundial. \u00c9 uma na\u00e7\u00e3o martirizada.<\/p>\n<p><strong>Voltando aos paralelismos: h\u00e1 quem defenda que, tal como aconteceu com a Primavera de Praga em 1968, o plano da R\u00fassia em 2022 foi baseado numa sobrevaloriza\u00e7\u00e3o das suas pr\u00f3prias for\u00e7as e em pressupostos errados sobre o advers\u00e1rio. Concorda?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, era um contexto diferente em 1968, at\u00e9 porque houve v\u00e1rios levantamentos contra a ocupa\u00e7\u00e3o russa antes da Primavera de Praga, a come\u00e7ar com o levantamento da Hungria em 1956, que foi completamente esmagado, e com as v\u00e1rias insurrei\u00e7\u00f5es dos sindicatos polacos cat\u00f3licos contra a ocupa\u00e7\u00e3o militar russa.<\/p>\n<p>Diria que, desse ponto de vista, a atual guerra \u00e9 mais compar\u00e1vel com a opera\u00e7\u00e3o pela qual a R\u00fassia ocupou o Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"451\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/69983643d34e6a48f446c3dc.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   Veteranos da guerra sovi\u00e9tica no Afeganist\u00e3o marcham, a 15 de fevereiro de 2019, com uma faixa onde se l\u00ea &#8220;Cumprimos o pedido da p\u00e1tria!&#8221; durante uma cerim\u00f3nia a marcar o 30.\u00ba anivers\u00e1rio da retirada das tropas sovi\u00e9ticas do Afeganist\u00e3o, conclu\u00edda a 15 de fevereiro de 1989; na altura, isso foi amplamente saudado como o fim muito aguardado de um conflito sangrento, mas a percep\u00e7\u00e3o p\u00fablica mudou e muitos russos agora veem a guerra sovi\u00e9tica de 10 anos no Afeganist\u00e3o como um esfor\u00e7o necess\u00e1rio e amplamente bem-sucedido. foto Alexander Zemlianichenko\/AP <\/p>\n<p><strong>De que forma?<\/strong><\/p>\n<p>A R\u00fassia atacou o Afeganist\u00e3o com um golpe de pal\u00e1cio em Cabul, feito justamente por for\u00e7as especiais aerotransportadas de helic\u00f3ptero, derrubando o governo afeg\u00e3o, matando os antigos dirigentes e colocando l\u00e1 um governo pr\u00f3-sovi\u00e9tico, enquanto colunas blindadas avan\u00e7avam vindas da URSS e da Mong\u00f3lia.\u00a0<\/p>\n<p>Foi o come\u00e7o de uma guerra que durou dez anos, a Guerra da Resist\u00eancia Afeg\u00e3, que foi apoiada pelos EUA \u2013 em que aconteceu com os russos o mesmo que aconteceu com os EUA no Vietname, que ao fim de dez anos vieram embora. Mas foi o mesmo plano que a R\u00fassia <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/russia\/ucrania\/quatro-anos-depois-a-russia-ainda-esta-a-pagar-por-um-erro-fatal-de-calculo-na-ucrania\/20260221\/69998aafd34e6a48f446cdaa\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">tinha em 2022 para a Ucr\u00e2nia<\/a> \u2013 um golpe de Estado em Kiev, derrubar e capturar o governo, matar os dirigentes se n\u00e3o colaborassem&#8230; O plano para a Ucr\u00e2nia foi uma repeti\u00e7\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o do Afeganist\u00e3o, mas com uma diferen\u00e7a muito grande: \u00e9 que no Afeganist\u00e3o funcionou at\u00e9 certa medida, e na Ucr\u00e2nia n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Porque \u00e9 que acha que assim foi?<\/strong><\/p>\n<p>Porque os ucranianos sabiam com grande anteced\u00eancia que a invas\u00e3o ia acontecer, sabiam-no com pelo menos um ano de anteced\u00eancia. E posso dizer isto sem qualquer d\u00favida porque, no ano anterior, houve um congresso hist\u00f3rico na Pol\u00f3nia e quando chegou a altura de debater qual seria o tema do pr\u00f3ximo congresso os polacos sugeriram o tema das fronteiras. Toda a gente ficou muito admirada e eles justificaram-no assim: a R\u00fassia vai invadir a Ucr\u00e2nia no ano que vem. Isto foi dito num congresso hist\u00f3rico em 2021, pelo que os ucranianos tiveram tempo para se prepararem em Kiev \u2013 e aquilo que era o centro da manobra russa, que era a ocupa\u00e7\u00e3o da capital, foi um fiasco para a R\u00fassia.<\/p>\n<p><strong>A ocupa\u00e7\u00e3o da capital ucraniana foi um fiasco, mas a guerra continua sem fim \u00e0 vista, apesar das negocia\u00e7\u00f5es em curso. Diria que a guerra na Ucr\u00e2nia se tornou compar\u00e1vel \u00e0 I Guerra Mundial enquanto guerra de atrito, de longa dura\u00e7\u00e3o, elevado desgaste e combates intensos, mas localizados?<\/strong><\/p>\n<p>Diria que se tornou uma guerra de atrito e de eros\u00e3o, mas que n\u00e3o \u00e9 compar\u00e1vel \u00e0 I Guerra Mundial, principalmente porque esta guerra se caracteriza por grandes mudan\u00e7as militares. Se quisermos apontar uma \u00fanica, podemos dizer que esta \u00e9 a guerra dos drones, os drones alteraram tudo na guerra, e os drones \u00e9 que t\u00eam permitido a resist\u00eancia ucraniana.<\/p>\n<p>Ao in\u00edcio eram drones conduzidos \u00e0 dist\u00e2ncia, com um piloto em terra, depois passaram a ser drones mistos, j\u00e1 com uma componente de Intelig\u00eancia Artificial (IA) e o comando assumido por quem estava \u00e0 dist\u00e2ncia, mas isso foi-se tornando cada vez mais dif\u00edcil com o empastelamento das comunica\u00e7\u00f5es, a R\u00fassia tem arte nisso. E atualmente, os drones n\u00e3o precisam de comunica\u00e7\u00e3o, t\u00eam uma miss\u00e3o, t\u00eam IA para poderem adaptar-se a novas situa\u00e7\u00f5es ou ent\u00e3o, para dist\u00e2ncias mais curtas, s\u00e3o drones de fibra \u00f3ptica. Uma coisa impressionante de se ver nesta guerra foi quando, no Donbass, o c\u00e9u parecia estar enfeitado para o Carnaval, por causa de centenas de milhares de drones que explodiram e <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/reel\/DSh6GibDEIP\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">deixaram para tr\u00e1s a fibra \u00f3tica<\/a>.<\/p>\n<p>Houve algumas surpresas nesta guerra. Ao contr\u00e1rio do que se pensava, provou-se dif\u00edcil mover for\u00e7as mecanizadas convencionais, \u00e9 mais f\u00e1cil o movimento de drones de IA, de submarinos, de drones terrestres, numa grande quantidade. H\u00e1 drones terrestres que t\u00eam o tamanho de um rato, que at\u00e9 andam em quatro patas e n\u00e3o em lagartas, e que conseguem explos\u00f5es significativas perto de um agrupamento militar russo, por exemplo.<\/p>\n<p><strong>Esta transforma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica ser\u00e1 recordada como um dos grandes marcos desta guerra?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, mas \u00e9 uma guerra que tamb\u00e9m tem um outro componente decisivo que \u00e9 o espacial, por via das redes de sat\u00e9lites. A Ucr\u00e2nia n\u00e3o se aguentava sem os sat\u00e9lites americanos, e Elon Musk, atrav\u00e9s da sua empresa privada [Starlink], apoiou fortemente a resist\u00eancia ucraniana nesta guerra. Os sat\u00e9lites foram e continuam a ser muito importantes.\u00a0<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 impressionante a forma como os ucranianos se adaptaram, os flip flaps que fizeram no ar em rela\u00e7\u00e3o a mudan\u00e7as nas doutrinas militares\u2026 A vis\u00e3o do que \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o militar mudou bastante, e aponta para o futuro.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/69983792d34e28842c80d941.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   &#8220;O ponto em que a R\u00fassia vai fixar aten\u00e7\u00f5es a seguir \u00e9 o B\u00e1ltico, que \u00e9 essencial para a R\u00fassia, porque neste momento tem um acesso muito reduzido ao B\u00e1ltico \u2013 que est\u00e1 rodeado pela NATO de todos os lados&#8221;, ressalta Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Telo. &#8220;A R\u00fassia tem uma sa\u00edda estreita para o B\u00e1ltico, com pa\u00edses da NATO nas duas margens, e depois tem Kaliningrado [na foto], que tamb\u00e9m est\u00e1 rodeada pela NATO.&#8221; foto\u00a0Alexander Zemlianichenko\/AP <\/p>\n<p><strong>Isso leva-nos de volta ao paralelismo com a Guerra Civil de Espanha\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Sim, em que muitas das coisas que v\u00e3o fazer a novidade da II Guerra s\u00e3o experimentadas ali. N\u00e3o tenho d\u00favidas de que a R\u00fassia, na forma como conduz as negocia\u00e7\u00f5es, est\u00e1 j\u00e1 a pensar na futura guerra, n\u00e3o na atual mas no seu posicionamento na futura guerra. E tem um dilema dif\u00edcil de resolver, que \u00e9 se faz j\u00e1 ou em 2030.<\/p>\n<p>Uma das coisas importantes para a R\u00fassia \u00e9 o Donbass, apesar de pequeno tem uma grande import\u00e2ncia, n\u00e3o s\u00f3 pelo posicionamento militar, mas tamb\u00e9m por ser o territ\u00f3rio da ind\u00fastria pesada, das terras raras, e da energia, alberga a maior central nuclear de energia da Europa, que est\u00e1 neste momento ocupada pela R\u00fassia. Esse \u00e9, ali\u00e1s, um dos pontos mais acesos na discuss\u00e3o, nas negocia\u00e7\u00f5es, \u00e9 quem vai controlar Zaporizhzhia. Isto para a R\u00fassia \u00e9 muito importante.<\/p>\n<p><strong>E como diria que ser\u00e1 essa guerra futura? Fazendo um exerc\u00edcio imposs\u00edvel de antevis\u00e3o, o que vai acontecer a seguir?<\/strong><\/p>\n<p>Tudo depende do contexto internacional. Diria que o passo seguinte, o ponto em que a R\u00fassia vai fixar aten\u00e7\u00f5es a seguir \u00e9 o B\u00e1ltico, que \u00e9 essencial para a R\u00fassia, porque neste momento tem um acesso muito reduzido ao B\u00e1ltico \u2013 que est\u00e1 rodeado pela NATO de todos os lados. A R\u00fassia tem uma sa\u00edda estreita para o B\u00e1ltico, com pa\u00edses da NATO nas duas margens, e depois tem a regi\u00e3o de Kaliningrado, que tamb\u00e9m est\u00e1 rodeada pela NATO. Mas o B\u00e1ltico \u00e9 essencial para a R\u00fassia no futuro. A outra vantagem \u00e9 que uma parte significativa do litoral da regi\u00e3o do B\u00e1ltico \u00e9 composta pelos pa\u00edses b\u00e1lticos [Est\u00f3nia, Let\u00f3nia e Litu\u00e2nia], que s\u00e3o os mais fracos em todo o contexto NATO. O ponto fraco est\u00e1 ali \u2013 e digo fraco n\u00e3o intelectual ou politicamente, fraco militarmente, logo, mais f\u00e1cil de ocupar.<\/p>\n<p>\t            <script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"ENTREVISTA || QUATRO ANOS DE INVAS\u00c3O || Depois da invas\u00e3o em larga escala da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia, o&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":281233,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[50],"tags":[15560,609,836,611,33138,27,28,607,608,333,832,604,135,610,12042,837,476,413,15,16,301,830,51198,14,603,25,26,570,21,22,831,833,62,834,12,13,19,20,835,602,52,32,23,24,839,17,18,840,1977,29,30,31,63,64,65,11949],"class_list":["post-281232","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-mundo","tag-afeganistao","tag-alerta","tag-analise","tag-ao-minuto","tag-baltico","tag-breaking-news","tag-breakingnews","tag-cnn","tag-cnn-portugal","tag-comentadores","tag-costa","tag-crime","tag-desporto","tag-direto","tag-donbass","tag-drones","tag-economia","tag-eua","tag-featured-news","tag-featurednews","tag-governo","tag-guerra","tag-guerra-civil-espanhola","tag-headlines","tag-justica","tag-latest-news","tag-latestnews","tag-live","tag-main-news","tag-mainnews","tag-mais-vistas","tag-marcelo","tag-mundo","tag-negocios","tag-news","tag-noticias","tag-noticias-principais","tag-noticiasprincipais","tag-opiniao","tag-pais","tag-politica","tag-portugal","tag-principais-noticias","tag-principaisnoticias","tag-russia","tag-top-stories","tag-topstories","tag-ucrania","tag-ue","tag-ultimas","tag-ultimas-noticias","tag-ultimasnoticias","tag-world","tag-world-news","tag-worldnews","tag-zaporizhzhia"],"share_on_mastodon":{"url":"","error":"Validation failed: Text character limit of 500 exceeded"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/281232","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=281232"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/281232\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/281233"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=281232"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=281232"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=281232"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}