{"id":282016,"date":"2026-02-24T11:28:15","date_gmt":"2026-02-24T11:28:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/282016\/"},"modified":"2026-02-24T11:28:15","modified_gmt":"2026-02-24T11:28:15","slug":"eu-sei-que-ele-esta-vivo-trocou-lisboa-pelas-trincheiras-e-tornou-se-o-avo-que-desapareceu-numa-guerra-de-drones","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/282016\/","title":{"rendered":"&#8220;Eu sei que ele est\u00e1 vivo&#8221;. Trocou Lisboa pelas trincheiras e tornou-se o &#8220;av\u00f4&#8221; que desapareceu numa guerra de drones"},"content":{"rendered":"<p>\t                QUATRO ANOS DE INVAS\u00c3O || Oleksandr deixou a fam\u00edlia e o conforto de Portugal aos 52 anos para combater, tendo sido dado como desaparecido. Quatro anos ap\u00f3s a invas\u00e3o russa, a coragem f\u00edsica e as trincheiras esbarraram numa nova realidade dominada por drones que provocam uma crise de amputa\u00e7\u00f5es sem precedentes na Europa. Do desespero de uma fam\u00edlia \u00e0 espera em Lisboa, passando pelo realismo de um sargento portugu\u00eas no Donbass, at\u00e9 \u00e0s mesas de opera\u00e7\u00e3o, este \u00e9 o retrato de uma na\u00e7\u00e3o que a guerra tenta quebrar, mas que se recusa a desistir<\/p>\n<p>Um dia antes de partir, a fam\u00edlia reuniu-se toda nos arredores de Lisboa. Oleksandr (nome fict\u00edcio) tinha chamado a mulher, a filha e os irm\u00e3os para comer uma pizza, mas o ambiente n\u00e3o era de festa. Todos ali sabiam o que ele estava prestes a anunciar. Desde 2014 que vivia torturado pela consci\u00eancia daquilo que os russos faziam ao seu povo e a invas\u00e3o de 24 de fevereiro de 2022 s\u00f3 veio aprofundar essa ferida. S\u00f3 que as coisas tinham mudado. A sua filha j\u00e1 n\u00e3o era uma crian\u00e7a e o imigrante ucraniano de 52 anos, que vivia pacificamente em Portugal desde o ano 2000, sabia que j\u00e1 n\u00e3o podia ficar parado a assistir ao longe. Para ele, estava na hora de ir combater para a Ucr\u00e2nia, pela Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>No momento da despedida, Oleksandr agarrou-se \u00e0 mem\u00f3ria de uma fotografia antiga que tirou com os dois irm\u00e3os em Portugal e prometeu a Vasyl (nome fict\u00edcio), o mais novo, que, fosse daqui a dois, tr\u00eas ou cinco anos, voltariam a tirar aquela foto juntos. Hoje, passados quatro anos desde o in\u00edcio da invas\u00e3o em larga escala, Oleksandr tornou-se um dos milhares de desaparecidos numa guerra que mudou de rosto e continua a roubar \u00e0 Ucr\u00e2nia alguns dos seus filhos mais corajosos.<\/p>\n<p>&#8220;Ele partiu para a guerra em setembro de 2024, no m\u00eas do meu anivers\u00e1rio. Na manh\u00e3 seguinte \u00e0quela pizza, \u00e0s seis da manh\u00e3, foi-se embora&#8221;, recorda Vasyl em conversa com a CNN Portugal. A decis\u00e3o de Oleksandr n\u00e3o foi um impulso. Nos meses anteriores, transformou a rotina de oper\u00e1rio num rigoroso campo de treino militar. Almo\u00e7ava \u00e0 pressa para ir treinar durante o hor\u00e1rio de trabalho e, \u00e0 noite, trocava o conforto da cama pelo ch\u00e3o duro para ir habituando o corpo. Dono de uma for\u00e7a f\u00edsica invej\u00e1vel, herdada do pai, um bombeiro que em 1986 desceu ao inferno nuclear de Chernobyl, o ucraniano sentia que estava pronto para ir para uma unidade de infantaria.<\/p>\n<p>Quando regressou \u00e0 sua terra natal e come\u00e7ou a fazer o treino para entrar numa unidade de infantaria, a sua idade e resili\u00eancia valeram-lhe a alcunha de &#8220;Dido&#8221; (av\u00f4), entre os camaradas mais novos. Com 52 anos, Oleksandr est\u00e1 longe de ser uma caso isolado na linha da frente ucraniana. A realidade demogr\u00e1fica do pa\u00eds e a sua pol\u00edtica de recrutamento, que protege os jovens entre os 18 e os 25 anos, fez com que a idade m\u00e9dia do combatente ucraniano disparasse para os 45 anos. Este valor \u00e9 significativamente mais alto do que a m\u00e9dia europeia e norte-americana, que ronda os 30 anos. O resultado \u00e9 vis\u00edvel na linha da frente, onde muitas trincheiras s\u00e3o ocupadas por pais de fam\u00edlia criados na era sovi\u00e9tica, com uma mentalidade de sacrif\u00edcio pela p\u00e1tria, e homens de cabelo grisalho que mant\u00eam intacta a defesa nas trincheiras.<\/p>\n<p>Mas tanto Oleksandr como Vasyl sabiam que a guerra tinha mudado. Os gestos de hero\u00edsmo militar de cada soldado evolu\u00edram para algo diferente, mais impessoal, mais desumano. &#8220;Eu disse-lhe: &#8216;Tu corres bem, \u00e9s desportista, mas a guerra mudou. Agora \u00e9 a guerra dos drones, n\u00e3o consegues fugir deles'&#8221;, recorda. E com raz\u00e3o. No campo de batalha moderno, particularmente nas regi\u00f5es de Kharkiv e Lugansk, para onde Oleksandr iria ser destacado, a prepara\u00e7\u00e3o f\u00edsica j\u00e1 n\u00e3o chega. O zumbido constante dos drones FPV \u00e9 a prova disso. Nos c\u00e9us s\u00e3o um olho que tudo v\u00ea e que n\u00e3o hesita em atacar. Mas a determina\u00e7\u00e3o de Oleksandr era inabal\u00e1vel.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/699cb07bd34e28842c80fec7.webp\" width=\"900\"\/> <\/p>\n<p>   Soldados ucranianos da 72.\u00aa Brigada Mecanizada treinam com armas de fogo junto \u00e0 linha da frente na regi\u00e3o de Kharkiv \u200b(Yevhen Titov\/Getty Images) <\/p>\n<p>A gera\u00e7\u00e3o Xbox <\/p>\n<p>Para quem combate na Ucr\u00e2nia desde o in\u00edcio da guerra, os primeiros dias da invas\u00e3o parecem hoje batalhas completamente diferentes. Nos primeiros dias, os principais receios dos militares no terreno eram os ataques de artilharia ou morteiros e os avan\u00e7os surpresa dos tanques de guerra, apoiados por infantaria. Hoje, segundo estimativas dos servi\u00e7os secretos dos pa\u00edses B\u00e1lticos, os drones s\u00e3o respons\u00e1veis por 70% a 80% de todas as baixas, sejam feridos ou mortos, em ambos os lados. O n\u00famero de v\u00edtimas causadas por estes aparelhos j\u00e1 ultrapassa largamente as provocadas por armas ligeiras ou minas.<\/p>\n<p>Um volunt\u00e1rio portugu\u00eas, com o nome de c\u00f3digo que diz tudo &#8211; na Ucr\u00e2nia \u00e9 conhecido como &#8220;Tuga&#8221; -, conhece bem esta realidade. A combater em solo ucraniano desde abril de 2022, viu bem como a guerra mudou e recorda, como se de uma mem\u00f3ria long\u00ednqua se tratasse, algumas das primeiras miss\u00f5es que aconteciam \u00e0 noite, quando as c\u00e2maras de vis\u00e3o noturna eram a maior amea\u00e7a. Atualmente a operar como sargento do Batalh\u00e3o Internacional Azov, est\u00e1 a ver em primeira m\u00e3o como a guerra est\u00e1 a mudar.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Nessa altura [no in\u00edcio da invas\u00e3o], os drones n\u00e3o eram &#8216;moda&#8217;. Havia drones, mas eram apenas de reconhecimento e a presen\u00e7a era espor\u00e1dica. As coisas mudaram muit\u00edssimo. Imaginar a linha da frente sem drones \u00e9 impens\u00e1vel&#8221;, conta \u00e0 CNN Portugal diretamente do cora\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia ucraniana no Donbass. Em Kramatorsk, que fica a alguns quil\u00f3metros da linha de contacto e \u00e9 onde a sua unidade est\u00e1 instalada, j\u00e1 s\u00e3o raros os dias em que drones FPV russos n\u00e3o atingem a cidade. &#8220;Temos os drones FPV a sobrevoarem o centro da cidade e a escolherem os alvos com toda a calma, quase todos os dias&#8221;, conta o militar portugu\u00eas.<\/p>\n<p>O dom\u00ednio destas pequenas aeronaves retirou, em grande parte, o controlo direto e o fator humano do combate pr\u00f3ximo, alterando quase por completo a l\u00f3gica da hierarquia e da experi\u00eancia militar que homens mais experientes levavam para o terreno. &#8220;Antigamente, precis\u00e1vamos de um ano ou um ano e meio para ter um militar pronto para a guerra&#8221;, explica o sargento portugu\u00eas. &#8220;Hoje em dia, eu, que tenho 14 anos de servi\u00e7o militar no total&#8230; A qualquer momento, um mi\u00fado de 18 anos, com seis meses de experi\u00eancia em Xbox ou PlayStation, pega num drone e pode acabar comigo. Isso \u00e9 um bocadinho estranho para n\u00f3s&#8221;, admite.<\/p>\n<p>E a quase omnipresen\u00e7a dos ve\u00edculos n\u00e3o tripulados nos c\u00e9us transformou tudo: a log\u00edstica, os resgates e a sobreviv\u00eancia. E isso faz com que hoje, para quem est\u00e1 a combater, &#8220;o mais perigoso n\u00e3o \u00e9 estar na linha da frente, \u00e9 entrar no ve\u00edculo e tentar chegar \u00e0s posi\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/699cb271d34e28842c80fedf.webp\" width=\"900\"\/> <\/p>\n<p>   Militares ucranianos a andar debaixo de uma rede de prote\u00e7\u00e3o anti-drone que liga Druzhkivka a Kostiantynivka (Kostiantyn Liberov\/Getty Images) <\/p>\n<p>70 mil no limbo <\/p>\n<p>Foi precisamente num desses ve\u00edculos de evacua\u00e7\u00e3o, sob o fogo inimigo, que a fam\u00edlia de Oleksandr acredita t\u00ea-lo visto pela \u00faltima vez. O \u00faltimo contacto direto entre os dois irm\u00e3os aconteceu por videochamada em julho de 2025, a partir da frente de Kharkiv. A chamada durou pouco mais de um minuto, porque Oleksandr foi chamado pelos seus camaradas. Depois disso, veio o sil\u00eancio. E depois, as perguntas. E depois disso, a falta de respostas.\u00a0<\/p>\n<p>Oficialmente, Oleksandr est\u00e1 dado como desaparecido. Para as autoridades ucranianas, \u00e9 um dos 70 mil ucranianos que o Minist\u00e9rio da Administra\u00e7\u00e3o Interna tem registado como desaparecido em combate. Para Vasyl, a esperan\u00e7a \u00e9 de que o seu irm\u00e3o mais velho tenha sido capturado pelas tropas russas e esteja, como muitos outros ucranianos, a aguardar que uma troca de prisioneiros permita o seu regresso. Essa esperan\u00e7a \u00e9 alicer\u00e7ada com um v\u00eddeo partilhado num grupo de Telegram numa data pr\u00f3xima do seu desaparecimento. Nas imagens filmadas, captadas debaixo de fogo e acompanhadas por gritos de militares a falar ingl\u00eas, v\u00ea-se um soldado ferido e ensanguentado a ser carregado \u00e0 pressa para o interior de um ve\u00edculo blindado de evacua\u00e7\u00e3o americano. Para Vasyl, as parecen\u00e7as f\u00edsicas s\u00e3o ineg\u00e1veis.<\/p>\n<p>&#8220;Para mim \u00e9 ele. Estava tudo com sangue, mas estava vivo. O governo diz que nos vai dar not\u00edcias sobre se aquele carro conseguiu sair de l\u00e1 ou se foi capturado&#8221;, conta, sem largar por um momento a esperan\u00e7a de que Oleksandr seja agora um prisioneiro de guerra, o melhor dos cen\u00e1rios por esta altura. No m\u00eas em que encontrou aquelas imagens, o irm\u00e3o mais novo perdeu quase sete quilos, incapaz de comer, agarrado \u00e0 promessa de que o governo ucraniano lhe daria novidades sobre o destino daquele blindado, se conseguiu escapar ou se foi intercetado. Mas, para j\u00e1, n\u00e3o h\u00e1 qualquer informa\u00e7\u00e3o sobre o que aconteceu \u00e0quele carro de combate, nem ao misterioso passageiro que seguia no seu interior.<\/p>\n<p>S\u00f3 que a hip\u00f3tese de Oleksandr ter sido capturado traz consigo outro tipo de medo. Vasyl conhece bem as imagens dos prisioneiros de guerra ucranianos libertados pela R\u00fassia ap\u00f3s meses ou anos de cativeiro. &#8220;Parecem que vieram de Auschwitz&#8221;, desabafa, com a voz pesada. &#8220;As torturas que eles fazem l\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o normais&#8221;, lamenta. Esta perce\u00e7\u00e3o \u00e9 refor\u00e7ada por relat\u00f3rios internacionais, como o da <a href=\"https:\/\/www.hrw.org\/news\/2025\/12\/11\/russias-systematic-torture-of-ukrainian-pows\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Human Rights Watch<\/a>,\u00a0que documentou que as for\u00e7as russas submetem os prisioneiros a um padr\u00e3o sistem\u00e1tico de tortura f\u00edsica e psicol\u00f3gica, incluindo espancamentos severos, choques el\u00e9tricos e viol\u00eancia sexual, com o objetivo de quebrar a dignidade humana.\u00a0<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/676df0a1d34ea1acf2723b32.webp\" width=\"941\"\/> <\/p>\n<p>   Bohdan Heleta, um padre que foi detido dentro da sua pr\u00f3pria igreja greco-cat\u00f3lica ucraniana na cidade ocupada de Berdiansk em 2022, sorri no aeroporto de Kiev a 29 de junho de 2024, depois de ter sido libertado numa troca de prisioneiros (Alex Babenko\/AP) <\/p>\n<p>Estima-se que, at\u00e9 setembro de 2025, pelo menos 13.300 militares ucranianos tenham sido detidos pela R\u00fassia, permanecendo ainda em cativeiro entre 6.300 e 8.000 combatentes. As condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o descritas como &#8220;medievais&#8221;, com prisioneiros a sofrerem perdas de peso catastr\u00f3ficas, alguns chegando aos 45 quilos devido \u00e0 fome extrema e a serem privados de cuidados m\u00e9dicos b\u00e1sicos, muitas vezes com a coniv\u00eancia do pr\u00f3prio pessoal de sa\u00fade das pris\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p>O pre\u00e7o a pagar <\/p>\n<p>E os n\u00fameros dispon\u00edveis do conflito &#8211; apesar de serem quase imposs\u00edveis de verificar &#8211; revelam uma realidade implac\u00e1vel que a Europa julgava ter deixado de existir. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, admitiu que 55 mil soldados ucranianos morreram em combate. Do outro lado, a Mediazona e BBC Russian Service conseguiram verificar a morte de, pelo menos, 177 mil soldados russos, at\u00e9 ao dia 13 de fevereiro de 2026. No entanto, os autores do estudo estimam que o n\u00famero de mortos russos seja superior a 219 mil.\u00a0<\/p>\n<p>Ainda assim, estimativas do Center for Strategic and International Studies (CSIS) sugerem 325 mil soldados mortos, num total de 1,2 milh\u00f5es de baixas, quando se incluem feridos e desaparecidos. Este valor ultrapassa as perdas de todas as guerras russas e sovi\u00e9ticas combinadas desde a Segunda Guerra Mundial. Mas para aqueles que n\u00e3o entram nas estat\u00edsticas dos mortos ou desaparecidos, a sobreviv\u00eancia traz as suas pr\u00f3prias marcas.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 esta a dura realidade testemunhada diariamente no Superhumans Center, uma cl\u00ednica especializada em reabilita\u00e7\u00e3o e pr\u00f3teses na Ucr\u00e2nia. O diretor m\u00e9dico da institui\u00e7\u00e3o explica \u00e0 CNN Portugal que a efic\u00e1cia letal das m\u00e1quinas voadoras reescreveu a medicina de guerra. &#8220;No in\u00edcio da invas\u00e3o, os ferimentos de bala dominavam&#8221;, recorda Andrii Vilenskyi. Hoje, o cen\u00e1rio \u00e9 ditado pela fragmenta\u00e7\u00e3o. &#8220;Atualmente, as les\u00f5es provocadas por explos\u00f5es e ataques de drones predominam. Caracterizam-se por grandes perdas de tecidos moles e de massa \u00f3ssea nas extremidades&#8221;.\u00a0<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/699cae0fd34e28842c80feaa.webp\" width=\"900\"\/> <\/p>\n<p>   Dmytro Kononchuk, \u00e0 esquerda, especialista em pr\u00f3teses bi\u00f3nicas, testa a pr\u00f3tese de Ruslan no centro de reabilita\u00e7\u00e3o da Superhumans Center (Evgeniy Maloletka\/AP) <\/p>\n<p>O instinto de um soldado ao tentar proteger a cabe\u00e7a dos drones que caem do c\u00e9u resultou numa crise cl\u00ednica sem precedentes na Europa. &#8220;Num pa\u00eds pac\u00edfico, mais de 90% das amputa\u00e7\u00f5es ocorrem nos membros inferiores. No contexto da guerra em curso, temos mais de 30% dos membros superiores afetados&#8221;, alerta o cl\u00ednico, sublinhando que esta &#8220;concentra\u00e7\u00e3o alt\u00edssima&#8221; gerou longas listas de espera devido \u00e0 escassez global de especialistas na protetiza\u00e7\u00e3o de bra\u00e7os e m\u00e3os.<\/p>\n<p>Para quem perdeu um membro, o desejo imediato \u00e9 receber uma pr\u00f3tese bi\u00f3nica de alta tecnologia que substitua a fun\u00e7\u00e3o perdida. Mas os m\u00e9dicos do Superhumans Center avisam que a realidade \u00e9 mais pragm\u00e1tica e que a escolha depende da atividade futura do paciente. Uma pr\u00f3tese mec\u00e2nica, n\u00e3o precisando de ser recarregada e sendo imune \u00e0 lama, torna-se a escolha \u00f3bvia para quem volta \u00e0 agricultura, por exemplo. E, surpreendentemente, tamb\u00e9m para quem decide voltar ao inferno de onde acabou de sair.<\/p>\n<p>Apesar das amputa\u00e7\u00f5es, muitos volunt\u00e1rios recusam-se a abandonar camaradas como o Jo\u00e3o &#8220;Tuga&#8221; ou o Oleksandr. &#8220;Os nossos pacientes que regressam \u00e0 linha da frente recebem pr\u00f3teses mec\u00e2nicas, porque com essas \u00e9 melhor estar ativo nas condi\u00e7\u00f5es dif\u00edceis que l\u00e1 existem&#8221;, revela o diretor cl\u00ednico. Para o m\u00e9dico, no entanto, a verdadeira batalha n\u00e3o \u00e9 colocar um bra\u00e7o de metal num soldado, mas sim resgatar-lhe a mente: &#8220;A componente psicol\u00f3gica e o estado de sa\u00fade mental afetam sobretudo o sucesso da reabilita\u00e7\u00e3o. A motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 a parte integrante&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 essa mesma motiva\u00e7\u00e3o que mant\u00e9m as for\u00e7as ucranianas a resistir, mesmo quando a fadiga se acumula e no horizonte a paz ainda n\u00e3o aparece \u00e0 vista. Ap\u00f3s quatro anos de combates intensos, quem est\u00e1 no terreno perdeu a ilus\u00e3o de um desfecho r\u00e1pido. Para &#8220;Tuga&#8221;, mergulhado na realidade dos combates no Donbass, a perspetiva \u00e9 a de uma guerra de desgaste extremo ainda sem fim pr\u00f3ximo, onde o apoio ocidental continua a ser a \u00fanica linha de salva\u00e7\u00e3o. &#8220;N\u00e3o desistam de n\u00f3s&#8221;, \u00e9 o apelo que o sargento portugu\u00eas deixa a quem assiste de longe, consciente de que o quinto ano de combates ser\u00e1 passado, inevitavelmente, sob a mesma amea\u00e7a constante.<\/p>\n<p>Por c\u00e1, e a milhares de quil\u00f3metros de Kramatorsk, Vasyl agarra-se a uma motiva\u00e7\u00e3o muito mais \u00edntima e recusa-se a aceitar o fatalismo da linha da frente ou a deixar que o irm\u00e3o seja apenas mais um n\u00famero na estat\u00edstica de desaparecidos. Para ele, a contagem dos dias n\u00e3o \u00e9 feita em avan\u00e7os territoriais, baixas inimigas ou pacotes de ajuda militar. O fim desta guerra tem um rosto, um nome e um compromisso de que ele n\u00e3o desiste.<\/p>\n<p>O luto recusa-se a entrar naquela casa, substitu\u00eddo por uma espera dura, mas inabal\u00e1vel. O verdadeiro fim do conflito, para esta fam\u00edlia, chegar\u00e1 apenas no momento em que Oleksandr cruzar de novo a porta de regresso. E quando esse dia chegar, seja daqui a dois, tr\u00eas ou cinco anos, a promessa feita naquela noite de setembro nos arredores de Lisboa ser\u00e1 finalmente cumprida e os tr\u00eas irm\u00e3os voltar\u00e3o a juntar-se para tirar, de uma vez por todas, aquela preciosa fotografia.<\/p>\n<p>&#8220;Quando ele j\u00e1 estava na Ucr\u00e2nia, disse-me: &#8216;Meu querido irm\u00e3o, tens a minha palavra que n\u00f3s ainda vamos voltar a tirar aquela foto todos juntos. Seja daqui a cinco, dez ou dois anos'&#8221;, recorda. &#8220;Eu sei que ele vai cumprir a palavra. Ele \u00e9 um her\u00f3i e eu sei que est\u00e1 vivo&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"QUATRO ANOS DE INVAS\u00c3O || Oleksandr deixou a fam\u00edlia e o conforto de Portugal aos 52 anos para&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":282017,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[609,836,611,27,28,607,608,333,832,604,135,610,476,15,16,301,830,14,603,25,26,570,21,22,831,833,62,834,12,13,19,20,835,602,52,32,23,24,33,839,17,18,840,29,30,31],"class_list":{"0":"post-282016","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-portugal","8":"tag-alerta","9":"tag-analise","10":"tag-ao-minuto","11":"tag-breaking-news","12":"tag-breakingnews","13":"tag-cnn","14":"tag-cnn-portugal","15":"tag-comentadores","16":"tag-costa","17":"tag-crime","18":"tag-desporto","19":"tag-direto","20":"tag-economia","21":"tag-featured-news","22":"tag-featurednews","23":"tag-governo","24":"tag-guerra","25":"tag-headlines","26":"tag-justica","27":"tag-latest-news","28":"tag-latestnews","29":"tag-live","30":"tag-main-news","31":"tag-mainnews","32":"tag-mais-vistas","33":"tag-marcelo","34":"tag-mundo","35":"tag-negocios","36":"tag-news","37":"tag-noticias","38":"tag-noticias-principais","39":"tag-noticiasprincipais","40":"tag-opiniao","41":"tag-pais","42":"tag-politica","43":"tag-portugal","44":"tag-principais-noticias","45":"tag-principaisnoticias","46":"tag-pt","47":"tag-russia","48":"tag-top-stories","49":"tag-topstories","50":"tag-ucrania","51":"tag-ultimas","52":"tag-ultimas-noticias","53":"tag-ultimasnoticias"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":"Validation failed: Text character limit of 500 exceeded"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/282016","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=282016"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/282016\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/282017"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=282016"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=282016"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=282016"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}