{"id":282906,"date":"2026-02-25T03:54:07","date_gmt":"2026-02-25T03:54:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/282906\/"},"modified":"2026-02-25T03:54:07","modified_gmt":"2026-02-25T03:54:07","slug":"estudo-traca-relacoes-geneticas-entre-14-condicoes-psiquiatricas-e-pode-facilitar-tratamentos-no-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/282906\/","title":{"rendered":"Estudo tra\u00e7a rela\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas entre 14 condi\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas e pode facilitar tratamentos no futuro"},"content":{"rendered":"<p><strong>Andr\u00e9 Juli\u00e3o | Ag\u00eancia FAPESP<\/strong> \u2013 Embora transtornos mentais tenham causas multifatoriais, a gen\u00e9tica pode explicar uma parte delas e ainda \u00e9 muito pouco explorada para direcionar diagn\u00f3sticos e tratamentos. No maior estudo do tipo j\u00e1 realizado, <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-025-09820-3\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>publicado<\/strong><\/a> na revista Nature, um cons\u00f3rcio internacional de pesquisadores comparou variantes gen\u00e9ticas comuns em 14 condi\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas e as classificou em cinco grandes grupos, chamados no estudo de fatores, que compartilham variantes gen\u00e9ticas entre si.<\/p>\n<p>\u201cOs transtornos psiqui\u00e1tricos t\u00eam sintomas compartilhados entre si, o que dificulta o diagn\u00f3stico, at\u00e9 hoje baseado apenas em avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. Este trabalho mostra, do ponto de vista gen\u00e9tico, o que os cl\u00ednicos j\u00e1 observavam em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 esquizofrenia e ao transtorno bipolar, por exemplo, que coocorrem e que, biologicamente, podem representar um cont\u00ednuo, com 80% das variantes gen\u00e9ticas compartilhadas entre as duas condi\u00e7\u00f5es\u201d, explica <a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/713212\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Diego Luiz Rovaris<\/strong><\/a>, professor do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas da Universidade de S\u00e3o Paulo (ICB-USP) <a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/109780\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>apoiado<\/strong><\/a> pela FAPESP que participa do estudo.<\/p>\n<p>No fator 1, de transtornos compulsivos, est\u00e3o anorexia nervosa, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e, tamb\u00e9m relacionadas, mas de forma mais moderada, s\u00edndrome de Tourette e transtornos de ansiedade. O fator 2 \u00e9 definido por esquizofrenia e transtorno bipolar, que t\u00eam em comum, entre outras caracter\u00edsticas, a express\u00e3o de genes nos neur\u00f4nios excitat\u00f3rios e regi\u00f5es do c\u00e9rebro envolvidas no processamento da realidade.<\/p>\n<p>No fator 3, ligado ao neurodesenvolvimento, est\u00e3o o transtorno do espectro autista (TEA), transtorno do d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o com hiperatividade (TDAH) e, tamb\u00e9m de forma moderada, Tourette. Esse fator \u00e9 bastante explicado por genes que se expressam muito cedo no desenvolvimento do c\u00e9rebro. Em 2023, Rovaris fez parte do grupo que publicou na Nature Genetics a descoberta de 76 genes relacionados ao TDAH (leia mais em: <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/novas-perspectivas-sobre-a-origem-e-o-tratamento-do-tdah\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>revistapesquisa.fapesp.br\/novas-perspectivas-sobre-a-origem-e-o-tratamento-do-tdah\/<\/strong><\/a>).<\/p>\n<p>O fator 4 \u00e9 o das condi\u00e7\u00f5es internalizantes: depress\u00e3o, transtornos de ansiedade e estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico. Os genes mais expressos nesse grupo est\u00e3o ligados n\u00e3o a neur\u00f4nios, mas \u00e0 glia, c\u00e9lulas de suporte. Isso sugere que a depress\u00e3o e a ansiedade estejam mais ligadas \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da infraestrutura do c\u00e9rebro do que a c\u00e9lulas que transmitem sinais.<\/p>\n<p>Por fim, o fator 5 est\u00e1 relacionado ao abuso de subst\u00e2ncias: transtorno de uso de \u00e1lcool, depend\u00eancia de nicotina, transtorno de uso de Cannabis e transtorno de uso de opioides. Neste fator foram encontradas variantes nos genes que codificam a enzima que quebra o \u00e1lcool e a receptores que respondem \u00e0 nicotina, por exemplo.<\/p>\n<p>O fator foi o mais associado a indicadores socioecon\u00f4micos como renda e cogni\u00e7\u00e3o, sugerindo que pode estar mais ligado ao ambiente do que os outros fatores analisados.<\/p>\n<p>\u201cNosso genoma tem variantes gen\u00e9ticas raras e comuns. Esse estudo olhou apenas para as comuns, mais especificamente os polimorfismos de nucleot\u00eddeo \u00fanico [SNPs, na sigla em ingl\u00eas]. \u00c9 uma categoria de variantes com um grande impacto nas doen\u00e7as multifatoriais, como as condi\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas\u201d, explica <a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/34037\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Sintia Belangero<\/strong><\/a>, professora da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (EPM-Unifesp) <a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/115327\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>apoiada<\/strong><\/a> pela FAPESP que tamb\u00e9m participou do estudo.<\/p>\n<p>Em 2022, Belangero fez parte do grupo que publicou na Nature a descoberta de mais de 100 genes relacionados \u00e0 esquizofrenia (leia mais em: <a href=\"https:\/\/agencia.fapesp.br\/38360\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>agencia.fapesp.br\/38360<\/strong><\/a>).<\/p>\n<p>Entre todas as condi\u00e7\u00f5es analisadas agora, a s\u00edndrome de Tourette \u00e9 a que menos compartilha caracter\u00edsticas gen\u00e9ticas com outros transtornos, sendo 87% delas \u00fanicas da condi\u00e7\u00e3o. Foi encontrado ainda o chamado fator P, conjunto de variantes gen\u00e9ticas relacionado a todas as 14 condi\u00e7\u00f5es analisadas. Mais de 1 milh\u00e3o de casos diagnosticados foram usados no estudo, comparados entre si e com pessoas sem condi\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas.<\/p>\n<p>O resultado pode ajudar na busca por novos tratamentos, inclusive por meio de reposicionamento de f\u00e1rmacos. Nessa modalidade, um medicamento aprovado para uma condi\u00e7\u00e3o passa a ser aplicado em outra, algo que j\u00e1 ocorre em algumas doen\u00e7as psiqui\u00e1tricas.<\/p>\n<p><strong>Cruzamento de dados<\/strong><\/p>\n<p>Belangero e Rovaris ressaltam que, por causa da despropor\u00e7\u00e3o entre a quantidade de dados de popula\u00e7\u00f5es de origem europeia e de outras partes do mundo, as an\u00e1lises se restringiram \u00e0s primeiras, mais frequentes nesse tipo de estudo. Entretanto, afirmam, isso est\u00e1 mudando, pois h\u00e1 um esfor\u00e7o de grupos do Brasil para fornecer dados da popula\u00e7\u00e3o brasileira por meio do Latin American Genomics Consortium (<a href=\"https:\/\/www.latinamericangenomicsconsortium.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>LAGC<\/strong><\/a>) e aumentar a representatividade da Am\u00e9rica Latina em estudos do tipo.<\/p>\n<p>A iniciativa latino-americana \u00e9 afiliada ao Psychiatric Genomics Consortium (<a href=\"https:\/\/pgc.unc.edu\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>PGC<\/strong><\/a>), que re\u00fane dados gen\u00f4micos relacionados a condi\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas de popula\u00e7\u00f5es do mundo todo.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo usado, conhecido como Estudo de Associa\u00e7\u00e3o Gen\u00f4mica Ampla (GWAS, na sigla em ingl\u00eas), refor\u00e7ou de forma robusta o que outras evid\u00eancias gen\u00e9ticas e dados cl\u00ednicos j\u00e1 sugeriam, permitindo aprofundar estudos sobre as condi\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas.<\/p>\n<p>Em um <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41588-025-02127-z\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>estudo<\/strong><\/a> anterior, Rovaris, Belangero e outros autores conclu\u00edram que 85% dos participantes de pesquisas em gen\u00e9tica psiqui\u00e1trica t\u00eam ancestralidade europeia.<\/p>\n<p><strong>Neurodiversidade<\/strong><\/p>\n<p>Metade da popula\u00e7\u00e3o mundial vai atender a crit\u00e9rios para pelo menos um transtorno mental ao longo da vida, segundo uma estimativa <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1001%2Farchpsyc.62.6.593\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>publicada<\/strong><\/a> em 2005.<\/p>\n<p>Em um <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/d41586-025-03728-8\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>coment\u00e1rio<\/strong><\/a> na mesma edi\u00e7\u00e3o da Nature que publicou o estudo, Abdel Abdellaoui, professor da Universidade de Amsterd\u00e3 (Pa\u00edses Baixos), nota que muito da varia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica associada a transtornos cl\u00ednicos se sobrep\u00f5e a tra\u00e7os normais como cogni\u00e7\u00e3o, sono, personalidade e comportamento social, e que nem todas as associa\u00e7\u00f5es s\u00e3o negativas.<\/p>\n<p>\u201cTranstornos psiqui\u00e1tricos parecem surgir mais frequentemente nos extremos desse cont\u00ednuo de varia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, quando certas combina\u00e7\u00f5es de genes e experi\u00eancias de vida se sobrep\u00f5em de forma desfavor\u00e1vel. Isso deve reposicionar a doen\u00e7a mental n\u00e3o como parte de uma biologia defeituosa, mas como a intersec\u00e7\u00e3o entre a varia\u00e7\u00e3o natural e o estresse ambiental\u201d, escreve.<\/p>\n<p>O estudo tem ainda entre os autores <a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/705\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Euripedes Constantino Miguel<\/strong><\/a>, professor da Faculdade de Medicina da USP e coordenador do <a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/111260\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Centro de Pesquisa e Inova\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade Mental<\/strong><\/a> (<a href=\"https:\/\/inpd.org.br\/cism\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>CISM<\/strong><\/a>), um Centro de Pesquisa Aplicada (<a href=\"https:\/\/fapesp.br\/publicacoes\/2024\/pastacpa.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>CPA<\/strong><\/a>) da FAPESP.<\/p>\n<p>Da EPM-Unifesp, participaram ainda <a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/69062\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Vanessa Ota<\/strong><\/a>, <a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/679823\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Ary Gadelha<\/strong><\/a>, <a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/8866\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Rodrigo Bressan<\/strong><\/a>, <a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/90369\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Marcos Santoro<\/strong><\/a>, Cristiano Noto, <a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/691496\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Carolina Carvalho<\/strong><\/a> e <a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/709761\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Pedro Mario Pan<\/strong><\/a>. Outros autores brasileiros envolvidos s\u00e3o do Hospital de Cl\u00ednicas de Porto Alegre e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).<\/p>\n<p>O artigo Mapping the genetic landscape across 14 psychiatric disorders pode ser lido em: <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-025-09820-3\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>nature.com\/articles\/s41586-025-09820-3<\/strong><\/a>.<br \/>&#13;<br \/>\n\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Andr\u00e9 Juli\u00e3o | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Embora transtornos mentais tenham causas multifatoriais, a gen\u00e9tica pode explicar uma parte&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":282907,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[86],"tags":[51439,51431,4843,22205,9051,51441,1531,13178,51437,1788,2217,51438,116,51442,42479,51434,27151,32,9825,33,51443,117,1030,23473,3985,196,51433,9690,51440,51436,51435,51432,51430,51429],"class_list":["post-282906","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-saude","tag-abuso-de-substancias","tag-anorexia-nervosa","tag-ansiedade","tag-cannabis","tag-cognicao","tag-dependencia-de-nicotina","tag-depressao","tag-esquizofrenia","tag-estresse-pos-traumatico","tag-genes","tag-genetica","tag-glia","tag-health","tag-indicadores-socioeconomicos","tag-neurodesenvolvimento","tag-neuronios-excitatorios","tag-opioides","tag-portugal","tag-psiquiatria","tag-pt","tag-renda","tag-saude","tag-saude-mental","tag-sindrome-de-tourette","tag-tdah","tag-tea","tag-toc","tag-transtorno-bipolar","tag-transtorno-de-uso-de-alcool","tag-transtorno-do-deficit-de-atencao-com-hiperatividade","tag-transtorno-do-espectro-autista","tag-transtorno-obsessivo-compulsivo","tag-transtornos-compulsivos","tag-transtornos-psiquiatricos"],"share_on_mastodon":{"url":"","error":"Validation failed: Text character limit of 500 exceeded"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/282906","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=282906"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/282906\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/282907"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=282906"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=282906"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=282906"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}