{"id":284040,"date":"2026-02-25T23:21:19","date_gmt":"2026-02-25T23:21:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/284040\/"},"modified":"2026-02-25T23:21:19","modified_gmt":"2026-02-25T23:21:19","slug":"de-tanger-para-o-mundo-a-vida-de-ibn-battuta-o-maior-viajante-da-idade-media","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/284040\/","title":{"rendered":"De T\u00e2nger para o mundo: a vida de Ibn Battuta, o maior viajante da Idade M\u00e9dia"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-caption-text top\"><a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Man_on_a_camel,_Har%C3%AEr%C3%AE_Schefer_-_BNF_Ar5847_f.jpg\" rel=\"nofollow noopener\" data-wpel-link=\"external\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">Wikimedia Commons<\/a><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-729237 size-kopa-image-size-3\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/5d6a537a8816dc383c44d091ce3f61fc-783x450.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"402\"  \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text bot\">Ilustra\u00e7\u00e3o de Ibn Battuta.<\/p>\n<p><strong>Marco Polo percorreu tr\u00eas vezes menos a dist\u00e2ncia que o viajante Battuta percorreu. \u201cDeixou o ninho como um p\u00e1ssaro\u201d e seguiram-se quase 30 anos de viagem.<\/strong><\/p>\n<p>Nasceu neste dia, h\u00e1 722 anos, uma das figuras mais extraordin\u00e1rias da hist\u00f3ria das viagens.<\/p>\n<p>De T\u00e2nger, cidade do norte marroquino com pegada portuguesa, <strong>Ibn Battuta<\/strong> atravessou, durante quase 30 anos (entre 1325 e 1354), desertos, mares e grandes centros urbanos \u2014 do Norte de \u00c1frica \u00e0 China, da R\u00fassia \u00e0 \u00cdndia, a p\u00e9, de camelo e por mar.<\/p>\n<p>Movido pela f\u00e9 e curiosidade, Ibn deixou a sua cidade aos 21 anos para cumprir a peregrina\u00e7\u00e3o a Meca, um dos pilares do Isl\u00e3o, mas tamb\u00e9m para aprofundar os seus estudos jur\u00eddicos no Egito e na S\u00edria, recorda esta semana a <a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.pt\/historia\/ibn-battuta-maior-viajante-idade-media-volta-mundo_6894\" data-wpel-link=\"external\" rel=\"noopener nofollow\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">National Geographic<\/a>. O pr\u00f3prio descreveu esse momento como uma rutura profunda com a vida anterior.<\/p>\n<p>\u201cDecidi abandonar os meus amigos e afastei-me da minha p\u00e1tria como os p\u00e1ssaros deixam o ninho\u201d, <a href=\"https:\/\/dn710101.ca.archive.org\/0\/items\/TheRehlaOfIbnBattuta\/231448482-The-Rehla-of-Ibn-Battuta_text.pdf\" data-wpel-link=\"external\" rel=\"noopener nofollow\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">escreveu<\/a>, em Rehla, o relato da sua grande viagem.<\/p>\n<p>Essa primeira partida transformou-se numa vida inteira de desloca\u00e7\u00f5es. S\u00f3 voltaria muitos anos depois, j\u00e1 com mais de 45 anos, e mesmo ent\u00e3o ainda partiria novamente, em dire\u00e7\u00e3o a al-Andalus e ao sul do Saara.<\/p>\n<p>Ibn Battuta ter\u00e1 percorrido<strong> mais de 120 mil quil\u00f3metros<\/strong> e conhecido mais de 1.500 pessoas. O seu itiner\u00e1rio cobre uma \u00e1rea extraordin\u00e1ria para a \u00e9poca: Norte de \u00c1frica, Egito, Palestina, S\u00edria, Ar\u00e1bia, Iraque, Ir\u00e3o, costa oriental de \u00c1frica, R\u00fassia, \u00c1sia Central, \u00cdndia, Maldivas, Ceil\u00e3o (atual Sri Lanka), Sudeste Asi\u00e1tico e China, al\u00e9m de regi\u00f5es ocidentais como os reinos de Arag\u00e3o e Granada.<\/p>\n<p>Mas curiosamente, sabe-se relativamente pouco sobre a sua vida pessoal para l\u00e1 do que o pr\u00f3prio conta. A Rehla \u00e9 a principal fonte sobre a sua exist\u00eancia. Battuta menciona ter peregrinado quatro vezes a Meca e refere casamentos e div\u00f3rcios ocorridos ao longo das viagens, mas \u00e9 vago em detalhes sobre a inf\u00e2ncia, a fam\u00edlia ou a forma\u00e7\u00e3o inicial. Sabe-se, no entanto, que possu\u00eda conhecimentos jur\u00eddicos isl\u00e2micos, herdados em parte da tradi\u00e7\u00e3o familiar, que lhe permitiram exercer fun\u00e7\u00f5es de juiz e alfaqui em v\u00e1rios dos lugares por que passou.<\/p>\n<p>Na primeira fase da viagem, ficou maravilhado com cidades como <a href=\"https:\/\/zap.aeiou.pt\/antiga-cidade-egipcia-alexandria-desmoronar-663771\u00b4\" data-wpel-link=\"internal\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Alexandria<\/a>: \u201cEsta cidade \u00e9 uma p\u00e9rola resplandecente e luminosa, uma donzela deslumbrante com os seus adornos\u2026\u201d. Passou pelo Cairo, subiu o Nilo, atravessou o Sinai e seguiu para a Palestina e a S\u00edria, chegando finalmente a Meca em 1326.<\/p>\n<p>A partir de Meca, longe de terminar, a aventura seguiu pelo Iraque e pelo Ir\u00e3o, passando por cidades como Bagdade, Bassor\u00e1 e Tabriz, e regressou depois \u00e0 cidade santa, onde ter\u00e1 ficado tr\u00eas anos. Dali partiu para novas rotas, incluindo o I\u00e9men, Om\u00e3, a costa oriental africana e o Golfo P\u00e9rsico. Fala de paisagens, de modos de cultivo, de pr\u00e1ticas religiosas e de costumes locais com uma aten\u00e7\u00e3o que faz da Rehla uma<strong> fonte hist\u00f3rica muito valiosa.<\/strong><\/p>\n<p>Uma das raz\u00f5es dessa riqueza descritiva foi a sua mem\u00f3ria invulgar e a capacidade de recolher hist\u00f3rias, epis\u00f3dios e impress\u00f5es em praticamente todos os lugares por onde passava. Battuta registou milagres, anedotas, h\u00e1bitos alimentares, formas de governo, sinais de hospitalidade.<\/p>\n<p>Em algumas ocasi\u00f5es, foi recebido em pal\u00e1cios por sult\u00f5es e cadis impressionados com a sua reputa\u00e7\u00e3o de viajante; tamb\u00e9m dormiu em alojamentos, ermidas e casas de acolhimento de mu\u00e7ulmanos \u2014 do luxo \u00e0 precariedade, da precariedade ao luxo.<\/p>\n<p>Battuta assumiu tamb\u00e9m um papel ativo nas sociedades que visitava. Agiu por vezes como uma esp\u00e9cie de <strong>mission\u00e1rio<\/strong>, promovendo a f\u00e9 isl\u00e2mica, e exerceu <strong>fun\u00e7\u00f5es judiciais<\/strong>, apoiado pelos seus conhecimentos de direito.<\/p>\n<p>Em certos casos, participou mesmo na aplica\u00e7\u00e3o da lei, como quando <strong>relata ter mandado amputar a m\u00e3o de um ladr\u00e3o<\/strong> na \u00cdndia.<\/p>\n<p>As viagens levaram-no a outros cen\u00e1rios extremos e a situa\u00e7\u00f5es que, hoje, soam quase lend\u00e1rias. Na regi\u00e3o das estepes e do mundo t\u00e1rtaro, descreveu h\u00e1bitos de cavaleiros que bebiam o sangue dos pr\u00f3prios cavalos em andamento; ainda na \u00cdndia, assistiu com horror \u00e0 crema\u00e7\u00e3o de um homem cuja vi\u00fava se lan\u00e7ou para a pira funer\u00e1ria, num ritual de lealdade e honra; no nordeste da R\u00fassia, viajou at\u00e9 \u00e0 chamada \u201cTerra das Trevas\u201d, associada ao com\u00e9rcio de peles; nas Maldivas, aponta que teve quatro mulheres, al\u00e9m das escravas [\u2026] durante um ano e meio que l\u00e1 estive\u201d.<\/p>\n<p>Noutras regi\u00f5es da \u00c1sia, como Ceil\u00e3o e Java, mostra-se atento \u00e0 flora ex\u00f3tica e \u00e0s cren\u00e7as locais, incluindo lendas sobre o monte Sarandib e descri\u00e7\u00f5es de animais e pr\u00e1ticas que o surpreenderam ou chocaram. Por exemplo, viu um rinoceronte pela primeira vez na \u00cdndia e recolheu hist\u00f3rias estranhas sobre sanguessugas voadoras e macacos que \u201cdialogavam\u201d.<\/p>\n<p>Mas nem tudo foi um mar de rosas. Ibn Battuta <strong>passou fome e sede, sofreu doen\u00e7as<\/strong>, enfrentou tempestades e escapou por pouco \u00e0 morte v\u00e1rias vezes. Foi atacado por rebeldes hindus, perdeu embarca\u00e7\u00f5es em naufr\u00e1gios, foi assaltado por piratas e enfrentou condi\u00e7\u00f5es ambientais sever\u00edssimas nas terras da Horda de Ouro.<\/p>\n<p>Ao descrever o Inverno russo, conta que as roupas eram tantas que precisava de ajuda para montar. Tamb\u00e9m menciona m\u00faltiplos epis\u00f3dios de doen\u00e7a, como febres, diarreias e intoxica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A sua passagem por regi\u00f5es marcadas pela <strong>heran\u00e7a mongol<\/strong> tamb\u00e9m ficou documentada. Nelas, culpa Gengis Khan e os seus descendentes pelo rasto de destrui\u00e7\u00e3o que deixou.<\/p>\n<p><strong>Apesar de tanto contacto com outras culturas, curiosamente, a sua vis\u00e3o permaneceu profundamente ancorada na moral isl\u00e2mica.<\/strong> Julgava os costumes alheios \u00e0 luz do Alcor\u00e3o e criticava pr\u00e1ticas que considerava desviantes, como a nudez parcial de mulheres.<\/p>\n<p>Ao regressar a Marrocos, em meados da d\u00e9cada de 1350, recebeu do sult\u00e3o de Fez, Abu Inan, a miss\u00e3o de colocar por escrito as suas experi\u00eancias. O resultado foi a obra de t\u00edtulo longo: <strong>\u201cPresente para aqueles que contemplam as coisas surpreendentes das cidades e as maravilhas das viagens\u201d<\/strong>, que a tradi\u00e7\u00e3o resumiu como Rehla.<\/p>\n<p>Ibn Battuta ditou o texto a Ibn Yuzayy, poeta de <strong>Granada<\/strong>, que acrescentou cita\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, poemas e, possivelmente, alguns elementos imaginativos. Al\u00e9m disso, o viajante <strong>j\u00e1 n\u00e3o tinha o seu caderno de notas<\/strong>, que perdera em Bucara, o que o obrigou a reconstruir epis\u00f3dios passados com base na mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ainda assim, o valor hist\u00f3rico do registo \u00e9 imenso, sublinha a National Geographic. Poucos textos oferecem uma vis\u00e3o t\u00e3o ampla e t\u00e3o vivida do mundo afro-euro-asi\u00e1tico do s\u00e9culo XIV, especialmente do espa\u00e7o isl\u00e2mico em plena vitalidade.<\/p>\n<p>Ao que se sabe, Ibn Battuta n\u00e3o passou por territ\u00f3rio portugu\u00eas na altura em que esteve em al-Andalus. Mas atravessou de Ceuta com a inten\u00e7\u00e3o de participar na defesa da fronteira (jihad), numa altura em que havia amea\u00e7a castelhana sobre Gibraltar. De Gibraltar, para chegar a Granada, passou por (e descreveu) Ronda, Marbella e M\u00e1laga.<\/p>\n<p>    <a href=\"https:\/\/zap.aeiou.pt\/subscrever-newsletter\" data-wpel-link=\"internal\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">&#13;<br \/>\n        <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-575475\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/1771621274_907_2d51fe4a0ba54894421ead1809309ed9-1-450x140.jpg\" alt=\"Subscreva a Newsletter ZAP\" width=\"450\" height=\"140\"\/>&#13;<br \/>\n    <\/a><\/p>\n<p>                <a href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029VaIC4EE2f3EJZPPSbR34\" data-wpel-link=\"external\" rel=\"noopener nofollow\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">&#13;<br \/>\n                    <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-575475\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/1771621275_819_c68c559d956d4ca20f435ed74a6e71e6.png\" alt=\"Siga-nos no WhatsApp\" width=\"175\" height=\"64\"\/>&#13;<br \/>\n                <\/a><\/p>\n<p>                <a href=\"https:\/\/news.google.com\/publications\/CAAiEHRwZondIV71PDjWNoqMduEqFAgKIhB0cGaJ3SFe9Tw41jaKjHbh?hl=en-US&amp;gl=US&amp;ceid=US%3Aen\" data-wpel-link=\"external\" rel=\"noopener nofollow\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">&#13;<br \/>\n                    <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-575475\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/1771621275_36_5123dd8b087b644fdb8f8603acd1bad4.png\" alt=\"Siga-nos no Google News\" width=\"176\" height=\"64\"\/>&#13;<br \/>\n                <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Wikimedia Commons Ilustra\u00e7\u00e3o de Ibn Battuta. 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