{"id":285183,"date":"2026-02-26T22:05:13","date_gmt":"2026-02-26T22:05:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/285183\/"},"modified":"2026-02-26T22:05:13","modified_gmt":"2026-02-26T22:05:13","slug":"deixem-a-genitalia-das-pessoas-em-paz-megafone","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/285183\/","title":{"rendered":"Deixem a genit\u00e1lia das pessoas em paz | Megafone"},"content":{"rendered":"<p>A nova edi\u00e7\u00e3o da Casa dos Segredos traz um que talvez desperte alguma curiosidade. O segredo \u201cmudei de sexo\u201d foi revelado numa entrevista de Cristina Ferreira ao concorrente, onde o que faltou em no\u00e7\u00e3o e empatia, abundou em intromiss\u00e3o e insensibilidade.<\/p>\n<p>Pedro \u00e9 um homem trans que pretende, com a sua participa\u00e7\u00e3o e partilha da sua hist\u00f3ria de vida, derrubar tabus, e mostrar que isto de ser trans n\u00e3o \u00e9 um bicho-de-sete-cabe\u00e7as. No final de contas, anda toda a gente \u00e0 procura da felicidade e de estar bem com o seu corpo.<\/p>\n<p>Infelizmente, assistimos na breve entrevista de sete minutos \u00e0 insensibilidade da apresentadora, que, ao seu bom jeito e sem qualquer tato, <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2021\/06\/11\/p3\/perguntaserespostas\/so-pessoas-trans-nao-binarias-referir-pronomes-mini-guia-1965735\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">exp\u00f5e o deadname <\/a>(\u201cnome morto\u201d em portugu\u00eas, \u00e9 o nome atribu\u00eddo \u00e0 nascen\u00e7a) de Pedro e faz ainda algumas perguntas bastante invasivas no que toca \u00e0 sua genit\u00e1lia e ao seu processo de transi\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero. Perguntas que nunca faria daquela forma a uma pessoa cis, claro est\u00e1.<\/p>\n<p>\u201cAh, mas qual \u00e9 o problema de utilizar um nome que foi dele?\u201d Como a designa\u00e7\u00e3o indica, \u00e9 um \u201cnome morto\u201d, n\u00e3o faz parte da identidade da pessoa e \u00e9, tantas vezes, fonte de desconforto e tristeza, para al\u00e9m de ser usado para invalidar a identidade da pessoa. Mesmo ap\u00f3s o not\u00f3rio e comunicado desconforto e tristeza ao rever as fotos, o deadname foi repetido. Lament\u00e1vel. Algu\u00e9m faltou \u00e0s aulas de Empatia 101.<\/p>\n<p>E a\u00ed vem a cl\u00e1ssica pergunta: \u201cA transforma\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 completa?\u201d. \u201cN\u00f3s temos de ser elucidativos\u2026 o Pedro ainda tem \u00fatero, ainda tem uma vagina?\u201d. Elucidativos para quem? O que \u00e9 que as pessoas telespectadoras t\u00eam a ver com a genit\u00e1lia de outrem? E porque \u00e9 que ser\u00e1 isso a ditar se a transi\u00e7\u00e3o est\u00e1 completa ou n\u00e3o, como se uma pessoa s\u00f3 estivesse completa com um \u00f3rg\u00e3o genital, como se n\u00e3o bastasse a pessoa dizer que \u00e9. Enfim, \u00e9 daquelas quest\u00f5es pelas quais as pessoas t\u00eam uma esquisita obsess\u00e3o que nunca compreenderei. Deixem a genit\u00e1lia das pessoas em paz.<\/p>\n<p>E n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 porque a pessoa est\u00e1 a partilhar a sua hist\u00f3ria num reality show, e para todo o pa\u00eds, que pode ser colocada numa posi\u00e7\u00e3o de detalhar os seus \u00f3rg\u00e3os sexuais e reprodutivos.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o \u00e9 sobre a Cristina nem sobre o Pedro, \u00e9 acima de tudo sobre a obstina\u00e7\u00e3o de qualquer pessoa se achar no direito de questionar o que uma pessoa trans tem como \u00f3rg\u00e3o genital, se \u00e9 funcional, se n\u00e3o \u00e9, se o processo est\u00e1 \u201ccompleto\u201d ou chegou \u201cao fim\u201d. Se, neste caso, j\u00e1 \u00e9 um \u201chomem inteiro\u201d.<\/p>\n<p>Saber da exist\u00eancia deste segredo transportou-me at\u00e9 2013: recordo-me, tal como o Pedro, do Secret Story 4, onde Louren\u00e7o \u00d3din Cunha entrou com o segredo \u201cmudei de sexo este ano\u201d. Recordo-me de ser a primeira vez que ouvia falar sobre pessoas trans e sobre a possibilidade de se poder existir dentro de quem sentimos &#8211; e sabemos &#8211; ser. Recordo-me da forma como foi escrutinado, das explica\u00e7\u00f5es e dos detalhes. Recordo-me de sentir que, embora informativo, tudo fora demasiado invasivo e \u00edntimo.<\/p>\n<p>Mas eram outros tempos e j\u00e1 muita tinta correu, j\u00e1 muita coisa evoluiu no contexto nacional. Volvidos treze anos da participa\u00e7\u00e3o do Louren\u00e7o, talvez esperasse algo diferente, uma abordagem mais respeitosa, menos redutora das viv\u00eancias trans. Esperava que se contassem hist\u00f3rias da viv\u00eancia social de algu\u00e9m que n\u00e3o se identifica com o g\u00e9nero que lhe atribu\u00edram \u00e0 nascen\u00e7a, que desafia o conceito de g\u00e9nero que temos como t\u00e3o imut\u00e1vel na nossa sociedade, que luta pela sua identidade e por quem \u00e9, de forma t\u00e3o corajosa e resiliente. Mas parece que, para alguns, o foco continua a ser o falo que completa o homem e a vulva que completa a mulher.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A nova edi\u00e7\u00e3o da Casa dos Segredos traz um que talvez desperte alguma curiosidade. 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