{"id":287292,"date":"2026-02-28T17:12:50","date_gmt":"2026-02-28T17:12:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/287292\/"},"modified":"2026-02-28T17:12:50","modified_gmt":"2026-02-28T17:12:50","slug":"periodo-chuvoso-leva-cearenses-a-cacar-e-comer-tanajuras-formigas-ricas-em-proteina-ceara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/287292\/","title":{"rendered":"Per\u00edodo chuvoso leva cearenses a ca\u00e7ar e comer tanajuras, formigas ricas em prote\u00edna &#8211; Cear\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><strong>Comer insetos<\/strong> pode parecer incomum, mas n\u00e3o \u00e9 um h\u00e1bito distante. No Cear\u00e1, em cidades como Tiangu\u00e1 e Ubajara, por exemplo, <strong>ca\u00e7ar e comer formigas do g\u00eanero tanajura<\/strong>, tamb\u00e9m chamadas de <strong>sa\u00favas<\/strong>, virou tradi\u00e7\u00e3o entre gera\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cLembro de come\u00e7ar a procurar tanajura com meu av\u00f4, desde pequeno, eu tinha uns 6, 7 anos de idade. Ia com ele na bicicleta e a gente ia passando nos s\u00edtios\u201d, conta o jovem tianguaense Douglas Santos, um entre os muitos que saem para ca\u00e7ar o inseto nesta \u00e9poca de <strong>chuvas mais frequentes no Estado<\/strong>.<\/p>\n<p>Comum na Serra da Ibiapaba, o h\u00e1bito n\u00e3o \u00e9 encontrado apenas em solo cearense. Ele se mant\u00e9m nas regi\u00f5es interioranas de S\u00e3o Paulo, Minas Gerais e Pernambuco. No estado vizinho, o pernambucano Jo\u00e3o Gomes compartilhou a experi\u00eancia de provar a formiga pela primeira vez. Incentivados, ele e a esposa, Ary Mirelle, comeram uma<strong> farofa de tanajuras<\/strong>.<\/p>\n<blockquote class=\"twitter-tweet\"><p>\n\t<a href=\"https:\/\/twitter.com\/nicolasprattes\/status\/2027077899761656150\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">\n<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cPor aqui, <strong>a gente come com farinha<\/strong>, como tira-gosto\u201d, explica Douglas, lembrando do preparo semelhante ao provado pelo artista. Sem temperos, com cuscuz, salgada ou em pratos elaborados, a formiga foi incorporada, com o passar do tempo, aos<strong> h\u00e1bitos culturais das regi\u00f5es<\/strong> e resiste at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, \u00e9 exatamente entre janeiro e mar\u00e7o, per\u00edodo de chuvas no Cear\u00e1, que a ca\u00e7a por elas se torna mais ativa. Nessa \u00e9poca do ano, elas saem dos formigueiros ap\u00f3s as precipita\u00e7\u00f5es em busca de espa\u00e7os mais secos, criando, assim, a oportunidade ideal.<\/p>\n<p>\u201cToda vez que chovia, todo mundo j\u00e1 se reunia e ia atr\u00e1s dos formigueiros para ca\u00e7ar tanajura. A gente pegava para assar mesmo em casa. <strong>Geralmente, pegamos elas nos formigueiros<\/strong>, e fica muita gente procurando. E a\u00ed, quando elas v\u00e3o saindo, vamos pegando\u201d, descreve o cearense.<\/p>\n<p>\t\t\t\tVeja tamb\u00e9m<\/p>\n<p>O inseto, ent\u00e3o, vira complemento de diversos pratos t\u00edpicos, como no caso da farofa experimentada por Jo\u00e3o Gomes. Na serra, elas chegam a ser vendidas para turistas e moradores.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cEm casa, <strong>a gente limpa ela, tira as asas, o ferr\u00e3o e coloca para assar<\/strong>. O modo \u00e9 com \u00e1gua e sal. E a\u00ed voc\u00ea coloca ela na frigideira e vai esperando aquela \u00e1gua secar com a tanajura e o sal. Meu v\u00f4 geralmente tamb\u00e9m<strong> bota farinha e a\u00ed serve como tira-gosto<\/strong>, e \u00e9 muito comum aqui na minha cidade\u201d, comenta Douglas.<\/p>\n<p><strong>Aten\u00e7\u00e3o na hora do preparo<\/strong><\/p>\n<p>Antes de preparar qualquer prato com tanajura, como a farofa, \u00e9 preciso ficar atento a algumas orienta\u00e7\u00f5es. Segundo\u00a0Marina Araujo, diretora do Mercado AlimentaCE, <strong>\u00e9 necess\u00e1rio\u00a0separar a cabe\u00e7a e as asas do inseto antes do cozimento<\/strong>.<\/p>\n<p>&#8220;A parte usada nas receitas \u00e9 apenas a parte mais conhecida como &#8216;bumbum&#8217;, que na verdade \u00e9 o abd\u00f4men da tanajura. Depois desse processo, a melhor forma de preparar \u00e9 fritar em manteiga ou \u00f3leo para ressaltar o sabor terroso e gorduroso da iguaria&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Para a receita da famosa farofa de tanajura, Marina afirma que s\u00e3o utilizados os seguintes ingredientes:\u00a0alho, cebola, farinha de mandioca e sal. &#8220;Os temperos trazem um acompanhamento perfeito para a croc\u00e2ncia e sabor do insumo&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A tanajura \u00e9 um excelente tira-gosto. Quando mordida, a tanajura revela um sabor completamente particular: \u00e9 terroso e gorduroso, al\u00e9m de ser rica em prote\u00edna e lip\u00eddio&#8221;, destaca a diretora da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Comer tanajura \u00e9 saud\u00e1vel?<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo com o consumo presente nas tradi\u00e7\u00f5es alimentares de determinadas regi\u00f5es cearenses, h\u00e1 quem tenha d\u00favidas se a tanajura faz bem ou n\u00e3o ao corpo.<\/p>\n<p>Segundo Yves Patric Quinet, professor do curso de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas da Universidade Estadual do Cear\u00e1 (Uece) e especialista em formigas, <strong>ingeri-la n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 saud\u00e1vel, como tamb\u00e9m \u00e9 recomend\u00e1vel para a preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente<\/strong>.<\/p>\n<p>\n\t\t<img decoding=\"async\" alt=\"Uma panela pequena est\u00e1 sobre o fog\u00e3o, contendo uma mistura escura composta por muitos insetos semelhantes a formigas grandes, imersos em um l\u00edquido oleoso. A mistura cobre quase toda a superf\u00edcie interna da panela. O fog\u00e3o apresenta leves respingos ao redor. Ao fundo, h\u00e1 uma panela met\u00e1lica grande sobre outra boca do fog\u00e3o. Na parte superior da imagem, aparece um emoji de rosto com express\u00e3o neutra e um emoji de formiga.\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Tanajuras.webp.webp\" loading=\"lazy\" width=\"900\" height=\"1600\"\/><\/p>\n<p>\n\t\t\t\tLegenda:<br \/>\n\t\t\t\t Douglas Santos, de Tiangu\u00e1, conta que o h\u00e1bito de ca\u00e7ar as formigas Sa\u00fava \u00e9 comum entre moradores da cidade.\n\t\t\t<\/p>\n<p>\n\t\t\t\tFoto:<br \/>\n\t\t\t\t Reprodu\u00e7\u00e3o\/Arquivo Pessoal\/Douglas Santos.\n\t\t\t<\/p>\n<\/p>\n<p>\u201cA tanajura \u00e9 uma fonte de prote\u00edna altamente recomendada, que at\u00e9<strong> poderia substituir a prote\u00edna de mam\u00edferos<\/strong>, como as vacas, que t\u00eam muitos danos como consequ\u00eancia\u201d, afirma.\u00a0<\/p>\n<blockquote class=\"blockquote border-accent not-italic\">\n<p>\n\t\t\tCem gramas do inseto t\u00eam cerca de 356 calorias, com 45% da composi\u00e7\u00e3o corporal de \u00e1gua e 20% de prote\u00ednas.\n\t\t<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Segundo o pesquisador, a pr\u00e1tica de consumir insetos tamb\u00e9m \u00e9 incentivada pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO): &#8220;Quando comemos insetos, estamos salvando o planeta do desmatamento, do gasto de \u00e1gua e da emiss\u00e3o de gases poluentes. N\u00e3o h\u00e1 perigo algum em consumir esses animais, al\u00e9m de que esse \u00e9 um h\u00e1bito comum e muito antigo&#8221;, diz.<\/p>\n<p>O professor ainda destaca que a estrutura corporal da formiga \u00e9 um dos grandes respons\u00e1veis pela popularidade da iguaria.<\/p>\n<p>Durante a \u00e9poca da revoada, quando as tanajuras deixam suas col\u00f4nias em busca de outros ambientes, o corpo delas se enche de reservas de energia essenciais para a sobreviv\u00eancia no novo habitat.<\/p>\n<blockquote class=\"blockquote border-accent not-italic\">\n<p>\n\t\t\tEssas tanajuras s\u00e3o cheias de prote\u00ednas de alto valor, al\u00e9m de gorduras insaturadas e vitamina B12. Elas acumulam reservas durante a revoada. Primeiro, os m\u00fasculos do t\u00f3rax ficam muito mais potentes para ela poder voar. Depois v\u00eam as gorduras, porque quando ela vai come\u00e7ar a fundar uma col\u00f4nia, ela vai sozinha, ent\u00e3o precisa sobreviver at\u00e9 surgirem as outras formigas\n\t\t<\/p>\n<p>\t\t\t\t<b class=\"text-accent\"><br \/>\n\t\t\t\t\tYves Patric Quinet<br \/>\n\t\t\t\t<\/b><\/p>\n<p>\n\t\t\t\t\t\tProfessor de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas na Uece\n\t\t\t\t\t<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Pr\u00e1tica de comer tanajura vem dos ind\u00edgenas<\/strong><\/p>\n<p>Engana-se quem pensa que o h\u00e1bito de comer tanajuras se popularizou nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Pesquisas indicam <strong>a pr\u00e1tica recorrente no Brasil ainda no s\u00e9culo 17, entre tribos ind\u00edgenas<\/strong>.<\/p>\n<p>No Cear\u00e1, o surgimento teria ocorrido na tribo Tabajara, que at\u00e9 hoje habita a Serra da Ibiapaba, e est\u00e1 descrito no livro &#8220;Lendas, contos e mitos da Ibiapaba&#8221;, do escritor Jo\u00e3o Bosco Gaspar.\u00a0<\/p>\n<p>\t\t\t\tVeja tamb\u00e9m<\/p>\n<p>O autor resgata que portugueses contavam aos ind\u00edgenas sobre a possibilidade de se fortalecer por meio da ingest\u00e3o da iguaria. Al\u00e9m disso, eles eram os respons\u00e1veis pela alega\u00e7\u00e3o de que \u201c<strong>quem comesse tanajura n\u00e3o passaria pela morte, voava para o infinito, como um guerreiro forte<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEsse consumo das tanajuras \u00e9 muito antigo mesmo. Ele foi recuperado pelos <strong>povos de origem europeia <\/strong>que se instalaram no norte e nordeste do Brasil, mas essa tradi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 observada em outras partes do Pa\u00eds, gra\u00e7as aos ind\u00edgenas\u201d, conta Yves Patric Quinet.<\/p>\n<p>Se depender das novas gera\u00e7\u00f5es nos munic\u00edpios cearenses, este \u00e9 um h\u00e1bito para permanecer por ainda mais tempo. \u201cHoje eu tenho 22 anos, e as pessoas costumam comer por aqui, juro. Tem umas que n\u00e3o gostam, n\u00e9? Mas \u00e9 normal. Tem quem goste e tem quem n\u00e3o\u201d, opina Douglas.<\/p>\n<p><strong>*Estagi\u00e1rio sob supervis\u00e3o da jornalista Mariana Lazari.<\/strong><\/p>\n<p>\t\t\t\t\t<script async src=\"https:\/\/platform.twitter.com\/widgets.js\" charset=\"utf-8\"><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Comer insetos pode parecer incomum, mas n\u00e3o \u00e9 um h\u00e1bito distante. No Cear\u00e1, em cidades como Tiangu\u00e1 e&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":287293,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[86],"tags":[116,32,33,117,7521],"class_list":["post-287292","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-saude","tag-health","tag-portugal","tag-pt","tag-saude","tag-sociedade-e-saude"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116149381129543453","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/287292","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=287292"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/287292\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/287293"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=287292"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=287292"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=287292"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}