{"id":289702,"date":"2026-03-02T19:34:15","date_gmt":"2026-03-02T19:34:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/289702\/"},"modified":"2026-03-02T19:34:15","modified_gmt":"2026-03-02T19:34:15","slug":"a-europa-esta-em-alerta-por-causa-do-irao-e-um-ataque-de-lobo-solitario-e-uma-possibilidade-e-portugal-nos-estamos-na-periferia-o-terrorismo-quer-as-manchetes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/289702\/","title":{"rendered":"A Europa est\u00e1 em alerta por causa do Ir\u00e3o e &#8220;um ataque de lobo solit\u00e1rio \u00e9 uma possibilidade&#8221;. E Portugal? &#8220;N\u00f3s estamos na periferia, o terrorismo quer as manchetes&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>\t                AN\u00c1LISE || O risco de retalia\u00e7\u00e3o iraniana em solo europeu existe, mas n\u00e3o surge, para j\u00e1, como cen\u00e1rio de ataque maci\u00e7o e organizado. Mesmo que o regime de Teer\u00e3o se mantenha de p\u00e9, &#8220;n\u00e3o haver\u00e1 certamente um risco muito elevado para a Europa&#8221;, ainda que seja preciso estar atento a amea\u00e7as mais difusas<\/p>\n<p data-end=\"869\" data-start=\"183\">A guerra voltou a chegar \u00e0 Europa pela margem. N\u00e3o com colunas de tanques nem com uma frente aberta no continente, mas com o sobressalto de dois m\u00edsseis iranianos lan\u00e7ados na dire\u00e7\u00e3o de Chipre, Estado-membro da Uni\u00e3o Europeia no Mediterr\u00e2neo Oriental, e com o sinal pol\u00edtico que isso transporta: o conflito entre Israel, os Estados Unidos e o Ir\u00e3o deixou de ser apenas uma crise distante, confinada ao Golfo, a Teer\u00e3o ou a Telavive, e passou a tocar, mesmo que lateralmente, territ\u00f3rio europeu. Foi o suficiente para refor\u00e7ar alertas, apertar vigil\u00e2ncias e reabrir uma pergunta que regressa sempre que o M\u00e9dio Oriente entra em combust\u00e3o: haver\u00e1 risco de retalia\u00e7\u00e3o terrorista na Europa?<\/p>\n<p data-end=\"1502\" data-start=\"871\">Jorge Silva Carvalho responde por cen\u00e1rios. Jos\u00e9 Manuel Anes responde por prud\u00eancia. Os dois olham para o mesmo mapa, mas com lentes diferentes. O antigo chefe do Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00f5es Estrat\u00e9gicas de Defesa coloca desde logo um trav\u00e3o ao alarmismo: \u201cSe o regime iraniano se mantiver enfraquecido, n\u00e3o haver\u00e1 certamente um risco muito elevado para a Europa\u201d. Jos\u00e9 Manuel Anes, antigo presidente do Observat\u00f3rio de Seguran\u00e7a, Criminalidade Organizada e Terrorismo, n\u00e3o afasta a amea\u00e7a, mas desloca-a para um terreno menos linear, mais fragmentado, mais dif\u00edcil de antecipar: \u201cUm ataque de algum lobo solit\u00e1rio \u00e9 uma possibilidade\u201d.<\/p>\n<p data-end=\"1502\" data-start=\"871\">Pode ter sido isso mesmo que aconteceu na Am\u00e9rica na madrugada deste domingo, quando um homem abriu fogo sobre a multid\u00e3o, matando duas pessoas. Sem adiantar para j\u00e1 muitos pormenores, o FBI admitiu que est\u00e1 a investigar o caso como um <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/austin\/texas\/ha-indicios-de-terrorismo-apos-tiroteio-que-fez-tres-mortos-nos-eua\/20260301\/69a4ab7cd34e28842c813975\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">poss\u00edvel ataque terrorista<\/a> de inspira\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica.<\/p>\n<p data-end=\"1502\" data-start=\"871\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"563\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1772480053_778_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p data-end=\"1596\" data-start=\"1504\">\u00c9 nesse espa\u00e7o, entre o risco limitado e a possibilidade difusa, que a Europa se move agora. A hist\u00f3ria recente do terrorismo em solo europeu ajuda a perceber porqu\u00ea. Durante d\u00e9cadas, o terror que matou em Madrid, Londres, Paris, Bruxelas, Nice, Berlim ou Viena teve sobretudo matriz sunita, ligado \u00e0 Al-Qaeda, ao autoproclamado Estado Isl\u00e2mico ou \u00e0s suas &#8220;franjas&#8221;. O Ir\u00e3o, pot\u00eancia xiita, sempre operou de outra maneira: mais pelo Estado, pela clandestinidade controlada, pelos servi\u00e7os, pelos intermedi\u00e1rios, pelas mil\u00edcias aliadas, pelos chamados &#8220;proxies&#8221;. Menos pela vaga descentralizada de c\u00e9lulas autogeradas que marcou o jihadismo sunita. Essa diferen\u00e7a n\u00e3o elimina o perigo. Mas muda-lhe a forma. \u201cOs atentados terroristas na Europa t\u00eam sido patrocinados por organiza\u00e7\u00f5es isl\u00e2micas sunitas. N\u00e3o s\u00e3o muito vulgares atentados ligados ao Ir\u00e3o por essa Europa fora\u201d, enquadra Jos\u00e9 Manuel Anes. A ressalva surge logo a seguir: \u201cPode haver, de facto, retalia\u00e7\u00e3o por via dos proxies. O Hezbollah \u00e9 claramente um candidato. Hamas, Jihad Isl\u00e2mica Palestiniana: quem \u00e9 que pode assegurar que algu\u00e9m n\u00e3o poder\u00e1 fazer um atentado na Europa?\u201d<\/p>\n<p data-end=\"3239\" data-start=\"2657\">Jorge Silva Carvalho constr\u00f3i a mesma ideia a partir de uma l\u00f3gica mais estrutural. Para ele, o problema central n\u00e3o est\u00e1, para j\u00e1, num Ir\u00e3o ainda inteiro, mesmo que golpeado. Est\u00e1 no que pode sobrar se esse poder se partir. \u201cN\u00f3s temos dois cen\u00e1rios, basicamente.\u201d O primeiro \u00e9 o de um regime enfraquecido, ferido, com menos autoridade, menos capacidade de imposi\u00e7\u00e3o e um aiatola, que suceda a\u00a0Khamenei, j\u00e1 sem o peso de outros tempos. \u201cVai tentar sarar feridas, restabelecer-se internamente, assegurar o controlo do pa\u00eds. Vamos assistir a uma morte lenta do regime: o regime acabou; pode n\u00e3o acabar \u00e9 j\u00e1.\u201d Ou seja, um regime encostado \u00e0 parede tende primeiro a olhar para dentro. A rua antes da fronteira. A sobreviv\u00eancia antes da vingan\u00e7a. O controlo dos aparelhos antes da aventura externa. Na leitura do antigo respons\u00e1vel do Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00f5es Estrat\u00e9gicas de Defesa, o poder iraniano, se sobreviver enquanto estrutura, &#8220;procurar\u00e1 antes de mais tempo, coes\u00e3o e algum medo interno que lhe permita n\u00e3o cair de imediato&#8221;. E, enquanto esse poder procurar durar, &#8220;n\u00e3o ter\u00e1 interesse em se expor a uma escalada cega que o ponha ainda mais em risco&#8221;.<\/p>\n<p data-end=\"4525\" data-start=\"3832\">O segundo cen\u00e1rio \u00e9 outro. Mais irregular. Mais dif\u00edcil de travar. \u201cSe o regime cair, vamos ter um problema.\u201d Jorge Silva Carvalho recua ent\u00e3o a exemplos que a hist\u00f3ria recente j\u00e1 deixou: o Afeganist\u00e3o depois da retirada norte-americana, o Iraque depois da queda de Saddam Hussein, os aparelhos militares e de seguran\u00e7a que deixam de existir no papel mas n\u00e3o desaparecem realmente, os homens que se dispersam, as lealdades que se recomp\u00f5em noutro lado, a t\u00e9cnica e o ressentimento que n\u00e3o evaporam. \u201cO problema, quando est\u00e1 monol\u00edtico, quando tem um assento de poder, \u00e9 um; mas depois, quando se parte a pedra, a pedra transforma-se em v\u00e1rias pedrinhas que rolam.\u201d<\/p>\n<p data-end=\"4525\" data-start=\"3832\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"563\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1772480053_405_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p data-end=\"5146\" data-start=\"4527\">\u00c9 essa imagem, a da pedra que se desfaz em fragmentos, que sustenta a parte mais inquietante da sua an\u00e1lise. N\u00e3o porque preveja uma ofensiva maci\u00e7a contra a Europa. Pelo contr\u00e1rio. \u201cEu, apesar de tudo, n\u00e3o vejo um risco acrescido para a Europa em qualquer dos cen\u00e1rios.\u201d Mas porque admite que um Ir\u00e3o fragmentado pode libertar quadros da Guarda Revolucion\u00e1ria, operacionais, homens treinados, redes secund\u00e1rias, &#8220;gente muito ligada ao centro do poder anterior e com vontade de fazer vingan\u00e7a\u201d. A amea\u00e7a, nesse caso, deixaria de obedecer a uma hierarquia n\u00edtida. &#8220;Passaria a ser mais difusa, mais oportunista, mais solta.&#8221;<\/p>\n<p data-end=\"5760\" data-start=\"5148\">Jos\u00e9 Manuel Anes chega a um ponto semelhante por outro caminho. O tema que mais o preocupa n\u00e3o \u00e9 tanto a grande opera\u00e7\u00e3o centralizada, mas a capacidade de cont\u00e1gio de um discurso de retalia\u00e7\u00e3o. \u201cO Ir\u00e3o p\u00f5e muito acento na sua propaganda, na a\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, nessa narrativa bastante assustadora para os advers\u00e1rios.\u201d E \u00e9 a\u00ed que introduz uma hip\u00f3tese que pesa mais nas democracias abertas do que nos cen\u00e1rios cl\u00e1ssicos de guerra: a influ\u00eancia sobre indiv\u00edduos isolados, sobre gente que n\u00e3o precisa de ordens formais para passar ao ato. \u201cPode influenciar, e sobretudo os lobos solit\u00e1rios. Essa \u00e9 que \u00e9 a quest\u00e3o.\u201d A frase de Anes tem por tr\u00e1s um racioc\u00ednio sobre a forma como a viol\u00eancia pol\u00edtica circula hoje. O Estado Isl\u00e2mico ensinou a Europa a temer n\u00e3o apenas a c\u00e9lula, mas tamb\u00e9m a inspira\u00e7\u00e3o. A propaganda, a internet, a narrativa de humilha\u00e7\u00e3o e vingan\u00e7a, a transforma\u00e7\u00e3o de causas distantes em a\u00e7\u00e3o \u00edntima. Jos\u00e9 Manuel Anes v\u00ea a possibilidade de um mecanismo semelhante, ainda que em moldes diferentes, na atual crise iraniana. \u201cAquele discurso, aquela narrativa iraniana, pode entusiasmar alguns lobos solit\u00e1rios que por a\u00ed est\u00e3o, ou mesmo algu\u00e9m ligado \u00e0 Guarda Revolucion\u00e1ria iraniana.\u201d<\/p>\n<p data-end=\"7055\" data-start=\"6345\">Isto n\u00e3o significa que o Ir\u00e3o opere como o universo jihadista sunita operou. Jorge Silva Carvalho insiste muito nessa diferen\u00e7a e volta a ela v\u00e1rias vezes, com uma nuance importante. O Ir\u00e3o tem redes. O Ir\u00e3o usou a sua proximidade ao Hezbollah para criar ramifica\u00e7\u00f5es em v\u00e1rias geografias. \u201cO que o Ir\u00e3o tem feito \u00e9 criar, atrav\u00e9s da di\u00e1spora, sobretudo da di\u00e1spora libanesa e da di\u00e1spora iraniana direta, ramifica\u00e7\u00f5es e c\u00e9lulas em v\u00e1rias partes do mundo.\u201d Mas acrescenta logo o limite dessa expans\u00e3o: \u201cO Ir\u00e3o n\u00e3o tem uma tradi\u00e7\u00e3o de dispers\u00e3o de grupos autocomandados, de c\u00e9lulas que n\u00e3o tenham uma l\u00f3gica estatal por tr\u00e1s.\u201d \u00c9 uma distin\u00e7\u00e3o decisiva. O xiismo, sublinha, &#8220;est\u00e1 mais contido&#8221;, menos espalhado, menos dado \u00e0 autonomiza\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica que marcou o jihadismo sunita. O Hezbollah, na sua leitura, &#8220;aproxima-se mais da guerrilha organizada&#8221;, com territorialidade, dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e racionalidade de poder, &#8220;do que da l\u00f3gica errante da c\u00e9lula solta&#8221;. Os houthis pertencem igualmente &#8220;a um quadro de ocupa\u00e7\u00e3o territorial e de guerra localizada&#8221;. O Hamas, por seu lado, &#8220;\u00e9 sunita e n\u00e3o nasce do mesmo universo religioso&#8221;, mesmo que tenha mantido rela\u00e7\u00f5es de c\u00fapula com Teer\u00e3o. Tudo isto conta quando se tenta medir o risco europeu: &#8220;N\u00e3o basta saber quem odeia quem; \u00e9 preciso perceber como cada ator costuma agir, com que meios, com que tradi\u00e7\u00e3o e com que grau de disciplina&#8221;.<\/p>\n<p data-end=\"8481\" data-start=\"7802\">Ao mesmo tempo, nenhum dos dois especialistas embarca na ilus\u00e3o de que a Europa est\u00e1 fora do raio de a\u00e7\u00e3o. Jos\u00e9 Manuel Anes formula-o de forma mais direta. \u201cOs alvos priorit\u00e1rios s\u00e3o os Estados Unidos e Israel.\u201d Jorge Silva Carvalho acompanha sem hesita\u00e7\u00e3o. Mas Anes introduz uma consequ\u00eancia pr\u00e1tica: por serem tamb\u00e9m os alvos mais protegidos, com sistemas antim\u00edssil, seguran\u00e7a refor\u00e7ada, servi\u00e7os mais musculados e uma infraestrutura de defesa incomparavelmente mais densa, &#8220;n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que uma eventual a\u00e7\u00e3o passe a procurar espa\u00e7os menos blindados&#8221;. N\u00e3o necessariamente mais importantes em termos estrat\u00e9gicos, &#8220;mas talvez mais acess\u00edveis em termos operacionais&#8221;.<\/p>\n<p>Israel como aliado <\/p>\n<p data-end=\"9182\" data-start=\"8483\">A Europa \u00e9 &#8220;menos blindada&#8221; e &#8220;mais\u00a0acess\u00edvel&#8221;, pelo menos por compara\u00e7\u00e3o com norte-americanos e israelitas. E \u00e9 aqui que Jorge Silva Carvalho traz Israel para o centro da an\u00e1lise. N\u00e3o apenas como alvo ou beligerante, mas como ator que melhor conhece o advers\u00e1rio. \u201cA entidade que melhor conhece o Ir\u00e3o e este regime do Ir\u00e3o, e que tem melhores fontes no terreno, \u00e9 Israel.\u201d Na sua leitura, o componente decisivo desta guerra n\u00e3o \u00e9 apenas o m\u00fasculo militar norte-americano no terreno, nem o alcance dos bombardeamentos. \u00c9 o conhecimento, acumulado e infiltrado, que os israelitas t\u00eam do aparelho iraniano. E isso tem uma consequ\u00eancia para a Europa: \u201cA coopera\u00e7\u00e3o com Israel e com a Mossad \u00e9 fundamental para garantir a nossa seguran\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p data-end=\"9182\" data-start=\"8483\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"667\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1772480054_924_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p data-end=\"9757\" data-start=\"9184\">A observa\u00e7\u00e3o arrasta outra, mais pol\u00edtica. Nos \u00faltimos meses, as capitais europeias &#8220;afastaram-se parcialmente de Israel por causa de Gaza&#8221;, dos custos humanos da guerra e da radicaliza\u00e7\u00e3o do executivo israelita, &#8220;porque \u00e9 um regime, enfim, com algumas liga\u00e7\u00f5es \u00e0 extrema-direita e conservadorismo religioso&#8221;.\u00a0Jorge Silva Carvalho percebe esse afastamento. Mas lembra que uma coisa \u00e9 a dist\u00e2ncia diplom\u00e1tica, outra \u00e9 a depend\u00eancia operacional. Ao n\u00edvel das tecnologias de defesa e da contraterrorismo, argumenta, &#8220;Israel tornou-se um parceiro incontorn\u00e1vel&#8221;. Ainda mais agora, quando o problema em causa \u00e9 a proje\u00e7\u00e3o internacional de redes ligadas ao Ir\u00e3o e \u00e0 Guarda Revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p data-end=\"926\" data-start=\"206\">O pano de fundo regional tamb\u00e9m pesa. O Ir\u00e3o n\u00e3o enfrenta apenas Israel. Disputa h\u00e1 d\u00e9cadas a hegemonia do M\u00e9dio Oriente com a Ar\u00e1bia Saudita, numa rivalidade que mistura religi\u00e3o, poder regional e hist\u00f3ria longa. Jorge Silva Carvalho convoca precisamente essa profundidade para enquadrar o presente: \u201cOs grandes rivais do Ir\u00e3o sempre foram a Ar\u00e1bia Saudita. Primeiro, pelo conflito religioso, pelos lugares santos. O mundo \u00e1rabe sempre se acanhou em rela\u00e7\u00e3o ao mundo persa; mesmo historicamente, a P\u00e9rsia teve uma tradi\u00e7\u00e3o muito mais rica.\u201d E, ao recuar a essa fratura entre o universo persa e o universo \u00e1rabe, afasta a ideia de uma frente homog\u00e9nea, como se toda a regi\u00e3o respondesse da mesma maneira ao mesmo choque.<\/p>\n<p data-end=\"926\" data-start=\"206\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"667\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1772480054_307_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p data-end=\"1529\" data-start=\"928\">\u00c9 tamb\u00e9m por isso que, na leitura do antigo chefe do Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00f5es Estrat\u00e9gicas de Defesa, a resposta iraniana deve ser lida com grada\u00e7\u00f5es. \u201cO Ir\u00e3o n\u00e3o atacou propriamente esses pa\u00edses, porque o Ir\u00e3o ataca bases americanas e interesses americanos nesses pa\u00edses. N\u00e3o ataca propriamente os pa\u00edses.\u201d A nuance importa. N\u00e3o absolve Teer\u00e3o de nada, mas ajuda a perceber que a retalia\u00e7\u00e3o procurou atingir alvos que o regime identifica como diretamente ligados ao ataque, e n\u00e3o abrir, pelo menos para j\u00e1, uma guerra indiscriminada com todo o arco \u00e1rabe onde os Estados Unidos mant\u00eam presen\u00e7a militar.<\/p>\n<p data-end=\"2347\" data-start=\"1531\">Esse detalhe ajuda tamb\u00e9m a relativizar outro medo europeu: o de uma expans\u00e3o cega, indiferenciada, sem crit\u00e9rio pol\u00edtico nem hierarquia de inimigos. Jorge Silva Carvalho n\u00e3o ignora o risco, mas insiste em que o Ir\u00e3o continua a distinguir planos e alvos. Mesmo quando a conversa chega \u00e0 Guarda Revolucion\u00e1ria, trava a tenta\u00e7\u00e3o de simplificar. \u201cTenho dificuldades em catalog\u00e1-la especificamente como grupo terrorista pela exist\u00eancia do Estado do Ir\u00e3o.\u201d A reserva n\u00e3o o impede de deixar o aviso principal: enquanto este regime se mantiver, a l\u00f3gica ser\u00e1 uma; se cair, a natureza da amea\u00e7a muda. \u201cGrande parte da Guarda est\u00e1 dentro do pa\u00eds, do Ir\u00e3o. Os problemas v\u00e3o ser dentro do Ir\u00e3o.\u201d C\u00e1 fora, admite, o risco sobe sobretudo para \u201cinteresses israelitas\u201d e \u201cinteresses americanos\u201d, mais do que para a Europa em geral.<\/p>\n<p>A base das Lajes pode ser algo &#8220;secundar\u00edssimo&#8221;, mas uma &#8220;possibilidade&#8221; <\/p>\n<p data-end=\"923\" data-start=\"215\">A pergunta chega sempre assim, quase por reflexo nacional: e Portugal? E a base das Lajes? E o facto de o territ\u00f3rio portugu\u00eas continuar a cruzar-se, mesmo na periferia do mapa, com a log\u00edstica militar norte-americana? A hip\u00f3tese n\u00e3o \u00e9 descartada por Jorge Silva Carvalho, mas \u00e9 rapidamente remetida para a escala certa. \u201cImagine o pior cen\u00e1rio: v\u00e1rios grupos terroristas a emanar do atual regime iraniano, por vingan\u00e7a, uns mais ligados \u00e0 Guarda Revolucion\u00e1ria, outros mais religiosos ou radicais, e queriam come\u00e7ar a p\u00f4r bombas por a\u00ed. H\u00e1 muito alvo.\u201d \u00c9 a partir dessa hierarquia de alvos que coloca Portugal no seu devido lugar: \u201cMesmo as Lajes e mesmo Portugal seriam uma coisa secundar\u00edssima\u201d.<\/p>\n<p data-end=\"923\" data-start=\"215\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"667\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1772480054_570_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p data-end=\"1625\" data-start=\"925\">A formula\u00e7\u00e3o n\u00e3o serve para tranquilizar de forma ing\u00e9nua. Serve para medir o que pesa mais numa l\u00f3gica terrorista: visibilidade, centralidade, eco medi\u00e1tico. Jorge Silva Carvalho leva o racioc\u00ednio at\u00e9 ao fim. \u201cPor exemplo, uma bomba posta em Londres n\u00e3o tem o significado que uma bomba posta em Lisboa.\u201d E logo a seguir sintetiza a regra que, na sua leitura, continua a ordenar este tipo de viol\u00eancia: \u201cO terrorismo privilegia-se por aquilo que lhe d\u00e1 manchetes, sempre. O importante \u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o e a parte medi\u00e1tica\u201d. \u00c9 por isso que fala numa diferen\u00e7a entre centro e periferia, n\u00e3o apenas do ponto de vista geogr\u00e1fico, mas tamb\u00e9m simb\u00f3lico. \u201cNisso n\u00f3s estamos um bocadinho sempre na periferia.\u201d<\/p>\n<p data-end=\"2447\" data-start=\"1627\">Essa periferia, no entanto, n\u00e3o significa neutralidade. Portugal integra o sistema atl\u00e2ntico, mant\u00e9m compromissos estrat\u00e9gicos com os Estados Unidos e tem nos A\u00e7ores uma infraestrutura que, em certos momentos, pode voltar a ganhar relev\u00e2ncia operacional. O antigo chefe do Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00f5es Estrat\u00e9gicas de Defesa n\u00e3o ignora esse ponto, mas enquadra-o sem dramatiza\u00e7\u00e3o. \u201cSe houvesse um alvo espec\u00edfico &#8211; algu\u00e9m que viesse por aqui, ou as Lajes, porque aterram l\u00e1 uns avi\u00f5es, ou porque l\u00e1 estivesse um C-5 Galaxy, daqueles maiores -, poderia haver essa possibilidade.\u201d Mas Jorge Silva Carvalho trava logo a hip\u00f3tese e devolve-a \u00e0 escala real do problema: \u201cS\u00f3 que a base das Lajes tamb\u00e9m praticamente n\u00e3o tem tido utiliza\u00e7\u00e3o, tem estado ao abandono, tirando agora neste momento e quando foi a guerra dos 12 dias, em junho do ano passado&#8221;.<\/p>\n<p data-end=\"562\" data-start=\"499\">\u00c9 nesse equil\u00edbrio &#8211; risco acrescido, mas risco lateral &#8211; que fixa a sua conclus\u00e3o para o caso portugu\u00eas. \u201cExiste, sim, um aumento do risco, mas n\u00e3o seria um aumento de risco significativo, por esta l\u00f3gica da periferia versus centralidade.\u201d O ponto central da sua an\u00e1lise mant\u00e9m-se: numa eventual vaga de retalia\u00e7\u00e3o, &#8220;os alvos preferenciais continuariam a ser os interesses norte-americanos e israelitas mais centrais, mais expostos, mais carregados de valor pol\u00edtico e medi\u00e1tico&#8221;. Portugal surgiria depois, muito depois, na lista impl\u00edcita dessa amea\u00e7a.<\/p>\n<p data-end=\"562\" data-start=\"499\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"667\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1772480055_369_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p data-end=\"3736\" data-start=\"3003\">Jos\u00e9 Manuel Anes aproxima-se do mesmo tema por outro caminho, menos centrado na hierarquia dos alvos e mais na capacidade nacional para prevenir. \u201cTemos que estar prevenidos, sem d\u00favida nenhuma.\u201d A frase abre uma resposta menos te\u00f3rica, mais institucional, quase mais dom\u00e9stica, no melhor sentido do termo. Quando olha para Portugal, o antigo presidente do Observat\u00f3rio de Seguran\u00e7a, Criminalidade Organizada e Terrorismo n\u00e3o come\u00e7a pela vulnerabilidade: come\u00e7a pelos instrumentos. \u201cPortugal tem, atrav\u00e9s do Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00f5es de Seguran\u00e7a, a parte interna, o Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00f5es Estrat\u00e9gicas de Defesa, a parte externa, muita compet\u00eancia. Tamb\u00e9m temos a Pol\u00edcia Judici\u00e1ria, que tem a sua Unidade Nacional de Contraterrorismo, igualmente competente.\u201d<\/p>\n<p data-end=\"4619\" data-start=\"3738\">N\u00e3o \u00e9 um elogio abstrato ao aparelho de Estado. \u00c9 uma leitura assente na ideia de articula\u00e7\u00e3o e de experi\u00eancia acumulada. Jos\u00e9 Manuel Anes conhece esse ecossistema por dentro e, por isso, insiste menos na ret\u00f3rica do medo do que no trabalho de bastidores que uma conjuntura destas exige. \u201cIsso \u00e9, de facto, uma garantia, porque temos gente competente, dedicada.\u201d Mas a verdadeira chave da sua resposta vem a seguir e desloca o foco do plano nacional para a rede internacional em que o pa\u00eds se apoia. \u201cTemos, sobretudo, uma quest\u00e3o fundamental, que \u00e9 a permuta de informa\u00e7\u00f5es com os pa\u00edses amigos.\u201d E enumera esses pa\u00edses: \u201cAl\u00e9m de Espanha e Fran\u00e7a, tamb\u00e9m com Marrocos. \u00c9 extremamente importante.\u201d Quando a conversa chega a Israel, n\u00e3o hesita: \u201c\u00c9 fundamental, para trocar informa\u00e7\u00f5es, haver confian\u00e7a m\u00fatua&#8221;.\u00a0Essa confian\u00e7a, no seu caso, tem at\u00e9 uma mem\u00f3ria pessoal. Jos\u00e9 Manuel Anes recua a 1986, ao est\u00e1gio de explosivos que fez em Israel por indica\u00e7\u00e3o de Marques Vidal, ent\u00e3o diretor nacional da Pol\u00edcia Judici\u00e1ria. O epis\u00f3dio poderia soar lateral, mas n\u00e3o \u00e9. Serve para mostrar que a coopera\u00e7\u00e3o entre servi\u00e7os n\u00e3o nasce do nada quando a crise explode. Faz-se ao longo de d\u00e9cadas, entre institui\u00e7\u00f5es que se reconhecem. \u201cOs israelitas diziam: em Portugal s\u00f3 temos confian\u00e7a na Pol\u00edcia Judici\u00e1ria.\u201d Na altura, recorda, os servi\u00e7os de informa\u00e7\u00f5es portugueses estavam ainda a come\u00e7ar e n\u00e3o inspiravam a mesma seguran\u00e7a aos interlocutores israelitas. O que lhe interessa sublinhar, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 a fotografia desse tempo, mas a diferen\u00e7a para o presente: \u201cEstamos hoje mais preparados do que nessa altura, certamente&#8221;.<\/p>\n<p data-end=\"5924\" data-start=\"5480\">O seu retrato de Portugal, por isso, n\u00e3o \u00e9 o de um pa\u00eds blindado, mas o de um pa\u00eds menos vulner\u00e1vel do que seria h\u00e1 algumas d\u00e9cadas. \u201cHoje em dia, ningu\u00e9m pode estar descansado. N\u00e3o h\u00e1 risco zero. Risco zero n\u00e3o existe\u201d A frase n\u00e3o alivia nem agrava: coloca as coisas no seu lugar. &#8220;Mas l\u00e1 que estamos melhor do que est\u00e1vamos aqui h\u00e1 10 anos, h\u00e1 20, estamos. E a coopera\u00e7\u00e3o internacional \u00e9 uma chave fundamental para isto.\u201d Portugal n\u00e3o \u00e9 o centro desta amea\u00e7a. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 fora dela. Fica fora do centro da mira, mas sem o direito de descer a guarda. \u201cExiste, sim, um aumento do risco, mas n\u00e3o ser\u00e1 um aumento de risco significativo\u201d, enquadra Jorge Silva Carvalho. Jos\u00e9 Manuel Anes n\u00e3o alivia mais do que isto: &#8220;Conv\u00e9m prevenir para n\u00e3o remediar\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"AN\u00c1LISE || O risco de retalia\u00e7\u00e3o iraniana em solo europeu existe, mas n\u00e3o surge, para j\u00e1, como cen\u00e1rio&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":289703,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[50],"tags":[609,836,611,27,28,607,608,333,832,604,135,610,476,413,445,15,16,301,830,14,5453,259,603,25,26,570,21,22,831,833,62,834,12,13,19,20,835,602,52,32,23,24,1115,1717,8270,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":["post-289702","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-mundo","tag-alerta","tag-analise","tag-ao-minuto","tag-breaking-news","tag-breakingnews","tag-cnn","tag-cnn-portugal","tag-comentadores","tag-costa","tag-crime","tag-desporto","tag-direto","tag-economia","tag-eua","tag-europa","tag-featured-news","tag-featurednews","tag-governo","tag-guerra","tag-headlines","tag-irao","tag-israel","tag-justica","tag-latest-news","tag-latestnews","tag-live","tag-main-news","tag-mainnews","tag-mais-vistas","tag-marcelo","tag-mundo","tag-negocios","tag-news","tag-noticias","tag-noticias-principais","tag-noticiasprincipais","tag-opiniao","tag-pais","tag-politica","tag-portugal","tag-principais-noticias","tag-principaisnoticias","tag-regime","tag-seguranca","tag-terrorismo","tag-top-stories","tag-topstories","tag-ultimas","tag-ultimas-noticias","tag-ultimasnoticias","tag-world","tag-world-news","tag-worldnews"],"share_on_mastodon":{"url":"","error":"Validation failed: Text character limit of 500 exceeded"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/289702","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=289702"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/289702\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/289703"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=289702"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=289702"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=289702"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}