{"id":29437,"date":"2025-08-14T18:51:08","date_gmt":"2025-08-14T18:51:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/29437\/"},"modified":"2025-08-14T18:51:08","modified_gmt":"2025-08-14T18:51:08","slug":"em-locarno-a-beira-do-lago-le-lac-e-o-cinema-em-estado-puro-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/29437\/","title":{"rendered":"Em Locarno, \u00e0 beira do lago, Le Lac \u00e9 o cinema em estado puro | Cinema"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0 medida que o Concurso Internacional do <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/festival-de-locarno\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Festival de Locarno<\/a> se aproxima do fim, cristaliza-se desde j\u00e1 o \u201cpelot\u00e3o\u201d dos favoritos, mas tamb\u00e9m ganham for\u00e7a temas recorrentes na escolha da programa\u00e7\u00e3o. Falou-se da inoc\u00eancia e da crueldade, do modo como nos posicionamos numa sociedade em que tudo nos parece exigir uma polariza\u00e7\u00e3o a favor ou contra, em filmes que n\u00e3o s\u00e3o de terror mas metem muito medo (com <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/08\/11\/culturaipsilon\/noticia\/dracula-radu-jude-ninguem-sai-mortovivo-2143585\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">o Dracula de Radu Jude<\/a> como expoente mais inspirado dessa vertente). Falou-se dos fantasmas de mundos perdidos e das utopias de mundos melhores em obras que nos pediram que par\u00e1ssemos para ver, em filmes que ainda abrem espa\u00e7o \u00e0 esperan\u00e7a e ao humano (com <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/08\/13\/culturaipsilon\/noticia\/locarno-vamos-alexandre-koberidze-estrada-fora-abrandamos-2143834\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Dry Leaf, de Alexandre Koberidze<\/a>, e <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/08\/07\/culturaipsilon\/noticia\/kamal-aljafari-faz-locarno-prova-vida-gaza-2143209\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">With Hasan in Gaza, de Kamal Aljafari<\/a>, \u00e0 cabe\u00e7a).<\/p>\n<p>No entanto, um dos mais belos filmes que nos foram dados a ver nesta competi\u00e7\u00e3o 2025 de Locarno est\u00e1 fora do mundo, fora do tempo, fora do tema. Chama-se Le Lac, \u00e9 um poema tonal paisagista sobre uma regata num lago su\u00ed\u00e7o (que n\u00e3o \u00e9 o Lago Maggiore \u00e0 beira do qual Locarno se espraia), e n\u00e3o \u00e9 de todo um document\u00e1rio mas tamb\u00e9m n\u00e3o se pode dizer que seja uma fic\u00e7\u00e3o. O filme do su\u00ed\u00e7o <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/05\/01\/culturaipsilon\/entrevista\/godard-perguntou-percebe-filmes-2130881\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Fabrice Aragno<\/a>, bra\u00e7o direito de Jean-Luc Godard na \u00faltima fase da sua carreira, \u00e9 um objecto orgulhosamente s\u00f3, \u00fanico, mesmo que reconhe\u00e7amos nele tangentes a outros filmes que vimos nesta competi\u00e7\u00e3o \u2014 sobretudo Dry Leaf \u2014 no modo como abandona a pris\u00e3o da narrativa para construir uma experi\u00eancia puramente sensorial que convida o espectador a parar e, apenas, desfrutar das \u00e1guas do lago.<\/p>\n<p>Antes disso, ter\u00e1 de se falar de um outro caso singular desta competi\u00e7\u00e3o, que compartilha com v\u00e1rios outros a recusa de uma hist\u00f3ria definida com princ\u00edpio, meio e fim. Desire Lines, do s\u00e9rvio Dane Komljen, pertence \u00e0 linhagem do filme de fantasmas \u2014 mas, neste caso, s\u00e3o absolutamente literais. Um homem que n\u00e3o consegue dormir segue obsessivamente o seu irm\u00e3o mais novo pelos arredores de Belgrado. Ou assim o cremos: na verdade, Branko n\u00e3o tem irm\u00e3os, ningu\u00e9m o v\u00ea, ningu\u00e9m o ouve, j\u00e1 n\u00e3o pertence ao \u201cnosso mundo\u201d, urbano e preciso. Desire Lines \u00e9 o registo da sua viagem para um \u201coutro mundo\u201d, rural e fora do tempo, e da comunidade que a\u00ed encontra, de seres j\u00e1 n\u00e3o humanos em comunh\u00e3o directa com a vida entendida como uma energia.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Desire Lines, do s\u00e9rvio Dane Komljen: uma personagem em busca, e o seu encontro com seres j\u00e1 n\u00e3o humanos em comunh\u00e3o directa com a vida entendida como uma energia&#13;<br \/>\nDR                    &#13;<\/p>\n<p>O que impede o filme de Komljen de se transformar numa mera alegoria filos\u00f3fica em circuito fechado, ou numa fantasmagoria esot\u00e9rica, \u00e9 o modo como a controlad\u00edssima constru\u00e7\u00e3o formal revela apenas o estritamente necess\u00e1rio para manter o espectador preso \u00e0 viagem de Branko entre os dois mundos. Desire Lines \u00e9 um mist\u00e9rio existencial que se mant\u00e9m permanentemente, e deliberadamente, al\u00e9m da compreens\u00e3o racional, o que tem tanto de frustrante como de sedutor; n\u00e3o temos certeza do que vimos, mas sabemos que gost\u00e1mos de fazer a viagem.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        O Lago L\u00e9man \u00e9 tamb\u00e9m protagonista em Le Lac, de Fabrice Aragno&#13;<br \/>\nDR                    &#13;<\/p>\n<p>Voltamos assim, circularmente, \u00e0 regata de cinco dias no Lago L\u00e9man que Fabrice Aragno filma em Le Lac. Aqui n\u00e3o h\u00e1 sequer nenhuma pretens\u00e3o de narrativa tradicional: h\u00e1 um casal, interpretado pela actriz Clotilde Courau e pelo velejador profissional Bernard Stamm, e as mem\u00f3rias da sua viv\u00eancia em conjunto, revividas durante a regata de cinco dias. N\u00e3o h\u00e1 quase di\u00e1logos e n\u00e3o h\u00e1 de todo m\u00fasica; apenas os sons do barco a navegar, do vento a soprar, da calmaria e da tempestade, com uma ep\u00edgrafe do fil\u00f3sofo Maurice Merleau-Ponty (sobre tornar a aus\u00eancia presente) e uma cita\u00e7\u00e3o de Heinrich von Kleist em \u201cposf\u00e1cio\u201d (sobre a vida que n\u00e3o se escolheu mas que nos fala em perman\u00eancia).<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>O resto, como costuma dizer-se, \u00e9 cinema em estado puro, feito de olhares e gestos, paisagens e rostos: Le Lac \u00e9 um filme exclusivamente no tempo presente, que parece fazer-se enquanto o vemos e nos deslumbra como quem n\u00e3o quer a coisa. O filme termina com uma dedicat\u00f3ria do mais cin\u00e9filo poss\u00edvel: \u201cpara o Fredy\u201d (Buache, 1924-2019, o lend\u00e1rio director da Cinemateca Su\u00ed\u00e7a), \u201cpara o Jean-Luc\u201d (Godard, evidentemente). Faz sentido: Aragno aprendeu com os mestres. Mas o que ele faz com isso \u00e9 exclusivamente seu. E \u00e9 lind\u00edssimo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u00c0 medida que o Concurso Internacional do Festival de Locarno se aproxima do fim, cristaliza-se desde j\u00e1 o&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":29438,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[140],"tags":[470,315,1413,114,115,8544,147,148,9840,146,32,33],"class_list":{"0":"post-29437","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-filmes","8":"tag-cinema","9":"tag-cultura","10":"tag-cultura-ipsilon","11":"tag-entertainment","12":"tag-entretenimento","13":"tag-festival-de-locarno","14":"tag-film","15":"tag-filmes","16":"tag-jean-luc-godard","17":"tag-movies","18":"tag-portugal","19":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29437","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29437"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29437\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/29438"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29437"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29437"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29437"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}