{"id":303000,"date":"2026-03-13T10:52:17","date_gmt":"2026-03-13T10:52:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/303000\/"},"modified":"2026-03-13T10:52:17","modified_gmt":"2026-03-13T10:52:17","slug":"a-europa-paga-pela-eletricidade-quase-o-dobro-do-que-se-paga-nos-eua-e-o-triplo-do-que-se-paga-na-china-isto-e-fatal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/303000\/","title":{"rendered":"A Europa paga pela eletricidade quase o dobro do que se paga nos EUA e o triplo do que se paga na China. Isto \u00e9 fatal"},"content":{"rendered":"<p>\t                ENTREVISTA || Os europeus est\u00e3o finalmente a &#8220;p\u00f4r em cima da mesa uma alternativa de baixo carbono, eletricidade fi\u00e1vel 24 horas por dia, 7 dias por semana, e que precisa de combust\u00edvel que a Europa at\u00e9 tem bastante capacidade de produzir&#8221;. \u00c9 o que defende Lu\u00eds Guimar\u00e3is, doutorado em fus\u00e3o nuclear pelo Instituto Superior T\u00e9cnico, numa entrevista a prop\u00f3sito da cimeira de energia nuclear que teve lugar em Paris esta semana, na segunda semana da guerra no Ir\u00e3o, que fez disparar os pre\u00e7os do crude<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/nuclear\/energia-nuclear\/e-engracado-ver-macron-e-von-der-leyen-a-defenderem-a-energia-nuclear-nao-temos-petroleo-mas-temos-ideias\/20260311\/69b04d9bd34e28842c819847\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Esta cimeira<\/a> acontece no contexto do fecho do Estreito de Ormuz, que fez disparar os pre\u00e7os do crude, depois de uma primeira edi\u00e7\u00e3o no rescaldo da invas\u00e3o em larga escala da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia, que exp\u00f4s a extrema depend\u00eancia europeia do petr\u00f3leo e g\u00e1s russos. E a juntar \u00e0 muito invocada quest\u00e3o de soberania energ\u00e9tica, tamb\u00e9m temos agora <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/business\/energy\/france-harness-nuclear-power-ai-data-centres-says-macron-2026-03-10\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">centros de dados de Intelig\u00eancia Artificial sedentos de energia<\/a>. Qual a import\u00e2ncia desta cimeira?<\/strong><\/p>\n<p>Este encontro \u00e9 um bocado um eco do choque petrol\u00edfero de 1973, os sintomas s\u00e3o exatamente os mesmos, e s\u00e3o mesmas as dificuldades em aceder a combust\u00edveis f\u00f3sseis. Na altura, o que vimos foi Fran\u00e7a a apostar no seu pr\u00f3prio programa nuclear, construiu 56 reatores em cerca de 15, 20 anos, e \u00e9 hoje o maior exportador de eletricidade, e a espinha dorsal do sistema el\u00e9trico europeu.<\/p>\n<p>O que tamb\u00e9m vemos aqui \u00e9 que \u00e9 engra\u00e7ado termos Emmanuel Macron e Ursula Von der Leyen \u00e0 frente desta cimeira.<\/p>\n<p><strong>Em que sentido?<\/strong><\/p>\n<p>Von der Leyen porque foi adepta do encerramento das centrais, creio que era ministra da Defesa \u00e0 data dessa decis\u00e3o. E Macron come\u00e7a a sua primeira campanha para o primeiro mandato presidencial [2017] a prometer que ia encerrar uma por\u00e7\u00e3o do parque nuclear franc\u00eas \u2013 ali\u00e1s, chegou a encerrar dois reatores sem necessidade nenhuma, porque cumpriam os padr\u00f5es de seguran\u00e7a e de rentabilidade econ\u00f3mica, na altura sob press\u00e3o alem\u00e3 \u2013 e agora \u00e9 o maior e mais ac\u00e9rrimo defensor do nuclear.<\/p>\n<p><strong>Como, ali\u00e1s, j\u00e1 se tinha visto na semana passada, com o an\u00fancio de uma <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/franca\/nuclear\/isto-e-uma-ameaca-a-todos-nao-apenas-ao-irao-a-russia-ou-a-china-mas-a-todos-incluindo-os-eua-europa-vai-entrar-na-era-da-dissuasao-avancada\/20260302\/69a5bd48d34e28842c8143c9\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">nova era de &#8220;dissuas\u00e3o avan\u00e7ada&#8221;<\/a>\u00a0na Europa e uma renovada aposta em armas nucleares\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Exato, agora faz promessas, tanto quanto a armas como quanto a energia, vemos Macron a tentar invocar o esp\u00edrito de Charles de Gaulle e a ideia de que \u201cn\u00e3o temos petr\u00f3leo mas temos ideias\u201d. A Europa paga pela eletricidade quase o dobro do que se paga nos Estados Unidos e o triplo do que se paga na China. Como fator de competitividade, isto \u00e9 fatal.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/69a5a8dfd34e28842c814267.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   A partir da base militar de \u00cele Longue, que alberga os submarinos nucleares de Fran\u00e7a, Macron anunciou na semana passada o in\u00edcio de uma nova era de &#8220;dissuas\u00e3o avan\u00e7ada&#8221; na Europa, porque &#8220;para sermos livres, temos de ser temidos e, para sermos temidos, temos de ser poderosos&#8221;, disse o presidente franc\u00eas. (Yoan Valat\/Pool photo via AP) <\/p>\n<p>O que vejo finalmente \u00e9 a Europa a p\u00f4r em cima da mesa uma alternativa de baixo carbono, eletricidade fi\u00e1vel 24 horas por dia, 7 dias por semana, e que precisa de combust\u00edvel que a Europa at\u00e9 tem bastante capacidade de produzir, tem o min\u00e9rio para fazer combust\u00edvel, sendo que n\u00e3o \u00e9 preciso assim tanto. O ur\u00e2nio \u00e9 um dos recursos end\u00f3genos do continente europeu. Espanha e Ch\u00e9quia t\u00eam reservas de ur\u00e2nio consider\u00e1veis \u2013 e o Canad\u00e1 e o Cazaquist\u00e3o s\u00e3o os nossos maiores parceiros, sendo que o Canad\u00e1 \u00e9 um parceiro muito fi\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>A presidente Von der Leyen disse, no arranque da cimeira, que foi um &#8220;erro estrat\u00e9gico&#8221; abandonar o nuclear; n\u00e3o mencionou a Alemanha, mas Berlim \u00e9 o caso mais \u00f3bvio disso \u2013 o pa\u00eds ficou para tr\u00e1s?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Vivi na Alemanha durante alguns anos, e a cultura deles \u00e9 incr\u00edvel. A Alemanha vive desde os anos 70 uma cultura de antinuclearismo prim\u00e1rio, o Plano Nacional de Leitura inclui obras que as crian\u00e7as leem baseadas em falsidades que lhes incutem este temor pela tecnologia desde jovens.\u00a0<\/p>\n<p>Os reatores nucleares alem\u00e3es eram dos melhores do mundo, e os \u00faltimos tr\u00eas a serem encerrados [em 2023] eram topo de gama. Os alem\u00e3es eram proficientes na tecnologia e, mesmo hoje em dia, pode-se utilizar ur\u00e2nio no pa\u00eds para produzir calor mas n\u00e3o eletricidade. H\u00e1 uma central n\u00e3o desativada que serve para produzir \u00e1gua quente \u2013 \u00e9 esquizofrenia cultural.\u00a0<\/p>\n<p><strong>O chanceler alem\u00e3o, Friedrich Merz, abandonou a sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 retoma do nuclear a n\u00edvel europeu, mas n\u00e3o tem planos para reabrir qualquer das centrais alem\u00e3s.<\/strong><\/p>\n<p>Merz \u00e9 favor\u00e1vel, mas compreendo que n\u00e3o queira reabrir o debate, at\u00e9 porque seria preciso mudar uma componente legal que \u00e9 muito blindada. A Alemanha embirrou num erro e mant\u00e9m-se nesse erro. N\u00f3s [f\u00edsicos nucleares] tent\u00e1mos demov\u00ea-los de fecharem as centrais, at\u00e9 fizemos uma manifesta\u00e7\u00e3o em frente ao Instituto Goethe, aqui em Lisboa, mas n\u00e3o h\u00e1 volta a dar. E se dantes o pa\u00eds era exportador de eletricidade, hoje \u00e9 o maior importador, est\u00e1 dependente do parque nuclear franc\u00eas, da Eslov\u00e1quia, da Ch\u00e9quia, at\u00e9 do carv\u00e3o da Pol\u00f3nia.\u00a0<\/p>\n<p>Temos uma Alemanha a que cham\u00e1vamos o motor industrial da Europa, mas <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/alemanha\/olaf-scholz\/a-russia-invadiu-a-ucrania-e-a-torneira-da-alemanha-fechou-se-a-crise-e-tal-que-ate-o-regresso-ao-nuclear-esta-em-aberto\/20241216\/675b1466d34ea1acf271c191\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">o motor est\u00e1 completamente gripado<\/a>, com eletricidade car\u00edssima. O pa\u00eds apostou as cartas todas no g\u00e1s russo e, em 2022, de repente viu que, afinal, o seu trunfo n\u00e3o era um \u00e1s de copas. O <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/alemanha\/cdu\/a-russia-tirou-lhe-energia-a-china-esta-a-tirar-lhe-exportacoes-trump-quer-tirar-lhe-a-vantagem-comercial-a-alemanha-esta-em-ebulicao-para-se-tirar-disto\/20250202\/679f4bbad34e3f0bae99eff0\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">modelo econ\u00f3mico alem\u00e3o implodiu<\/a> \u2013 acabou-se o g\u00e1s russo e o mercado autom\u00f3vel chin\u00eas est\u00e1 a fazer colapsar o alem\u00e3o. A Alemanha jogou todas as cartas e foram as cartadas erradas.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/68f0af0ed34ee0c2fed14d38.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   A atual presidente da Comiss\u00e3o Europeia, Ursula Von der Leyen, era ministra do governo de Angela Merkel quando Berlim tomou a decis\u00e3o de fechar todos os seus reatores nucleares &#8211; algo que, na cimeira de energia nuclear de Paris, Von der Leyen assumiu ter sido &#8220;um erro estrat\u00e9gico&#8221;. (AP) <\/p>\n<p><strong>Trump dizia no ano passado, comentando precisamente a situa\u00e7\u00e3o da Alemanha, que <a href=\"https:\/\/fortune.com\/2025\/09\/23\/trump-germany-nuclear-energy-fossil-fuels-un-address\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">&#8220;tudo verde \u00e9 tudo falido&#8221;<\/a>, mas as energias renov\u00e1veis t\u00eam sido a grande aposta de Portugal e de Espanha nas \u00faltimas d\u00e9cadas. No rescaldo do apag\u00e3o de h\u00e1 um ano, o nosso diretor-geral de Energia e Geologia (DGEG) <a href=\"https:\/\/www.jornaldenegocios.pt\/empresas\/energia\/detalhe\/portugal-nao-precisa-de-nuclear-agora-mas-nao-se-deve-descartar-no-futuro-diz-dgeg\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">disse que n\u00e3o devemos descartar o nuclear no futuro<\/a>, mas assumiu que essa \u00e9 uma decis\u00e3o puramente pol\u00edtica. Devemos come\u00e7ar a olhar para o nuclear ou, dado a nossa pequena dimens\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 imperativo e as renov\u00e1veis bastam para garantir a nossa soberania energ\u00e9tica? A Gr\u00e9cia, por exemplo, que tem mais ou menos o mesmo tamanho de Portugal, acaba de anunciar que vai come\u00e7ar a construir uma pequena central nuclear\u2026<\/strong><\/p>\n<p>A Gr\u00e9cia \u00e0s escondidas tem uma esp\u00e9cie de central emprestada, paga um acordo especial para importar eletricidade nuclear da Bulg\u00e1ria. Eu diria que o argumento da dimens\u00e3o dos pa\u00edses n\u00e3o encontra sustento. Quando fazemos o planeamento de um sistema, n\u00e3o podemos pensar no que temos agora, temos de pensar no que vamos ter e no que vamos precisar daqui a 20, 30, 50 anos. E nisto vamos precisar de infraestruturas em larga escala.<\/p>\n<p>Os <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/ursula-von-der-leyen\/medio-oriente\/a-europa-nao-e-produtora-de-petroleo-nem-de-gas-por-isso-venha-dai-a-energia-nuclear-von-der-leyen-anuncia-investimento\/20260310\/69aff937d34e28842c8192e7\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">200 milh\u00f5es de euros anunciados por Von der Leyen<\/a> s\u00e3o um bom come\u00e7o, mas o investimento necess\u00e1rio ser\u00e1 muito maior. Estamos a falar de infraestrutura cr\u00edtica a n\u00edvel do continente. Em termos de investimentos temos de os ver de uma maneira t\u00e9cnica, como dizia Paulo Carmona, da DGEG \u2013 que agora at\u00e9 est\u00e1 <a href=\"https:\/\/diariodarepublica.pt\/dr\/detalhe\/decreto-lei\/58-2026-1055043916\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">em processo de extin\u00e7\u00e3o<\/a> \u2013, temos de planear para o consumo que esperamos ter com base no trilema das emiss\u00f5es: custo, abastecimento e seguran\u00e7a do abastecimento.\u00a0<\/p>\n<p>O problema em Portugal \u00e9 que o palco tem sido exclusivamente dado \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o antinuclear desde os anos 60. O debate nunca foi equilibrado e agora est\u00e1 tudo a bater de caras com a realidade. Nesse sentido, recebi com entusiasmo o <a href=\"https:\/\/www.jornaldenegocios.pt\/empresas\/energia\/detalhe\/governo-anuncia-estudo-sobre-custos-dos-sistemas-energeticos\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">an\u00fancio do secret\u00e1rio de Estado da Energia<\/a>\u00a0de um estudo de total system costs\u00a0[custos totais de sistema] para perceber qual a mistura de eletricidade que \u00e9 mais fi\u00e1vel, mais barata e mais descarbonizada. E repare, n\u00f3s dizemos que nem usamos [energia nuclear], mas temos sete reatores aqui ao lado em Espanha e 7% do consumo nacional chega a ser do nuclear espanhol. E agora Espanha vai desativar os reatores por quest\u00f5es pol\u00edticas, vai insistir no erro alem\u00e3o. Quando agora \u00e9 a hora de p\u00f4r todas as cartas em cima da mesa.<\/p>\n<p><strong>Diria que esta movimenta\u00e7\u00e3o europeia e mundial no sentido de retomar e fortalecer a produ\u00e7\u00e3o de energia nuclear pode demover os espanh\u00f3is?<\/strong><\/p>\n<p>Ainda vivemos na sombra do apag\u00e3o e vemos o governo de Pedro S\u00e1nchez a omitir dados fundamentais, como o \u00e1udio da sala de controlo da rede el\u00e9trica espanhola, o gestor da rede. S\u00e1nchez fez ponto de honra de encerrar Almaraz. [Mas] acho que estamos muito perto de ver uma revers\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o de Madrid e uma extens\u00e3o de tr\u00eas anos para a central.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/69b170c3d34e28842c81a073.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   Espanha tem planos para fechar a central nuclear de Almaraz, em C\u00e1ceres, mas Lu\u00eds Guimar\u00e3is coloca a possibilidade de o governo de Pedro S\u00e1nchez reverter essa decis\u00e3o perante a viragem europeia e mundial. (Carlos Criado\/Europa Press via Getty Images) <\/p>\n<p><strong>Como olha para novas tecnologias como os chamados Pequenos Reatores Modulares (SMRs, na sigla inglesa), nos quais pa\u00edses como It\u00e1lia e Estados Unidos t\u00eam estado a apostar? Sendo mais pequenos, s\u00e3o mais baratos de implantar e operar \u2013 no caso portugu\u00eas, poderiam ser uma hip\u00f3tese a explorar no futuro?<\/strong><\/p>\n<p>Novamente, h\u00e1 aqui desinforma\u00e7\u00e3o quanto aos custos dos SMRs: alguns desses reatores s\u00e3o mais caros por unidade de eletricidade produzida, para o tamanho que t\u00eam consomem mais material. A sua grande vantagem \u00e9 que podem produzir mais do que eletricidade, h\u00e1 designs que permitem operar a temperaturas mais elevadas do que os reatores grandes operam, possibilitando muitas aplica\u00e7\u00f5es interessantes em termos de calor industrial &#8211; centrais de dessaliniza\u00e7\u00e3o, gera\u00e7\u00e3o de vapor para ind\u00fastria t\u00eaxtil e do papel\u2026<\/p>\n<p>Fazem sentido quando operados com gera\u00e7\u00e3o de eletricidade e produ\u00e7\u00e3o de calor industrial, e quando produzidos a uma escala suficiente para baixar e otimizar os custos, como numa linha de montagem. Portanto sim, diria que a Europa devia apostar num ou dois designs de SMR para centros industriais \u2013 e tamb\u00e9m, mais importante do que isso, num organismo regulador a n\u00edvel europeu que possibilite fazer a instala\u00e7\u00e3o e a monitoriza\u00e7\u00e3o o mais depressa poss\u00edvel. Em Portugal falta um regulador nuclear, que \u00e9 obrigat\u00f3rio, e isso monta-se em dois anos. Mas ter um organismo europeu seria uma mais-valia.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 muito ativismo e cr\u00edticas ao nuclear, a come\u00e7ar por riscos de seguran\u00e7a. Que argumentos usaria para rebater esse criticismo?<\/strong><\/p>\n<p>O nuclear \u00e9 a fonte mais segura [de gera\u00e7\u00e3o de energia] que existe \u2013 olhando para estat\u00edsticas, vemos que \u00e9 ligeiramente mais segura do que a solar, diria que esse \u00e9 um dos grandes argumentos. Quanto \u00e0 seguran\u00e7a, esta semana marcam-se os 15 anos de Fukushima e o Jap\u00e3o est\u00e1 a voltar ao nuclear. E a Ucr\u00e2nia [onde se deu o desastre de Chernobyl em 1986] est\u00e1 nas condi\u00e7\u00f5es em que est\u00e1, mas j\u00e1 tem um acordo para construir v\u00e1rios novos reatores.<\/p>\n<p>Aqui em Portugal, se olharmos para a Zero, que \u00e9 a maior associa\u00e7\u00e3o ambiental portuguesa, vemos que o discurso foi mudando ao longo do tempo. Dantes era uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a, agora \u00e9 econ\u00f3mica. Mas como se costuma dizer, a mentira d\u00e1 a volta ao mundo ainda a verdade n\u00e3o cal\u00e7ou as botas.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso muita paci\u00eancia e a melhor informa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para rebater os argumentos contra o nuclear. Muitas pessoas sentem-se enganadas pela desinforma\u00e7\u00e3o que foi havendo sobre isto. Se olharmos para o nuclear de uma maneira desapaixonada, vemos que \u00e9 uma excelente alternativa enquanto uma das componentes do mix el\u00e9trico, juntamente com as renov\u00e1veis, como a energia h\u00eddrica, a solar, a e\u00f3lica\u2026 No final do dia, o objetivo \u00e9 esse, ter o nuclear como um dos componentes do mix el\u00e9trico.<\/p>\n<p><strong>Uma das grandes cr\u00edticas ao nuclear \u00e9 a quest\u00e3o do lixo produzido pelas centrais de enriquecimento de ur\u00e2nio e o que fazer com ele. O que responde a isto?<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o dos res\u00edduos \u00e9 um problema resolvido. \u00c9 engra\u00e7ado que tenho colegas que descobrem isso e se sentem altamente enganados pelo que ouviram dizer. A verdade \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 registo de feridos nem mortos a manusear res\u00edduos nucleares. Primeiro, geram-se muito poucos res\u00edduos. Depois, se visitar uma central espanhola, v\u00ea que n\u00e3o ocupam nem metade de um campo de futebol; os res\u00edduos ficam ali, em contentores de cimento, sem danificar ningu\u00e9m. J\u00e1 temos solu\u00e7\u00f5es para isso \u2013 e, mais do que isso, temos desenhos de reatores que poderiam consumir os pr\u00f3prios res\u00edduos, mas que foram politicamente enterrados na Europa durante os anos 1990.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/69b15d00d34edcee7c61bebe.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   Japoneses manifestam-se em T\u00f3quio contra a retoma da produ\u00e7\u00e3o de energia nuclear na central de Kashiwazaki-Kariwa, 15 anos depois do desastre nuclear de Fukushima. (Eugene Hoshiko\/AP) <\/p>\n<p><strong>Quando falamos de energia nuclear, referimo-nos ao processo de fiss\u00e3o nuclear, mas h\u00e1 milh\u00f5es a serem investidos h\u00e1 d\u00e9cadas na fus\u00e3o nuclear, em que, em vez de recorrermos a material como o ur\u00e2nio, se produz energia a partir de materiais menos perigosos, como o hidrog\u00e9nio. Parte do investimento anunciado por Von der Leyen e outros fundos que venham a ser anunciados no futuro devem ser canalizados para a fus\u00e3o nuclear?<\/strong><\/p>\n<p>O meu doutoramento \u00e9 nesta \u00e1rea. A fus\u00e3o ainda est\u00e1 em fase experimental e, como tal, deve ser tratada como um projeto de investiga\u00e7\u00e3o e n\u00e3o um projeto comercial. A fiss\u00e3o funciona e est\u00e1 dispon\u00edvel comercialmente, por isso, devemos apostar em ambas, na fiss\u00e3o do ponto de vista comercial e na fus\u00e3o do ponto de vista cient\u00edfico, pois n\u00e3o sabemos quando estar\u00e1 dispon\u00edvel comercialmente.<\/p>\n<p>Ter &#8220;nuclear&#8221; no nome &#8220;fus\u00e3o nuclear&#8221; faz muita gente perder a racionalidade e exigir o imposs\u00edvel desta via de pesquisa. N\u00e3o esperamos que o CERN ou a Esta\u00e7\u00e3o Espacial Internacional deem retorno comercial direto, por exemplo. No entanto, as contribui\u00e7\u00f5es indiretas da fus\u00e3o nuclear, com melhor e mais r\u00e1pida eletr\u00f3nica, melhores supercomputadores, melhores sistemas de criogenia, aplica\u00e7\u00f5es de plasmas, t\u00eam beneficiado a ind\u00fastria mundial, a par de outras grandes contribui\u00e7\u00f5es da fus\u00e3o nuclear, na rob\u00f3tica, tecnologia de v\u00e1cuo, lasers de alta precis\u00e3o, simula\u00e7\u00e3o computacional e sensores.<\/p>\n<p><strong>Quanto tempo diria que falta, em termos pr\u00e1ticos, para podermos produzir eletricidade por via da fus\u00e3o nuclear?<\/strong><\/p>\n<p>Isso \u00e9 uma grande inc\u00f3gnita, mas quero acreditar que podemos ver uma prova de conceito at\u00e9 2040.<\/p>\n<p><strong>Sendo o nuclear uma quest\u00e3o t\u00e3o fraturante h\u00e1 tanto tempo, diria que Portugal deveria levar o tema a referendo, como j\u00e1 aconteceu, por exemplo, em It\u00e1lia?<\/strong><\/p>\n<p>O referendo italiano, creio que levado a cabo em 1987, tem muito que se lhe diga, tinha uma pergunta duvidosa, foi uma coisa um bocado estranha. Mas em resposta \u00e0 pergunta, diria que tratar isto de uma maneira especial n\u00e3o faz sentido, porque passa a ser uma quest\u00e3o de paix\u00e3o e n\u00e3o uma quest\u00e3o t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Nunca lev\u00e1mos o carv\u00e3o ou outros combust\u00edveis f\u00f3sseis a referendo. E, portanto, n\u00e3o, n\u00e3o acho que o nuclear deva ir a referendo. Se depois quisermos instalar uma central num dado s\u00edtio e a popula\u00e7\u00e3o local for contra, a\u00ed \u00e9 outra hist\u00f3ria. Mas \u00e0 partida n\u00e3o concordo que haja um referendo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"ENTREVISTA || Os europeus est\u00e3o finalmente a &#8220;p\u00f4r em cima da mesa uma alternativa de baixo carbono, eletricidade&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":303001,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[83],"tags":[1305,609,836,611,27,88,607,608,333,832,604,50095,135,610,476,89,3118,90,22629,208,301,830,603,570,831,833,62,834,13,6165,835,602,54150,52,32,33,35982,2272,6267,1977,29],"class_list":["post-303000","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-empresas","tag-alemanha","tag-alerta","tag-analise","tag-ao-minuto","tag-breaking-news","tag-business","tag-cnn","tag-cnn-portugal","tag-comentadores","tag-costa","tag-crime","tag-descarbonizacao","tag-desporto","tag-direto","tag-economia","tag-economy","tag-eletricidade","tag-empresas","tag-energia-nuclear","tag-franca","tag-governo","tag-guerra","tag-justica","tag-live","tag-mais-vistas","tag-marcelo","tag-mundo","tag-negocios","tag-noticias","tag-nuclear","tag-opiniao","tag-pais","tag-pequenos-reatores-modulares","tag-politica","tag-portugal","tag-pt","tag-referendo","tag-renovaveis","tag-residuos","tag-ue","tag-ultimas"],"share_on_mastodon":{"url":"","error":"Validation failed: Text character limit of 500 exceeded"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/303000","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=303000"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/303000\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/303001"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=303000"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=303000"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=303000"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}