{"id":305752,"date":"2026-03-15T15:18:12","date_gmt":"2026-03-15T15:18:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/305752\/"},"modified":"2026-03-15T15:18:12","modified_gmt":"2026-03-15T15:18:12","slug":"cientista-brasileiro-formado-pela-fameca-desenvolve-molecula-que-destroi-celulas-cancerigenas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/305752\/","title":{"rendered":"Cientista brasileiro, formado pela Fameca, desenvolve mol\u00e9cula que destr\u00f3i c\u00e9lulas cancer\u00edgenas"},"content":{"rendered":"<p>Um cientista brasileiro desenvolveu uma plataforma experimental baseada em intelig\u00eancia artificial capaz de identificar c\u00e9lulas cancer\u00edgenas e desencadear sua destrui\u00e7\u00e3o a partir do interior da pr\u00f3pria c\u00e9lula. A estrat\u00e9gia explora uma fragilidade metab\u00f3lica caracter\u00edstica dos tumores, localizada nas mitoc\u00f4ndrias \u2014 organelas respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o de energia celular.<\/p>\n<p>A tecnologia foi criada pelo pesquisador Jos\u00e9 Emilio Fehr Pereira Lopes, p\u00f3s-doutorando no Dana-Farber Cancer Institute, afiliado \u00e0 Harvard Medical School. Natural de S\u00e3o Carlos, ele formou-se na Faculdade de Medicina de Catanduva &#8211; Fameca\/Unifipa na 15\u00aa turma, em 1989.<\/p>\n<p>O trabalho combina engenharia molecular, bioenergia celular e modelagem computacional para desenvolver mol\u00e9culas capazes de agir seletivamente contra o c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>A proposta cient\u00edfica se baseia em um princ\u00edpio conhecido da biologia tumoral: c\u00e9lulas cancer\u00edgenas produzem energia de maneira diferente das c\u00e9lulas saud\u00e1veis. Essa altera\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica, descrita h\u00e1 quase um s\u00e9culo pelo bioqu\u00edmico alem\u00e3o Otto Warburg, \u00e9 considerada uma das marcas fundamentais do c\u00e2ncer e um poss\u00edvel alvo terap\u00eautico.<\/p>\n<p>A equipe desenvolveu uma mol\u00e9cula sint\u00e9tica denominada A14, descrita pelos pesquisadores como uma mol\u00e9cula bio-inteligente. Ela foi projetada para penetrar nas c\u00e9lulas tumorais e interferir diretamente em suas estruturas energ\u00e9ticas internas, especialmente nas mitoc\u00f4ndrias.<\/p>\n<p>\u201cDurante d\u00e9cadas tentamos bloquear o crescimento do tumor do lado de fora da c\u00e9lula. Nossa estrat\u00e9gia foi diferente: levar a mol\u00e9cula para dentro dela e explorar uma falha existente na mitoc\u00f4ndria disfuncional que o pr\u00f3prio c\u00e2ncer cria para sobreviver\u201d, afirma Pereira Lopes.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, o composto foi desenhado para reconhecer padr\u00f5es bioqu\u00edmicos caracter\u00edsticos das c\u00e9lulas tumorais e desencadear um colapso nos mecanismos que sustentam seu crescimento. Em teoria, essa abordagem permitiria atacar o tumor sem provocar danos generalizados ao organismo \u2014 um dos principais desafios das terapias oncol\u00f3gicas atuais.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se trata de atacar indiscriminadamente qualquer c\u00e9lula que se divide r\u00e1pido, como ocorre na quimioterapia tradicional. A ideia \u00e9 reconhecer caracter\u00edsticas espec\u00edficas do c\u00e2ncer e agir apenas sobre elas\u201d, diz.<\/p>\n<p><strong>Entregar a mol\u00e9cula dentro da c\u00e9lula<\/strong><\/p>\n<p>Criar a mol\u00e9cula foi apenas parte do desafio. O obst\u00e1culo maior foi garantir que ela chegasse intacta ao interior das c\u00e9lulas cancer\u00edgenas. A A14 pertence \u00e0 classe qu\u00edmica dos \u00e9steres. No organismo humano, enzimas chamadas esterases degradam rapidamente esse tipo de composto, o que poderia impedir que a mol\u00e9cula alcan\u00e7asse seu alvo terap\u00eautico.<\/p>\n<p>Outro desafio est\u00e1 na pr\u00f3pria capacidade adaptativa dos tumores. Ao longo do tratamento, c\u00e9lulas cancer\u00edgenas podem alterar receptores e vias metab\u00f3licas para escapar da a\u00e7\u00e3o de medicamentos.<\/p>\n<p>\u201cQuando se ataca por fora das c\u00e9lulas, a terapia depende de receptores espec\u00edficos presentes na superf\u00edcie do tumor. Sob press\u00e3o do tratamento, o c\u00e2ncer pode mudar essas estruturas e deixar de ser reconhecido\u201d, explica o cientista.<\/p>\n<p>Para contornar o problema, os pesquisadores desenvolveram sistemas de transporte capazes de proteger a mol\u00e9cula durante sua circula\u00e7\u00e3o no organismo e conduzi-la at\u00e9 o interior das c\u00e9lulas sem depender da estrutura externa do tumor.\u00a0Entre as estrat\u00e9gias estudadas est\u00e3o mol\u00e9culas seletivas derivadas de a\u00e7\u00facares, capazes de encapsular o composto ativo e transport\u00e1-lo at\u00e9 o interior celular.<\/p>\n<p>Segundo Pereira Lopes, o funcionamento do c\u00e2ncer revela um paradoxo biol\u00f3gico. O tumor possui mecanismos sofisticados de sobreviv\u00eancia, mas seu crescimento descontrolado acaba levando \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio organismo que o sustenta.<\/p>\n<p>Nas c\u00e9lulas saud\u00e1veis existe um sistema de seguran\u00e7a natural. Quando uma c\u00e9lula apresenta sinais de dano irrevers\u00edvel, uma pequena prote\u00edna liberada pela mitoc\u00f4ndria desencadeia um processo de morte celular programada, chamado apoptose.<\/p>\n<p>No c\u00e2ncer, por\u00e9m, esse mecanismo \u00e9 bloqueado. \u201cNo tumor, a mitoc\u00f4ndria alterada mant\u00e9m essa prote\u00edna presa entre suas duas membranas, impedindo o gatilho necess\u00e1rio para a apoptose\u201d, explica.<\/p>\n<p>Essa disfun\u00e7\u00e3o mitocondrial tamb\u00e9m est\u00e1 associada a outros processos que favorecem o crescimento tumoral, como a angiog\u00eanese \u2014 a forma\u00e7\u00e3o de novos vasos sangu\u00edneos que fornecem oxig\u00eanio e nutrientes ao tumor.<\/p>\n<p>Sinais bioqu\u00edmicos emitidos por mitoc\u00f4ndrias alteradas tamb\u00e9m podem contribuir para inflama\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica, dissemina\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas tumorais pelo organismo e enfraquecimento do sistema imunol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Para aumentar a efici\u00eancia da entrega da mol\u00e9cula, a equipe tamb\u00e9m passou a utilizar sistemas de transporte definidos a partir de an\u00e1lises conduzidas por intelig\u00eancia artificial, capazes de identificar os materiais mais adequados para cada tipo espec\u00edfico de tumor. \u201c\u00c9 uma estrat\u00e9gia semelhante ao conceito do Cavalo de Troia\u201d, diz o pesquisador.<\/p>\n<p>C\u00e9lulas tumorais apresentam elevada demanda energ\u00e9tica. Por esse motivo, tendem a absorver com maior intensidade part\u00edculas ricas em energia ou nutrientes \u2014 caracter\u00edstica que pode ser explorada para direcionar terapias de forma seletiva.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 como usar o pr\u00f3prio metabolismo acelerado do c\u00e2ncer contra ele\u201d, afirma Lopes. \u201cO tumor precisa de mais energia e nutrientes. N\u00f3s aproveitamos essa necessidade para direcionar a terapia.\u201d<\/p>\n<p><strong>Plataforma molecular program\u00e1vel<\/strong><\/p>\n<p>A tecnologia foi refinada ao longo de anos de pesquisa, com diferentes vers\u00f5es de sistemas de transporte e formula\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas. Uma das abordagens mais recentes utiliza a\u00e7\u00facares modificados capazes de aumentar a estabilidade e a solubilidade da mol\u00e9cula no organismo.<\/p>\n<p>An\u00e1lises laboratoriais por espectrometria de massa e cromatografia confirmaram a incorpora\u00e7\u00e3o da mol\u00e9cula nos sistemas de transporte desenvolvidos pela equipe.<\/p>\n<p>O pesquisador descreve a inova\u00e7\u00e3o como uma plataforma molecular program\u00e1vel, que poderia ser adaptada para diferentes tipos de c\u00e2ncer. \u201cCostumo dizer que tentamos ensinar uma mol\u00e9cula a se comportar como um m\u00e9dico dentro do organismo\u201d, afirma. \u201cEla precisa reconhecer o problema, identificar a c\u00e9lula alterada e tomar uma decis\u00e3o bioqu\u00edmica precisa.\u201d<\/p>\n<p>Nesse caso, a decis\u00e3o seria liberar a prote\u00edna presa na mitoc\u00f4ndria e desencadear o processo de apoptose \u2014 levando a c\u00e9lula cancer\u00edgena \u00e0 autodestrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda em est\u00e1gio experimental avan\u00e7ado, a tecnologia precisar\u00e1 passar por novas etapas de valida\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, incluindo a conclus\u00e3o de estudos pr\u00e9-cl\u00ednicos e testes cl\u00ednicos em humanos.<\/p>\n<p>Mesmo assim, pesquisadores que acompanham o desenvolvimento apontam que a estrat\u00e9gia representa uma abordagem promissora dentro da chamada oncologia de precis\u00e3o \u2014 \u00e1rea que busca tratamentos cada vez mais direcionados \u00e0s caracter\u00edsticas biol\u00f3gicas de cada tumor.<\/p>\n<p>\u201cSe conseguirmos transformar uma vulnerabilidade do centro energ\u00e9tico do c\u00e2ncer em um mecanismo terap\u00eautico seguro, podemos abrir caminho para uma nova gera\u00e7\u00e3o de tratamentos oncol\u00f3gicos\u201d, diz Fehr Pereira Lopes.<\/p>\n<p>Segundo ele, o objetivo final \u00e9 reduzir n\u00e3o apenas a mortalidade associada \u00e0 doen\u00e7a, mas tamb\u00e9m o impacto dos tratamentos sobre a qualidade de vida dos pacientes.\u00a0\u201cA luta contra o c\u00e2ncer n\u00e3o \u00e9 apenas prolongar a vida\u201d, afirma. \u201c\u00c9 permitir que ela seja vivida com dignidade.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Um cientista brasileiro desenvolveu uma plataforma experimental baseada em intelig\u00eancia artificial capaz de identificar c\u00e9lulas cancer\u00edgenas e desencadear&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":305753,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[86],"tags":[5628,5626,5627,1300,116,2513,13,5629,5625,32,33,117],"class_list":{"0":"post-305752","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude","8":"tag-blog","9":"tag-catanduva","10":"tag-catanduva-e-regiao","11":"tag-cidade","12":"tag-health","13":"tag-jornal","14":"tag-noticias","15":"tag-novidades","16":"tag-o-regional","17":"tag-portugal","18":"tag-pt","19":"tag-saude"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116233863595891723","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/305752","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=305752"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/305752\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/305753"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=305752"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=305752"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=305752"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}