{"id":306384,"date":"2026-03-16T03:37:10","date_gmt":"2026-03-16T03:37:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/306384\/"},"modified":"2026-03-16T03:37:10","modified_gmt":"2026-03-16T03:37:10","slug":"planta-aquatica-reduz-antibioticos-na-agua-e-danos-geneticos-em-peixes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/306384\/","title":{"rendered":"Planta aqu\u00e1tica reduz antibi\u00f3ticos na \u00e1gua e danos gen\u00e9ticos em peixes"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 Tadeu Arantes | Ag\u00eancia FAPESP<\/strong> \u2013 Estudo conduzido por pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de S\u00e3o Paulo (Cena-USP) e <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1186\/s12302-025-01275-7\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>publicado<\/strong><\/a> no peri\u00f3dico Environmental Sciences Europe identificou res\u00edduos de diferentes classes de antibi\u00f3ticos no rio Piracicaba, um dos principais cursos d\u2019\u00e1gua do interior paulista, e avaliou de forma integrada como essas subst\u00e2ncias se acumulam em peixes e podem ser parcialmente mitigadas por uma planta aqu\u00e1tica amplamente disseminada na regi\u00e3o, a Salvinia auriculata.<\/p>\n<p>O trabalho, liderado por <a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/725710\/patricia-alexandre-evangelista\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Patr\u00edcia Alexandre Evangelista<\/strong><\/a> e <a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/209917\/antimicrobianos-no-ambiente-ocorrencia-deplecao-e-estrategia-de-remediacao\/?q=2021\/10431-5\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>apoiado<\/strong><\/a> pela FAPESP, combinou monitoramento ambiental, estudos de bioacumula\u00e7\u00e3o, an\u00e1lises de danos gen\u00e9ticos em organismos aqu\u00e1ticos e experimentos de fitorremedia\u00e7\u00e3o. A abordagem integrada permitiu n\u00e3o apenas mapear a contamina\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m discutir riscos ecol\u00f3gicos e potenciais estrat\u00e9gias de enfrentamento de um problema associado tanto ao uso humano quanto ao uso veterin\u00e1rio de medicamentos.<\/p>\n<p>As coletas foram realizadas na regi\u00e3o da barragem de Santa Maria da Serra, pr\u00f3xima ao reservat\u00f3rio de Barra Bonita, onde se acumulam cargas provenientes de toda a bacia do rio Piracicaba. O local recebe contribui\u00e7\u00f5es de esgoto urbano tratado, efluentes dom\u00e9sticos, atividades de aquicultura e de cria\u00e7\u00e3o de su\u00ednos, al\u00e9m do escoamento difuso associado \u00e0 agricultura.<\/p>\n<p>Foram analisadas amostras de \u00e1gua, sedimento e peixes em dois per\u00edodos: o chuvoso e o de estiagem. Ao todo, o monitoramento incluiu 12 antibi\u00f3ticos de classes amplamente utilizadas \u2013 tetraciclinas, fluoroquinolonas, sulfonamidas e fen\u00f3is. \u201cOs resultados mostraram um padr\u00e3o claro de sazonalidade. Durante o per\u00edodo chuvoso, a maioria dos antibi\u00f3ticos apresentou concentra\u00e7\u00f5es abaixo dos limites de detec\u00e7\u00e3o. J\u00e1 na esta\u00e7\u00e3o seca, quando o volume de \u00e1gua diminui e os contaminantes se concentram, diferentes compostos foram detectados\u201d, diz Evangelista.<\/p>\n<p>As concentra\u00e7\u00f5es encontradas variaram da ordem de nanogramas por litro na \u00e1gua a microgramas por quilo no sedimento. Neste \u00faltimo, por exemplo, foram detectadas fluoroquinolonas, como a enrofloxacina, e sulfonamidas em n\u00edveis superiores aos relatados em estudos internacionais compar\u00e1veis. O sedimento, rico em mat\u00e9ria org\u00e2nica e nutrientes como f\u00f3sforo, c\u00e1lcio e magn\u00e9sio, atua como um reservat\u00f3rio desses compostos, com potencial de remobiliza\u00e7\u00e3o ao longo do tempo.<\/p>\n<p>\u201cUm dos achados mais sens\u00edveis do estudo foi a detec\u00e7\u00e3o de cloranfenicol em peixes do tipo lambari (Astyanax sp.) coletados com pescadores ribeirinhos da regi\u00e3o de Barra Bonita. O cloranfenicol \u00e9 um antibi\u00f3tico cujo uso em animais de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 proibido no Brasil, justamente por causa dos riscos associados \u00e0 sua toxicidade\u201d, afirma a pesquisadora.<\/p>\n<p>A subst\u00e2ncia foi encontrada no peixe apenas no per\u00edodo de estiagem, com concentra\u00e7\u00f5es da ordem de dezenas de microgramas por quilo. O resultado chama aten\u00e7\u00e3o por envolver uma esp\u00e9cie amplamente comercializada e consumida localmente, indicando uma poss\u00edvel via de exposi\u00e7\u00e3o humana indireta por meio da alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo Evangelista, a escolha do cloranfenicol e da enrofloxacina como foco dos experimentos laboratoriais se deveu \u00e0 relev\u00e2ncia ambiental e sanit\u00e1ria de ambos. \u201cA enrofloxacina \u00e9 amplamente usada na cria\u00e7\u00e3o animal, inclusive na aquicultura, e tamb\u00e9m na medicina humana. J\u00e1 o cloranfenicol, embora proibido para animais de produ\u00e7\u00e3o, ainda \u00e9 utilizado em humanos e funciona como um marcador hist\u00f3rico de contamina\u00e7\u00e3o persistente\u201d, informa.<\/p>\n<p><strong>Fitorremedia\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m de mapear a contamina\u00e7\u00e3o, o estudo investigou se a Salvinia auriculata\u00a0(popularmente como murur\u00e9-carrapatinho, orelha-de-on\u00e7a e salv\u00ednia), uma macr\u00f3fita flutuante frequentemente considerada praga em corpos d\u2019\u00e1gua, poderia atuar como aliada na remo\u00e7\u00e3o de antibi\u00f3ticos do ambiente.<\/p>\n<p>Em experimentos de laborat\u00f3rio, a planta foi exposta a concentra\u00e7\u00f5es ambientais e a concentra\u00e7\u00f5es cem vezes maiores de enrofloxacina e cloranfenicol, utilizando compostos radiomarcados com carbono-14. O uso de mol\u00e9culas radiomarcadas permitiu acompanhar com precis\u00e3o o destino dos antibi\u00f3ticos na \u00e1gua, na planta e nos peixes.<\/p>\n<p>\u201cOs resultados mostraram uma elevada efici\u00eancia da Salvinia na remo\u00e7\u00e3o da enrofloxacina: em tratamentos com maior biomassa vegetal, mais de 95% do antibi\u00f3tico foi retirado da \u00e1gua em poucos dias. A meia-vida do composto caiu para cerca de dois a tr\u00eas dias. No caso do cloranfenicol, a remo\u00e7\u00e3o foi mais lenta e parcial. A planta foi capaz de retirar entre 30% e 45% do antibi\u00f3tico da \u00e1gua, com meias-vidas entre 16 e 20 dias, indicando maior persist\u00eancia do composto no ambiente\u201d, relata a pesquisadora.<\/p>\n<p>As imagens de autorradiografia revelaram que, em ambos os casos, os antibi\u00f3ticos se concentraram principalmente nas ra\u00edzes da planta, sugerindo que a rizofiltra\u00e7\u00e3o e a absor\u00e7\u00e3o radicular desempenham papel central no processo.<\/p>\n<p><strong>Bioacumula\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Um dos aspectos mais complexos do estudo diz respeito \u00e0 bioacumula\u00e7\u00e3o nos peixes. Experimentos controlados mostraram que a simples redu\u00e7\u00e3o da concentra\u00e7\u00e3o do antibi\u00f3tico na \u00e1gua n\u00e3o implica, necessariamente, em menor absor\u00e7\u00e3o pelo organismo.<\/p>\n<p>Para a enrofloxacina, a maior parte do composto permaneceu dissolvida na \u00e1gua e foi eliminada relativamente r\u00e1pido pelo lambari, com meia-vida de cerca de 21 dias. O fator de bioconcentra\u00e7\u00e3o foi baixo, indicando menor tend\u00eancia \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o nos tecidos. J\u00e1 o cloranfenicol apresentou comportamento distinto. O antibi\u00f3tico mostrou maior persist\u00eancia no organismo, com meia-vida superior a 90 dias e fator de bioconcentra\u00e7\u00e3o elevado, refletindo maior reten\u00e7\u00e3o nos tecidos dos peixes.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a da Salvinia auriculata alterou essa din\u00e2mica. Embora a planta tenha reduzido significativamente a quantidade de antibi\u00f3tico na \u00e1gua, em alguns casos houve aumento da velocidade de absor\u00e7\u00e3o pelo peixe. Uma das hip\u00f3teses \u00e9 que a planta possa transformar parcialmente o composto original ou modificar sua forma qu\u00edmica, tornando-o mais biodispon\u00edvel, mesmo em concentra\u00e7\u00f5es totais menores.<\/p>\n<p>\u201cIsso mostra que usar plantas como \u2018esponjas\u2019 de contaminantes n\u00e3o \u00e9 algo trivial. A presen\u00e7a da macr\u00f3fita muda todo o sistema, inclusive a forma como o organismo entra em contato com o contaminante\u201d, pontua Evangelista.<\/p>\n<p>Apesar dessas complexidades, um resultado relevante emergiu das an\u00e1lises genot\u00f3xicas. O cloranfenicol induziu aumento significativo de danos ao DNA dos peixes, medidos pela frequ\u00eancia de micron\u00facleos e de anomalias nucleares em c\u00e9lulas sangu\u00edneas. Quando a Salvinia auriculata estava presente no sistema, esses danos foram claramente reduzidos, aproximando-se dos n\u00edveis observados nos grupos-controle. Para a enrofloxacina, por outro lado, a presen\u00e7a da planta n\u00e3o levou a uma atenua\u00e7\u00e3o significativa dos efeitos genot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>\u201cA interpreta\u00e7\u00e3o que propomos \u00e9 que, no caso do cloranfenicol, a planta possa gerar subprodutos menos genot\u00f3xicos ou liberar compostos antioxidantes na rizosfera, reduzindo o estresse oxidativo nos peixes. J\u00e1 a enrofloxacina, quimicamente mais est\u00e1vel, pode originar metab\u00f3litos persistentes e potencialmente t\u00f3xicos, cuja a\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 neutralizada pela macr\u00f3fita\u201d, comenta a pesquisadora.<\/p>\n<p>Evangelista ressalta que a Salvinia auriculata n\u00e3o deve ser vista como uma solu\u00e7\u00e3o simples ou definitiva para a polui\u00e7\u00e3o por antibi\u00f3ticos. O estudo evidencia tanto seu potencial quanto seus limites. Al\u00e9m das incertezas sobre a forma\u00e7\u00e3o de subprodutos, h\u00e1 o desafio do manejo da biomassa contaminada. Se n\u00e3o for removida e tratada adequadamente, a planta pode se tornar uma fonte secund\u00e1ria de polui\u00e7\u00e3o, reintroduzindo os antibi\u00f3ticos no ambiente.<\/p>\n<p>Ainda assim, os resultados indicam que macr\u00f3fitas aqu\u00e1ticas podem integrar estrat\u00e9gias de mitiga\u00e7\u00e3o de baixo custo e baseadas na natureza, especialmente em sistemas onde tecnologias avan\u00e7adas de tratamento \u2013 como ozoniza\u00e7\u00e3o ou processos oxidativos \u2013 s\u00e3o economicamente invi\u00e1veis.<\/p>\n<p>\u201cO estudo mostra que o problema \u00e9 real, mensur\u00e1vel e complexo. E que qualquer estrat\u00e9gia de enfrentamento precisa considerar n\u00e3o s\u00f3 a remo\u00e7\u00e3o do contaminante, mas tamb\u00e9m seus efeitos biol\u00f3gicos e ecol\u00f3gicos\u201d, conclui a pesquisadora.<\/p>\n<p>\u201cA detec\u00e7\u00e3o de res\u00edduos de antibi\u00f3ticos em \u00e1gua, sedimentos e peixes do rio Piracicaba mostra qu\u00e3o danosas podem ser as atividades humanas. A resist\u00eancia de microrganismos a antibi\u00f3ticos pode provocar o aparecimento de superbact\u00e9rias no ambiente. A pesquisa trouxe um resultado muito positivo, com solu\u00e7\u00f5es ambientais de baixo custo, possibilitou entender melhor o funcionamento integrado dos ecossistemas aqu\u00e1ticos e aproveitar t\u00e9cnicas naturais eficazes para a mitiga\u00e7\u00e3o de impactos\u201d, acrescenta <a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/4382\/valdemar-luiz-tornisielo\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Valdemar Luiz Tornisielo<\/strong><\/a>, orientador da pesquisa de Evangelista que tamb\u00e9m assina o artigo.<\/p>\n<p>As mol\u00e9culas radiomarcadas no estudo foram concedidas pela International Atomic Energy Agency (IAEA).<\/p>\n<p>O artigo Integrated approach for assessing and mitigating antibiotic contamination in natural waters using bioaccumulation and phytoremediation pode ser lido em: <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1186\/s12302-025-01275-7\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>link.springer.com\/article\/10.1186\/s12302-025-01275-7<\/strong><\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Jos\u00e9 Tadeu Arantes | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Estudo conduzido por pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":306385,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[86],"tags":[10045,54702,54489,54696,54703,116,54699,2484,54697,32,33,54698,54700,654,117,54701],"class_list":["post-306384","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-saude","tag-antibioticos","tag-bioacumulacao","tag-contaminantes","tag-danos-geneticos","tag-genotoxicidade","tag-health","tag-macrofita","tag-peixes","tag-planta-aquatica","tag-portugal","tag-pt","tag-rio-piracicaba","tag-salvinia-auriculata","tag-sao-paulo","tag-saude","tag-sumidouro"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116236769334582609","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/306384","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=306384"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/306384\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/306385"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=306384"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=306384"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=306384"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}