{"id":313337,"date":"2026-03-21T15:35:08","date_gmt":"2026-03-21T15:35:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/313337\/"},"modified":"2026-03-21T15:35:08","modified_gmt":"2026-03-21T15:35:08","slug":"um-apagao-que-esta-a-mudar-o-mapa-como-a-ucrania-conseguiu-os-maiores-avancos-territoriais-em-mais-de-dois-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/313337\/","title":{"rendered":"Um &#8220;apag\u00e3o&#8221; que est\u00e1 a mudar o mapa. Como a Ucr\u00e2nia conseguiu os maiores avan\u00e7os territoriais em mais de dois anos"},"content":{"rendered":"<p>\t                A desativa\u00e7\u00e3o do sistema Starlink para as tropas russas exp\u00f4s a depend\u00eancia tecnol\u00f3gica de Moscovo. O resultado? Uma contraofensiva rel\u00e2mpago que permitiu a Kiev registar em fevereiro os maiores ganhos territoriais desde 2023, dando \u00e0 Ucr\u00e2nia um trunfo supresa nas negocia\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p data-path-to-node=\"7\">Durante meses, a R\u00fassia intensificou todos os esfor\u00e7os no campo de batalha para tentar conquistar o m\u00e1ximo de territ\u00f3rio ucraniano, antes de qualquer acordo diplom\u00e1tico para o cessar-fogo. Mas esses avan\u00e7os tiveram um pre\u00e7o elevado. Para conquistar algumas centenas de quil\u00f3metros quadrados, o Kremlin perdeu dezenas de milhares de vidas. S\u00f3 que um &#8220;apag\u00e3o&#8221; tecnol\u00f3gico deitou meses de trabalho por \u00e1gua abaixo. O corte de acesso ao Starlink n\u00e3o cortou s\u00f3 as comunica\u00e7\u00f5es na linha da frente, criou as bases para a maior recupera\u00e7\u00e3o territorial ucraniana em mais de dois anos, permitindo \u00e0s for\u00e7as ucranianas recuperar num m\u00eas aquilo que Moscovo demorou muito mais a conquistar.\u00a0<\/p>\n<p data-path-to-node=\"8\">&#8220;O grande descalabro russo est\u00e1 a acontecer na regi\u00e3o de Zaporizhzhia. Devido a ter perdido o acesso aos sistemas Starlink, perdeu completamente o comando e controlo das suas for\u00e7as. Os russos que conseguiram penetrar nas linhas ucranianas perderam o contacto com a retaguarda e a Ucr\u00e2nia tem estado a recuperar muito territ\u00f3rio&#8221;, afirma o tenente-general Marco Serronha.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"9\">O Kremlin queria mostrar aos Estados Unidos, durante as negocia\u00e7\u00f5es de paz, que a derrota ucraniana era inevit\u00e1vel. E o n\u00famero de recursos que colocou \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para o fazer n\u00e3o pode ser subestimado \u2014 o ano de 2025 acabou por tornar-se o mais sangrento desde que a guerra come\u00e7ou. Segundo dados do CSIS (Center for Strategic and International Studies), at\u00e9 dezembro de 2025, o n\u00famero de mortos, feridos e desaparecidos russos atingiu os 1,2 milh\u00f5es. A m\u00e9dia fixou-se nas 35 mil baixas mensais, um n\u00famero sem paralelo para qualquer grande pot\u00eancia desde a Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"10\">Apesar do enorme sacrif\u00edcio humano, a progress\u00e3o das conquistas territoriais russas continuou dolorosamente lenta. Em janeiro de 2026, as for\u00e7as de Moscovo ocuparam 160 km\u00b2, mas sofreram cerca de 198 baixas por cada quil\u00f3metro quadrado. E no in\u00edcio de fevereiro, a estrutura de comando russa sofreu um golpe que nenhum sistema de artilharia ucraniano conseguiria replicar.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"11\">O Minist\u00e9rio da Defesa da Ucr\u00e2nia selou um acordo estrat\u00e9gico com a SpaceX para encerrar a &#8220;zona cinzenta&#8221; tecnol\u00f3gica que permitia ao Kremlin contornar san\u00e7\u00f5es. Atrav\u00e9s de uma &#8220;lista branca&#8221;, apenas os terminais Starlink validados pelas autoridades ucranianas puderam continuar a operar. Os terminais russos, obtidos atrav\u00e9s de intermedi\u00e1rios, foram bloqueados.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"12\">&#8220;Mais uma vez se percebeu que um ator n\u00e3o estatal, como Elon Musk, pode ter um efeito determinante no campo de batalha. N\u00e3o podemos esquecer que deix\u00e1mos que o espa\u00e7o fosse praticamente privatizado. Foi suficiente para ele alterar as regras de acesso \u00e0 sua rede de sat\u00e9lites para a R\u00fassia ficar com maiores dificuldades desde h\u00e1 muito tempo&#8221;, explica o comentador da CNN Portugal Jos\u00e9 Azeredo Lopes.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"13\">De forma quase instant\u00e2nea, milhares de terminais russos deixaram de operar. Sem o sinal est\u00e1vel e encriptado, dezenas de milhares de soldados ficaram temporariamente sem capacidade de coordenar opera\u00e7\u00f5es. Os comandantes russos perderam os v\u00eddeos em tempo real dos drones, fundamentais para guiar a artilharia, e &#8220;ficaram cegos&#8221; na linha da frente.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"14\">O alto comando ucraniano transformou esta &#8220;cegueira&#8221; numa oportunidade de ouro. Fevereiro tornou-se o primeiro m\u00eas desde 2023 em que Kiev recuperou mais territ\u00f3rio do que aquele que perdeu. Avan\u00e7ando sobretudo no sul, nas regi\u00f5es de Zaporizhzhia e Dnipropetrovsk, a Ucr\u00e2nia libertou cerca de 388 quil\u00f3metros quadrados, anulando o progresso que custou milhares de vidas a Moscovo.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"15\">&#8220;N\u00e3o diria que \u00e9 um contraataque, parece que a Ucr\u00e2nia est\u00e1 a voltar \u00e0s posi\u00e7\u00f5es que tinha antigamente na regi\u00e3o de forma a consolidar a posi\u00e7\u00e3o defensiva, preparando ainda mais a defesa do Donbass&#8221;, defende o tenente-general Marco Serronha.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"15\">Aproveitando a confus\u00e3o, as for\u00e7as de Kiev recorreram a t\u00e1ticas de engodo e enviaram pequenos grupos para atacar a retaguarda russa. Interce\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio revelaram que, no meio do caos comunicacional, as unidades russas acreditaram que uma for\u00e7a muito maior tinha rompido as linhas, levando a ordens precipitadas para abandonar posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"16\">A ofensiva exp\u00f5e, mais uma vez, uma das grandes vulnerabilidades russas: um ex\u00e9rcito gigante \u2014 que ainda det\u00e9m uma vantagem de tr\u00eas para um em n\u00famero de tropas \u2014, mas dependente de tecnologia que Moscovo n\u00e3o consegue replicar. Sem Starlink, a R\u00fassia foi for\u00e7ada a usar tr\u00e1fego de r\u00e1dio desprotegido. O resultado? A Ucr\u00e2nia come\u00e7ou a intercetar comunica\u00e7\u00f5es e a antecipar rotas inimigas com um dia de anteced\u00eancia.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"17\">Talvez por isso, a rea\u00e7\u00e3o do Kremlin tenha sido um misto de desespero e improviso. No terreno, as for\u00e7as russas tentam agora passar cabos de comunica\u00e7\u00e3o entre as trincheiras e usar servi\u00e7os de sat\u00e9lite chineses e russos. Continuam tamb\u00e9m a tentar substituir a SpaceX por antenas de r\u00e1dio comerciais, como as da Ubiquiti.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"18\">O recurso a esta tecnologia civil \u00e9 o exemplo m\u00e1ximo do &#8220;desenrasque&#8221; russo. Ao contr\u00e1rio do Starlink, estas antenas exigem uma &#8220;linha de vista&#8221; direta. Para as instalar, os soldados russos s\u00e3o for\u00e7ados a subir a torres de telecomunica\u00e7\u00f5es, telhados de igrejas ou \u00e1rvores, expondo-se aos drones t\u00e9rmicos ucranianos. Segundo as estimativas das tropas de Kiev, com estes improvisos, os russos recuperaram apenas 60% da coordena\u00e7\u00e3o que tinham.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"19\">Como se n\u00e3o bastasse, Moscovo trava agora uma guerra interna. O Kremlin quer proibir o uso da aplica\u00e7\u00e3o Telegram entre as tropas, impondo o sistema estatal &#8220;Max&#8221;. Os comandantes, no entanto, resistem a mudar, temendo que os servi\u00e7os de seguran\u00e7a russos (FSB) vigiem as suas comunica\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"20\">&#8220;\u00c9 impressionante como um ator privado pode ter um papel muito importante na condu\u00e7\u00e3o das hostilidades e na defini\u00e7\u00e3o de vantagens&#8221;, remata Jos\u00e9 Azeredo Lopes.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"21\">E esta desvantagem russa chega num momento particularmente sens\u00edvel. Enquanto a Ucr\u00e2nia pressiona na linha da frente, os diplomatas continuam a medir for\u00e7as na Su\u00ed\u00e7a. A liberta\u00e7\u00e3o destes cerca de 388 quil\u00f3metros quadrados pode parecer pouco face aos milhares ainda sob ocupa\u00e7\u00e3o, mas o seu valor n\u00e3o \u00e9 apenas territorial. \u00c9 a prova de que a &#8216;inevitabilidade&#8217; da vit\u00f3ria russa, que o Kremlin tenta vender \u00e0 custa do seu pr\u00f3prio povo, pode ser t\u00e3o fr\u00e1gil quanto uma antena comercial pendurada numa \u00e1rvore. Na mesa de Genebra, a Ucr\u00e2nia recuperou mais do que terra: come\u00e7ou a recuperar a iniciativa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A desativa\u00e7\u00e3o do sistema Starlink para as tropas russas exp\u00f4s a depend\u00eancia tecnol\u00f3gica de Moscovo. O resultado? 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