{"id":315381,"date":"2026-03-23T09:11:15","date_gmt":"2026-03-23T09:11:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/315381\/"},"modified":"2026-03-23T09:11:15","modified_gmt":"2026-03-23T09:11:15","slug":"europa-quer-produzir-energia-eolica-que-daria-para-abastecer-15-vezes-portugal-sera-viavel-garante-independencia-resiste-a-ataques-inimigos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/315381\/","title":{"rendered":"Europa quer produzir energia e\u00f3lica que daria para abastecer 15 vezes Portugal. Ser\u00e1 vi\u00e1vel? Garante independ\u00eancia? Resiste a ataques inimigos?"},"content":{"rendered":"<p>\t                \u00c9 a resposta \u00e0 guerra lan\u00e7ada por Donald Trump \u00e0 energia e\u00f3lica. Parte da Europa foi a Hamburgo reafirmar a aposta nas e\u00f3licas mar\u00edtimas do Mar do Norte. Estima-se que, em 2050, tenham uma pot\u00eancia instalada de 300 GW, uma rede descentralizada e um sistema el\u00e9trico assente na resili\u00eancia. Os especialistas ouvidos pela CNN Portugal explicam o que est\u00e1 em causa<\/p>\n<p style=\"text-align:justify; margin-bottom:11px\">Donald Trump insiste que a energia e\u00f3lica \u00e9 para falhados e s\u00f3 \u201cgente est\u00fapida\u201d acredita na sua utilidade. J\u00e1 do lado europeu, aumentam-se esfor\u00e7os para acelerar um enorme empreendimento de energia e\u00f3lica offshore no Mar do Norte.<\/p>\n<p>B\u00e9lgica, Dinamarca, Fran\u00e7a, Alemanha, Irlanda, Luxemburgo, Pa\u00edses Baixos, Noruega e Reino Unido \u2013 a Isl\u00e2ndia tamb\u00e9m esteve presente, mas apenas como observador convidado &#8211; reuniram-se em Hamburgo, no final de janeiro, para a terceira edi\u00e7\u00e3o da Cimeira do Mar do Norte. A ideia surgiu em 2022 como resposta \u00e0 depend\u00eancia europeia do g\u00e1s e petr\u00f3leo russo e \u00e9 simples: fazer das \u00e1guas pouco profundas do Mar do Norte a &#8220;maior reserva de energia limpa do mundo&#8221;.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o a longo prazo \u00e9 edificar um parque e\u00f3lico offshore capaz de produzir 300 gigawatts (GW) de energia at\u00e9 2050. Para j\u00e1, a Declara\u00e7\u00e3o de Hamburgo &#8211; assinada por aqueles nove pa\u00edses &#8211; fixa o objetivo de acelerar e potenciar o processo atrav\u00e9s de um acr\u00e9scimo anual da capacidade de produ\u00e7\u00e3o de 15 GW, entre 2031 e 2040, sendo que, atualmente, a capacidade de produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 nos 37 GW. Ap\u00f3s o novo reafirmar de vontades, a capacidade de produ\u00e7\u00e3o dever\u00e1 passar para mais de 100 GW at\u00e9 2040, o que ser\u00e1 suficiente para alimentar cerca de 50 milh\u00f5es de habita\u00e7\u00f5es, como explica a <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/sustainability\/climate-energy\/europes-offshore-wind-pact-is-hedge-against-us-gas-reliance-2026-01-27\/?utm_source=chatgpt.com\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Reuters<\/a>.<\/p>\n<p>Mas a Uni\u00e3o Europeia est\u00e1 a apostar no cavalo certo? Ou \u00e9 a Casa Branca que tem raz\u00e3o?<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas vertentes por onde se pode obter uma resposta: uma t\u00e9cnico-econ\u00f3mica, tentando perceber se o projeto reafirmado com a Declara\u00e7\u00e3o de Hamburgo \u00e9 vi\u00e1vel economicamente; uma vis\u00e3o relativa ao impacto geoestrat\u00e9gico, ou seja, a import\u00e2ncia para a Europa de dar passos rumo \u00e0 independ\u00eancia energ\u00e9tica;\u00a0e uma \u00faltima, olhando pelo \u00e2ngulo da Defesa, porque a maior reserva de energia verde a n\u00edvel mundial pode transformar-se numa infraestrutura apetec\u00edvel a ataques inimigos.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/69a1a403d34edcee7c614831.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   Assinatura da Declara\u00e7\u00e3o de Hamburgo durante a 3.\u00aa edi\u00e7\u00e3o da Cimeira do Mar do Norte, na Alemanha, no dia 26 de janeiro (Getty) <\/p>\n<p>A\u00a0vertente\u00a0t\u00e9cnico-econ\u00f3mica <\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o \u00e9 especialista, os valores de energia produzida medidos em GW (gigawatts) levantam d\u00favidas: 300 GW s\u00e3o mesmo assim tanta energia? Quantos pa\u00edses pode alimentar esta fonte energ\u00e9tica? Ou o que efetivamente quer dizer &#8220;capacidade de produ\u00e7\u00e3o&#8221; e o que faz este projeto pela descentraliza\u00e7\u00e3o da rede europeia numa altura em que tanto se fala da resili\u00eancia dos sistemas energ\u00e9ticos?\u00a0<\/p>\n<p>O engenheiro Jo\u00e3o Joanaz de Melo, professor na Universidade Nova de Lisboa, come\u00e7a por definir que quando se referem estes 300 GW est\u00e1 a falar-se da &#8220;pot\u00eancia instalada&#8221; ou &#8220;capacidade de produ\u00e7\u00e3o&#8221;, o que se traduz na capacidade m\u00e1xima que esta instala\u00e7\u00e3o \u00e9 capaz de produzir em determinado instante sob &#8220;condi\u00e7\u00f5es de vento perfeitas&#8221;. No entanto, esta pot\u00eancia instalada nunca poder\u00e1 ser &#8220;utilizada em 100% do tempo tal como acontece em qualquer outro tipo de instala\u00e7\u00e3o seja de energia renov\u00e1vel ou f\u00f3ssil&#8221;, explica o doutorado em Engenharia do Ambiente.<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o estar estarem dispon\u00edveis a tempo inteiro, 300 GW de energia el\u00e9trica representam uma quantidade substancial de eletricidade. Uma pot\u00eancia de &#8220;300 GW \u00e9 cerca de 15 vezes superior \u00e0 pot\u00eancia instalada total do sistema el\u00e9trico portugu\u00eas&#8221;, compara Joanaz de Melo, detalhando ainda que a &#8220;pot\u00eancia total instalada em Portugal\u00a0anda \u00e0 volta dos 20 gigawatts&#8221;, sendo que o pico de consumo di\u00e1rio &#8220;varia entre os 8 e 9 GW&#8221; &#8211; o ponto do dia em que os cidad\u00e3os nacionais consumem mais energia da rede el\u00e9trica em simult\u00e2neo.<\/p>\n<p>&#8220;Isto significa que, em qualquer momento,\u00a0metade ou mais do sistema n\u00e3o est\u00e1 ativo, o que \u00e9 algo normal&#8221;, esclarece Jo\u00e3o Joanaz de Melo.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/69a1a3ead34e28842c81291a.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   Turbinas e\u00f3licas, fixadas em terra, presentes na costa do Mar do Norte no norte da Alemanha\u00a0\u00a0 <\/p>\n<p>De acordo com o Energy in Figures de 2025 referente aos dados 2023, publicado anualmente pela Eurostat sobre consumo e produ\u00e7\u00e3o de energia, Portugal em uma pot\u00eancia instalada de 22 GW, os Pa\u00edses Baixos de 58 GW, a Dinamarca de 18 GW e at\u00e9 na Alemanha, o famoso &#8220;motor da Europa&#8221;, a capacidade de produ\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica instant\u00e2nea fica nos 261 GW. Outro dado relevante para ajudar a compreender que uma pot\u00eancia de 300 GW \u00e9 efetivamente muita energia s\u00e3o os picos de consumo: de acordo com o National Energy System Operator (NESO), distribuidor el\u00e9trico brit\u00e2nico, o pico de consumo energ\u00e9tico no Reino Unido ronda os 50 GW, o que significa que o Parque E\u00f3lico do Mar do Norte seria capaz de alimentar seis economias como a brit\u00e2nica durante os seus picos m\u00e1ximo de consumo.<\/p>\n<p>Ainda assim, Joanaz de Melo garante que essencial para atestar o projeto como uma verdadeira mais-valia \u00e9 a quest\u00e3o da &#8220;viabilidade t\u00e9cnico-econ\u00f3mica&#8221;. O\u00a0investimento que \u00e9 necess\u00e1rio fazer para instalar essa\u00a0capacidade \u201cvai ou n\u00e3o ser compensado pelo valor da energia produzida?&#8221;, questiona, real\u00e7ando que a isto se junta a &#8220;viabilidade ambiental&#8221;: &#8220;Que impactos ambientais \u00e9\u00a0que o projeto vai causar?&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Uma coisa \u00e9 ser, do ponto de vista te\u00f3rico, tecnol\u00f3gico, poss\u00edvel fazer uma coisa.\u00a0Outra coisa \u00e9 se faz sentido faz\u00ea-la em termos t\u00e9cnico-econ\u00f3micos\u00a0e os impactos que isso vai causar&#8221;, explica, apontando ainda &#8220;um outro problema&#8221;:\u00a0&#8220;Em Portugal, na Europa e no mundo temos\u00a0uma economia extraordinariamente ineficiente em\u00a0mat\u00e9ria de uso de energia&#8221;, explica. O professor da Universidade Nova de Lisboa assegura ainda que &#8220;todos os setores&#8221;, das casas \u00e0 ind\u00fastria, passando pelos servi\u00e7os, poderiam poupar entre 25% a 30% do consumo energ\u00e9tico atual.<\/p>\n<p>Portugal pode receber energia do vento do Norte? N\u00e3o. Nem Espanha. E a culpa \u00e9 a de Fran\u00e7a <\/p>\n<p>De Hamburgo saiu ainda a inten\u00e7\u00e3o de criar uma rede de cabos bidirecionais e interconex\u00f5es capazes de conectar o parque e\u00f3lico a v\u00e1rios pa\u00edses. No papel, a ideia \u00e9 possibilitar que a energia el\u00e9trica flua para a regi\u00f5es onde existe maior necessidade moment\u00e2nea, melhorando a efici\u00eancia e flexibilidade da rede para que seja capaz de responder \u00e0s mudan\u00e7as de padr\u00f5es e procura de consumos, \u00e0 semelhan\u00e7a, ali\u00e1s, do que j\u00e1 acontece na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica com a energia solar, quando Portugal e Espanha canalizam entre si a energia produzida consoante a produ\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea e as necessidades de consumo.<\/p>\n<p>Esta avalia\u00e7\u00e3o ajuda ainda a reduzir os epis\u00f3dios de pre\u00e7os negativos &#8211; quando um pa\u00eds produz mais energia e\u00f3lica ou solar do que aquela que consegue consumir em determinado momento, que acabaria por for\u00e7ar os operadores a restringir a produ\u00e7\u00e3o de modo a reequilibrar o mercado.\u00a0Com esta solu\u00e7\u00e3o sempre que \u201chouver ventos na Alemanha e n\u00e3o haja no Reino Unido, ent\u00e3o, se a Alemanha for incapaz de usar toda a energia, o Reino Unido pode aproveitar uma parte em vez desta acabar como desperd\u00edcio\u201d, explicou \u00e0 Reuters Jordan May, analista s\u00e9nior da consultoria TGS 4C.<\/p>\n<p>E poder\u00e1 alguma desta energia chegar a Portugal? A resposta \u00e9 n\u00e3o. &#8220;Fran\u00e7a nunca quis\u00a0que a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica estivesse\u00a0ligada \u00e0 rede europeia&#8221;, recorda Jo\u00e3o Joanaz de Melo. A nega de Paris faz com que Portugal e Espanha estejam alienados do resto dos pa\u00edses da Europa Central onde o sistema el\u00e9trico est\u00e1 &#8220;todo interligado&#8221;. Estas conex\u00f5es &#8220;s\u00e3o uma coisa boa&#8221;, garante o especialista, porque s\u00e3o uma &#8220;forma de resili\u00eancia e de redu\u00e7\u00e3o de custos&#8221;.<\/p>\n<p>Ainda assim, tecnicamente, tamb\u00e9m poderia n\u00e3o ser o mais vi\u00e1vel transportar eletricidade de Copenhaga at\u00e9 Lisboa. Isto, porque, como explica o engenheiro da Universidade Nova de Lisboa, &#8220;quanto maior a dist\u00e2ncia,\u00a0maior as perdas de energia&#8221;.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"435\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/69a1a3e9d34e28842c812918.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   Parque e\u00f3lico do Mar do Norte ter\u00e1 uma pot\u00eancia instalada de 300 GW, em 2050, 15 vezes mais do que pot\u00eancia instalada total do que tem Portugal (Getty)\u00a0 <\/p>\n<p style=\"text-align:justify; margin-bottom:11px\">Jo\u00e3o Joanaz de Melo destaca a import\u00e2ncia de existir &#8220;uma diversifica\u00e7\u00e3o de fontes&#8221; num sistema, a t\u00e3o falada resili\u00eancia que nada mais \u00e9 do que a descentraliza\u00e7\u00e3o da rede.\u00a0&#8220;N\u00e3o h\u00e1 nenhuma varinha m\u00e1gica,\u00a0n\u00e3o h\u00e1 nenhuma forma de produ\u00e7\u00e3o ideal, todas as formas de produ\u00e7\u00e3o de energia\u00a0massificada t\u00eam algum impacto ambiental negativo e muitas vezes impactos\u00a0sociais tamb\u00e9m negativos, trata-se de encontrarmos um mix de v\u00e1rias fontes e de v\u00e1rias localiza\u00e7\u00f5es\u00a0que consigam cumprir os objetivos que realmente s\u00e3o necess\u00e1rios, com o m\u00ednimo de estragos&#8221;, refere.<\/p>\n<p>Vamos ver e\u00f3licas offshore em Portugal? O engenheiro considera que \u00e9 algo pouco prov\u00e1vel no imediato, porque a costa nacional, em regra, a cerca de um quil\u00f3metro j\u00e1 tem 30 metros de profundidade e que, em muitos s\u00edtios, depois ainda afunda mais.\u00a0<\/p>\n<p>As e\u00f3licas offshore n\u00e3o est\u00e3o isentas de danos ambientais, t\u00eam interfer\u00eancia na migra\u00e7\u00e3o das aves, na fauna, no modo de comunicar dos grandes mam\u00edferos marinhos como baleias e golfinhos, impactam os bancos de pesca, a pr\u00f3pria atividade piscat\u00f3ria e, normalmente, os turistas que est\u00e3o no areal n\u00e3o acham muita piada a ter um aerogerador \u00e0 beira-mar.\u00a0Depois, existe mais uma quest\u00e3o t\u00e9cnica, que passa por responder: o que acontece se o parque e\u00f3lico produzir mais energia do que aquela que pode ser consumida? &#8220;Se houver excesso,\u00a0ou se armazena, deita a fora ou tem de se parar as m\u00e1quinas&#8221;, explica Joanaz de Melo lembrando ainda que, por exemplo, em Portugal existem\u00a0sistemas hidroel\u00e9tricos\u00a0de bombagem cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 armazenar energia e, eventualmente,\u00a0autom\u00f3veis el\u00e9tricos, alguns sistemas fotovoltaicos ou de baterias podem servir como postos de armazenamento.<\/p>\n<p>Para o especialista em sistemas ambientais h\u00e1 um princ\u00edpio que nunca deve ser esquecido neste tipo de redes de grandes dimens\u00f5es: &#8220;Tem de haver sempre um equil\u00edbrio\u00a0entre aquilo que estou a produzir,\u00a0o que estou a consumir\u00a0e aquilo que consigo armazenar&#8221;, porque caso contr\u00e1rio haver\u00e1 um excedente que pode desestabilizar a rede, fomentar perdas econ\u00f3micas e energ\u00e9ticas e que n\u00e3o interessa a nenhum dos envolvidos.<\/p>\n<p>&#8220;Mas, h\u00e1\u00a0uma quest\u00e3o mais vasta do que esta que \u00e9 a quest\u00e3o das origens\u00a0da energia. A necessidade de reduzirmos\u00a0as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa. Estamos no meio de uma crise clim\u00e1tica. Quase toda a gente no mundo, exceto o senhor Trump, j\u00e1 percebeu isso. Isto n\u00e3o \u00e9 brincadeira, n\u00e3o \u00e9 maluquice de cientistas, n\u00e3o \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o de chineses, \u00e9 um problema s\u00e9rio e, portanto, temos mesmo de reduzir drasticamente\u00a0os nossos combust\u00edveis f\u00f3sseis&#8221;, alerta Joanaz de Melo.<\/p>\n<p>Trump e o \u00f3dio \u00e0 &#8220;gente est\u00fapida&#8221; que acredita no vento: a vertente geoestrat\u00e9gica <\/p>\n<p>Se os europeus acreditam firmemente que uso de energia e\u00f3lica \u00e9 rent\u00e1vel e ainda contribui para a desacelera\u00e7\u00e3o da crise clim\u00e1tica, porque \u00e9 que Trump tanto odeia as e\u00f3licas? A resposta prende-se com o facto de a \u00cdndia estar a escalar a aposta em pain\u00e9is solares e a China ter instalado mais pain\u00e9is solares e e\u00f3licas s\u00f3 em 2024 do que a quantidade total de energia renov\u00e1vel existente na opera\u00e7\u00e3o norte-americana.<\/p>\n<p>Dito isto, h\u00e1 que lembrar que os EUA mant\u00eam o t\u00edtulo de &#8216;maior produtor de petr\u00f3leo no mundo&#8217; e que, com o regresso de uma Administra\u00e7\u00e3o encabe\u00e7ada por Trump, est\u00e3o novamente a apostar no f\u00f3ssil enquanto tentam desmobilizar os esfor\u00e7os e\u00f3licos e solares existentes no resto mundo. Desde o regresso \u00e0 Casa Branca, a n\u00edvel energ\u00e9tico, os EUA est\u00e3o mais pr\u00f3ximos de estados como Ar\u00e1bia Saudita, Emirados \u00c1rabes Unidos ou R\u00fassia.<\/p>\n<p>Perante a Declara\u00e7\u00e3o de Hamburgo, Manuel Serrano, especialista em Assuntos Europeus, diz que a Uni\u00e3o Europeia (UE) deu &#8220;um sinal de mais um grito do Ipiranga&#8221;. A hist\u00f3ria tem vindo a mostrar que um continente estar dependente a n\u00edvel energ\u00e9tico, comercial ou de seguran\u00e7a tende a ser uma m\u00e1 pol\u00edtica e os \u00faltimos meses mostram que &#8220;n\u00e3o depender energeticamente, nem de outra maneira, dos EUA, da China ou da R\u00fassia&#8221; \u00e9 o novo rumo de Bruxelas, explica o tamb\u00e9m comentador da CNN Portugal.<\/p>\n<p>Para Manuel Serrano este \u00e9 ali\u00e1s o ponto principal da Declara\u00e7\u00e3o de Hamburgo e o que traz o tema para sua vertente geoestrat\u00e9gica: &#8220;A\u00a0soberania energ\u00e9tica da Europa&#8221;, porque o projeto para no Mar do Norte vai &#8220;reduzir as receitas f\u00f3sseis da R\u00fassia e da China&#8221;. &#8220;Isto \u00e9 um tema importante&#8221;, refere, lembrando que vai permitir a Bruxelas &#8220;ignorar press\u00f5es de Trump&#8221; ao garantir que o velho continente n\u00e3o vai ficar energeticamente dependente dos EUA, sendo que simultaneamente a UE est\u00e1 a &#8220;reduzir as receitas f\u00f3sseis de R\u00fassia e China.<\/p>\n<p>&#8220;A depend\u00eancia energ\u00e9tica foi transformada numa arma geopol\u00edtica.\u00a0Esta \u00e9 a oportunidade da Europa de ganhar independ\u00eancia e de voltar esta arma contra o outro lado&#8221;, defende Manuel Serrano.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"411\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/69a1a3ead34edcee7c61482e.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   Europa pode estar agora um passo mais perto da soberania energ\u00e9tica (Getty) <\/p>\n<p style=\"text-align:justify; margin-bottom:11px\">O especialista considera que esta decis\u00e3o \u00e9 demonstrativa de que a Europa tamb\u00e9m est\u00e1 a abra\u00e7ar a l\u00f3gica do primeiro-ministro do Canad\u00e1, Mark Carney&#8221;: &#8220;Temos uns certos interesses e determinados valores comuns, mas temos de fazer pela nossa vida&#8221;. Manuel Serrano entende que Bruxelas n\u00e3o pode &#8220;continuar a ceder continuamente \u00e0s grandes pot\u00eancias&#8221; e deve, ao inv\u00e9s, criar uma &#8220;estrat\u00e9gia concreta&#8221; que assente nas &#8220;suas val\u00eancias, independ\u00eancia, autonomia estrat\u00e9gica, econ\u00f3mica e energ\u00e9tica&#8221;, porque caso contr\u00e1rio estar\u00e1 sempre &#8220;dependente das grandes pot\u00eancias que nos podem manipular hoje, amanh\u00e3 ou depois da manh\u00e3&#8221;.<\/p>\n<p>Para Manuel Serrano o acordo UE-Mercosul, a Declara\u00e7\u00e3o de Hamburgo e o acordo comercial com a \u00cdndia s\u00e3o &#8220;uma mensagem&#8221; de que a Bruxelas est\u00e1 a acordo para a nova ordem mundial. &#8220;A\u00a0Europa est\u00e1 a fazer por si, a Europa est\u00e1-se a afirmar-se politicamente, em termos de geoestrat\u00e9gica e agora na autonomia energ\u00e9tica&#8221;. O especialista alerta, no entanto, que \u00e9 imperativo &#8220;n\u00e3o cometer os erros\u00a0que se cometeram no passado&#8221;. Depois de, em fevereiro de 2022, a Europa ter percebido da pior maneira, porque era um erro centrar todo o seu fornecimento energ\u00e9tico na R\u00fassia, Manuel Serrano diz que agora \u00e9 tempo de se perceber que &#8220;n\u00e3o podemos estar sempre dependentes deste bully que \u00e9 Donald Trump&#8221;.<\/p>\n<p>Manuel Serrano destaca ainda que, pela primeira vez, um representante da NATO esteve presente numa Cimeira do Mar do Norte. &#8220;\u00c9 interessante porque, pela primeira vez, tivemos infraestruturas e\u00f3licas offshore a serem tratadas como ativos militares estrat\u00e9gicos, porque \u00e9 algo que exige prote\u00e7\u00e3o contra sabotagens h\u00edbridas&#8221;, aponta.<\/p>\n<p>&#8220;A Europa ao\u00a0assumir a soberania energ\u00e9tica, est\u00e1 a ganhar: reduz as receitas da R\u00fassia e da China, ignora press\u00f5es de Trump, cria emprego e corta custos energ\u00e9ticos. \u00c9 win, win, win, win, win para a Europa&#8221;, resume Manuel Serrano.<\/p>\n<p>Como se defende uma infraestrutura geoestrat\u00e9gica fulcral que se encontra no meio do mar? <\/p>\n<p>Com o acelerar da marcha do plano europeu, este parque e\u00f3lico mar\u00edtimo ganha cada vez mais import\u00e2ncia geoestrat\u00e9gica e torna-se num alvo mais apetec\u00edvel para ataques ou sabotagens a cada dia. Os signat\u00e1rios da Declara\u00e7\u00e3o de Hamburgo reconhecem-no e, por isso mesmo, a terceira edi\u00e7\u00e3o da Cimeira do Mar do Norte contou, pela primeira vez, com a presen\u00e7a de um representante da NATO.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/69a1a3e9d34edcee7c61482a.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   NATO passa a estar mais atenta e envolvida na defesa das turbinas e\u00f3licas no Mar do Norte (Getty)\u200b <\/p>\n<p style=\"text-align:justify; margin-bottom:11px\">&#8220;\u00c0 luz das crescentes amea\u00e7as \u00e0s infraestruturas energ\u00e9ticas offshore, congratulamo-nos e apoiamos o aumento do n\u00edvel de coopera\u00e7\u00e3o multilateral nos mares do Norte e no mar B\u00e1ltico, incluindo no quadro da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (NATO), se necess\u00e1rio, para refor\u00e7ar a sua defesa, seguran\u00e7a global e resili\u00eancia&#8221;, pode ler-se na declara\u00e7\u00e3o de Hamburgo.<\/p>\n<p>Da declara\u00e7\u00e3o constam ainda cinco pontos referentes a quest\u00f5es de defesa da reserva de energia renov\u00e1vel:<\/p>\n<ol>\n<li>Refor\u00e7ar a coordena\u00e7\u00e3o de todos os servi\u00e7os de seguran\u00e7a militares, civis e privados para proteger os ativos energ\u00e9ticos ao largo nos mares do Norte;<br \/>\u00a0<\/li>\n<li>Incentivar uma colabora\u00e7\u00e3o estreita entre as autoridades, a ind\u00fastria e os operadores de infraestruturas para melhorar o conhecimento da situa\u00e7\u00e3o abaixo e acima da \u00e1gua, a imputabilidade dos danos, bem como a resposta a incidentes;<br \/>\u00a0<\/li>\n<li>Trabalhar em conjunto para refor\u00e7ar a ciberdefesa, coordenando e harmonizando as abordagens nacionais e promover a ciberseguran\u00e7a e a normaliza\u00e7\u00e3o;<br \/>\u00a0<\/li>\n<li>Realizar regularmente exerc\u00edcios conjuntos dos servi\u00e7os de seguran\u00e7a com todos os intervenientes relevantes, centrados na prote\u00e7\u00e3o das infraestruturas energ\u00e9ticas offshore e na colabora\u00e7\u00e3o na resposta a crises;<br \/>\u00a0<\/li>\n<li>Atuar contra os navios que n\u00e3o cumprem as normas para evitar as poss\u00edveis amea\u00e7as que representam para as infraestruturas energ\u00e9ticas offshore e o ambiente.<\/li>\n<\/ol>\n<p>O major-general Agostinho Costa acredita que pode n\u00e3o haver necessidade, pelo menos para j\u00e1, para alocar unidades militares \u00e0 defesa da infraestrutura no Mar do Norte. \u00c0 primeira vista a resposta do especialista militar da CNN Portugal pode parecer divergente do olhar europeu, mas centra-se numa quest\u00e3o: &#8220;A partir de que ponto um parque e\u00f3lico deste tamanho deixa de ser operacional?&#8221;.<\/p>\n<p>Para Agostinho Costa estamos perante uma quest\u00e3o de custo-benef\u00edcio. &#8220;Com meia d\u00fazia de m\u00edsseis neutraliza-se uma central energ\u00e9tica, mas para provocar danos significativos num parque e\u00f3lico, ainda para mais daquelas dimens\u00f5es, que tem centenas de ventoinhas, tem de se atacar ventoinha a ventoinha &#8220;, explica o major-general, lembrando ainda que mesmo que 10% das ventoinhas sejam neutralizadas, a infraestrutura continuaria a funcionar e a produzir energia. &#8220;S\u00e3o tantas e est\u00e3o dispersas numa \u00e1rea t\u00e3o grande que um ataque seria desperdi\u00e7ar muni\u00e7\u00f5es&#8221;, explique Agostinho Costa.<\/p>\n<p>Em sentido contr\u00e1rio, o major-general exemplifica com uma hist\u00f3ria ocorrida quando ainda era capit\u00e3o e estava na Central de Castelo de Bode a fazer um estudo sobre a\u00e7\u00f5es supressivas. \u201cO engenheiro que era diretor da central hidroel\u00e9trica mostrou-nos um equipamento, uma esp\u00e9cie de arm\u00e1rio, e disse que aquele era o calcanhar de Aquiles da central, que se se algu\u00e9m destru\u00edsse aquele posto, a central teria de parar. Ou seja, s\u00e3o aquele tipo de equipamentos que t\u00eam de ser defendidos&#8221;.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"374\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/69a1a3e9d34edcee7c61482c.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   Turbinas e\u00f3licas j\u00e1 existentes no Mar do Norte (Getty) <\/p>\n<p style=\"text-align:justify; margin-bottom:11px\">Colocando-se nos sapatos do inimigo, Agostinho Costa acredita que &#8220;seria muito mais rent\u00e1vel atacar a central de transforma\u00e7\u00e3o&#8221; ao inv\u00e9s das ditas ventoinhas, sendo que este ataque tanto poderia ser uma ofensiva tradicional com muni\u00e7\u00f5es ou uma a\u00e7\u00e3o de sabotagem. &#8220;\u00c9 o que russos est\u00e3o a fazer, n\u00e3o atacam as centrais nucleares, mas atacam as centrais de transforma\u00e7\u00e3o el\u00e9trica que recebe a energia das centrais e a canaliza para cidades como Kiev&#8221;.<\/p>\n<p>Em que consiste efetivamente o projeto? <\/p>\n<p>Os pa\u00edses signat\u00e1rios da Declara\u00e7\u00e3o de Hamburgo (documento na \u00edntegra <a href=\"https:\/\/www.bundesregierung.de\/resource\/blob\/2196306\/2404044\/a0d5b4613e61cad24c8ed119167b4ec1\/2026-01-26-en-nordsee-gipfel-hamburger-erklaerung-data.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">aqui<\/a>) justificam o intensificar de esfor\u00e7os no ambicioso projeto com o facto de &#8220;a\u00a0Europa estar a enfrentar desafios cruciais para a sua seguran\u00e7a, economia e sistemas energ\u00e9ticos&#8221; e apontam como causa destas altera\u00e7\u00f5es geoestrat\u00e9gicas &#8220;o\u00a0aumento das tens\u00f5es geopol\u00edticas, nomeadamente a guerra de agress\u00e3o ilegal em curso da R\u00fassia contra a Ucr\u00e2nia&#8221;.<\/p>\n<p>De acordo com a\u00a0WindEurope, uma das empresas respons\u00e1veis pelo projeto, a obra criar\u00e1 cerca de 91 mil postos de trabalho e gerar\u00e1 um fluxo em transa\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas de cerca de\u00a01.000.000.000.000\u20ac &#8211; um\u00a0bili\u00e3o de euros &#8211; entre 2025 e 2040.<\/p>\n<p>O engenheiro Jo\u00e3o Joanaz de Melo entende, contudo, que a &#8220;prioridade&#8221; deveria ser utilizar os topos do edificado j\u00e1 existente para colocar, quer pain\u00e9is solares, quer aerogeradores de dimens\u00f5es consideravelmente menores, porque &#8220;a\u00ed os conflitos de uso v\u00e3o ser muito menores&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que o custo de instala\u00e7\u00e3o por quilowatt ou por megawatt instalado nesta solu\u00e7\u00e3o \u00e9 maior,\u00a0porque &#8220;implica verificar se as coberturas aguentam e ter sistemas de controlo a uma escala mais pequena, que s\u00e3o proporcionalmente mais caros&#8221;. No entanto, o engenheiro explica que esta &#8220;dificuldade&#8221; se restringe apenas \u00e0 &#8220;gest\u00e3o da instala\u00e7\u00e3o inicial&#8221; e recompensaria a longo prazo porque &#8220;estes sistemas descentralizados s\u00e3o muito mais resilientes&#8221; em casos de apag\u00f5es ou temporais.<\/p>\n<p>&#8220;Durante o dia, o telhado da minha casa consegue produzir mais eletricidade do que\u00a0aquela que eu consigo gastar, mas, se tiver um servi\u00e7o ao lado, um consult\u00f3rio ou uma loja, posso vender ao meu vizinho a energia que j\u00e1 est\u00e1\u00a0a consumir, porque consome mais eletricidade do que consegue produzir&#8221;, explica Jo\u00e3o Joanaz de Melo.<\/p>\n<p>Toda a gente ganha? &#8220;N\u00e3o, toda a gente ganha,\u00a0n\u00e3o. As megaempresas\u00a0de energia, os grandes, os oligarcas de energia perdem e \u00e9 isso que explica porque\u00a0\u00e9 que estas coisas, que j\u00e1 est\u00e3o maduras tecnologicamente, se est\u00e3o a expandir t\u00e3o devagarinho&#8221;.\u200b<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u00c9 a resposta \u00e0 guerra lan\u00e7ada por Donald Trump \u00e0 energia e\u00f3lica. 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