{"id":318089,"date":"2026-03-25T10:40:11","date_gmt":"2026-03-25T10:40:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/318089\/"},"modified":"2026-03-25T10:40:11","modified_gmt":"2026-03-25T10:40:11","slug":"a-estrategia-das-tres-frentes-como-o-irao-esta-a-tornar-a-guerra-insuportavel-para-trump","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/318089\/","title":{"rendered":"A estrat\u00e9gia das tr\u00eas frentes: como o Ir\u00e3o est\u00e1 a tornar a guerra insuport\u00e1vel para Trump"},"content":{"rendered":"<p>\t                A promessa de uma guerra &#8220;r\u00e1pida e decisiva&#8221; contra o Ir\u00e3o morreu ao fim de tr\u00eas semanas. Confrontados com uma estrat\u00e9gia de atrito que Trump n\u00e3o previu, os EUA veem-se agora presos num impasse, porque para o regime de Teer\u00e3o vencer esta guerra significa, simplesmente, n\u00e3o a perder<\/p>\n<p>Ainda a ofensiva n\u00e3o tinha come\u00e7ado e o presidente norte-americano, Donald Trump, j\u00e1 garantia: qualquer a\u00e7\u00e3o ofensiva contra o Ir\u00e3o seria &#8220;r\u00e1pida e decisiva&#8221;. E era isso que se esperava daquela que era a maior frota americana desde a guerra do Iraque. S\u00f3 que, na guerra, a primeira v\u00edtima \u00e9 sempre o plano. E o plano americano estava prestes a colidir com uma estrat\u00e9gia iraniana de tr\u00eas frentes com o objetivo de tornar insuport\u00e1vel o custo de uma a\u00e7\u00e3o militar. Tr\u00eas semanas depois, n\u00e3o s\u00f3 o regime iraniano continua por colapsar, como os EUA est\u00e3o a equacionar seriamente o envio de militares para o terreno.<\/p>\n<p>&#8220;Os iranianos t\u00eam uma estrat\u00e9gia delineada h\u00e1 mais de 20 anos, \u00e9 uma estrat\u00e9gia assim\u00e9trica. Enquanto os EUA e Israel t\u00eam uma estrat\u00e9gia assente na for\u00e7a do poder militar, o Ir\u00e3o tem uma estrat\u00e9gia ligada ao poder comunicacional \u2014 criar perce\u00e7\u00f5es que tenham impacto do ponto de vista pol\u00edtico interno dos outros pa\u00edses. E isso parece estar a funcionar&#8221;, explica o tenente-general Marco Serronha.<\/p>\n<p>A primeira frente desta estrat\u00e9gia foca-se no desgaste direto e emocional do advers\u00e1rio. Teer\u00e3o sabe que n\u00e3o tem capacidades fortes o suficiente para fazer frente \u00e0 poderosa frota americana, mas o regime dos aiatolas conhece bem a intoler\u00e2ncia da opini\u00e3o p\u00fablica americana \u00e0s guerras que se arrastam no tempo e ao peso emocional de ver caix\u00f5es a regressar ao pa\u00eds, vindos de um lugar e de um conflito que muitos n\u00e3o compreendem. &#8220;Numa primeira fase, o plano passa por atacar o m\u00e1ximo poss\u00edvel Israel e provocar baixas americanas. Esse efeito \u00e9 muito pesado do ponto de vista psicol\u00f3gico&#8221;, considera Marco Serronha.<\/p>\n<p>\u00c9 por esse motivo que um dos principais alvos do Ir\u00e3o t\u00eam sido as bases norte-americanas espalhadas na regi\u00e3o. Em apenas tr\u00eas semanas, 13 soldados americanos morreram e mais de 200 ficaram feridos. Do lado israelita, apenas dois soldados perderam a vida, mas mais de duas dezenas de civis morreram, numa altura em que o Ir\u00e3o come\u00e7a a intensificar os ataques contra \u00e1reas civis para gerar desgaste psicol\u00f3gico. Isto permite ao regime iraniano manter um ritmo de alerta permanente que rouba a iniciativa medi\u00e1tica aos advers\u00e1rios, mantendo a guerra propositadamente em &#8220;baixa intensidade&#8221;.<\/p>\n<p>Se a primeira fase do plano passa por criar press\u00e3o interna no pa\u00eds inimigo, a segunda foca-se em fazer com que a press\u00e3o passe a vir de fora. E, para isso, a Guarda Revolucion\u00e1ria iraniana tem como alvo os aliados regionais dos Estados Unidos, com ataques cont\u00ednuos contra infraestruturas energ\u00e9ticas, aeroportos, cidades e embaixadas.<\/p>\n<p>&#8220;O Ir\u00e3o vai continuar a agir assimetricamente e a alvejar alvos nos vizinhos. \u00c9 uma das poucas cartas que tem para jogar: levar os pa\u00edses \u00e1rabes a ceder&#8221;, afirma o analista de estrat\u00e9gia Tiago Almeida Vasconcelos. O efeito desta t\u00e1tica j\u00e1 se faz sentir nas capitais do Golfo, onde o entusiasmo inicial deu lugar a uma certa apreens\u00e3o econ\u00f3mica. &#8220;Come\u00e7a a existir a d\u00favida no mundo \u00e1rabe sobre se as bases militares dos EUA est\u00e3o nos seus territ\u00f3rios para eles estarem mais seguros ou para estarem mais inseguros&#8221;, acrescenta o especialista.<\/p>\n<p>Esta &#8220;atmosfera de inseguran\u00e7a&#8221; \u00e9 alimentada pela capacidade iraniana de manter a amea\u00e7a constante, mesmo sob bombardeamento. Segundo o major-general Jorge Saramago, o Ir\u00e3o &#8220;continuar\u00e1 a ter at\u00e9 ao final do conflito capacidade para atingir com m\u00edsseis e drones o territ\u00f3rio dos vizinhos e os interesses americanos&#8221;. O objetivo \u00e9 claro: fazer com que os parceiros \u00e1rabes, asfixiados pelos preju\u00edzos e pelo medo, coloquem o peso da diplomacia sobre Donald Trump para que este ponha fim \u00e0 guerra. Ainda assim, nem todos os pa\u00edses do Golfo est\u00e3o a ter a mesma rea\u00e7\u00e3o. De acordo com o jornal New York Times, o l\u00edder saudita, o pr\u00edncipe Mohammed bin Salman, est\u00e1 a pressionar o presidente americano para aproveitar o que diz ser &#8220;uma oportunidade hist\u00f3rica&#8221; de refazer a regi\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>A terceira fase \u00e9 a mais temida alavanca da resist\u00eancia iraniana e aquela que nos atinge a todos: o estrangulamento da economia global. Para isso, o regime iraniano utiliza a geografia a seu favor, transformando o Estreito de Ormuz num ponto de asfixia para uma regi\u00e3o que exporta 20% de todo o petr\u00f3leo do mundo. E, para isso, n\u00e3o \u00e9 preciso afundar a frota americana ou colocar navios a travar o estreito. A simples amea\u00e7a de ataques, que podem vir por drones a\u00e9reos ou navais, \u00e9 o suficiente para fazer disparar o custo dos seguros de navega\u00e7\u00e3o e catapultar o pre\u00e7o da mat\u00e9ria-prima que sustenta a economia global. O resultado? O regresso da subida de pre\u00e7os para os consumidores ocidentais.<\/p>\n<p>&#8220;Desta vez bastou fazer a amea\u00e7a e isso \u00e9 um elemento de a\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gico que tem um impacto muito grande na economia mundial&#8221;, observa Marco Serronha. Esta capacidade de paralisia revela o que alguns especialistas apontam como uma neglig\u00eancia grave no planeamento da Casa Branca.<\/p>\n<p>Para Jos\u00e9 Tomaz Castello-Branco, especialista em M\u00e9dio Oriente, a falta de uma estrat\u00e9gia clara por parte da Casa Branca \u00e9 o maior risco. &#8220;Devemos ficar preocupados quando ouvimos o presidente americano dizer que ningu\u00e9m ponderou o fecho do Estreito de Ormuz. \u00c9 preocupante imaginar que a maior pot\u00eancia do mundo inicia uma opera\u00e7\u00e3o desta envergadura sem ponderar as alavancas \u00f3bvias que o Ir\u00e3o ia puxar&#8221;, observa.<\/p>\n<p>Para sustentar esta estrat\u00e9gia de tr\u00eas frentes durante semanas \u2014 ou mesmo anos \u2014, o Ir\u00e3o n\u00e3o depende de uma for\u00e7a a\u00e9rea convencional. O pa\u00eds desenvolveu os famosos drones Shahed, atrav\u00e9s de um processo de engenharia reversa, de um motor alem\u00e3o, produzindo uma das mais conhecidas e destrutivas armas do campo de batalha moderno. Estes drones, amplamente utilizados pelos russos na Ucr\u00e2nia, s\u00e3o uma alternativa de &#8220;baixo custo e alto impacto&#8221;, que podem ser produzidos aos milhares por um custo bastante reduzido.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Nem mesmo os pesados ataques americanos e israelitas parecem ter conseguido travar a produ\u00e7\u00e3o cont\u00ednua destes drones. Com a ajuda da China e da R\u00fassia, Teer\u00e3o conseguiu manter as suas linhas de montagem ativas gra\u00e7as a um fluxo constante de componentes destes pa\u00edses, contornando d\u00e9cadas de san\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>&#8220;Os americanos avaliaram o risco, mas n\u00e3o estavam habituados a lidar com drones nesta escala. Tanto que tiveram de pedir ajuda \u00e0 Ucr\u00e2nia para perceber como os travar&#8221;, sublinha Marco Serronha. O problema para o Pent\u00e1gono n\u00e3o \u00e9 a sofistica\u00e7\u00e3o destas armas, mas a sua quantidade e origem. O Ir\u00e3o &#8220;espalhou a produ\u00e7\u00e3o ao m\u00e1ximo&#8221; por todo o territ\u00f3rio e por bases subterr\u00e2neas, tornando imposs\u00edvel para os ataques a\u00e9reos americanos eliminarem a amea\u00e7a com um \u00fanico golpe.<\/p>\n<p>Para fazer frente a esta amea\u00e7a, os americanos respondem com a utiliza\u00e7\u00e3o de alguns dos sistemas de defesa antia\u00e9rea mais avan\u00e7ados do mundo, como os sistemas Patriot. S\u00f3 que ao contr\u00e1rio dos Shahed, que t\u00eam um custo estimado de dez mil euros por unidade, o m\u00edssil intercetor PAC-3 custa aproximadamente quatro milh\u00f5es de euros, o que torna esta luta bastante desigual. Para piorar, estima-se que s\u00e3o produzidos 600 destes m\u00edsseis por ano, ao passo que as fontes ocidentais acreditam que o Ir\u00e3o \u00e9 capaz de produzir mil drones por m\u00eas.<\/p>\n<p>A isto junta-se um stock de m\u00edsseis bal\u00edsticos que, embora degradado pelos bombardeamentos, mant\u00e9m uma capacidade de lan\u00e7amento persistente. &#8220;O Ir\u00e3o continuar\u00e1 a ter, at\u00e9 ao final do conflito, capacidade para atingir com m\u00edsseis e drones o territ\u00f3rio dos vizinhos&#8221;, refor\u00e7a o major-general Jorge Saramago. Esta produ\u00e7\u00e3o descentralizada e o apoio externo transformam o Ir\u00e3o numa esp\u00e9cie de &#8220;Ucr\u00e2nia do M\u00e9dio Oriente&#8221;, resistindo aos ataques de um advers\u00e1rio militarmente superior mas causando fortes danos e arrastando o conflito no tempo.<\/p>\n<p>S\u00f3 que numa guerra de atrito, o tempo corre de forma diferente para ambos os lados. Washington procura uma vit\u00f3ria r\u00e1pida para evitar o desgaste pol\u00edtico, mas Teer\u00e3o para obter uma vit\u00f3ria basta n\u00e3o sofrer uma derrota. Para o regime dos aiatolas, vencer n\u00e3o significa derrotar a frota americana, mas simplesmente garantir que, quando a poeira assentar, mesmo que eles continuem l\u00e1, o mundo est\u00e1 demasiado cansado para voltar a tentar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A promessa de uma guerra &#8220;r\u00e1pida e decisiva&#8221; contra o Ir\u00e3o morreu ao fim de tr\u00eas semanas. Confrontados&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":318090,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[50],"tags":[609,836,611,36890,27,28,607,608,333,832,604,135,610,476,7618,26456,15,16,301,830,14,5453,259,603,25,26,570,21,22,831,833,62,834,12,13,19,20,835,602,52,32,23,24,21497,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":["post-318089","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-mundo","tag-alerta","tag-analise","tag-ao-minuto","tag-atrito","tag-breaking-news","tag-breakingnews","tag-cnn","tag-cnn-portugal","tag-comentadores","tag-costa","tag-crime","tag-desporto","tag-direto","tag-economia","tag-estados-unidos-da-america","tag-estrategia","tag-featured-news","tag-featurednews","tag-governo","tag-guerra","tag-headlines","tag-irao","tag-israel","tag-justica","tag-latest-news","tag-latestnews","tag-live","tag-main-news","tag-mainnews","tag-mais-vistas","tag-marcelo","tag-mundo","tag-negocios","tag-news","tag-noticias","tag-noticias-principais","tag-noticiasprincipais","tag-opiniao","tag-pais","tag-politica","tag-portugal","tag-principais-noticias","tag-principaisnoticias","tag-shahed","tag-top-stories","tag-topstories","tag-ultimas","tag-ultimas-noticias","tag-ultimasnoticias","tag-world","tag-world-news","tag-worldnews"],"share_on_mastodon":{"url":"","error":"Validation failed: Text character limit of 500 exceeded"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/318089","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=318089"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/318089\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/318090"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=318089"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=318089"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=318089"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}