{"id":32033,"date":"2025-08-16T16:17:14","date_gmt":"2025-08-16T16:17:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/32033\/"},"modified":"2025-08-16T16:17:14","modified_gmt":"2025-08-16T16:17:14","slug":"leveza-gentil-e-corajosa-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/32033\/","title":{"rendered":"&#8220;leveza gentil e corajosa&#8221; \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p><strong>T\u00edtulo<\/strong>: No Sul da Macaron\u00e9sia. Cabo Verde: S\u00e3o Vicente e Santo Ant\u00e3o<\/p>\n<p><strong>Autor<\/strong>: Ana Roque de Oliveira<\/p>\n<p><strong>Design<\/strong>: Jorge Carvalho<\/p>\n<p><strong>Editores<\/strong>: Ilh\u00e9u Editora (Mindelo) e Alma Letra (Lisboa)<\/p>\n<p><strong>P\u00e1ginas<\/strong>: 152<\/p>\n<p><strong>Pre\u00e7o<\/strong>: 20 euros<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/bordalo.observador.pt\/v2\/q:60\/rs:fill:560\/plain\/https:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/12171508\/captura-de-ecra-2025-08-12-as-171453.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"589\" height=\"585\"\/>    <\/p>\n<p>A engenheira do ambiente Ana Roque de Oliveira aproveitou a sua estada profissional no barlavento caboverdiano, entre Fevereiro de 2022 e Janeiro de 2024, para fotografar e escrever sobre o que ali viu e sentiu, da\u00ed resultando este foto-livro que se configura como roteiro sentimental das ilhas de S\u00e3o Vicente e Santo Ant\u00e3o, onde uma leveza humana \u201cgentil e corajosa\u201d (s\u00e3o palavras da autora) se conjuga \u2014 ou ser\u00e1 ajusta? \u2014 admiravelmente com a secura paisag\u00edstica e clim\u00e1tica, desafiando o entendimento de quem chega. No Sul da Macaron\u00e9sia. Cabo Verde: S\u00e3o Vicente e Santo Ant\u00e3o, importa sab\u00ea-lo, segue-se a Os Dias em Tete, em que deu conta da sua experi\u00eancia mo\u00e7ambicana decorrida em 2009-12 (edi\u00e7\u00e3o L\u00e1pis de Mem\u00f3ria, 2012, 152 pp.), e este fluxo cont\u00ednuo deve ser considerado, tanto mais que nos dois roteiros os escritos que acompanham os registos visuais coincidem como impress\u00f5es com selo autobiogr\u00e1fico evidente (\u201csentimentos avulsos reflectidos em palavras e imagens\u201d, p. 15). Os dois livros t\u00eam o mesmo n\u00famero de p\u00e1ginas (a diferen\u00e7a de oito \u00e9 irrelevante); dir-se-ia quase feitos pelo mesmo molde.<\/p>\n<p>Ana Roque falou de insularidade em Tete (\u201cn\u00e3o \u00e9 uma ilha, geograficamente falando, mas \u00e9, de facto, uma ilha\u201d por car\u00eancia de abastecimentos, p. 69), por\u00e9m, a condi\u00e7\u00e3o insular sobressai, inconfund\u00edvel, como tra\u00e7o profundo da antropologia caboverdiana \u2014 pois ali o oceano \u00e9 limite pr\u00f3ximo e ao mesmo tempo des\u00edgnio, sonho e oxig\u00e9nio vital, como em toda a Macaron\u00e9sia do t\u00edtulo. Em S\u00e3o Vicente, barcos de pesca de consider\u00e1vel porte num estaleiro de doca seca, ou uma praia \u201cpolvilhada de barcos que descansam\u201d, d\u00e3o sinal do isolamento geogr\u00e1fico, enquanto em Santo Ant\u00e3o s\u00e3o as altas cumeadas a afastar ao m\u00e1ximo os naturais do fio do horizonte. \u201c\u00c9 a aridez parda, em toda a sua vastid\u00e3o e todo o seu sil\u00eancio, que nos toca\u201d, escreve na primeira das suas notas, e al\u00e9m disso, \u201cos habitantes de Mindelo coabitam com as sombras do passado\u201d, as das velhas casas, lojas, armaz\u00e9ns e palacetes \u2014 hoje bastante corr\u00f3idos \u2014, do tempo antigo, quando foi um entreposto carvoeiro essencial para a navega\u00e7\u00e3o no Atl\u00e2ntico Sul.<\/p>\n<p>Nem\u00e9sio, em viagem para o Brasil nos anos 50, escreveu admir\u00e1vel cr\u00f3nica sobre o que ali viu, mas essa e tantas outras reminisc\u00eancias liter\u00e1rias \u2014 excep\u00e7\u00e3o feita a Cap-Vert. Notes atlantiques de Jean-Yves Loude, \u201cuma p\u00e9rola!\u201d de 1997 (p. 56) \u2014 n\u00e3o ocupam as lentes da autora, imersa na observa\u00e7\u00e3o directa e em contactos pessoais que de imediato a desarmam pela empatia, denotando um modo peculiar de ser e viver: \u201cpunho com punho num suave toque, logo pousados nos respectivos cora\u00e7\u00f5es\u00bb, em jeito de cumprimento caboverdiano\u201d\u00a0(p. 147). Pinturas murais, desfiles domingueiros de Mandinga, de origem incerta, e um pequeno concurso entre carros aleg\u00f3ricos carnavalescos seduzem a \u201cfot\u00f3grafa amadora\u201d (sic) em visita, a quem a Kola San Jon \u2014 festa que celebra S\u00e3o Jo\u00e3o Baptista, padroeiro de Cabo Verde \u2014 ofereceu a oportunidade de uma das imagens mais carism\u00e1ticas deste livro (p. 79), a da corrida dan\u00e7ada de homens-barco na Ribeira de S\u00e3o Juli\u00e3o, at\u00e9 \u00e0 capela do Santo, no Mindelo, num mim\u00e9tico movimento ondulante, seguidos de estridentes tamboreiros e coloridas coladeiras. Em Ribeira do Calhau, Ana Roque foi encontrar Manuel Silveira, um antigo oper\u00e1rio emigrante em Portugal, a cuidar \u201ccom muito esmero\u201d de um quadrado de terra com \u201crenques meticulosamente alinhados\u201d, para ouvir dele que a agricultura poss\u00edvel n\u00e3o interessa aos jovens do pa\u00eds, que \u00abn\u00e3o querem trabalhar\u201d (p. 82). Atenta \u00e0 constru\u00e7\u00e3o tradicional em pedra \u2014 como nas mo\u00e7ambicanos Matundo e Capanga havia notado com especial interesse o fabrico artesanal de tijolos \u2014, parou num vale para registar sarandas de pedra mi\u00fada trazida pelo aluvi\u00e3o das chuvas, e mais adiante, em Cruz de Lameir\u00e3o, pequeno povoado a caminho do Monte Verde, dependente do cami\u00e3o-cisterna que abastece o fontan\u00e1rio de \u00e1gua desalinizada. \u201cMindelo prevaleceu. Mas os que hoje vivem fora dos limites da cidade est\u00e3o ainda ref\u00e9ns da chegada dos autotanques que, esfor\u00e7ada e ininterruptamente, sobem \u00e0s povoa\u00e7\u00f5es ou circundam a ilha, alimentando os fontan\u00e1rios\u201d\u00a0(p. 98). Os bid\u00f5es cheios s\u00e3o levados \u00e0 cabe\u00e7a pelas mulheres; um homem costura \u00e0 m\u00e1quina num recanto de rua.<\/p>\n<p>Chegamos a Santo Ant\u00e3o, sem que Roque distinga o fim do seu portef\u00f3lio vicentino. S\u00e3o as fotografias que nos indicam o transbordo feito. A paisagem da ilha \u00e9 deslumbrante pela orografia singular\u00edssima, o verde que desponta e o nevoeiro que por vezes filtra os amplos cen\u00e1rios naturais em declive. Casas em chapa ou de pedra com telhado de colmo s\u00e3o quase sempre meros abrigos algures na imensid\u00e3o de escarpas, desfiladeiros e \u201cvales assombrosamente profundos\u201d (p. 117). A Estrada da Corda, em basalto, que atravessa desde os anos 1960 Santo Ant\u00e3o duma ponta \u00e0 outra, do Porto Novo at\u00e9 \u00e0 Ribeira Grande, \u00e9 uma linha orientadora na paisagem, \u201ctriplo \u00eaxtase\u201d, e o horizonte \u201cest\u00e1 vivo, eternamente mut\u00e1vel\u201d (p. 107). Tal magnanimidade, por\u00e9m, leva Ana Roque a prestar aten\u00e7\u00e3o ao \u00ednfimo natural, como louva-deus numa haste floral, a borboleta que suga uma flor ou o tufo de algod\u00e3o que se solta da c\u00e1psula (algo que n\u00e3o havia feito na ilha em frente), mas tamb\u00e9m na humildade na gente, \u201clinha de cerzir\u201d a narrativa da longa hist\u00f3ria ilhoa, \u201cquando uma paisagem ainda mais intacta existia\u201d (p. 117). Magn\u00edfica, a reluzente flamboi\u00e3 (Delonix regia) da p. 142. A sageza do pescador que aguarda, paciente, a onda que vai fazer entrar o seu bote em seguran\u00e7a no porto da Ponta do Sol, nas agitadas \u00e1guas da ba\u00eda Boca da Pistola, \u00e9 uma outra prova quotidiana de que os caboverdianos foram e s\u00e3o grandes homens de mar, na velha balea\u00e7\u00e3o e n\u00e3o s\u00f3. E tamb\u00e9m bons pastores de cabras, como os do Monte Verde vicentino (v. pp. 149-50). A di\u00e1spora tamb\u00e9m est\u00e1 bem presente no encontro com os Cabral, na serra de Santo Ant\u00e3o, que j\u00e1 n\u00e3o sabem bem \u2014 porque distantes, e eles t\u00e3o isolados \u2014 quantos netos e bisnetos t\u00eam.<\/p>\n<p>A \u00e1gua foi, \u00e9 e ser\u00e1 um grande problema, ou o maior tesouro \u2014 e aquela can\u00e7\u00e3o de Ces\u00e1ria \u00c9vora num belo dueto com Caetano Veloso (o poema \u00e9 de Am\u00edlcar Cabral), bem poderia ser recordada por Ana Roque de Oliveira, quando, em homenagem \u00e0 extraordin\u00e1ria cantora caboverdiana, conclui o livro fotografando o mural que Vilhs escavou a berbequim em 10 metros de parede no Mindelo, em 2019. Os de S\u00e3o Vicente dependeram de Santo Ant\u00e3o para terem \u201c\u00e1gua de beber\u201d: \u201cera a boa \u00e1gua de Vasc\u00f3nia transportada em pequenos barcos e mais tarde em \u201cvaporins d\u2019\u00e1gua\u201d, vendida no Mindelo, \u00e0 beira da ba\u00eda de Porto Grande\u201d (p. 98).<\/p>\n<p>Um muito simp\u00e1tico foto-livro de louvor a Cabo Verde, que com pleno agrado se conservar\u00e1 na estante ao lado dos de Jos\u00e9 Manuel Rodrigues, In\u00eas Gon\u00e7alves e Jos\u00e9 Afonso Furtado \u2014 e do tristemente pouco lido, esquecido ou obliterado A Ilha do Fogo e as suas Erup\u00e7\u00f5es de Orlando Ribeiro (1954; 1997).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"T\u00edtulo: No Sul da Macaron\u00e9sia. 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