{"id":324901,"date":"2026-03-30T22:38:09","date_gmt":"2026-03-30T22:38:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/324901\/"},"modified":"2026-03-30T22:38:09","modified_gmt":"2026-03-30T22:38:09","slug":"este-retrato-e-um-rembrandt-ou-a-copia-de-um-aluno-com-talento-e-aplicado-artes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/324901\/","title":{"rendered":"Este retrato \u00e9 um Rembrandt ou a c\u00f3pia de um aluno com talento e aplicado? | Artes"},"content":{"rendered":"<p>O bisav\u00f4 de Francis Newman, empres\u00e1rio brit\u00e2nico e actual dono, comprou-o como se fosse um retrato original de Rembrandt por uma soma substancial a uma galeria londrina em 1898. Desde que fora feito, por volta de 1632-33, e at\u00e9 essa data n\u00e3o se pusera em causa a sua autoria.<\/p>\n<p>S\u00f3 em 1912, ano em que reapareceu o retrato que dez anos depois passou a pertencer ao Instituto de Arte de Chicago, \u00e9 que o conceituado curador e historiador de arte alem\u00e3o Wilhelm von Bode, tamb\u00e9m ele um especialista na pintura holandesa do s\u00e9culo XVII, defendeu que a obra adquirida em 1898 n\u00e3o passava de uma \u201creprodu\u00e7\u00e3o engenhosa\u201d, atribuindo-a \u00e0 sua oficina.<\/p>\n<p>Passaram, entretanto, 114 anos e a teoria, agora, \u00e9 outra \u2014 afinal, as duas vers\u00f5es da pintura Old Man with a Gold Chain (\u201cVelho com uma Corrente de Ouro\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre) ter\u00e3o sido pintadas pelo mesmo artista \u2014 <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/Rembrandt\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">Rembrandt van Rijn<\/a> (1606-1669), o mestre. Quem o defende \u00e9 outro historiador de arte, um neerland\u00eas nascido nos Estados Unidos, Gary Schwartz, autor de v\u00e1rios livros sobre o pintor e a sua obra. E o debate sobre a autoria regressa, o que, em se tratando de Rembrandt, \u00e9 comum.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>V\u00e1rios factores concorrem para esta ideia de \u201cdois retratos em (quase) tudo id\u00eanticos de um s\u00f3 autor\u201d, a come\u00e7ar pela qualidade da pincelada, que partilham, e pelo facto de ser bastante comum no tempo de Rembrandt os pintores fazerem r\u00e9plicas das suas pr\u00f3prias obras, argumenta Schwartz.<\/p>\n<p>A vers\u00e3o que pertence a Newman e que nos \u00faltimos cem anos foi tida como obra de atelier, porventura de um dos seus alunos mais capazes, \u00e9 ligeiramente mais pequena do que o retrato que reapareceu em 1912 e de imediato se atribuiu a Rembrandt (\u00e9 de 1631), e foi executada sobre tela e n\u00e3o sobre madeira, ao contr\u00e1rio do que integra o acervo do Instituto de Arte de Chicago.<\/p>\n<p>Os pigmentos do mestre<\/p>\n<p>Colocados lado a lado, e para um olho n\u00e3o treinado, os dois retratos s\u00e3o praticamente iguais, s\u00f3 a dimens\u00e3o os distingue. Para Schwartz, as diferen\u00e7as entre ambos s\u00e3o t\u00e3o subtis \u2014 as pestanas, por exemplo, na pintura que est\u00e1 no Reino Unido s\u00e3o feitas com finas pinceladas de tinta mais clara, ao passo que na outra resultam da raspagem da camada mais escura para deixar que a mais clara apare\u00e7a \u2014 que n\u00e3o sustentam a teoria de que ter\u00e3o sa\u00eddo da m\u00e3o de artistas diferentes.<\/p>\n<p>\u201cSe Rembrandt tivesse um cliente interessado numa r\u00e9plica do seu belo \u2018Velho\u2019 atraente, qual seria a forma mais eficaz de a fazer? Encarregar um aluno, cujo trabalho teria de ser corrigido \u2014 e a pintura de Newman n\u00e3o mostra sinais de correc\u00e7\u00f5es \u2014 ou repetir os passos que acabara de dar, quando ainda estavam frescos na sua cabe\u00e7a e na sua m\u00e3o? A segunda op\u00e7\u00e3o faz, certamente, mais sentido. Esta suposi\u00e7\u00e3o explica, ali\u00e1s, a qualidade excepcional do retrato sobre tela\u201d, <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/artanddesign\/2026\/mar\/30\/rembrandt-old-man-with-a-gold-chain-painting-copy-art-institute-chicago\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">disse <\/a>o historiador de arte neerland\u00eas ao di\u00e1rio brit\u00e2nico The Guardian.<\/p>\n<p>Schwartz ancora a sua teoria, tamb\u00e9m, na an\u00e1lise material das imagens recolhidas por raio-X e por infravermelhos, m\u00e9todos que permitem aceder \u00e0s camadas invis\u00edveis, \u00e0s que ficam por baixo da pintura. As da pintura de Chicago, feita sobre madeira, revelaram um desenho subjacente que mostra, por exemplo, ajustes no traje do homem, correc\u00e7\u00f5es feitas durante a pintura que n\u00e3o s\u00e3o identific\u00e1veis no retrato sobre tela, explica o historiador: \u201cSe tivesse sido um aluno a faz\u00ea-lo, teria cometido erros que, depois, o mestre teria querido corrigir. Este trabalho [na tela] \u00e9 muito preciso.\u201d<\/p>\n<p>Por oposi\u00e7\u00e3o, o Instituto de Arte de Chicago, que analisou as mesmas imagens que Schwartz e os pigmentos usados, chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que a teoria que classifica como c\u00f3pia de atelier o retrato feito sobre tela e hoje numa colec\u00e7\u00e3o privada brit\u00e2nica \u00e9 a que deve prevalecer. Isto sem deixar de reconhecer, no entanto, que o debate em torno das duas vers\u00f5es e do seu objectivo continua \u201cem evolu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Desde Dezembro do ano passado, e at\u00e9 17 de Maio, este instituto tem vindo a mostrar as duas vers\u00f5es de Old Man with a Gold Chain para, assim, contribuir para a reflex\u00e3o sobre as pr\u00e1ticas de trabalho no atelier de Rembrandt e a rela\u00e7\u00e3o que este mestre incontestado do S\u00e9culo de Ouro da pintura holandesa mantinha com os seus disc\u00edpulos. \u00c9 a primeira vez em 400 anos que as duas pinturas est\u00e3o lado a lado, permitindo aos acad\u00e9micos analis\u00e1-las ao vivo e por compara\u00e7\u00e3o directa.<\/p>\n<p>\u201cAtrav\u00e9s da compara\u00e7\u00e3o da m\u00e3o do mestre com a do seu aluno pretende-se responder a quest\u00f5es recorrentes relativas \u00e0 atribui\u00e7\u00e3o [da autoria] na pintura do s\u00e9culo XVII e ao processo criativo no c\u00edrculo de Rembrandt\u201d, pode ler-se no comunicado que apresenta esta iniciativa da equipa de investiga\u00e7\u00e3o de Chicago, que tem <a href=\"http:\/\/www.artic.edu\/articles\/1229\/imitation-game-a-rembrandt-and-its-workshop-copy\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">dispon\u00edvel online um ensaio<\/a>, da autoria da curadora Jacquelyn N. Coutr\u00e9, em que fundamenta a sua posi\u00e7\u00e3o face \u00e0 vers\u00e3o do empres\u00e1rio brit\u00e2nico Francis Newman e a que deu o t\u00edtulo \u201cImitation game: A Rembrandt and its workshop copy\u201d (O jogo da imita\u00e7\u00e3o: Um Rembrandt e a sua c\u00f3pia de atelier, numa tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/p>\n<p>Lembra o Guardian que o Instituto Hamilton Kerr, da Universidade de Cambridge, tamb\u00e9m se deteve nos pigmentos e na tela do retrato da colec\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica, concluindo que correspondem aos usados pelo mestre e pela sua oficina. Determinou ainda que a camada preparat\u00f3ria identificada nesta vers\u00e3o \u2014 a que se faz para que o suporte possa receber a pintura \u2014 \u00e9 semelhante \u00e0 de oito obras que Rembrandt executou nos anos de 1632 e 1633.<\/p>\n<p>A falta de consenso em rela\u00e7\u00e3o ao autor do retrato sobre tela \u00e9 evidente e, provavelmente, manter-se-\u00e1 at\u00e9 porque, escreve o <a href=\"https:\/\/www.theartnewspaper.com\/2026\/03\/30\/rembrandt-old-man-gold-chain-copy-autograph-art-institute-chicago\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Art Newspaper<\/a>, Rembrandt teve muitos alunos talentosos que aprendiam copiando as obras do seu mestre e, n\u00e3o raras vezes, eram chamados a acabar pinturas que ele tinha come\u00e7ado. Rembrandt, sublinha esta publica\u00e7\u00e3o especializada, era um artista de sucesso, com muitas encomendas, e tinha a seu cargo uma grande oficina, com um volume de produ\u00e7\u00e3o significativo, tendo criado um corpo de trabalhos capaz de alimentar a discuss\u00e3o entre historiadores e outros acad\u00e9micos ao longo de gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No in\u00edcio deste m\u00eas, ali\u00e1s, investigadores do Rijksmuseum, em Amsterd\u00e3o, autenticaram um Rembrandt \u2014 <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2026\/03\/02\/culturaipsilon\/noticia\/rijksmuseum-identifica-pintura-rembrandt-desaparecida-desde-1961-2166527\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">Vision of Zacharias in the Temple <\/a>(1963) \u2014 pertencente a um coleccionador privado, uma pintura que, no in\u00edcio dos anos 60, tinha sido classificada como c\u00f3pia.<\/p>\n<p>Para complicar, a vers\u00e3o de Old Man with a Gold Chain feita sobre tela pode ainda resultar da combina\u00e7\u00e3o do trabalho de Rembrandt com um dos seus alunos, prop\u00f5e Justus Lange, que em breve mostrar\u00e1 os dois retratos na exposi\u00e7\u00e3o Rembrandt 1632. Creation of a Brand (7 de Maio a 16 de Agosto), a realizar em Kassel, Alemanha, na galeria dedicada aos mestres da pintura antiga.<\/p>\n<p>\u201cA quest\u00e3o \u00e9 apenas se vamos ou n\u00e3o aceitar que foi Rembrandt quem pintou o retrato [da colec\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica]\u201d, disse ainda Schwartz ao Guardian. \u201cAcho o debate muito emocionante. Abre todo o tipo de possibilidades para voltarmos a olhar para muitas pinturas.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O bisav\u00f4 de Francis Newman, empres\u00e1rio brit\u00e2nico e actual dono, comprou-o como se fosse um retrato original de&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":324902,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[144],"tags":[207,205,206,1753,203,201,202,315,1413,204,114,115,17544,6899,32,33,21004,56877],"class_list":["post-324901","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-arte-e-design","tag-arte","tag-arte-e-design","tag-artedesign","tag-artes","tag-arts","tag-arts-and-design","tag-artsanddesign","tag-cultura","tag-cultura-ipsilon","tag-design","tag-entertainment","tag-entretenimento","tag-museus","tag-pintura","tag-portugal","tag-pt","tag-rembrandt","tag-rijksmuseum"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116320528263086403","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/324901","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=324901"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/324901\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/324902"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=324901"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=324901"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=324901"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}