{"id":327026,"date":"2026-04-01T15:25:14","date_gmt":"2026-04-01T15:25:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/327026\/"},"modified":"2026-04-01T15:25:14","modified_gmt":"2026-04-01T15:25:14","slug":"nao-ha-violinos-no-entroncamento-comentario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/327026\/","title":{"rendered":"N\u00e3o h\u00e1 violinos no Entroncamento | Coment\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p><strong>Veja tamb\u00e9m:<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 violinos no Entroncamento, mas o ru\u00eddo f\u00e9rreo dos comboios: melodia da modernidade, do s\u00e9culo do cinema, e dos seus rumores. Beijos cenogr\u00e1ficos em apeadeiros, cabelos com laca a esvoa\u00e7ar contra os comboios em movimento, e malas de cart\u00e3o nas m\u00e3os geladas de camponeses esfarrapados, rumo \u00e0 cidade grande. Assaltos a locomotivas, travellings que nos assombram, nuvens de carv\u00e3o. As carruagens dos pobres, sempre; mas tamb\u00e9m as carruagens dos ricos, apesar da fuligem, com os assentos de veludo e o tilintar das loi\u00e7as ex\u00f3ticas a bordo. Chap\u00e9us altos, bigodes aristocr\u00e1ticos, damas de leque e aventuras delirantes nos Orientes, mil e uma vezes inventados, forjados. La Ciotat, Nova Iorque, Moscovo, Berlim, Xangai\u2026 e na Sic\u00edlia, no Douro, em Santa Apol\u00f3nia\u2026 a ferrovia expandiu-se e chegou, com o cinema.<\/p>\n<p>Depois, o indiz\u00edvel: vag\u00f5es sobrelotados rasgando o nev\u00e3o, m\u00e1quinas disciplinadas, numa efic\u00e1cia silenciosa, e o apito temeroso do horror a ecoar pela Europa. \u201cChe cosa \u00e8 pi\u00f9 triste di un treno?\u201d* O fim. O fim.<\/p>\n<p>\u00c9 Inverno na Terra e isto n\u00e3o est\u00e1 f\u00e1cil. Quem \u00e9 a mulher sozinha, encostada \u00e0 porta traseira de um comboio noturno, com um olhar feroz para fora de campo? Ela desce no Entroncamento, e o filme convoca os seus vultos. N\u00f3s, herdeiros e propulsores das viol\u00eancias e de tantas outras arqueologias, espectadores de cinema e, cada vez mais, espectadores da Hist\u00f3ria, sabemos, quando Laura aparece, que ela carrega a sua exaust\u00e3o, mas tamb\u00e9m um s\u00e9culo de mitologia, no saco preto da Nike. A imagem cinematogr\u00e1fica \u00e9 uma quest\u00e3o de confian\u00e7a: firmamos o pacto, seguimos viagem. E logo, as feridas e o sangue, as v\u00e9rtebras e as palavras, uma casa. Mas n\u00e3o saberemos, at\u00e9 ao final, quem \u00e9 esta mulher, apesar de estarmos com ela, no cora\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds. Amor e pudor, como nos filmes de Pasolini. \u201cEstamos todos em perigo.\u201d* <\/p>\n<p>        &#13;<br \/>\n            &#13;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.publico.pt\/2026\/03\/27\/culturaipsilon\/reportagem\/pedro-cabeleira-entroncamento-ficou-tras-saida-2168798\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">Entroncamento<\/a> \u00e9 um filme muito importante, que vai ficar. Escassas as obras que, ao se estrearem j\u00e1 se ancoram no tempo, enraizando-se com a teimosia dos cl\u00e1ssicos, pela sua profunda intui\u00e7\u00e3o e por transformar essa intui\u00e7\u00e3o em cinema. Este \u00e9 o primeiro filme portugu\u00eas, talvez o \u00fanico, que filmou \u2014 sem alegorias, truques ou confort\u00e1veis \u201cdistanciamentos cr\u00edticos\u201d \u2014 o devir fascista neste pa\u00eds. N\u00e3o mais as causas, os sintomas, a patologia, ou a vassoura cinematogr\u00e1fica para limpar os cacos e as ru\u00ednas.<\/p>\n<p>Entroncamento reivindica que um filme e a sua feitura s\u00e3o inst\u00e2ncias insepar\u00e1veis, um territ\u00f3rio comum de experimenta\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e pol\u00edtica: <a href=\"http:\/\/www.publico.pt\/2026\/03\/27\/culturaipsilon\/podcast\/magnetismo-ana-vilaca-entroncamento-onde-vem-forca-actriz-2169203\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">a Laura (Ana Vila\u00e7a)<\/a> e o Fama (Tiago Costa), a N\u00e1dia (Cleo Di\u00e1ra) e o Gilinho (Henrique Barbosa), o Matreno (Rafael Morais), o Bruno (S\u00e9rgio Coragem) ou o Kadima (Andr\u00e9 Sim\u00f5es), todas estas figuras se insurgem activamente diante da c\u00e2mara, confrontando as realidades e moldando a sua pr\u00f3pria mise-en-sc\u00e8ne, que precede, contamina, e perdura para al\u00e9m do cinema.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia e a candura, os gritos e os sil\u00eancios, o passado e o presente; sim, um devir, porque as intensidades afectivas que cada presen\u00e7a entrega ao filme nunca pedem compreens\u00e3o ou empatia, mas sim algo como um \u201cpacto de escuta\u201d que permita conservar toda a opacidade, o mist\u00e9rio, e a incerteza das palavras, dos gestos e das hist\u00f3rias, sem os interromper: a de Gilinho e de N\u00e1dia (um rapaz cigano recusado pela sua fam\u00edlia por causa da rela\u00e7\u00e3o que estabeleceu com ela, uma rapariga negra, divorciada, e com uma filha pequena \u2014 \u00e9 muito comovente o encontro de Gilinho com a sua m\u00e3e, a atriz <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2017\/11\/17\/sociedade\/noticia\/podcast-do-genero-5-1792891\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">Maria Gil<\/a>); as trai\u00e7\u00f5es e interrup\u00e7\u00f5es das redes de lealdade entre os pequenos traficantes; o racismo, explicitamente presente; ou as solidariedades masculinas, brutalmente violentas para com as mulheres de Entroncamento.<\/p>\n<p>O filme dan\u00e7a com o mundo sem aprisionar as suas figuras em identidades cristalizadas; o territ\u00f3rio de Entroncamento \u00e9 muito mais do que um espa\u00e7o \u201csocial\u201d: a c\u00e2mara capta o desmantelamento dos corpos, somando essa vertigem ao pr\u00f3prio corpo do filme. Mas, ainda que estas figuras em queda se encontrem quebradas e s\u00f3s, h\u00e1 um gesto cinematogr\u00e1fico que teima em reorganizar a experi\u00eancia comum, coletiva.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>A intensidade dram\u00e1tica de Entroncamento \u00e9 pontualmente interrompida por momentos que formam essa tessitura de rela\u00e7\u00f5es: perto do final, Laura e N\u00e1dia preparam-se para um assalto contra um homem violento, movidas por um latente sentido de justi\u00e7a, mas tamb\u00e9m pela mais-valia da opera\u00e7\u00e3o. Antes do crime, h\u00e1 uma cena de meio minuto, num plano aberto, onde as duas amigas, sentadas na penumbra da sala, partilham um mesmo cigarro e trocam um olhar.<\/p>\n<p>Nesse momento, prevalece o n\u00e3o-dito, um sil\u00eancio t\u00e3o breve quanto vasto, como se todas as palavras e gestos tivessem uma face secreta.<\/p>\n<p>* <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/03\/01\/culturaipsilon\/noticia\/primo-levi-portador-memoria-2123655\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">&#8220;A Uma Hora Incerta&#8221;<\/a>, de Primo Levi (Ed. Destino, 1985), e &#8220;<a href=\"https:\/\/www.cittapasolini.com\/post\/siamo-tutti-in-pericolo-ultima-intervista-pasolini-1975\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Siamo tutti in pericolo<\/a>&#8220;, de Pier Paolo Pasolini (entrevista ao La Stampa, 1975), respectivamente<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Veja tamb\u00e9m: N\u00e3o h\u00e1 violinos no Entroncamento, mas o ru\u00eddo f\u00e9rreo dos comboios: melodia da modernidade, do s\u00e9culo&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":327027,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[140],"tags":[470,10967,1413,114,115,147,148,1757,9500,57093,146,56717,32,33],"class_list":["post-327026","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-filmes","tag-cinema","tag-cinema-portugues","tag-cultura-ipsilon","tag-entertainment","tag-entretenimento","tag-film","tag-filmes","tag-ipsilon","tag-ipsilon-papel","tag-joao-salaviza","tag-movies","tag-pedro-cabeleira","tag-portugal","tag-pt"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116330150244081817","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/327026","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=327026"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/327026\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/327027"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=327026"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=327026"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=327026"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}