{"id":32719,"date":"2025-08-17T04:03:15","date_gmt":"2025-08-17T04:03:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/32719\/"},"modified":"2025-08-17T04:03:15","modified_gmt":"2025-08-17T04:03:15","slug":"em-trincheira-tropical-de-ruy-castro-rio-reflete-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/32719\/","title":{"rendered":"Em &#8216;Trincheira Tropical&#8217;, de Ruy Castro, Rio reflete o mundo"},"content":{"rendered":"<p>Os leitores, cativos do estilo \u00fanico do artista Ruy Castro, deparam-se mais uma vez com livro estalando de novo, cheirando a novo, profus\u00e3o de hist\u00f3rias, ao alcance da m\u00e3o nos balc\u00f5es das livrarias.<\/p>\n<p>O mergulho no passado, emergindo com as melhores hist\u00f3rias, nos disponibilizando amplo painel do que aconteceu. Mais uma vez obra vasta e minuciosa. Mais uma vez a confian\u00e7a que conquistou na rigorosa apura\u00e7\u00e3o dos fatos. O t\u00edtulo da obra: Trincheira Tropical.<\/p>\n<p>E l\u00e1 vamos n\u00f3s na aventura de passear nas ruas da hist\u00f3ria, somando mais de quinhentas deliciosas p\u00e1ginas, concatenadas, abrindo as cortinas do passado, confirmando o que mais ou menos sab\u00edamos ou nos\u00a0 surpreendendo em novas perspectivas desse teatro de ontem que teceu parte do que hoje somos.<\/p>\n<p>Trincheira Tropical estampa o Rio, Rio de Janeiro. Metr\u00f3pole \u00e0 beira-mar. A cidade das d\u00e9cadas de 30 e 1940, capital do Brasil, refletindo o mundo, mundo ent\u00e3o reduzido e ferido pela irracionalidade da onda alta da segunda guerra mundial.<\/p>\n<p>As guerras, essa vergonhosa constante na hist\u00f3ria do homem sapiens: as milh\u00f5es de mortes, as dores, o vazio do sem sentido, as terr\u00edveis amea\u00e7as de aniquila\u00e7\u00e3o. At\u00e9 quando? Freud, o ousad\u00edssimo g\u00eanio das verdades que nos fundam, nos legou a mais alta e preciosa li\u00e7\u00e3o: se toda crian\u00e7a fosse nutrida de aten\u00e7\u00e3o e afeto em seus sete primeiros anos, o mundo seria outro. Sim, ser\u00edamos outra civiliza\u00e7\u00e3o, ser\u00edamos uma Civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dois mitos, duas ideologias<\/p>\n<p>Nesta resenha vou partir do perfil de duas personagens representativas daquelas d\u00e9cadas: dois \u201cmitos\u201d, cada um a sua maneira, Getulio e Prestes.<\/p>\n<p>Nessa altura, n\u00e3o existe novidade significativa sobre essas duas personagens.<\/p>\n<p>No caso de Prestes predomina, com exce\u00e7\u00e3o de pequeno grupo emocional, sua imagem de her\u00f3i caolho. Foi a resultante que se manteve, sem maiores discrep\u00e2ncias, no teste do tempo. As novas gera\u00e7\u00f5es sequer conhecem-no. Naquele 1934 ele acabava de chegar de Moscou, onde viveu anos, comprometido, nem Deus imaginaria essa reviravolta, em alinhar o Brasil \u00e0 distante, geogr\u00e1fica e historicamente, R\u00fassia.<\/p>\n<p>Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/trincheira-tropical-240x300.jpg\" alt=\"\" width=\"240\" height=\"300\" data-credit=\"Divulga\u00e7\u00e3o\" data-guid=\"trincheira-tropical.jpg\"  \/><\/p>\n<p>A fotografia: Prestes no c\u00e1rcere getulista, fundo e escuro calabou\u00e7o. Sua mulher e sua filha sendo jogadas por Get\u00falio aos fornos nazistas. O gesto de Prestes, uma d\u00e9cada depois, agora em plena e total liberdade: ir aos com\u00edcios, nas ruas, acomodando-se junto a Get\u00falio. Sua mulher, morta, ficou-lhe invis\u00edvel. O que \u00e9 isso, companheiro?<\/p>\n<p>No caso de Getulio pululam seus defensores. Todos sabem que ele censurou, prendeu, torturou, matou. E que lhe foi insuport\u00e1vel a posterior lida democr\u00e1tica: disparou tiro no peito na medida em que n\u00e3o lhe era mais fact\u00edvel prender Lacerda e quem mais que lhe fosse antip\u00e1tico.<\/p>\n<p>Sim, sabemos desse perfil. Entretanto, o livro preenche essa linha do tempo com o rosto da pessoa, a situa\u00e7\u00e3o, o local, a data. As situa\u00e7\u00f5es concretas v\u00e3o dando vida \u00e0 linha do tempo. O conhecimento intelectual passa a ser mais do que intelectual.<\/p>\n<p>Duas ideologias adensavam os ares do mundo.<\/p>\n<p>Uma empolgada na viol\u00eancia, no Estado totalit\u00e1rio, na for\u00e7a bruta como projeto social. Era o nazismo e o fascismo. \u00c0 frente a \u201cra\u00e7a ariana\u201d, que iria dar as ordens, aos gritos, em todos n\u00f3s. O pangermanismo.<\/p>\n<p>A outra, o lado asi\u00e1tico, encarnado pela R\u00fassia, que, embora empunhasse a bandeira de uma causa popular, assumia os mesmos m\u00e9todos: surgiam como entidades oposta, mas eram, na verdade, similares. O pan-eslavismo.<\/p>\n<p>A terceira via, a cren\u00e7a na democracia, no di\u00e1logo, na constru\u00e7\u00e3o da legitimidade inclusiva, apesar de todos os graves pesares. \u00c0 maneira de Churchill: a democracia \u00e9 o que temos de menos nefasto.<\/p>\n<p>Essa via democr\u00e1tica, sempre se movendo lenta, tardou a entrar na arena; pouco antes havia se atrasado, crucialmente, em entender o car\u00e1ter transnacional da Guerra Civil Espanhola.\u00a0 Entretanto, unida, entabulando acordos, venceu a Segunda Guerra.<\/p>\n<p>O modelo russo usava a m\u00e1scara de Marx e do comunismo, copiando a Inquisi\u00e7\u00e3o, que usou a m\u00e1scara de Jesus. Na mesma medida que a Inquisi\u00e7\u00e3o conspurcou o ide\u00e1rio crist\u00e3o, os bolcheviques conspurcaram o ide\u00e1rio comunista. O que l\u00e1 existiu dava, em ess\u00eancia hist\u00f3rica, continuidade aos estados czaristas de sempre, na multiplica\u00e7\u00e3o de seus tent\u00e1culos letais. Nunca houve socialismo ali sen\u00e3o na ret\u00f3rica.<\/p>\n<p>Saudade do passado<\/p>\n<p>Bem, voltando ao Rio da d\u00e9cada de 1930: a chegada e o apogeu do r\u00e1dio, reverberando proselitismos pol\u00edticos, noticiando a cidade, os bairros, as novidades, enchendo os lares da alegria da m\u00fasica e da voz dos locutores.<\/p>\n<p>O que em demasia impressiona-me: o dirig\u00edvel, vindo das lonjuras g\u00e9lidas de Berlim, imagin\u00e1rio alem\u00e3o, o colossal bal\u00e3o, do tamanho de dois campos de futebol, da altura de treze andares, cruzando os mares do Atl\u00e2ntico, pousando no Rio, ante os at\u00f4nitos cariocas. \u201cA arca de No\u00e9, o dirig\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de alem\u00e3es e italianos no Brasil; e de brasileiros, servidores p\u00fablicos, na It\u00e1lia e na Alemanha, onde iam se contaminar de aulas na Gestapo e adjac\u00eancias. Suponham voc\u00eas o que era transmitido nessas aulas. A filha de Mussolini, beldade branca italiana exibindo-se em Copacabana, nos len\u00e7\u00f3is na cama com o irm\u00e3o de Getulio; esse, meus caros, sim, passou bem: a trincheira tropical que todos merecemos.<\/p>\n<p>Os rocambolescos preparativos para viabilizar o encontro de corpos de Get\u00falio, baixinho e rotundo, com a amada amante, jovem senhora, esguia e esbelta, esposa de assessor especial seu; \u00e9 vida que segue\u2026.<\/p>\n<p>Enfim, Getulio, entre acender um charuto e outro, avultou em estadista: largou sua simpatia pela nazismo, largou sua \u201cneutralidade\u201d e colocou o Brasil junto aos Aliados, junto aos EUA. Get\u00falio era mesmo endemoniado.<\/p>\n<p>O livro afirma e demonstra \u00e0 saciedade a obsess\u00e3o de Getulio em criar e manter o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) a tenaz m\u00e1quina de propaganda jamais vista no mundo. Suas resson\u00e2ncias ainda insistem em nossos dias, relativizando tudo de aberta e cruamente desumano do ditador brasileiro e apresentando como milagre, sem o qual jamais ter\u00edamos, o que de importante realizou. Os mesmos que n\u00e3o perdoam a ditadura militar dos anos 1960-70, e olvidam suas obras, perdoam r\u00e1pido Get\u00falio, anulando elementar verdade: as ditaduras representam atraso social e institucional, sempre. Mas faltou uma DIP para a ditadura militar, para nossa sorte.<\/p>\n<p>Da fartura de fatos no livro narrados, destaco o seguinte, para encerrar essa resenha: os pracinhas nordestinos da FEB (For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira) chegaram \u00e0 It\u00e1lia vestidos em uniformes encolhidos: o tecido, desses baratos, n\u00e3o resistiu \u00e0 viagem. De complei\u00e7\u00e3o f\u00edsica baixa e magra, aquela atmosfera lhes era n\u00e3o-familiar, pareciam abobalhados.<\/p>\n<p>Os americanos, parceiros nas batalhas pr\u00f3ximas, ao verem aqueles viventes, foram tomados de surpresa. Na hora do embate, entretanto, transformaram-se em gigantes: escalavam montanhas facilmente,\u00a0 aprendiam r\u00e1pido, o corpo n\u00e3o cansava, atiravam certeiros, n\u00e3o pegavam tristeza. O sertanejo \u00e9 antes de tudo um forte, sim, camarada Euclides da Cunha, s\u00e3o calejados de outros moinhos da vida, agrestes.<\/p>\n<p>Trincheira Tropical trata de densidades hist\u00f3ricas, expressas, por\u00e9m, pelo estilo envolvente de Ruy Castro, que enlanguesce essa densidade em curiosos casos, no dia-a-dia azafamado da vida no Rio, no \u00edcone do Cristo no alto, no azul do mar, nas festas e bailes, na m\u00fasica, nos aconchegos das ternuras f\u00edsicas, emprestando \u00e0 leitura um qu\u00ea de prosaico, um qu\u00ea de existencial. Conclu\u00edda a leitura do livro, bate a saudade do passado, como se fosse viv\u00eancia nossa, embora n\u00e3o estiv\u00e9ssemos por l\u00e1. \u201cQue queres tu viajador, olhando para tr\u00e1s?\u201d Beleza de livro!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Os leitores, cativos do estilo \u00fanico do artista Ruy Castro, deparam-se mais uma vez com livro estalando de&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":32720,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,114,115,170,32,33],"class_list":{"0":"post-32719","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-livros","12":"tag-portugal","13":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32719","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32719"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32719\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/32720"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32719"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32719"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32719"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}