{"id":336228,"date":"2026-04-08T22:38:11","date_gmt":"2026-04-08T22:38:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/336228\/"},"modified":"2026-04-08T22:38:11","modified_gmt":"2026-04-08T22:38:11","slug":"como-a-portuguesa-bondalti-conseguiu-comprar-em-espanha-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/336228\/","title":{"rendered":"Como a portuguesa Bondalti conseguiu comprar em Espanha \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>O capital da Ercros estava muito disperso e n\u00e3o havia um n\u00facleo de acionistas controlador. A gest\u00e3o era \u201cdona e senhora\u201d da empresa. E por isso a OPA chegou aos jornais espanh\u00f3is, onde foi vis\u00edvel a guerra. As cr\u00edticas de Antonio Zabalza, que liderava a Ercros h\u00e1 30 anos, foram ao ponto de acusar a Bondalti de coa\u00e7\u00e3o aos acionistas e de oferta oportunista, argumentando mesmo que a pr\u00f3pria oferta tinha infligido danos na opera\u00e7\u00e3o. A Bondalti tamb\u00e9m avan\u00e7ou na sua estrat\u00e9gia de comunica\u00e7\u00e3o, com Jo\u00e3o de Mello, seu presidente, a aparecer tamb\u00e9m ele em entrevistas nos jornais espanh\u00f3is.<\/p>\n<p>\u201cAntonio Zabalza tem uma vis\u00e3o, na minha opini\u00e3o, muito negativa da companhia e dos seus acionistas\u201d, atirou em conversa com o El Economista, na qual garantia que o presidente da Ercros n\u00e3o quis falar com a Bondalti, nessa altura j\u00e1 \u00fanica na corrida \u00e0 compra da empresa espanhola.<\/p>\n<p>Isso porque neste processo, a Bondalti ainda enfrentou uma oferta concorrente. A Esseco propunha pagar mais do que a Bondalti. Se no in\u00edcio a empresa portuguesa oferecia 3,6 euros, a italiana avan\u00e7ava com 3,84 euros. Mas desistiu depois de ver o que tinha de fazer para que a sua opera\u00e7\u00e3o fosse aprovada pelo supervisor da Concorr\u00eancia espanhol. \u00c0 Bondalti foram tamb\u00e9m impostos rem\u00e9dios, mas n\u00e3o os suficientes para demover a empresa portuguesa.<\/p>\n<p>Sem acionistas controladores, a Bondalti n\u00e3o tinha interlocutores para \u201cvender\u201d a sua oferta. Teve de optar por uma estrat\u00e9gia mais ampla. Da gest\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o esperava nada. N\u00e3o conseguiria nada. Tinha de olhar para os acionistas, milhares deles. Entre fundos e particulares por toda a Espanha (e alguns internacionais, menos). A Ercros n\u00e3o era apenas dos catal\u00e3es, onde est\u00e1 sediada (Barcelona). Os acionistas estavam espalhados por toda a Espanha. Mas dois elementos, ligados \u00e0 administra\u00e7\u00e3o, foram mais vocais. Joan Casas Galofr\u00e9 e a sua mulher Montserrat Garc\u00eda Pruns, que controlavam cerca de 10%, juntaram mais um grupo de acionistas e anunciaram, em <a href=\"https:\/\/www.ercros.com\/en\/press-room\/news\/27-ercros-capital-does-not-accept-bids-bondalti-and-esseco\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">missiva<\/a> p\u00fablica, que n\u00e3o aceitavam nenhuma das duas ofertas. A raz\u00e3o: o pre\u00e7o era baixo.<\/p>\n<p>Reuniu-se, ainda assim, sabe o Observador, com alguns fundos e falou com alguns acionistas individuais. At\u00e9 a Londres a gest\u00e3o da Bondalti foi. E optou, tamb\u00e9m, por fazer uma campanha de publicidade. 750 mil euros investidos na campanha \u2014 nada comparado com os 40 milh\u00f5es investidos pelo BBVA na OPA sobre o Sabadell. A campanha era a forma de chegar a tantos pequenos acionistas \u2014 a Bondalti desconhecia quem eram muitos deles, uma vez que a informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe tinha sido disponibilizada. Uma campanha \u00e0 dimens\u00e3o do pa\u00eds. E acompanhada por um <a href=\"https:\/\/opa-ercros.bondalti.com\/pt\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">site<\/a> criado propositadamente para o efeito, que teve milhares de visitas di\u00e1rias.<\/p>\n<p>Ao seu lado nesta opera\u00e7\u00e3o esteve a Kreab, para ajudar na assessoria de comunica\u00e7\u00e3o e rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, a Nova Express\u00e3o no marketing, a Cuatrecasas\u00a0na parte jur\u00eddica, e o Santander na assessoria financeira.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 habitual, numa opera\u00e7\u00e3o de concentra\u00e7\u00e3o, a Comiss\u00e3o dos Mercados e da Concorr\u00eancia (CNMC) espanhola \u2014 hom\u00f3loga da Autoridade da Concorr\u00eancia portuguesa \u2014 demorar dois anos a decidir. Mas foi, neste caso, o que aconteceu. O setor era um perfeito desconhecido da entidade, que, por isso, teve de olhar para cada pormenor e para cada elementos qu\u00edmico envolvido. Por c\u00e1 a an\u00e1lise demorou pouco mais de tr\u00eas meses \u2014 notificada em mar\u00e7o de 2024, a Autoridade da Concorr\u00eancia deu o seu aval em junho desse ano com a <a href=\"https:\/\/www.concorrencia.pt\/sites\/default\/files\/processos\/ccent\/AdC-CCENT_2024_16-Decisao-VNC-final-net.pdf\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">senten\u00e7a<\/a>: \u201cdecis\u00e3o de n\u00e3o oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 opera\u00e7\u00e3o de concentra\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Em Espanha, o \u201csim\u201d demorou um pouco mais. S\u00f3 chegou no final de outubro de 2025. E depois de uma investiga\u00e7\u00e3o aprofundada. A supervisora tinha, na mesma altura, em m\u00e3os a an\u00e1lise \u00e0 pol\u00e9mica e dif\u00edcil opera\u00e7\u00e3o de concentra\u00e7\u00e3o do BBVA e do Sabadell \u2014 \u00e0 qual deu luz verde em abril desse ano, mas que acabou fracassada porque os acionistas n\u00e3o aceitaram vender as a\u00e7\u00f5es. E a mega-opera\u00e7\u00e3o na banca espanhola caiu por terra. O mesmo n\u00e3o aconteceu \u00e0 compra da Ercros pela Bondalti.<\/p>\n<p>Passou no crivo da concorr\u00eancia com rem\u00e9dios. A Bondalti falou em \u201ccompromissos exigentes\u201d. A supervisora considerou haver riscos no neg\u00f3cio de\u00a0hipoclorito de s\u00f3dio (usado como desinfetante) \u2014 uma vez que se juntam na mesma empresa as f\u00e1brica de Torrelavega,\u00a0de Sabi\u00f1\u00e1nigo e de Vila Seca (as duas \u00faltimas da Ercros, a primeira da Bondalti). A companhia portuguesa aceitou vender at\u00e9 85 mil toneladas desse qu\u00edmico anualmente ao pre\u00e7o de custo a fabricantes terceiros pelo menos durante cinco anos, prorrog\u00e1veis at\u00e9 ao m\u00e1ximo de 15 anos. O compromisso ser\u00e1 monitorizado por um mandat\u00e1rio independente.<\/p>\n<p>Depois desta luz verde, a Bondalti reafirmava a inten\u00e7\u00e3o de n\u00e3o mexer no pre\u00e7o oferecido. E levou a sua at\u00e9 ao fim. N\u00e3o mudou o pre\u00e7o \u2014 que ficaria nos 3,5 euros (mais baixo que a oferta inicial porque entretanto foram distribu\u00eddos dividendos). Mas alterou uma condi\u00e7\u00e3o de sucesso. Em vez dos 75% iniciais avan\u00e7aria para a compra apenas com uma aceita\u00e7\u00e3o de 50% do capital.<\/p>\n<p>As viagens a Espanha foram muitas ao longo dos \u00faltimos dois anos. A Bondalti reuniu-se, inclusive, com o ministro da Ind\u00fastria e Turismo do governo espanhol, Jordi Hereu Boher, nascido catal\u00e3o. Houve, segundo apurou o Observador, um contacto intenso com as entidades oficiais, quer no governo central, quer na autonomia catal\u00e3. <a href=\"https:\/\/www.ercros.es\/sites\/default\/files\/content\/file\/2024\/10\/10\/67\/oir-20241010-autorizacion-consejo-de-ministros-opa-de-esseco.pdf\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">A aceita\u00e7\u00e3o do Conselho de Ministros<\/a> espanhol da compra de uma empresa espanhola por um investidor estrangeiro aconteceu em outubro de 2024. A Bondalti j\u00e1 tem presen\u00e7a em Espanha e o caminho estava por isso facilitado.<\/p>\n<p>O trav\u00e3o era mesmo da pr\u00f3pria gest\u00e3o, op\u00f4s-se sempre \u00e0 venda, acabando acusada pela Bondalti de \u201cgraves omiss\u00f5es, indica\u00e7\u00f5es com erros e inexatid\u00f5es\u201d. Tudo porque no seu relat\u00f3rio sobre a oportunidade da oferta arrasou com a proposta, indicando que os tr\u00eas membros do conselho de administra\u00e7\u00e3o\u00a0de Ercros que s\u00e3o acionistas da companhia declararam a sua inten\u00e7\u00e3o un\u00e2nime de n\u00e3o vender as a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cA Ercros analisou as propostas passadas da Bondalti de integrar os dois grupos industriais, que foram recusadas por motivos estrat\u00e9gicos e por desacordo sobre a avalia\u00e7\u00e3o das empresas\u201d, <a href=\"https:\/\/www.ercros.es\/sites\/default\/files\/content\/file\/2026\/02\/19\/71\/nota-de-prensa_opinion-del-consejo-de-ercros-sobre-la-opa_19-02-2026-esp_0.pdf\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">referia-se na oposi\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o \u00e0 OPA,<\/a> que ainda dizia que em caso de \u00eaxito da oferta por parte da Bondalti, a Ercros \u201cdiluir-se-ia no organigrama empresarial do Grupo Jos\u00e9 de Mello e perderia a sua relev\u00e2ncia num conglomerado muito maior, cujo neg\u00f3cio principal n\u00e3o \u00e9 o setor qu\u00edmico.\u201d<\/p>\n<p>A Bondalti n\u00e3o gostou desta missiva. N\u00e3o apenas dava a entender que a decis\u00e3o era un\u00e2nime \u2014 e existe mesmo uma vota\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 do relat\u00f3rio \u2013, como se fez por omitir o parecer do pr\u00f3prio assessor financeiro, a Evercore, que considerou a oferta \u201cjusta, do ponto de vista financeiro, para os acionistas da companhia\u201d. O parecer consta, no entanto, do relat\u00f3rio completo.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise mais aprofundada do <a href=\"https:\/\/www.ercros.es\/sites\/default\/files\/content\/file\/2026\/02\/19\/71\/cip-informe-cda-ercros-con-anexos.pdf\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">relat\u00f3rio<\/a> da administra\u00e7\u00e3o permite ainda verificar a concord\u00e2ncia dos sindicatos ao neg\u00f3cio. As estruturas representativas dos trabalhadores consideraram que a OPA apresentada pela Bondalti \u201cconstitui uma opera\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica com potencial para refor\u00e7ar a posi\u00e7\u00e3o industrial e competitiva da Ercros no setor qu\u00edmico, tanto a n\u00edvel nacional como internacional\u201d, emitindo parecer favor\u00e1vel por \u201cconsiderar que a opera\u00e7\u00e3o pode contribuir para refor\u00e7ar a estabilidade, a viabilidade industrial e o futuro da for\u00e7a de trabalho, sempre sob o princ\u00edpio da manuten\u00e7\u00e3o do emprego, respeito pelos direitos laborais e garantia de di\u00e1logo social\u201d.<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise dos sindicatos que a Bondalti carrega como uma distin\u00e7\u00e3o. Uma quase in\u00e9dita tomada de posi\u00e7\u00e3o dos sindicatos numa opera\u00e7\u00e3o deste teor, em que \u00e9 prometida a manuten\u00e7\u00e3o dos postos de trabalho e o crescimento de uma companhia que em 2025 apresentou preju\u00edzos de 53,5 milh\u00f5es de euros, um agravamento face aos 11 milh\u00f5es de 2024. Al\u00e9m de ter registado uma queda de mais de 5% no volume de neg\u00f3cios que se situou nos 662,8 milh\u00f5es de euros.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que a Ercros est\u00e1 muito focada no neg\u00f3cio de PVC, que est\u00e1 em crise mundial. Jo\u00e3o de Mello j\u00e1 fez saber que a Ercros precisa de diversificar a opera\u00e7\u00e3o e admite sinergias com a Bondali entre 10 e 15 milh\u00f5es de euros. Ao Observador, em declara\u00e7\u00f5es escritas, o presidente da Bondalti justifica a insist\u00eancia na\u00a0Ercros pelo facto de operar \u201cem setores e mercados similares ao da Bondalti o que potencia a cria\u00e7\u00e3o de sinergias \u00f3bvias\u201d. E acrescenta: \u201cA ind\u00fastria qu\u00edmica, pela sua complexidade e competi\u00e7\u00e3o global, quer pela aquisi\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias primas quer pela captura de mercados e clientes, obriga a ter uma dimens\u00e3o cr\u00edtica para que uma empresa consiga ser competitiva. Assim, a uni\u00e3o da Bondalti com a Ercros dar\u00e1 essa dimens\u00e3o cr\u00edtica m\u00ednima para competir nestes mercados t\u00e3o exigentes\u201d.<\/p>\n<p>A gest\u00e3o tentou derrotar a Bondalti, mas n\u00e3o conseguiu. Ao fim de dois anos, a Bondalti viu 77,23% dos acionistas da Ercros venderem-lhe as suas a\u00e7\u00f5es. O investimento total ascende a 247,5 milh\u00f5es de euros, mas a empresa pretende avan\u00e7ar com uma oferta de exclus\u00e3o em bolsa, propondo-se comprar o remanescente pelo mesmo pre\u00e7o.<\/p>\n<p>A Bondalti venceu. E entrou diretamente para o p\u00f3dio das maiores opera\u00e7\u00f5es portuguesas em Espanha (juntando numa as duas aquisi\u00e7\u00f5es da EDP), de acordo com uma lista fornecida ao Observador pela PitchBook.<\/p>\n<p>Fruto da insist\u00eancia da Bondalti nasce assim um novo campe\u00e3o ib\u00e9rico, como Jo\u00e3o de Mello designou ao <a href=\"https:\/\/www.jornaldenegocios.pt\/empresas\/industria\/detalhe\/bondalti-sera-um-campeao-iberico-apos-opa-a-ercros-diz-joao-de-mello\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Neg\u00f3cios<\/a>. Ao Observador n\u00e3o fala em campe\u00e3o, mas real\u00e7a \u201ca cria\u00e7\u00e3o de um grupo qu\u00edmico de relevo a n\u00edvel ib\u00e9rico e com dimens\u00e3o m\u00ednima cr\u00edtica para competir num mercado adverso e muito complexo\u201d.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, Alfredo Silva fundou a CUF que tinha como mote:\u00a0\u201cO que o Pa\u00eds n\u00e3o tem\u2026 a CUF cria&#8217;\u201d. Hoje a \u00e1rea qu\u00edmica j\u00e1 n\u00e3o leva a marca hist\u00f3rica CUF, mas nem por isso a Bondalti deixar de criar\u2026 se n\u00e3o os produtos, as oportunidades.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O capital da Ercros estava muito disperso e n\u00e3o havia um n\u00facleo de acionistas controlador. 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