{"id":346730,"date":"2026-04-17T14:19:15","date_gmt":"2026-04-17T14:19:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/346730\/"},"modified":"2026-04-17T14:19:15","modified_gmt":"2026-04-17T14:19:15","slug":"para-salvar-veneza-e-preciso-escolher-entre-diques-fecho-da-lagoa-ou-relocalizacao-veneza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/346730\/","title":{"rendered":"Para salvar Veneza, \u00e9 preciso escolher entre diques, fecho da lagoa ou relocaliza\u00e7\u00e3o | Veneza"},"content":{"rendered":"<p>Veneza, tal como a conhecemos, pode provavelmente ser protegida durante muito tempo, mas n\u00e3o indefinidamente. \u00c9 o que sugere um estudo publicado nesta quinta-feira na revista cient\u00edfica Scientific Reports que analisa, pela primeira vez de forma sistem\u00e1tica, as grandes estrat\u00e9gias de adapta\u00e7\u00e3o dispon\u00edveis para a cidade e a lagoa adjacente face \u00e0 subida do n\u00edvel m\u00e9dio do mar nos pr\u00f3ximos 300 anos.<\/p>\n<p>Liderado pelo climat\u00f3logo Piero Lionello, compara quatro caminhos poss\u00edveis: manter a lagoa aberta com as actuais barreiras m\u00f3veis, construir diques circulares, fechar a lagoa com barreiras permanentes ou, no limite, relocalizar a cidade. Cada um preserva alguns valores, mas sacrifica outros. <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/veneza\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">Veneza<\/a> n\u00e3o pode ter tudo \u2014 pelo menos n\u00e3o em tempos de crise clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u201cA verdadeira mensagem do artigo n\u00e3o \u00e9 a exist\u00eancia de uma solu\u00e7\u00e3o ideal, mas sim que a subida do n\u00edvel do mar imp\u00f5e uma s\u00e9rie de escolhas cada vez mais dif\u00edceis e que adiar essas decis\u00f5es reduzir\u00e1 as op\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis\u201d, afirma Piero Lionello em resposta ao <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/azul\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Azul<\/a>. <\/p>\n<p>Classificada como Patrim\u00f3nio Mundial da UNESCO, Veneza tem sido afectada por <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2019\/11\/15\/mundo\/noticia\/governo-vai-canalizar-20-milhoes-euros-veneza-continua-alagada-1893917\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">inunda\u00e7\u00f5es<\/a> cada vez mais frequentes nos \u00faltimos 150 anos. Das 28 cheias extremas registadas desde o s\u00e9culo XIX, 18 ocorreram apenas nos \u00faltimos 23 anos. A causa \u00e9 a subida relativa do n\u00edvel m\u00e9dio do mar, resultante em partes aproximadamente iguais do aumento global do n\u00edvel m\u00e9dio dos oceanos e do afundamento progressivo do solo.<\/p>\n<p>Desde 2022, um sistema de barreiras m\u00f3veis (chamado <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2020\/10\/04\/fotogaleria\/barragens-veneza-previnem-inundacoes-primeira-402938\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">MoSE<\/a>) tem conseguido evitar cheias extensas, fechando temporariamente as tr\u00eas entradas da lagoa durante as tempestades.<\/p>\n<p>O estudo reconhece que o MoSE \u201cdemonstrou a sua capacidade de proteger a cidade\u201d, mas sublinha que a sua efic\u00e1cia diminui \u00e0 medida que o n\u00edvel do mar sobe. Quanto mais frequentes e prolongados forem os encerramentos, maiores ser\u00e3o os impactos na navega\u00e7\u00e3o, no porto veneziano e nos ecossistemas lagunares, al\u00e9m de aumentarem o risco de falhas t\u00e9cnicas.<\/p>\n<p>Com base nas projec\u00e7\u00f5es do 6.\u00ba Relat\u00f3rio de Avalia\u00e7\u00e3o do Painel Intergovernamental para as Altera\u00e7\u00f5es Clim\u00e1ticas (IPCC, na sigla em ingl\u00eas), adaptadas \u00e0 escala local, os investigadores estimam que, mesmo com medidas adicionais, as barreiras m\u00f3veis dificilmente ser\u00e3o eficazes para aumentos superiores a 1,25 metros do n\u00edvel do mar.<\/p>\n<p>Este valor poder\u00e1 ser ultrapassado at\u00e9 2300, mesmo num cen\u00e1rio de baixas emiss\u00f5es globais de gases com efeito de estufa, devido \u00e0 in\u00e9rcia do sistema clim\u00e1tico e \u00e0 subsid\u00eancia do terreno. J\u00e1 num quadro de emiss\u00f5es muito elevadas, os autores estimam que aumentos do n\u00edvel m\u00e9dio do mar superiores a meio metro poder\u00e3o ocorrer antes de 2100. Neste caso, outras solu\u00e7\u00f5es ter\u00e3o de ser equacionadas.<\/p>\n<p>Construir diques circulares<\/p>\n<p>Perante estes limites, o estudo analisa alternativas mais transformadoras. Uma delas \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de diques circulares que isolariam o centro hist\u00f3rico e outras ilhas venezianas do resto da lagoa, mantendo este corpo de \u00e1gua aberto ao mar. Esta op\u00e7\u00e3o preservaria monumentos, \u00e1reas residenciais e grande parte da actividade econ\u00f3mica, mas alteraria profundamente a paisagem e enfraqueceria a liga\u00e7\u00e3o f\u00edsica e cultural entre a cidade e a lagoa.<\/p>\n<p>\u201cOs diques exigiriam uma reorganiza\u00e7\u00e3o completa do funcionamento da cidade\u201d, explicou Piero Lionello numa resposta por escrito. O investigador italiano sublinha que seria necess\u00e1rio manter as \u00e1reas protegidas a um n\u00edvel mais baixo do que a \u00e1gua exterior, com sistemas permanentes de bombagem, saneamento e eclusas.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<blockquote><p>&#13;<\/p>\n<p>Veneza pode provavelmente ser protegida por muito tempo, mas n\u00e3o indefinidamente na sua forma actual. Cada op\u00e7\u00e3o futura salva algumas coisas e sacrifica outras<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;<br \/>\nPiero Lionello, climt\u00f3logo                &#13;\n            <\/p><\/blockquote>\n<p>&#13;<br \/>\n&#13;<br \/>\n            &#13;<\/p>\n<p>O risco associado a esta estrat\u00e9gia \u00e9 um dos pontos mais sens\u00edveis. \u201cComo os diques ficariam imediatamente junto da cidade hist\u00f3rica, uma falha localizada durante n\u00edveis elevados do mar poderia provocar uma inunda\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, com muito pouco tempo para a resposta de emerg\u00eancia\u201d, afirmou o investigador.<\/p>\n<p>Transportes p\u00fablicos, mobilidade, organiza\u00e7\u00e3o do porto e circula\u00e7\u00e3o de mercadorias teriam de ser redesenhados de raiz, com impactos dif\u00edceis de prever na vida quotidiana e no <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2026\/04\/01\/fugas\/noticia\/veneza-volta-bilhete-entrada-taxa-ja-rende-5-milhoes-ano-2169829\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">turismo<\/a>. Actualmente, Veneza recebe em m\u00e9dia cerca de 22 milh\u00f5es de turistas por ano.<\/p>\n<p>Fechar a lagoa<\/p>\n<p>Outra op\u00e7\u00e3o \u00e9 fechar a lagoa com barreiras permanentes, transformando-a num lago costeiro, \u00e0 semelhan\u00e7a do que acontece em Marina Bay, em <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/singapura\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">Singapura<\/a>, ou no lago Issel, nos Pa\u00edses Baixos. Esta estrat\u00e9gia protegeria o tecido urbano e permitiria manter a cidade no mesmo lugar, mas \u00e0 custa da perda irrevers\u00edvel do ecossistema lagunar.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 a solu\u00e7\u00e3o que melhor preserva os edif\u00edcios e a vida urbana, mas sacrifica o ambiente natural que moldou a identidade de Veneza ao longo de s\u00e9culos\u201d, resumiu Piero Lionello, que \u00e9 professor na Universidade de Salento, em Lecce, It\u00e1lia.<\/p>\n<p>O encerramento da lagoa, que hoje est\u00e1 ligada ao mar Adri\u00e1tico, interromperia a circula\u00e7\u00e3o natural de \u00e1gua, tendo como consequ\u00eancia altera\u00e7\u00f5es na temperatura e salinidade. A fauna e a flora actual seriam substitu\u00eddas por um sistema ecol\u00f3gico completamente diferente, dependente de gest\u00e3o artificial da qualidade da \u00e1gua, refere o estudo.<\/p>\n<p>Transferir a cidade<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o mais exigente \u00e9 a relocaliza\u00e7\u00e3o, que implicaria desmontar e reconstruir monumentos seleccionados em \u00e1reas interiores e abandonar progressivamente a cidade actual. Os autores reconhecem que se trata de uma op\u00e7\u00e3o sem precedentes \u00e0 escala de Veneza e que n\u00e3o evitaria a perda da maior parte do patrim\u00f3nio cultural, social e econ\u00f3mico associado ao local original.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de um problema t\u00e9cnico do sistema MoSE\u201d, escreve Piero Lionello. \u201cA partir de certo ponto, a pergunta deixa de ser como operar melhor as barreiras e passa a ser que tipo de Veneza a sociedade quer preservar.\u201d<\/p>\n<p>O estudo evita deliberadamente uma an\u00e1lise cl\u00e1ssica de custo-benef\u00edcio, argumentando que valores como o patrim\u00f3nio cultural, a mem\u00f3ria colectiva e as tradi\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 lagoa n\u00e3o podem ser adequadamente traduzidos em termos monet\u00e1rios. Ainda assim, o artigo publicado na <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41598-026-39108-z\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Scientific Reports<\/a> apresenta estimativas indicativas para ilustrar ordens de grandeza.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        O investigador Piero Lionello \u00e9 professor na Universidade de Salento, na It\u00e1lia &#13;<br \/>\nUniversidade de Salento\/DR                     &#13;<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o do sistema MoSE custou cerca de seis mil milh\u00f5es de euros, os diques circulares poder\u00e3o custar entre 500 milh\u00f5es e 4,5 mil milh\u00f5es, o encerramento da lagoa ultrapassaria os 30 mil milh\u00f5es e, por fim, em caso extremo, a relocaliza\u00e7\u00e3o da cidade poderia chegar aos 100 mil milh\u00f5es de euros.<\/p>\n<p>O estudo n\u00e3o diz qual \u00e9 a melhor solu\u00e7\u00e3o, mas deixa claro que adiar decis\u00f5es reduz op\u00e7\u00f5es e aumenta perdas. \u201cA quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas quanto custa adaptar\u201d, escreve a equipa no estudo, \u201cmas o que cada caminho permite efectivamente salvar\u201d.<\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o de Veneza<\/p>\n<p>A principal li\u00e7\u00e3o de Veneza em tempos de crise clim\u00e1tica \u00e9 que a subida do n\u00edvel do mar estreita progressivamente o espa\u00e7o de solu\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis. \u201cA adapta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o \u00fanica e definitiva\u201d, explicou Piero Lionello. \u201cAs cidades passam de medidas incrementais para medidas transformadoras, e cada transi\u00e7\u00e3o envolve escolhas dif\u00edceis.\u201d<\/p>\n<p>Outra mensagem central do estudo cient\u00edfico \u00e9 a import\u00e2ncia do tempo. Grandes interven\u00e7\u00f5es de engenharia podem demorar entre 30 e 50 anos a planear e construir, o que significa que n\u00e3o se pode esperar at\u00e9 que o sistema actual esteja perto do colapso para tomar a decis\u00e3o do que ser\u00e1 feito a seguir. \u201cPode j\u00e1 ser tarde de mais\u201d.<\/p>\n<p>Embora centrado em Veneza, o trabalho tem implica\u00e7\u00f5es globais. Muitas cidades costeiras baixas enfrentam dilemas semelhantes, ainda que sem o peso simb\u00f3lico e cultural da cidade italiana. Para Piero Lionello, Veneza mostra que a adapta\u00e7\u00e3o pode gerir a mudan\u00e7a, mas apenas dentro de certos limites. \u201cSe a subida do n\u00edvel do mar ultrapassar determinados limiares, deixamos de estar a preservar o presente e passamos a desenhar um futuro fundamentalmente diferente.\u201d<\/p>\n<p>O estudo introduz ainda o conceito de \u201cpontos de viragem de adapta\u00e7\u00e3o\u201d, momentos em que uma estrat\u00e9gia deixa de cumprir os seus objectivos e obriga a uma mudan\u00e7a de rumo. Segundo os autores, Veneza encontra-se actualmente numa fase de adapta\u00e7\u00e3o incremental, mas poder\u00e1 ser for\u00e7ada a uma transi\u00e7\u00e3o transformadora ainda neste s\u00e9culo, sobretudo se continuarem elevadas as emiss\u00f5es globais resultantes da queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis.<\/p>\n<p>\u201cVeneza pode provavelmente ser protegida por muito tempo, mas n\u00e3o indefinidamente na sua forma actual\u201d, insiste Lionello. \u201cCada op\u00e7\u00e3o futura salva algumas coisas e sacrifica outras.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Veneza, tal como a conhecemos, pode provavelmente ser protegida durante muito tempo, mas n\u00e3o indefinidamente. \u00c9 o que&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":346731,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[50],"tags":[36010,785,27,28,2271,15,16,14,25,26,21,22,62,12,13,19,20,542,23,24,52728,17,18,29,30,31,232,63,64,65],"class_list":["post-346730","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-mundo","tag-adaptacao","tag-azul","tag-breaking-news","tag-breakingnews","tag-clima","tag-featured-news","tag-featurednews","tag-headlines","tag-latest-news","tag-latestnews","tag-main-news","tag-mainnews","tag-mundo","tag-news","tag-noticias","tag-noticias-principais","tag-noticiasprincipais","tag-para-redes","tag-principais-noticias","tag-principaisnoticias","tag-subida-do-mar","tag-top-stories","tag-topstories","tag-ultimas","tag-ultimas-noticias","tag-ultimasnoticias","tag-veneza","tag-world","tag-world-news","tag-worldnews"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116420487782857730","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/346730","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=346730"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/346730\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/346731"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=346730"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=346730"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=346730"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}