{"id":348969,"date":"2026-04-19T12:42:15","date_gmt":"2026-04-19T12:42:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/348969\/"},"modified":"2026-04-19T12:42:15","modified_gmt":"2026-04-19T12:42:15","slug":"rio-leca-salvar-um-corpo-de-agua-que-vai-adoecendo-da-nascente-a-foz-reportagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/348969\/","title":{"rendered":"Rio Le\u00e7a: salvar um corpo de \u00e1gua que vai adoecendo da nascente \u00e0 foz | Reportagem"},"content":{"rendered":"<p><strong>Leia mais sobre este tema aqui:<\/strong><\/p>\n<p>Naquela quinta\u2011feira acordei duas vezes. Uma em casa, no carro, no tr\u00e2nsito, no barulho permanente da cidade. Outra debaixo de um tecto de folhas verdes, com a batida constante de \u00e1gua a correr interrompida por p\u00e1ssaros a chilrear, naquele sil\u00eancio carregado de sons que s\u00f3 a natureza consegue oferecer, perto da nascente do rio Le\u00e7a, em Santo Tirso. Durante horas percorremos v\u00e1rios pontos de passagem destas \u00e1guas que ao longo de d\u00e9cadas foram sin\u00f3nimo de polui\u00e7\u00e3o extrema. O final desta viagem n\u00e3o foi feliz. Mas o destino do Le\u00e7a ainda pode ser.<\/p>\n<p>A esmagadora maioria das pessoas que conhece o rio Le\u00e7a pensa num <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/10\/02\/local\/noticia\/rio-leca-tornouse-fossa-ceu-aberto-populares-denunciam-cheiro-repulsivo-2148509\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">rio sujo<\/a>, malcheiroso, doente, moribundo. Um rio a evitar. Mas o princ\u00edpio do Le\u00e7a \u2014 a apenas 20 minutos do Porto \u2014 mostra uma face escondida, inesperada, de uma beleza natural que contraria esse imagin\u00e1rio colectivo.<\/p>\n<p>            &#13;<br \/>\n                &#13;<br \/>\n                &#13;<br \/>\n                &#13;<br \/>\n                &#13;<\/p>\n<p>Percorremos o Le\u00e7a como quem visita um <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2026\/04\/19\/azul\/entrevista\/rio-vivo-estar-profundamente-doente-2171441\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">corpo que envelhece e adoece<\/a>, da nascente at\u00e9 \u00e0 foz. Um rio \u00fanico: foi considerado um dos mais polu\u00eddos da Europa; \u00e9 hoje o \u00fanico em Portugal gerido por uma associa\u00e7\u00e3o intermunicipal; e \u00e9 tamb\u00e9m o primeiro e \u00fanico a ser monitorizado com sondas de qualidade da \u00e1gua da nascente ao mar.<\/p>\n<p>S\u00e3o quase 50 quil\u00f3metros de percurso ao longo de quatro munic\u00edpios \u2014 Santo Tirso, Valongo, Maia e Matosinhos \u2014, atravessando uma bacia hidrogr\u00e1fica onde vive perto de meio milh\u00e3o de pessoas.<\/p>\n<p>        &#13;<br \/>\n            &#13;<br \/>\n            &#13;<br \/>\n                A poucos quil\u00f3metros da nascente, o Le\u00e7a esconde uma parte ainda pouco afectada pela polui\u00e7\u00e3o&#13;<br \/>\nManuel Roberto            &#13;<br \/>\n&#13;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2019\/04\/16\/local\/noticia\/corredor-verde-rio-ja-poluido-europa-1869514\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">O projecto<\/a> que uniu autarcas numa gest\u00e3o integrada nasceu h\u00e1 menos de meia d\u00fazia de anos, com uma heran\u00e7a pesada e um grito de socorro. Chama\u2011se Corredor do Rio Le\u00e7a e \u00e9 coordenado pelo engenheiro do ambiente Artur Branco, que j\u00e1 parece irremediavelmente preso a estas \u00e1guas e garante que far\u00e1 tudo para devolver sa\u00fade ao Le\u00e7a. Hoje, admite, ainda n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>Onde tudo come\u00e7a<\/p>\n<p>A nascente do Le\u00e7a n\u00e3o tem cerim\u00f3nia nem monumentalidade. N\u00e3o est\u00e1 assinalada por placas nem celebrada como destino tur\u00edstico. Surge discreta, transparente, infiltrando\u2011se entre ra\u00edzes e pedras antes de ganhar coragem para ser rio. O som do trabalho humano \u2014 carros, m\u00e1quinas, buzinas \u2014 fica para tr\u00e1s numa fronteira invis\u00edvel.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Fotografia hist\u00f3rica do Rio Le\u00e7a em Santo Triso, sem data&#13;<br \/>\n                    &#13;<\/p>\n<p>Em Pereiras, Santo Tirso, a cerca de sete quil\u00f3metros da nascente no Monte C\u00f3rdova, a \u00e1gua corre clara e gelada sobre um leito de pedra onde se movem pequenos peixes e alfaiates. Aqui conhecemos Ivo Ribeiro, 32 anos, <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2023\/01\/17\/azul\/noticia\/guardarios-profissao-extinta-renasce-norte-despoluir-zelar-rio-leca-2035360\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">guarda\u2011rios<\/a> \u2014 uma profiss\u00e3o que oficialmente n\u00e3o existe, mas que aqui, no Le\u00e7a, ganhou corpo, utilidade e urg\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cMonitorizamos 44 quil\u00f3metros. A p\u00e9, de bicicleta, de drone. Vamos atr\u00e1s de descargas. Procuramos tudo o que esteja a contaminar o rio.\u201d Ivo conhece o Le\u00e7a desde a inf\u00e2ncia. \u201cOs meus av\u00f3s nadavam aqui. Na minha fam\u00edlia aprendia\u2011se a nadar aqui. As pessoas faziam rio. O meu tio\u2011av\u00f4 morreu aqui afogado.\u201d<\/p>\n<p>Hoje, Ivo e mais tr\u00eas guarda\u2011rios tentam que o Le\u00e7a n\u00e3o seja apenas um rio que foi, mas um rio que ainda pode voltar a ser. \u201cFa\u00e7o vigil\u00e2ncia, monitoriza\u00e7\u00e3o, sigo descargas, procuro o que est\u00e1 mal para ser corrigido\u201d, explica, enquanto varre as margens com o olhar.<\/p>\n<p>O que o rio ganha \u2014 e o que perde \u2014 pelo caminho<\/p>\n<p>O Le\u00e7a nasce cristalino. O <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2026\/04\/19\/azul\/entrevista\/rio-vivo-estar-profundamente-doente-2171441\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">bi\u00f3logo Adriano Bordalo e S\u00e1<\/a>, que h\u00e1 d\u00e9cadas se dedica a estas e outras \u00e1guas, responde com um aviso a esta sensa\u00e7\u00e3o arrebatadora: \u201c\u00c9 normal ficar encantado. Essa zona tem menos press\u00e3o agr\u00edcola e urbana. Mas isso n\u00e3o significa de maneira nenhuma que n\u00e3o existam problemas, quer na \u00e1gua, quer no sedimento.\u201d<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        O guarda-rios Ivo Ribeiro percorre as margens do Le\u00e7a todos os dias&#13;<br \/>\nManuel Roberto                    &#13;<\/p>\n<p>\u00c0 medida que atravessa cidades, o Le\u00e7a recebe tudo o que a bacia hidrogr\u00e1fica lhe oferece \u2014 e muito do que n\u00e3o devia oferecer: \u00e1guas pluviais e residuais contaminadas, res\u00edduos industriais, lixo dom\u00e9stico, pneus, colch\u00f5es, pl\u00e1sticos, at\u00e9 trotinetes el\u00e9ctricas e frigor\u00edficos. E tudo o que a chuva arrasta de quil\u00f3metros de estradas e pontes.<\/p>\n<p>\u201cO Le\u00e7a nasce malfadado\u201d, sentencia Bordalo e S\u00e1. \u201cLogo a seguir \u00e0 nascente come\u00e7a a ser rodeado por habita\u00e7\u00f5es. E os problemas de qualidade, nomeadamente de contamina\u00e7\u00e3o fecal, agudizam\u2011se\u201d. Nas zonas agr\u00edcolas, o rio sofre novas feridas: \u201cA \u00e1gua \u00e9 retirada para rega e devolvida impregnada de fertilizantes, adubos e chorume\u201d. Mais a jusante, a press\u00e3o urbana engole\u2011o quase por completo.<\/p>\n<p>\u201cUm rio \u00e9 a soma de tudo o que acontece \u00e0 volta dele\u201d, resume Artur Branco. \u201cN\u00e3o h\u00e1 uma causa \u00fanica, n\u00e3o h\u00e1 um culpado \u00fanico. Durante d\u00e9cadas, um territ\u00f3rio inteiro usou o rio como sarjeta.\u201d<\/p>\n<p>Bordalo e S\u00e1 concorda \u2014 e amplia: \u201cTemos de olhar para a bacia hidrogr\u00e1fica inteira. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o curso principal, \u00e9 toda a \u00e1rea drenante: campos, vacarias, cidades, floresta, habita\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>Apesar disso, come\u00e7amos num dos tro\u00e7os mais preservados, caminhamos numa margem acidentada, entre escadas que inventamos nas pedras e terreno ainda lamacento das chuvas em direc\u00e7\u00e3o \u00e0s quedas de Ferven\u00e7a.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Artur Branco, engenheiro do ambinente que coordena o projecto Corredor Verde do Le\u00e7a&#13;<br \/>\nManuel Roberto                    &#13;<\/p>\n<p>Artur Branco aponta interven\u00e7\u00f5es de engenharia natural, anfiteatros que substituem muros de bet\u00e3o por taludes vivos, consolidados com ra\u00edzes, pedra local e vegeta\u00e7\u00e3o nativa. \u201cAs pessoas t\u00eam de gostar do rio para o defender. T\u00eam de criar mem\u00f3rias boas com ele. Se for apenas um s\u00edtio sujo que evitam, nunca o v\u00e3o proteger.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode apagar a hist\u00f3ria no leito<\/p>\n<p>No meio do nada, num trilho improvisado que est\u00e1 em terreno privado (como a maioria das terras que acompanham o rio), mas onde o Instituto da Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza e das Florestas autoriza a ca\u00e7a, encontramos cinco rapazes e dois c\u00e3es em sentido contr\u00e1rio. Talvez por surpresa ou timidez, esquivam-se de n\u00f3s, mas n\u00e3o fogem \u00e0 compara\u00e7\u00e3o que desde o in\u00edcio quer\u00edamos evitar: \u201c\u00c9 como se estiv\u00e9ssemos no Ger\u00eas, mas mais perto do Porto.\u201d<\/p>\n<p>Estamos na parte esquecida do Le\u00e7a, seguimos caminho e eles tamb\u00e9m. Artur Branco fala-nos da engenharia natural que, passo a passo, est\u00e1 a introduzir para mudar as margens. \u201cO rio deixou de ser tratado como um canal de transporte de \u00e1gua. Come\u00e7a a ser tratado como um habitat, que precisa de espa\u00e7o, sombra, alimento, permeabilidade.\u201d<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Em Santo Tirso, perto da nascente, a vida selvagem tem liberdade longe das amea\u00e7as nas cidades&#13;<br \/>\nManuel Roberto                    &#13;<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        S\u00e9rgio Costa, engenheiro do ambiente respons\u00e1vel pela candidatura a um projecto europeu que pode dar um importante impulso ao projecto do Le\u00e7a&#13;<br \/>\nManuel Roberto                    &#13;<\/p>\n<p>Ao lado de Artur, S\u00e9rgio Costa, tamb\u00e9m engenheiro do ambiente respons\u00e1vel pela candidatura a um projecto europeu que pode dar novo f\u00f4lego (e muitos milh\u00f5es) a esta causa e que ser\u00e1 entregue at\u00e9 Setembro, complementa: \u201cQueremos devolver-lhe caracter\u00edsticas naturais sem ignorar que ele est\u00e1 profundamente marcado pela presen\u00e7a humana. N\u00e3o podemos libertar tudo. N\u00e3o podemos apagar s\u00e9culos de hist\u00f3ria e de uso econ\u00f3mico. O desafio \u00e9 conciliar ecologia, sociedade e economia.\u201d<\/p>\n<p>Aqui, a \u00e1gua \u00e9 transparente. As margens s\u00e3o ocupadas por amieiros, freixos, carvalhos e alguns eucaliptos de grande porte. As nossas vozes s\u00e3o apenas interrompidas por p\u00e1ssaros (ou seremos n\u00f3s que os interrompemos a eles?). Mas este \u00e9 apenas o in\u00edcio. \u201cVamos ver o rio a adoecer ao longo do caminho\u201d, avisa Artur, no regresso ao carro para continuarmos viagem. E assim \u00e9.<\/p>\n<p>\u00c9 como um corpo humano a envelhecer, constatamos. S\u00e9rgio Costa concorda e alinha na met\u00e1fora: \u201cNasce puro, forte, leve. E depois vai ganhando problemas, peso, cicatrizes. O que tentamos fazer agora \u00e9 perceber onde podemos intervir: que cirurgia faz sentido, onde basta fisioterapia, onde s\u00f3 precisamos de vigiar.\u201d<\/p>\n<p>Um corpo que envelhece e muda<\/p>\n<p>Descemos territ\u00f3rio, em Alfena vemos um Le\u00e7a menos virgem, menos intocado que se tornou paciente e laborat\u00f3rio. Artur Branco lembra que h\u00e1 dez esta\u00e7\u00f5es fixas e sondas m\u00f3veis que recolhem dados em tempo real sobre condutividade, salinidade, turbidez e temperatura ao longo de todo o rio. Mas Bordalo e S\u00e1 alerta: \u201c\u00c9 preciso complementar esta monitoriza\u00e7\u00e3o com sistemas que permitam detectar descargas poluentes e agir de imediato.\u201d<\/p>\n<p>Os n\u00fameros explicam a gravidade. \u201cNa foz do Le\u00e7a, na \u00faltima \u00e9poca balnear, registaram\u2011se valores de E. coli (Escherichia coli) 20, 30 ou mesmo 50 vezes acima do recomendado\u201d, diz.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        O projecto Corredor Verde do rio Le\u00e7a une quatro munic\u00edpios do distrito do Porto&#13;<br \/>\nManuel Roberto                    &#13;<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Um dos objectivos \u00e9 fazer com que a popula\u00e7\u00e3o regresse ao rio&#13;<br \/>\nManuel Roberto                    &#13;<\/p>\n<p>Num a\u00e7ude antigo, agora adaptado com uma rampa ecol\u00f3gica para remover uma barreira aos peixes, o rio esfor\u00e7a-se por recuperar conectividade. \u201cN\u00e3o destru\u00edmos patrim\u00f3nio\u201d, explica Artur Branco. \u201cAdaptamos.\u201d A vida passa \u2014 discreta, mas passa.<\/p>\n<p>Ivo, o guarda-rios, lembra uma espuma detectada ali perto recentemente. Seguiram-lhe o rasto, encontraram descargas vindas de uma f\u00e1brica de metais. \u201cReportamos, o munic\u00edpio actua, a fiscaliza\u00e7\u00e3o entra\u201d, resume. Hoje, grandes ind\u00fastrias s\u00e3o f\u00e1ceis de detectar \u2014 o problema central tornou-se outro: o lixo an\u00f3nimo, difuso, espalhado por toda a bacia hidrogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>\u201cO rio <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2020\/08\/02\/local\/noticia\/ja-trabalha-devolver-rio-leca-populacao-preciso-despoluir-1925100\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">est\u00e1 melhor<\/a>, n\u00e3o est\u00e1 bom, mas est\u00e1 bem melhor\u201d, resume Lu\u00edsa Salgueiro, presidente da C\u00e2mara de Matosinhos e, este ano, da Associa\u00e7\u00e3o de Munic\u00edpios do Rio Le\u00e7a. A associa\u00e7\u00e3o, criada h\u00e1 cinco anos, tem presid\u00eancia rotativa e re\u00fane quatro munic\u00edpios \u201cem torno de um objectivo comum: a recupera\u00e7\u00e3o do Le\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>A autarca socialista licenciada em Direito e p\u00f3s-graduada em Direito do Ambiente, identifica o principal problema: o saneamento. \u201cGrande parte do trabalho tem decorrido nas margens do rio e no pr\u00f3prio leito, com a cria\u00e7\u00e3o de corredores ribeirinhos, zonas de frui\u00e7\u00e3o e vias de mobilidade suave, mas a reabilita\u00e7\u00e3o das ETAR \u00e9 central para que o rio deixe de ser polu\u00eddo.\u201d<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Da nascente at\u00e9 \u00e0 foz, o rio adoece acumulando polui\u00e7\u00e3o &#13;<br \/>\nManuel Roberto                    &#13;<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Em Le\u00e7a do Balio, entre descragas de esgotos e pl\u00e1sticos presos nas margens, ainda h\u00e1 sinais de vida&#13;<br \/>\nManuel Roberto                    &#13;<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Durante d\u00e9cadas, o rio Le\u00e7a foi usado como sarjeta \u2014 ainda h\u00e1 um longo caminho para o recuperar&#13;<br \/>\nManuel Roberto                    &#13;<\/p>\n<p>Recusa, no entanto, triunfalismos: \u201cO Le\u00e7a \u00e9 ainda um doente em recupera\u00e7\u00e3o.\u201d As descargas clandestinas continuam a surgir, sobretudo ap\u00f3s chuvas intensas. \u201cA nossa miss\u00e3o \u00e9 identific\u00e1\u2011las e elimin\u00e1\u2011las.\u201d<\/p>\n<p>O reconhecimento institucional chegou cedo, lembra. A associa\u00e7\u00e3o recebeu distin\u00e7\u00f5es e o Le\u00e7a foi apresentado como refer\u00eancia nacional no programa ProRios pela ministra do Ambiente, Maria da Gra\u00e7a Carvalho.<\/p>\n<p>O futuro, diz Lu\u00edsa Salgueiro, passar\u00e1 pela moderniza\u00e7\u00e3o das esta\u00e7\u00f5es de tratamento e tamb\u00e9m pelo PEGA \u2014 o Plano Espec\u00edfico de Gest\u00e3o das \u00c1guas, o primeiro do g\u00e9nero no pa\u00eds. O objectivo \u00e9 ambicioso: organizar durante dez a 12 anos uma interven\u00e7\u00e3o integrada, avaliada em dezenas de milh\u00f5es de euros, que permita recuperar o rio em profundidade e n\u00e3o apenas em remendos.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a das \u00e1guas residuais<\/p>\n<p>Em Le\u00e7a do Balio, o rio mudou definitivamente a apar\u00eancia. \u00c9 outro Le\u00e7a, o que todos (re)conhecem. As \u00e1guas ficam mais ba\u00e7as, o caudal engrossa, o lixo j\u00e1 se acumula nas margens como cicatrizes: pl\u00e1sticos, pneus, sacos presos \u00e0s \u00e1rvores como bandeiras da decad\u00eancia. \u201cTudo isto vai parar ao mar, se n\u00e3o ficar preso aqui\u201d, diz Ivo.<\/p>\n<p>Israel Pontes, presidente da associa\u00e7\u00e3o Vamos salvar o nosso rio Le\u00e7a, \u00e9 a voz mais cr\u00edtica. Engenheiro civil, empres\u00e1rio, ca\u00e7ador, candidato pelo Chega \u00e0 presid\u00eancia da C\u00e2mara de Matosinhos nas elei\u00e7\u00f5es de 2021, Israel invoca acima de tudo a sua preocupa\u00e7\u00e3o como cidad\u00e3o, pai de dois filhos e residente em Le\u00e7a de Balio, numa casa onde \u00e0s vezes n\u00e3o se pode sequer abrir janelas ou p\u00f4r roupa a secar por causa do cheio nauseabundo do Le\u00e7a.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Na bacia hidrogr\u00e1fica do Le\u00e7a vive perto de meio milh\u00e3o de pessoas&#13;<br \/>\nManuel Roberto                    &#13;<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Artur Branco: \u201cUm rio \u00e9 a soma de tudo o que acontece \u00e0 volta dele\u201d&#13;<br \/>\nManuel Roberto                    &#13;<\/p>\n<p>Denuncia atrasos, interesses escondidos e falta de ambi\u00e7\u00e3o. Aponta o dedo \u00e0s ETAR e \u00e0s descargas nocturnas que ningu\u00e9m v\u00ea e chama ao Corredor do Le\u00e7a \u201cum placebo\u201d. Garante que com metade dos mais de <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2021\/11\/15\/local\/noticia\/associacao-intermunicipal-garante-4-milhoes-corredor-verde-leca-1985029\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">quatro milh\u00f5es de euros<\/a> que o projecto do Corredor do rio Le\u00e7a recebeu e investiu \u201cteria feito o dobro\u201d. Converge, no entanto, num ponto essencial: sem saneamento eficaz, o Le\u00e7a n\u00e3o recupera.<\/p>\n<p>As tr\u00eas principais ETAR \u2014 Parada, Ermesinde e Ponte de Moreira \u2014 est\u00e3o finalmente em moderniza\u00e7\u00e3o profunda. \u201c\u00c9 um trabalho invis\u00edvel, mas determinante\u201d, diz Artur Branco. Bordalo e S\u00e1 alerta para os bypasses em dias de chuva intensa, que continuam a lan\u00e7ar esgotos directamente no rio com consequ\u00eancias que se acumulam e perduram.<\/p>\n<p>Na Lionesa, quase na fronteira entre a Maia e Matosinhos, as margens requalificadas mostram potencial, com caminhos pedonais, vegeta\u00e7\u00e3o a recuperar, enrocamentos a 45 graus que garantem seguran\u00e7a e habitat, mas tamb\u00e9m exp\u00f5em res\u00edduos enterrados durante d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>\u201cAqui ele j\u00e1 levou com duas ETAR em cima\u201d, diz Artur. Por essas e outras, h\u00e1 ainda muitos dias em que o mau cheiro das \u00e1guas denuncia descargas acidentais ou intrus\u00f5es de \u00e1guas residuais em sistemas pluviais.<\/p>\n<p>D\u00e9cadas de descuido \u00e0 tona<\/p>\n<p>O projecto do Corredor retirou 250 toneladas de lixo no primeiro ciclo de interven\u00e7\u00f5es. Plantou 51 mil \u00e1rvores e arbustos. Requalificou dez quil\u00f3metros com engenharia natural, devolveu espa\u00e7o ao rio. \u201cMas n\u00e3o podemos limpar eternamente um rio que outros continuam a sujar\u201d, sublinha. \u201cCada gota de \u00f3leo, cada desgaste de pneu, cada pl\u00e1stico que algu\u00e9m deita ao ch\u00e3o, cai aqui.\u201d<\/p>\n<p>Vemos o que os t\u00e9cnicos chamam de \u201cpassivo ambiental\u201d \u2014 res\u00edduos antigos enterrados nas margens, descobertos quando se abriu o agora popular percurso pedonal \u00e0 beira-rio. Do leito v\u00eam \u00e0 tona caixas de manteiga dos anos de 1970 e 80, pl\u00e1sticos compactados, peda\u00e7os de tijolo e entulho de obras, de d\u00e9cadas de descuido. \u201cFazia-se assim: deitava-se para a zona mais baixa. E a zona mais baixa \u00e9 sempre o rio\u201d, lamenta Ivo.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        O projecto do Corredor do Le\u00e7a retirou 250 toneladas de lixo no primeiro ciclo de interven\u00e7\u00f5es&#13;<br \/>\nManuel Roberto                    &#13;<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Qualquer cidad\u00e3o pode ser guarda-rios e denunciar descragas ou outros focos de polui\u00e7\u00e3o&#13;<br \/>\nManuel Roberto                    &#13;<\/p>\n<p>Aqui a voz de Bordalo e S\u00e1 volta a escarafunchar na ferida: \u201cO que vemos preso na vegeta\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas uma parte. O que chega ao mar n\u00e3o vemos.\u201d<\/p>\n<p>A corrente carrega micropl\u00e1sticos \u2014 part\u00edculas invis\u00edveis que resultam do desgaste de pneus, do esfarelar dos res\u00edduos, da eros\u00e3o de tudo o que a urbaniza\u00e7\u00e3o despeja. No entanto, apesar de tudo, ainda h\u00e1 vida. O rio move-se mais pesado, mais lentamente, mas h\u00e1 patos que passam entre os ramos das \u00e1rvores. \u00c9 hora de almo\u00e7o e h\u00e1 muita gente no corredor que acompanha o Le\u00e7a.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o social \u00e9 t\u00e3o importante quanto a t\u00e9cnica. \u201cSomos todos guarda-rios\u201d, diz um dos slogans do projecto do Corredor do Le\u00e7a. O apelo \u00e9 claro: denunciar, proteger, n\u00e3o deixar res\u00edduos. \u201cA primeira limpeza \u00e9 evitar que o lixo chegue ao rio\u201d, abrevia Artur Branco.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o ambiental tamb\u00e9m \u00e9 central. Da\u00ed o Pacto Le\u00e7a 2030: empresas, juntas de freguesia, associa\u00e7\u00f5es, grupos informais e pessoas individuais v\u00e3o comprometer-se a fazer uma ac\u00e7\u00e3o por ano \u2014 plantar, limpar, monitorizar \u2014 e voltar ao mesmo s\u00edtio nos anos seguintes. Para verem o que resultou. E o que morreu. E o que falta fazer. \u201cChega de voluntariado para a fotografia\u201d, diz Artur. \u201cQueremos voluntariado para a transforma\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>O Plano Espec\u00edfico de Gest\u00e3o das \u00c1guas (PEGA) permitir\u00e1 concorrer a um projecto europeu de entre 20 a 30 milh\u00f5es de euros, para investir durante dez a 12 anos. Uma d\u00e9cada de trabalho cont\u00ednuo para rejuvenescer o rio doente que j\u00e1 se conseguiu come\u00e7ar a tratar.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        O corredor junto ao rio Le\u00e7a vai crescendo junto \u00e0 margem e tem cada vez mais visitantes&#13;<br \/>\nManuel Roberto                    &#13;<\/p>\n<p>A gest\u00e3o da \u00e1gua tem de ser t\u00e9cnica, mas tamb\u00e9m pol\u00edtica. Adriano Bordalo e S\u00e1 \u00e9 intransigente sobre o papel da Ag\u00eancia Portuguesa do Ambiente (APA), que lhe parece ausente neste caudal de problemas por resolver: \u201cA APA tem compet\u00eancias gigantescas, mas n\u00e3o tem meios humanos nem materiais para as cumprir. Portugal deixou de ter um Instituto da \u00c1gua. Isso est\u00e1 errado.\u201d<\/p>\n<p>A foz: um fim sem gl\u00f3ria<\/p>\n<p>Junto ao Porto de Leix\u00f5es, o rio encontra o mar sem grande espect\u00e1culo. \u00c9 mais uma fus\u00e3o inevit\u00e1vel do que uma celebra\u00e7\u00e3o. A \u00e1gua n\u00e3o \u00e9 cristalina. A paisagem n\u00e3o \u00e9 id\u00edlica. O rio parece velho, mas n\u00e3o vencido.<\/p>\n<p>As margens s\u00e3o estreitas, o rio j\u00e1 n\u00e3o tem espa\u00e7o para respirar, n\u00e3o h\u00e1 lugar para o estu\u00e1rio ocupado pelo terminal. A \u00e1gua chega turva, mas chega viva. Para um rio t\u00e3o castigado, isso j\u00e1 \u00e9 uma vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Sobre esta zona, Bordalo e S\u00e1 tamb\u00e9m \u00e9 directo: \u201cA foz do Le\u00e7a est\u00e1 dentro do porto. O rio chega fortemente contaminado. N\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel que continue a descarregar assim para o mar.\u201d E sobre a recupera\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, \u00e9 contido: \u201cH\u00e1 tro\u00e7os que melhoraram, mas ainda h\u00e1 muito trabalho a fazer.\u201d<\/p>\n<p>Ao longo do dia, ao longo do rio, percebemos que h\u00e1 problemas profundos, estruturais, hist\u00f3ricos. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 vontade, h\u00e1 t\u00e9cnica, h\u00e1 ci\u00eancia, h\u00e1 gente \u2014 sobretudo isso \u2014 que n\u00e3o desiste.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Lavadeiras no Rio Le\u00e7a, Matosinhos, na d\u00e9cada 1940&#13;<br \/>\nAndrelino Fernandes                    &#13;<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Sa\u00edda  Ponte de Pedra, em Le\u00e7a, na actual Rua Pinto de Ara\u00fajo&#13;<br \/>\n                    &#13;<\/p>\n<p>\u201cDaqui a dez anos vamos ver uma grande diferen\u00e7a\u201d, promete Artur, que trabalha no Le\u00e7a desde 2008. \u201cEu gostava de ver o final feliz deste rio. E tenho esperan\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>Pergunt\u00e1mos a Bordalo e S\u00e1 se tamb\u00e9m acredita num final feliz para o rio Le\u00e7a. Depois de uma pausa, veio a resposta ponderada: \u201cSe houver vontade pol\u00edtica, sim. Mas a vontade pol\u00edtica esbarra no dinheiro e nas prioridades. N\u00e3o posso garantir um final feliz. Mas \u00e9 poss\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p>O bi\u00f3logo deixa a maior responsabilidade entregue: \u201cEst\u00e1 nas m\u00e3os dos cidad\u00e3os pressionar e exigir. Individualmente n\u00e3o muda nada. Colectivamente, muda.\u201d O problema, diz, \u00e9 que \u201cn\u00f3s barafustamos muito\u201d, mas n\u00e3o nos unimos numa for\u00e7a de press\u00e3o eficaz.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa Salgueiro ser\u00e1 a voz mais confiante neste arriscado exerc\u00edcio de adivinhar o futuro. \u201cA gera\u00e7\u00e3o dos meus pais fazia passeios de barco a remo ao domingo no Le\u00e7a; eu vi o rio mudar de cor de dia para dia; espero que a gera\u00e7\u00e3o da minha filha volte a usufruir de um Le\u00e7a limpo\u201d. Que mergulhe no Le\u00e7a? \u201cIsso j\u00e1 depende de cada um. As \u00e1guas s\u00e3o frias, mas sim, em condi\u00e7\u00f5es de ter \u00e1gua que cumpra os par\u00e2metros da qualidade para que isso seja poss\u00edvel\u201d, admite.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Artur Branco: \u201cEu gostava de ver o final feliz deste rio. E tenho esperan\u00e7a\u201d&#13;<br \/>\nManuel Roberto                    &#13;<\/p>\n<p>A expectativa \u00e9 que, com a reabilita\u00e7\u00e3o das ETAR e a elimina\u00e7\u00e3o progressiva dessas liga\u00e7\u00f5es ilegais, o rio cumpra os par\u00e2metros de qualidade no pr\u00f3ximo ciclo aut\u00e1rquico. \u201cNo pr\u00f3ximo mandato aut\u00e1rquico, o Le\u00e7a j\u00e1 vai estar um rio limpo\u201d, insiste, esclarecendo que \u201climpo n\u00e3o \u00e9 sem nenhuma liga\u00e7\u00e3o clandestina, mas a cumprir os indicadores de qualidade\u201d. O caminho ainda \u00e9 longo, admite, mas mant\u00e9m a convic\u00e7\u00e3o. \u201cSou optimista: acho que se pode sempre conseguir.\u201d<\/p>\n<p>Apesar de tudo, e independentemente de um calend\u00e1rio pol\u00edtico, tamb\u00e9m ficamos a acreditar num futuro melhor para o Le\u00e7a. Depois de um dia inteiro a seguir o rio, da nascente cristalina \u00e0 foz agonizante, passando pelas margens urbanas doentes carregadas de res\u00edduos, sobra a certeza que este rio ainda est\u00e1 vivo. Fr\u00e1gil, doente em muitos tro\u00e7os, mas vivo.<\/p>\n<p>E um rio vivo pode sempre mudar. Se o deixarmos, se o quisermos. Se o ajudarmos. Se formos todos guarda-rios.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Leia mais sobre este tema aqui: Naquela quinta\u2011feira acordei duas vezes. 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