{"id":35124,"date":"2025-08-19T00:02:13","date_gmt":"2025-08-19T00:02:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/35124\/"},"modified":"2025-08-19T00:02:13","modified_gmt":"2025-08-19T00:02:13","slug":"a-viagem-derradeira-na-morte-de-augusto-alves-da-silva-opiniao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/35124\/","title":{"rendered":"A viagem derradeira \u2014 na morte de Augusto Alves da Silva | Opini\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Conheci <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/08\/17\/culturaipsilon\/noticia\/morreu-augusto-alves-silva-fotografo-imaginacao-prodigiosa-conviccoes-fortes-2144165\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Augusto Alves da Silva<\/a> no final dos anos 1990, quando Teresa Siza instalava e dirigia o Centro Portugu\u00eas de Fotografia (CPF), no Porto. Aqueles foram anos transformadores para a fotografia em Portugal, com o CPF a apoiar decisivamente fot\u00f3grafos como Paulo Catrica, Ant\u00f3nio J\u00falio Duarte e o pr\u00f3prio Augusto Alves da Silva, entre muitos outros. Num programa de fomento de que n\u00e3o havia mem\u00f3ria em Portugal e que, infelizmente, foi interrompido e n\u00e3o se repetiu, Teresa Siza e o CPF encomendaram e criaram condi\u00e7\u00f5es para a produ\u00e7\u00e3o e a exposi\u00e7\u00e3o, em condi\u00e7\u00f5es profissionais, de trabalhos em fotografia e em v\u00eddeo, a muitos artistas da minha gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Depois de passar pelo Instituto Superior T\u00e9cnico, em Lisboa, o Augusto obteve por duas vezes bolsas da Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian e mudou-se para Londres para estudar fotografia no London College of Printing (B.A. Hons. Photography) e na Slade School of Fine Art (M.F.A. Media). Pelo meio, em 1990, apresentou a sua primeira exposi\u00e7\u00e3o individual intitulada Alg\u00e9s-Trafaria na Galeria Ether, em Lisboa, a convite de Ant\u00f3nio Sena, com quem viria a manter contacto ao longo da vida. Em 2020, Augusto Alves da Silva doou aquela s\u00e9rie de 18 fotografias a preto-e-branco \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian.<\/p>\n<p>As edi\u00e7\u00f5es de Ist (1994), de Pasaje (1998) e de Shelter (1999) foram momentos muito relevantes na sua carreira. Recordo tamb\u00e9m as s\u00e9ries Que Bela Fam\u00edlia (1992) e Uma Cidade Assim (1996), ambas na Colec\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o de Serralves, bem como a instala\u00e7\u00e3o Road Works (1998), apresentada na Chisenhale Gallery, em Londres, e que, mais tarde, viria a ser adquirida pela Colec\u00e7\u00e3o de Arte Contempor\u00e2nea do Estado.<\/p>\n<p>O Augusto viveu sempre atento \u00e0s realidades culturais e sociais e \u00e0s tens\u00f5es do seu tempo. Demonstrava uma percep\u00e7\u00e3o cr\u00edtica das contradi\u00e7\u00f5es que o rodeavam, evidenciada em obras que reflectiam tanto acontecimentos hist\u00f3ricos como situa\u00e7\u00f5es do quotidiano. A s\u00e9rie 3.16, de 2003 (Colec\u00e7\u00e3o Ant\u00f3nio Cachola), realizada na Base das Lajes, nos A\u00e7ores, exp\u00f5e com ironia extrema as arbitrariedades do exerc\u00edcio do poder pelas grandes pot\u00eancias; em Our Freedom, de 2004, surge a consci\u00eancia de que o ataque \u00e0s Torres G\u00e9meas marcara o fim de uma hegemonia global. J\u00e1 em Die sch\u00f6nste Fahne der Welt, de 2006, reagiu com humor ao espect\u00e1culo medi\u00e1tico de \u201cA Mais Bela Bandeira do Mundo\u201d, reunindo milhares de participantes no Est\u00e1dio Nacional, no Jamor.<\/p>\n<p>Em 2007, o Augusto apresentou, na Galeria Fonseca Macedo, nos A\u00e7ores, com uma ironia tremenda, a exposi\u00e7\u00e3o Animais, em que retratava muitos daqueles que se encontravam internados no Jardim Zool\u00f3gico de Lisboa, para deleite dos humanos que os visitavam. O Augusto tinha pelos animais um carinho imenso, intenso, permanente. Nos \u00faltimos anos, viveu acompanhado pelos seus c\u00e3es, o Jet e a Oli, que foram surgindo aqui e ali como protagonistas discretos das suas fotografias.<\/p>\n<p>Em 2009, apresentou no Museu de Serralves a exposi\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2009\/10\/28\/culturaipsilon\/noticia\/augusto-alves-da-silva-e-uma-historia-da-sobrevivencia-243945\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Sem Sa\u00edda \u2014<\/a><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2009\/10\/28\/culturaipsilon\/noticia\/augusto-alves-da-silva-e-uma-historia-da-sobrevivencia-243945\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"> \u200b<\/a><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2009\/10\/28\/culturaipsilon\/noticia\/augusto-alves-da-silva-e-uma-historia-da-sobrevivencia-243945\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Ensaio<\/a><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2009\/10\/28\/culturaipsilon\/noticia\/augusto-alves-da-silva-e-uma-historia-da-sobrevivencia-243945\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"> Sobre o Optimismo<\/a>, comissariada por Jo\u00e3o Fernandes, que ele tanto considerava, e que lhe permitiu realizar uma retrospectiva significativa da sua obra. Por sua vez, em 2016, Ant\u00f3nio Cachola foi respons\u00e1vel pela apresenta\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o Crystal Clear no Museu de Arte Contempor\u00e2nea de Elvas. Felizmente, a carreira do Augusto foi pontuada por encontros determinantes com pessoas que ele estimou e cujas opini\u00f5es respeitava. Refiro-me a Ant\u00f3nio Sena, Teresa Siza, Jo\u00e3o Fernandes, <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2016\/02\/24\/culturaipsilon\/noticia\/os-cachola-uma-familia-de-coleccionadores-1724246\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Ant\u00f3nio Cachola<\/a>.<\/p>\n<p>O Augusto manteve ao longo da vida uma paix\u00e3o por carros que adaptava em fun\u00e7\u00e3o das suas necessidades para, dessa forma, poder fotografar e filmar a partir da pr\u00f3pria viatura, muitas vezes em movimento. Foi assim, por exemplo, em Paisagens In\u00fateis, de 2006 (Colec\u00e7\u00e3o Ant\u00f3nio Cachola), na s\u00e9rie Cielo e na projec\u00e7\u00e3o v\u00eddeo Luz, apresentados na Appleton Square, em 2016 e, claro, em Iberia, de 2009, que passou a integrar a colec\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o de Serralves. As viagens que o Augusto realizava com regularidade por Portugal, pelos Picos da Europa, pela Isl\u00e2ndia, pela Noruega ou por Marrocos amplificavam o seu amor pela vida e pela natureza, apaziguavam os seus dem\u00f3nios e colocavam-no em contacto com muitas e diferentes pessoas com quem conversava, ria e bebia com um prazer imenso.<\/p>\n<p>Na barca de Caronte, o Augusto far\u00e1 agora a viagem derradeira. Acompanhado talvez pelo som das r\u00e1dios da Meseta Ib\u00e9rica, que tantas alegrias lhe deram em outras tantas viagens. Em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 luz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Conheci Augusto Alves da Silva no final dos anos 1990, quando Teresa Siza instalava e dirigia o Centro&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":35125,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[85],"tags":[11018,1753,11016,11019,11017,315,114,115,2085,835,32,33],"class_list":{"0":"post-35124","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-entretenimento","8":"tag-antonio-cachola","9":"tag-artes","10":"tag-centro-portugues-de-fotografia","11":"tag-coleccao-de-arte-contemporanea-do-estado","12":"tag-cpf","13":"tag-cultura","14":"tag-entertainment","15":"tag-entretenimento","16":"tag-fotografia","17":"tag-opiniao","18":"tag-portugal","19":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35124","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35124"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35124\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35125"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35124"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35124"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35124"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}