{"id":35653,"date":"2025-08-19T10:14:15","date_gmt":"2025-08-19T10:14:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/35653\/"},"modified":"2025-08-19T10:14:15","modified_gmt":"2025-08-19T10:14:15","slug":"joao-de-melo-revela-tragedias-africanas-em-portugues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/35653\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o de Melo Revela Trag\u00e9dias Africanas em Portugu\u00eas"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 um facto a que Jo\u00e3o de Melo n\u00e3o escapa desde que escreveu e publicou o seu terceiro romance,\u00a0Gente Feliz com L\u00e1grimas: o de nele ficar enredado pela surpresa e magia da narrativa que entusiasmou os leitores, fez receber o Grande Pr\u00e9mio da Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Escritores, entre outros (quatro), al\u00e9m de v\u00e1rias tradu\u00e7\u00f5es, de uma adapta\u00e7\u00e3o ao teatro e a uma s\u00e9rie de televis\u00e3o. Um sucesso assim cola-se ao escritor e nunca falta em qualquer biografia liter\u00e1ria. No entanto, Jo\u00e3o de Melo n\u00e3o se submete apenas ao romance de f\u00f4lego, como esse e outros que est\u00e3o na sua bibliografia, \u00e9 tamb\u00e9m um excelente autor de contos, um dos registos liter\u00e1rios mais complexos devido ao modo como o leitor deve ser \u201cmanipulado\u201d num breve percurso de princ\u00edpio, meio e fim. Uma obra de duas dezenas de t\u00edtulos que \u00e9 o melhor exemplo de como o feiti\u00e7o da l\u00edngua portuguesa est\u00e1 na m\u00e3o de alguns escritores ao permitirem conhecer as nossas trag\u00e9dias.<\/p>\n<p>A recolha de contos que agora publica intitula-se\u00a0A Nuvem no Olhar\u00a0e nela alinha oito contos reescritos dos dois primeiros livros deste g\u00e9nero e dois textos in\u00e9ditos. Pergunta-se a Jo\u00e3o de Melo se esta nova edi\u00e7\u00e3o tem como objetivo assinalar os anos de vida liter\u00e1ria que come\u00e7aram com um outro livro de contos de 1975, o\u00a0Hist\u00f3rias da Resist\u00eancia.\u00a0Sem o negar, n\u00e3o deixa de encontrar uma outra justifica\u00e7\u00e3o: \u201c\u00c0 parte os dois in\u00e9ditos, estes contos pertenciam a dois livros meus,\u00a0Entre P\u00e1ssaro e Anjo\u00a0(1987) e\u00a0Bem-Aventuran\u00e7as\u00a0(1992). Fiz quest\u00e3o de os resgatar por um processo que me \u00e9 muito familiar: a reescrita. Na minha opini\u00e3o, eles j\u00e1 se distinguiam dos restantes contos desses livros, e do\u00eda-me a ideia de os ver \u00abperdidos\u00bb no esquecimento dos leitores. O cinquenten\u00e1rio liter\u00e1rio pareceu-me um bom pretexto para os reescrever, dando-lhes a dimens\u00e3o da minha escrita atual, mais experiente, talvez at\u00e9 definitiva.\u201d<\/p>\n<p>Para o escritor, o crit\u00e9rio de sele\u00e7\u00e3o destes contos teve como inten\u00e7\u00e3o \u201cdar ao leitor uma ideia de diversidade tem\u00e1tica, e ao mesmo tempo captar nos contos selecionados o eco reminiscente deste tempo e dos anteriores: A\u00e7ores, \u00c1frica ou v\u00e1rias Lisboas. Pretendo tamb\u00e9m fazer uma chamada \u00e0 nova gera\u00e7\u00e3o de leitores, de modo a dar-lhe a consci\u00eancia do muito que n\u00e3o viveu ou n\u00e3o passou: o pa\u00eds proibido, o drama geracional da guerra colonial, e os contos que falam dessa liberta\u00e7\u00e3o posterior. \u00c9 por isso que s\u00e3o todos t\u00e3o diversos entre si, alguns mais solenes, outros bem-humorados e que pelo riso castigam os costumes\u201d.<\/p>\n<p>As mem\u00f3rias s\u00e3o uma presen\u00e7a constante nestas 231 p\u00e1ginas. Tendo Jo\u00e3o de Melo entrado no mundo da literatura h\u00e1 meio s\u00e9culo, aquela \u00e9poca tem-se esbatido ou nem quer recordar esse mundo liter\u00e1rio de t\u00e3o diferente que \u00e9 do atual? Responde: \u201cCada um de n\u00f3s, escritores, tem a sua forma de rela\u00e7\u00e3o com a literatura, a pr\u00f3pria e a alheia. Em 1975, possu\u00eda j\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o madura com a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Fui, desde cedo, um grande leitor, e foi-se-me entranhando a ideia de transitar de leitura para a escrita. Mas comecei pela poesia, tinha uns 15 anos; e aos dezasseis escrevi um romance nunca publicado e que guardo no meu esp\u00f3lio como se fosse um pergaminho antigo.\u00a0A transi\u00e7\u00e3o da poesia e do romance para o conto deu-se naturalmente, mas tive sempre a consci\u00eancia de que entrava nos dom\u00ednios de um texto exigente, mesmo algo disciplinar. O caso \u00e9 que a minha aventura de escrita se liga com a realidade e com a hist\u00f3ria social e pol\u00edtica do pa\u00eds. Tive uma grande fortuna por ter vivido este tempo portugu\u00eas e a minha gera\u00e7\u00e3o herdou um pa\u00eds liter\u00e1rio; n\u00e3o tem desculpa se n\u00e3o escrever sobre ele. Considero-me t\u00e3o criativo quanto tem\u00e1tico, e vice-versa.\u201d<\/p>\n<p>Ao referir que um dos prop\u00f3sitos dos oito contos foi o de estabelecer a edi\u00e7\u00e3o\u00a0definitiva dessas hist\u00f3rias, \u00e9 preciso esclarecer se o escritor Jo\u00e3o de Melo nunca est\u00e1 satisfeito ou \u00e9 a passagem do tempo a raz\u00e3o dessa reescrita?\u00a0Responde primeiro com a exce\u00e7\u00e3o: \u201cEsta \u00e9 uma pr\u00e1tica algo constante em mim: rever, reescrever, tornar mais maduros os textos, sejam eles contos ou romances. \u00a0S\u00f3 o\u00a0Gente Feliz com L\u00e1grimas\u00a0escapou at\u00e9 hoje ao remendeiro liter\u00e1rio que sou. Em mim, essa \u00e9 uma esp\u00e9cie de sina ou de cruz do calv\u00e1rio pois vou sempre \u00e0 frente de tudo o que escrevi. Tamb\u00e9m uma din\u00e2mica produtiva que me resgata para a minha pr\u00f3pria atualidade. A Hist\u00f3ria est\u00e1 cheia de escritores auto exigentes, n\u00e3o preciso sequer de os mencionar. Sou um deles, pronto.\u201d<\/p>\n<p>Para alguns escritores, muitos dos seus contos s\u00e3o resultado de romances frustrados. Tamb\u00e9m se d\u00e1 o caso de alguns romances serem fruto de contos frustrados. Pertencer\u00e1 Jo\u00e3o de Melo a alguma destas situa\u00e7\u00f5es? N\u00e3o hesita: \u201cN\u00e3o. At\u00e9 porque n\u00e3o escrevo contos com a linguagem dos romances, e vice-versa. O conto \u00e9 um texto liter\u00e1rio exigente, mesmo quando simples e curto. Nada pode falhar no seu equil\u00edbrio formal. O romance \u00e9 um g\u00e9nero de corda larga, podemos nele pastar mais \u00e0 vontade, que o pastor e o pol\u00edcia n\u00e3o est\u00e3o l\u00e1 para nos vigiar.\u201d<\/p>\n<p>Falando de romances, questiona-se qual ser\u00e1 o que se segue mas a resposta \u00e9 inesperada: \u201cDesta vez, ser\u00e1 um Di\u00e1rio:\u00a0Novas fases da Lua\u00bb (2017-2024).\u00a0Sair\u00e1 no m\u00eas de setembro, h\u00e1 de porventura somar-se \u00e0 comemora\u00e7\u00e3o dos meus 50 anos de vida liter\u00e1ria. Faz parte, ali\u00e1s, do Di\u00e1rio que me acompanha desde 1993, com alguns interregnos pelo meio. Procura responder \u00e0 ideia de muitos, que advogam a tese da decad\u00eancia dos intelectuais na Europa. Ela n\u00e3o existe. O sil\u00eancio social e os mecanismos de interven\u00e7\u00e3o \u00e9 que nos t\u00eam sido contr\u00e1rios. N\u00e3o me submeti: observo o mundo de hoje, tenho ideias e ideologia, hei de encontrar sempre um modo de express\u00e3o interventiva sobre a ordem do tempo e do mundo.\u201d \u00a0<\/p>\n<p>A \u201cnovela\u201d\u00a0O Tr\u00edptico dos Barcos\u00a0\u00e9 um bom exemplo de como para as mais novas gera\u00e7\u00f5es da atual\u00a0sociedade portuguesa a guerra colonial nada lhes diz. Ser\u00e1 que o \u201cnosso\u201d Vietname passou \u00e0 categoria de fic\u00e7\u00e3o \u00e9 o que se pergunta ao escritor, que tem a guerra em \u00c1frica bem presente na sua obra: \u201cA literatura n\u00e3o se serve \u00e0 mesa. Nem na cama. Nem no confession\u00e1rio. Tamb\u00e9m n\u00e3o se pretende moralizadora nem pedag\u00f3gica. Fui professor durante largos anos, passei testemunho a v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de alunos. \u00c0 medida que foram descobrindo a minha condi\u00e7\u00e3o de escritor, deram-me provas de me quererem tamb\u00e9m em duplo. Desconhecem a nossa trag\u00e9dia africana, sim, mas muito mais a dimens\u00e3o asi\u00e1tica do Vietname americano. A literatura, o cinema, o teatro e as outras artes n\u00e3o deixam que a mem\u00f3ria prescreva. Digamos que essa \u00e9 uma das ess\u00eancias da literatura; a outra \u00e9 a da cria\u00e7\u00e3o pelo imagin\u00e1rio do mundo e pela linguagem.\u201d \u00a0<\/p>\n<p>Lisboa \u00e9 muitas vezes cen\u00e1rio destes contos. Ser\u00e1 que as hist\u00f3rias encaixam bem nesta cidade ou existe outra raz\u00e3o: \u201cHouve um tempo em que cheguei a pensar que estava em d\u00edvida liter\u00e1ria para com Lisboa; que lhe devia um romance. Mas n\u00e3o h\u00e1 fundamento nisso. Fiz de Lisboa a cidade das partidas e dos regressos. O seu quotidiano est\u00e1 em todos os itiner\u00e1rios dos meus livros. Chamei-lhe mesmo \u00aba cidade da vida\u00bb, a ponto de me tornar t\u00e3o lisboeta quanto a\u00e7oriano. Paguei-lhe o meu tributo, tanto de cidadania como de cria\u00e7\u00e3o pela escrita liter\u00e1ria.\u201d<\/p>\n<p>Se pagou o tributo \u00e0 capital e a todos os locais que v\u00e3o desfilando pelos seus livros, ter\u00e1 Jo\u00e3o de Melo alguma vez sentido que gostava de escrever num outro registo\u00a0ou tom? Para o autor \u00e9 \u201cdif\u00edcil responder sem a ideia do autoelogio\u00bb. Ou seja, diz: \u201cNa verdade, comigo j\u00e1 se cumpriram todos os ciclos e geografias.\u00a0 Fechei o maior de todos eles: n\u00e3o mais A\u00e7ores da inf\u00e2ncia, nem Portugal do Salazarismo, nem \u00c1fricas coloniais. Sobre tudo isso j\u00e1 falei e disse. Tamb\u00e9m n\u00e3o quis ser, estritamente, um regionalista insular: tive sempre a preocupa\u00e7\u00e3o das travessias de tempo, espa\u00e7o e condi\u00e7\u00e3o. O meu \u00fanico livro que \u00abn\u00e3o sai\u00bb dos A\u00e7ores chama-se\u00a0O meu mundo n\u00e3o \u00e9 deste reino, e \u00e9 um dos meus t\u00edtulos favoritos. De resto, fiz dos continentes ilhas imensamente grandes; e, destas, pequenos continentes mar\u00edtimos, com o seu relativo universo de partidas e chegadas. A minha \u00abinspira\u00e7\u00e3o\u00bb foi sempre mais m\u00edtica do que geogr\u00e1fica, porque pretendi ser de um tempo e de todos os tempos; e de um lugar para ser de todos os lugares e mundos. N\u00e3o \u00e9 pequena ambi\u00e7\u00e3o, reconhe\u00e7o. Mas nada, ningu\u00e9m nos pode valer no risco intencional e solit\u00e1rio da cria\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Se esta recolha tem dois contos in\u00e9ditos, n\u00e3o se pode deixar de questionar Jo\u00e3o de Melo sobre o que h\u00e1 mais de in\u00e9dito na sua Arca. Confirma: \u201cH\u00e1 sempre. Muitos, experienciais, hipot\u00e9ticos, mais intimistas do que tem\u00e1ticos. Ter\u00e3o o seu tempo. No entanto, v\u00e1rios destes contos s\u00e3o subsidi\u00e1rios de outras hist\u00f3rias, j\u00e1 escritas ou por escrever. Escrevi um romance sobre a guerra,\u00a0Aut\u00f3psia de um mar de ru\u00ednas, muito baseado na experi\u00eancia terr\u00edvel da minha aventura angolana. Mas nem isso obstou a que tivesse de escrever a novela que d\u00e1 t\u00edtulo ao\u00a0A Nuvem no Olhar: o regresso de um navio cheio de tropas, onde cada um transporta o seu trauma, a sua mem\u00f3ria de guerra, essa maldi\u00e7\u00e3o que a mim me ficou para toda a vida, pense embora as catarses que a escrita me facilitou para al\u00edvio da mem\u00f3ria maldita. Essa novela atinge o mundo ideol\u00f3gico de tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es de uma fam\u00edlia, e portanto projeta-se muito para al\u00e9m do tema estrito da guerra.\u201d<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, falemos da maldi\u00e7\u00e3o que paira sobre o conto como g\u00e9nero muito pouco apetec\u00edvel para as editoras: \u201cHum, nem por isso! Anseiam sobretudo pelo romance. Mais vend\u00e1vel, um meio de transporte com lugares sentados e janelas de correr \u00e0 nossa ilharga. Eu ando talvez pelos 50% dos dois g\u00e9neros liter\u00e1rios: tantos romances quantos os livros de contos. N\u00e3o sei ser de outra maneira, nem quero. Os meus editores sabem disso.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"H\u00e1 um facto a que Jo\u00e3o de Melo n\u00e3o escapa desde que escreveu e publicou o seu terceiro&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":35654,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[85],"tags":[315,306,114,115,11195,8467,32,33],"class_list":{"0":"post-35653","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-entretenimento","8":"tag-cultura","9":"tag-edicao-impressa","10":"tag-entertainment","11":"tag-entretenimento","12":"tag-literacia","13":"tag-livros-da-semana","14":"tag-portugal","15":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35653","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35653"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35653\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35654"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35653"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35653"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35653"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}