{"id":358778,"date":"2026-04-26T23:57:19","date_gmt":"2026-04-26T23:57:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/358778\/"},"modified":"2026-04-26T23:57:19","modified_gmt":"2026-04-26T23:57:19","slug":"o-engenho-novo-da-madeira-e-uma-viagem-ao-passado-e-ao-futuro-da-cana-de-acucar-reportagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/358778\/","title":{"rendered":"O Engenho Novo da Madeira \u00e9 uma viagem ao passado e ao futuro da cana-de-a\u00e7\u00facar | Reportagem"},"content":{"rendered":"<p>O Engenho Novo da Madeira pode ser (relativamente) recente, mas tem uma hist\u00f3ria secular, que anda de m\u00e3os dadas com a hist\u00f3ria da cana-de-a\u00e7\u00facar na ilha e que remonta aos tempos em que William Hinton criou, no Funchal, um engenho que empregava umas 250 pessoas e que em 15 dias mo\u00eda o equivalente \u00e0 produ\u00e7\u00e3o actual de toda a cana-de-a\u00e7\u00facar na regi\u00e3o. Essa hist\u00f3ria \u00e9 contada nas visitas que o produtor do <a href=\"https:\/\/williamhinton.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">rum William Hinton<\/a> promove, sempre por marca\u00e7\u00e3o, ao engenho que nesta altura do ano est\u00e1 ao rubro. Em dois meses, o Engenho Novo, na zona Oeste da Madeira, conta conseguir moer 2000 toneladas de cana-de-a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>O outro engenho, aquele que lhe est\u00e1 na origem, criado por William Hinton em 1845, era avan\u00e7ad\u00edssimo para a \u00e9poca e produzia a\u00e7\u00facar e rum n\u00e3o agr\u00edcola. Funcionou at\u00e9 1976 e viria a ser desmantelado uma d\u00e9cada depois. J\u00e1 no in\u00edcio dos anos 2000, os seus herdeiros foram expropriados, num processo truculento que fez correr muita tinta nos jornais, e os terrenos da f\u00e1brica deram lugar ao Jardim de Santa Luzia \u2014 ainda l\u00e1 est\u00e3o uma enorme chamin\u00e9 e algumas rodas dentadas da velhinha F\u00e1brica do Torre\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dos herdeiros daquele que ficou popularmente conhecido como Engenho do Hinton juntou-se a outros accionistas e fundou h\u00e1 20 anos o Engenho Novo (EN). Quem visita a produ\u00e7\u00e3o nas zonas altas da Calheta \u2014 a uns 650 metros de altitude \u2014 fica por exemplo a saber que a velhinha coluna de destila\u00e7\u00e3o cont\u00ednua \u201cLeonor\u201d veio do Hinton e j\u00e1 se chamou \u201cJo\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>S\u00e3o hoje tr\u00eas as unidades de produ\u00e7\u00e3o de rum agr\u00edcola da Madeira \u2014 produto com Indica\u00e7\u00e3o Geogr\u00e1fica Protegida \u2014 no EN a centen\u00e1ria \u201cLeonor\u201d, ainda em funcionamento; as duas \u201cMarias\u201d, dois alambiques de destila\u00e7\u00e3o descont\u00ednua (os anglo-sax\u00f3nicos chamam a este processo pot still) e de patente portuguesa; e uma nova coluna de destila\u00e7\u00e3o, mais eficiente do ponto de vista energ\u00e9tico. Feita \u00e0 medida, foi projectada para entregar o mesmo perfil de rum que a \u201cLeonor\u201d. A ideia \u00e9 que as duas gigantes \u2014 a nova ainda n\u00e3o foi baptizada e faz parte de um investimento mais abrangente, de cerca de dois milh\u00f5es de euros, feito ao abrigo do apoio do Plano de Recupera\u00e7\u00e3o e Resili\u00eancia (PRR) portugu\u00eas para a Descarboniza\u00e7\u00e3o da Ind\u00fastria \u2014 funcionem de forma complementar.<\/p>\n<p>Foco: rum agr\u00edcola<\/p>\n<p>A visita come\u00e7a antes, ainda na rua, onde nesta altura, e at\u00e9 in\u00edcios de Junho, se acumulam os molhos de cana-de-a\u00e7\u00facar. <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/03\/06\/terroir\/reportagem\/vinho-madeira-conhecemos-hoje-risco-desaparecer-nao-ha-consciencia-2122974\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">Como na vinha ou na cultura da bananeira<\/a>, tamb\u00e9m na cana-de-a\u00e7\u00facar escasseia a m\u00e3o-de-obra na directa raz\u00e3o em que envelhece o produtor. Vai da\u00ed, a mat\u00e9ria-prima chega sobretudo ao fim-de-semana, raz\u00e3o pela qual se reveste de especial import\u00e2ncia a outra parte do recente investimento. \u201cO rum agr\u00edcola \u00e9 feito a partir do sumo fresco da cana-de-a\u00e7\u00facar. Se calhar, 95% dos runs mundiais s\u00e3o feitos a partir do mela\u00e7o, mel de cana, que \u00e9 um subproduto da ind\u00fastria a\u00e7ucareira. Aqui, o nosso foco \u00e9 o rum agr\u00edcola\u201d, come\u00e7ou por explicar \u00e0 Fugas Celso Olim, director-geral do EN.<\/p>\n<p>Uma nova unidade de extrac\u00e7\u00e3o permitiu ao engenho passar a processar dez toneladas de cana-de-a\u00e7\u00facar por hora, o dobro do que transformava antes. \u201cOs outros engenhos trabalham com cana inteira e moendas fixas\u201d, ao passo que no EN a cana \u00e9 desfibrada, sobrando no final uma \u2018palha\u2019 mais miudinha. \u201cAntes de entrar no moinho de marmelos, partimos a cana para reduzir o volume, apertar mais as moendas e aumentar a extrac\u00e7\u00e3o\u201d, explica. De uma tonelada de cana, s\u00e3o normalmente extra\u00eddos \u201c700 litros de caldo\u201d, com o novo sistema a f\u00e1brica conseguir\u00e1 extrair mais cem litros de sumo da mesma cana.<\/p>\n<p>H\u00e1 outra vantagem, tanto aqui como na nova caldeira, a biomassa que aproveita o res\u00edduo s\u00f3lido da transforma\u00e7\u00e3o da cana de a\u00e7\u00facar \u2014 o terceiro pilar da recente reestrutura\u00e7\u00e3o: com m\u00e1quinas novas, os consumos energ\u00e9ticos s\u00e3o mais eficientes.<\/p>\n<p>Os \u201canjos\u201d tamb\u00e9m bebem<\/p>\n<p>\u201cEstou c\u00e1 desde 2007 e h\u00e1 quase 20 anos o fluxo de chegada da nossa mat\u00e9ria-prima era mais constante, a cana ia chegando ao longo da semana e estava sempre fresca, o que melhorava os processos de extrac\u00e7\u00e3o e de fermenta\u00e7\u00e3o. O ideal \u00e9 n\u00f3s termos o produto pronto 48 horas ap\u00f3s o corte.\u201d<\/p>\n<p>Esse produto, percebe-se durante a visita, come\u00e7a por ser um fermentado de sumo de cana-de-a\u00e7\u00facar com teor alco\u00f3lico a rondar os 5%. \u00c9 esse l\u00edquido que, depois, e consoante o seu grau Brix (a sua do\u00e7ura), vai ora para a produ\u00e7\u00e3o de rum, ora para a produ\u00e7\u00e3o de mel de cana. \u201cA\u00ed, \u00e9 basicamente evaporar a \u00e1gua que est\u00e1 no sumo de forma a concentrar e a termos um teor de a\u00e7\u00facar \u00e0 volta dos 78%\u201d, refere o gestor.<\/p>\n<p>O l\u00edquido que vira rum pode passar por diferentes tipos de fermenta\u00e7\u00e3o, mas \u201c99% dessas fermenta\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas a temperatura controlada, entre 28\u00baC e 30\u00baC, e com leveduras seleccionadas, duram 24 horas\u201d. Isso tudo \u00e9-nos explicado antes de chegarmos ao mezanino onde ficam os cascos de envelhecimento. \u00c9 l\u00e1 que ouvimos dizer que a \u201cquota dos anjos\u201d, a evapora\u00e7\u00e3o, leva 15% do rum em tr\u00eas anos! \u00c9 obra.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                                            Direitos Reservados&#13;<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                                            Direitos Reservados&#13;<\/p>\n<p>            &#13;<br \/>\n&#13;<br \/>\n            &#13;<\/p>\n<p>O envelhecimento de runs est\u00e1 no centro da aposta da marca William Hinton, que em 2015, \u00e0 boleia da sua estrat\u00e9gia de internacionaliza\u00e7\u00e3o, p\u00f4s toda a ilha a chamar rum \u00e0 tradicional aguardente de cana-de-a\u00e7\u00facar \u2014 sim, s\u00e3o a mesma bebida e, j\u00e1 agora, na tradicional poncha madeirense \u00e9 utilizado rum agr\u00edcola branco.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 despiciendo o facto de a bebida se chamar agora rum. Com a mudan\u00e7a, a aguardente de cana da Madeira ganhou notoriedade e outro el\u00e3, l\u00e1 fora, mas tamb\u00e9m c\u00e1 dentro, por exemplo com o Madeira Rum Festival, evento anual cuja 8.\u00aa edi\u00e7\u00e3o se realizou h\u00e1 dias, no Funchal.<\/p>\n<p>Tr\u00eas provas<\/p>\n<p>No EN, o visitante n\u00e3o paga a visita, mas sim a prova. E h\u00e1 tr\u00eas op\u00e7\u00f5es. A prova \u201cbronze\u201d (20\u20ac) inclui os tr\u00eas runs da gama de entrada da William Hinton (branco, 9 meses e 3 anos), o 6 anos da marca e um rum fumado, o William Hinton Smoked Rum. A prova \u201cprata\u201d (35\u20ac) inclui o mesmo trio e tr\u00eas runs envelhecidos que terminam o seu est\u00e1gio em cascos previamente usados noutras bebidas alco\u00f3licas.<\/p>\n<p>S\u00e3o os chamados single cask e s\u00e3o \u201cterminados\u201d em cascos de vinho Madeira, Porto, Whisky, Jerez ou Cognac \u2014 isso nem sempre vem nos r\u00f3tulos, dependendo das denomina\u00e7\u00f5es de origem desses outros vinhos e do proteccionismo das mesmas. S\u00e3o edi\u00e7\u00f5es limitadas e, para l\u00e1 das subtilezas que adquirem nesse \u201cfinish\u201d, conta-nos Eug\u00e9nio Rodrigues, gestor comercial e de produto, permitem a um consumidor mais conhecedor perceber de forma individual \u201co contributo de cada tipo de barrica para o envelhecimento do rum\u201d.<\/p>\n<p>\u201cE quando beber o nosso 6 anos, poder\u00e1 ir \u00e0 procura das notas que encontrou no single cask Madeira ou no single cask Whisky, por exemplo, j\u00e1 que esse rum \u00e9 um blend de v\u00e1rios tipos de barricas, feito pelo nosso master blender Emanuel Camacho\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>A prova \u201couro\u201d (50\u20ac) come\u00e7a com esse rum envelhecido, e inclui cinco dos tais single casks e duas edi\u00e7\u00f5es especiais, que tamb\u00e9m as h\u00e1 no portef\u00f3lio da William Hinton, cujo projecto de runs envelhecidos come\u00e7ou em 2009 com 90 barricas e j\u00e1 ultrapassou os 1400 cascos, quase tudo carvalho franc\u00eas. Nas principais garrafeiras nacionais, os runs William Hinton custam entre 20 e 100 euros, mas quem visita o EN tem desconto na compra das bebidas da casa, que tamb\u00e9m faz licores, poncha e um vermute.<\/p>\n<p>A cana-de-a\u00e7\u00facar chegou \u00e0 Madeira no s\u00e9culo XV e a men\u00e7\u00e3o mais antiga \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de aguardente de cana na ilha surgiu num documento de meados do s\u00e9culo XVII. A cultura est\u00e1 no ADN da regi\u00e3o, que chegou a ter dezenas de engenhos, mas tem vindo a perder express\u00e3o. H\u00e1 meia d\u00fazia de anos, a produ\u00e7\u00e3o anual de cana-de-a\u00e7\u00facar chegou a ser de 11.500 toneladas. Em 2025, ficou-se pelas 8500.<\/p>\n<p>Tem vindo sempre a diminuir, apesar de o valor pago ao agricultor ter aumentado \u2014 segundo Celso Olim, esse valor, por tonelada, mais do que duplicou desde 2021, de 280 para 620 euros. Os produtores de rum agr\u00edcola s\u00e3o apenas quatro: para al\u00e9m do EN, <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2022\/06\/10\/economia\/noticia\/aguardente-rum-madeira-transformou-bebida-marginal-negocio-milhoes-2008349\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">os Engenhos do Norte<\/a> \u2014 o principal produtor, no Porto da Cruz, Machico \u2014, a Sociedade dos Engenhos da Calheta e O Reizinho \u2014 empresa familiar de Santa Cruz, que transforma umas 300 toneladas por ano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O Engenho Novo da Madeira pode ser (relativamente) recente, mas tem uma hist\u00f3ria secular, que anda de m\u00e3os&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":358779,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[10],"tags":[10172,562,27,28,22001,17056,15,16,287,14,25,26,1301,21,22,12,13,19,20,290,32,23,24,33,291,17,18,1456,29,30,31],"class_list":["post-358778","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-portugal","tag-acucar","tag-agricultura","tag-breaking-news","tag-breakingnews","tag-calheta","tag-enoturismo","tag-featured-news","tag-featurednews","tag-fugas","tag-headlines","tag-latest-news","tag-latestnews","tag-madeira","tag-main-news","tag-mainnews","tag-news","tag-noticias","tag-noticias-principais","tag-noticiasprincipais","tag-passeios","tag-portugal","tag-principais-noticias","tag-principaisnoticias","tag-pt","tag-relaxar","tag-top-stories","tag-topstories","tag-turismo","tag-ultimas","tag-ultimas-noticias","tag-ultimasnoticias"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116473721382898794","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/358778","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=358778"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/358778\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/358779"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=358778"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=358778"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=358778"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}