{"id":36685,"date":"2025-08-20T00:03:13","date_gmt":"2025-08-20T00:03:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/36685\/"},"modified":"2025-08-20T00:03:13","modified_gmt":"2025-08-20T00:03:13","slug":"ja-nao-reconheco-o-algarve-megafone","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/36685\/","title":{"rendered":"J\u00e1 n\u00e3o reconhe\u00e7o o Algarve | Megafone"},"content":{"rendered":"<p>Quando me apresento, costumo repetir a seguinte frase: \u201cSou algarvio, nascido e criado em Lagos\u201d. Repito-a, n\u00e3o por me orgulhar extraordinariamente por o ser, mas por esperar que, ao repeti-la, ela possa acabar por ressoar-me de igual forma impetuosa como quando algu\u00e9m de outra parte de Portugal se apresenta.<\/p>\n<p>Conhe\u00e7o muito bem este nosso pa\u00eds. Costumava visitar os mais remotos cantos de Portugal com a fam\u00edlia, explorando-os nos seus detalhes, desde as velas de Felgueiras at\u00e9 aos cestos de Nandufe. Percorria as diversas paisagens que constroem Portugal e sobre as quais foi poss\u00edvel florescer a nossa identidade portuguesa. Portugal \u00e9 geografia, mas \u00e9 sobretudo cultura.<\/p>\n<p>Sinto, muitas vezes, n\u00e3o ser t\u00e3o portugu\u00eas quanto os outros. Sinto isto, n\u00e3o por ter ascend\u00eancia germ\u00e2nica, mas justamente por ser algarvio. Por ser de uma regi\u00e3o que foi alvo de uma reconfigura\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica alheia \u00e0 vontade local, e que se teve de habituar \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o de um novo ritmo de vida, adaptado aos que est\u00e3o de passagem. Constru\u00edram-se tantos hot\u00e9is, tantos complexos de apartamentos de luxo, tantas estradas, tantos restaurantes, a uma velocidade tremenda. Despejaram-se as cegonhas, que outrora faziam ninhos nas chamin\u00e9s industriais, quando estas ru\u00edram para darem lugar a um urbanismo ostentoso.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>O cont\u00ednuo investimento no turismo e na constru\u00e7\u00e3o urbana com efeitos especulativos permanece o grande gerador da economia local, mas tamb\u00e9m funciona como \u201cpenso r\u00e1pido\u201d das pol\u00edticas p\u00fablicas falhadas na regi\u00e3o. Continua a existir desigualdade na distribui\u00e7\u00e3o dos lucros, pois parte da receita nem sequer permanece na regi\u00e3o do Algarve. Mant\u00e9m-se a precariedade em v\u00e1rios n\u00edveis sociais, aumentando a discrep\u00e2ncia no desenvolvimento econ\u00f3mico e social, assim como no pr\u00f3prio tipo de turismo que se procura promover.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o reconhe\u00e7o muitas partes do Algarve. Ali\u00e1s, muitas das constru\u00e7\u00f5es, pouco harmoniosas nas suas dimens\u00f5es, repugnam-me. Os cantos algarvios est\u00e3o a ser substitu\u00eddos. Os t\u00edpicos terra\u00e7os delimitados por muros de cal imperfeitos, nos quais duas cadeiras queimadas pelo sol se repousam ao lado de uma figueira &#8211; ou at\u00e9 mesmo os pr\u00e9dios amarelos, que, apesar de serem mais modernos, d\u00e3o continuidade ao sigl\u00e1rio algarvio &#8211; est\u00e3o a ser substitu\u00eddos. Instaurou-se uma confus\u00e3o urban\u00edstica e pass\u00e1mos a ser somente definidos pelo sol.<\/p>\n<p>Enquanto no Norte, cada batida de um chocalho parece refor\u00e7ar continuamente a identidade e a presen\u00e7a da cultura, no Algarve ela surge em retalhos, como sendo remotamente esquecida. A grande maioria da popula\u00e7\u00e3o algarvia habita na zona litoral &#8211; ou seja, perto da costa -, mas a sua tradi\u00e7\u00e3o refugia-se cada vez mais para a Serra, longe dela.<\/p>\n<p>Sempre que volto ao Algarve, vejo que ele foi intensamente reconfigurado e n\u00e3o o reconhe\u00e7o. Como \u00e9 poss\u00edvel? Esta transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 feita a tal velocidade que se enfraqueceram, de forma gradual, os la\u00e7os dos cidad\u00e3os com o territ\u00f3rio, empurrando-os para as margens da cidade. Instalou-se uma cren\u00e7a desesperada. A cren\u00e7a de que, para refor\u00e7ar-se o v\u00ednculo, \u00e9 preciso aceitar o papel nos trabalhos de servi\u00e7o &#8211; nos bastidores &#8211; pois, no teatro da cidade, \u00e9-lhes apenas concedido o esfor\u00e7o, e n\u00e3o o palco.<\/p>\n<p>O Algarve \u00e9 uma regi\u00e3o que procura reencontrar a sua identidade. \u00c9 preciso pensar-se nos que l\u00e1 vivem, nos que o criam e que resistem no meio da mudan\u00e7a. Por muito que o sol deva ser valorizado, \u00e9 tamb\u00e9m necess\u00e1rio pensar-se nos que vivem \u00e0 sombra desta regi\u00e3o. Que seja para eles tamb\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Quando me apresento, costumo repetir a seguinte frase: \u201cSou algarvio, nascido e criado em Lagos\u201d. 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