{"id":367918,"date":"2026-05-04T03:53:19","date_gmt":"2026-05-04T03:53:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/367918\/"},"modified":"2026-05-04T03:53:19","modified_gmt":"2026-05-04T03:53:19","slug":"a-depressao-pos-parto-tambem-se-vive-no-masculino-tenho-medo-de-estar-sozinho-com-o-meu-filho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/367918\/","title":{"rendered":"A depress\u00e3o p\u00f3s-parto tamb\u00e9m se vive no masculino: &#8220;Tenho medo de estar sozinho com o meu filho&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>\t                \u00c9 um problema de sa\u00fade mental associado \u00e0s jovens m\u00e3es, mas tamb\u00e9m afeta os pais. A coragem para assumir que n\u00e3o se est\u00e1 bem naquela que devia ser a fase mais feliz da vida de um homem \u00e9 ainda mais reduzida. S\u00e3o poucos os que o admitem e \u00c2ngelo Valente \u00e9 um deles. Diz que o facto de ser uma segunda experi\u00eancia de parentalidade e j\u00e1 saber \u201cao que ia\u201d pode ter sido precisamente o maior dos gatilhos<\/p>\n<p style=\"text-align:justify; margin-bottom:11px\">Todos os dias, \u00c2ngelo Valente leva alegria a dezenas de idosos, com a Associa\u00e7\u00e3o Extragen\u00e1ria, de que \u00e9 fundador. Quem o conhece, sabe que \u00e9 o dinamismo, a alegria e a boa disposi\u00e7\u00e3o em pessoa. Est\u00e1 envolvido em v\u00e1rios projetos, em v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es, coleciona amigos e pratica desporto com regularidade. \u00c9, por isso, dif\u00edcil de o imaginar triste, angustiado e inseguro. Mas foi assim que come\u00e7ou a sentir-se poucas semanas depois de Bernardo, o filho mais novo, nascer.<\/p>\n<p>A tristeza, que admite n\u00e3o ter raz\u00e3o para existir, trouxe um sentimento de culpa que n\u00e3o consegue sacudir dos ombros. \u201cSer pai dos meus dois filhos \u00e9, sem d\u00favida nenhuma, a maior gra\u00e7a e a maior felicidade da minha vida.\u00a0No entanto, essa felicidade, acho que n\u00e3o \u00e9 vivida em pleno. \u00a0Achamos que estamos preparados e eu acho que n\u00e3o estamos preparados para quase nada.\u00a0Para o segundo est\u00e1vamos mais preparados. Mas as emo\u00e7\u00f5es foram muito mais intensas\u201d, admite, em conversa com a CNN Portugal.<\/p>\n<p>O facto de j\u00e1 ter outro filho pode at\u00e9 ter sido, ali\u00e1s, um gatilho para o que agora se est\u00e1 a passar. Diz que, como \u201cj\u00e1 sabia ao que ia\u201d, come\u00e7ou a sentir as implica\u00e7\u00f5es do nascimento de um filho por antecipa\u00e7\u00e3o. \u00c0 medida que a data prevista para o parto se aproximava, a ansiedade come\u00e7ou a tomar conta dele e a ideia de ter em casa um rec\u00e9m-nascido totalmente dependente dos pais come\u00e7ou a assust\u00e1-lo. Diz que, sem dar conta, come\u00e7ou a aperceber-se do que teria de abdicar ap\u00f3s o nascimento de Bernardo e do peso que isso teria na sua vida pessoal e profissional.<\/p>\n<p>\u201cAcabei por extrapolar um bocadinho estas emo\u00e7\u00f5es. Aquilo que sinto, essencialmente, \u00e9 que a nossa vida \u00e9 muito afetada com filhos. E esta mudan\u00e7a dr\u00e1stica \u00e9 uma mudan\u00e7a social, mas tamb\u00e9m \u00e9 uma mudan\u00e7a f\u00edsica. Sou uma pessoa que adora planear, controlar, esquematizar tudo aquilo que se passa na minha vida. E a regra em ter filhos \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 controle quase nenhum. \u00c0s vezes isso deixa-me angustiado. E \u00e9 uma ang\u00fastia adicional n\u00e3o me sentir t\u00e3o feliz como acho que deveria estar\u201d, confessa.<\/p>\n<p>Um c\u00edrculo vicioso <\/p>\n<p>Depois vem a culpa por se sentir infeliz e a ang\u00fastia por se sentir culpado. Os sentimentos entram numa esp\u00e9cie de c\u00edrculo vicioso de que \u00c2ngelo n\u00e3o se consegue libertar. Reconhece que a \u201cromantiza\u00e7\u00e3o\u201d que a sociedade faz do nascimento de um filho tamb\u00e9m n\u00e3o o ajuda. \u201c\u00c9 maravilhoso. D\u00e1 sentido \u00e0 vida. D\u00e1 um prop\u00f3sito a qualquer pessoa. Mas \u00e9 uma fase que tem muitas dificuldades e temos de saber ultrapass\u00e1-las\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>\u201cNa minha cabe\u00e7a, penso que, nos pr\u00f3ximos dois anos, vou estar preso numa pris\u00e3o de alta seguran\u00e7a\u201d, admite.<\/p>\n<p>Uma \u201cpris\u00e3o\u201d que ele pr\u00f3prio escolheu. Tem consci\u00eancia disso. Foi ele quem decidiu, em conjunto com a mulher, S\u00f3nia, ter mais um filho. Mas os pensamentos intrusivos n\u00e3o pedem licen\u00e7a para entrar. Sente que n\u00e3o consegue consolar o beb\u00e9 quando ele chora e invade-o um sentimento de inutilidade e de incapacidade por n\u00e3o ser capaz de ser uma alternativa \u00e0 m\u00e3e, que amamenta em exclusivo. \u201cO nascimento do Bernardo e a apresenta\u00e7\u00e3o do Bernardo ao Francisco foi talvez o dia mais feliz da minha vida. Mas os dias que se seguiram foram de uma profunda ang\u00fastia. O Bernardo tem agora dois meses e tenho medo de estar sozinho com ele. Acho que n\u00e3o consigo controlar. Afeta-me muito o chorar. Ele est\u00e1 a crescer imenso e a alimentar-se muito bem. Mas tem muitas c\u00f3licas e o choro dele e o facto de n\u00e3o conseguir ser alternativa \u00e0 m\u00e3e aumenta muito a minha ang\u00fastia. N\u00e3o consigo ser alternativa \u00e0 S\u00f3nia porque ela amamenta, mas sobretudo porque me sinto assim\u201d, diz \u00c2ngelo Valente.<\/p>\n<p>\u201cAndo menos feliz e n\u00e3o tenho nenhuma raz\u00e3o concreta para estar assim. E esta \u00e9 talvez a minha grande ang\u00fastia\u201d, resume.<\/p>\n<p>A hora da &#8220;bruxa&#8221; <\/p>\n<p>Quando para para pensar, reconhece que \u201co Universo foi muito bom\u201d com ele. N\u00e3o se pode queixar da sa\u00fade f\u00edsica, os filhos s\u00e3o os dois saud\u00e1veis: \u201cEu nasci com uma defici\u00eancia e tinha muito medo de que isso acontecesse a alguns dos meus filhos. E o universo deu-me dois filhos maravilhosos. Muita sa\u00fade. E, mesmo assim, ando deprimido\u201d.<\/p>\n<p>Entrega-se ao trabalho a \u201c200 por cento\u201d, mas at\u00e9 essa entrega sente que est\u00e1 a ser afetada. \u201cHoje estive numa confer\u00eancia em Pombal. E, de certa forma, hoje&#8230; Aquela vontade de ir a um palco e falar com as pessoas mais velhas&#8230; Ela est\u00e1 l\u00e1. E aconteceu. Mas sim, \u00e0s vezes, falta-me a energia que era habitual\u201d, conta. \u201cE algumas pessoas \u00e0 minha volta j\u00e1 sentiram isso\u201d.<\/p>\n<p>\u00c2ngelo repete v\u00e1rias vezes, ao longo da conversa que \u201cadora ser pai\u201d. E, embora sejam 15:00 e a linguagem corporal indique ansiedade e inseguran\u00e7a, garante que \u201cdurante o dia \u00e9 maravilhoso\u201d. Mas, com dois meses, Bernardo ainda tenta lutar contra as c\u00f3licas e estas agravam com o cair da noite. \u201cQuando o p\u00f4r-do-sol come\u00e7a&#8230; Chamam-lhe a hora da bruxa. Tamb\u00e9m acontece nas pessoas mais velhas com dem\u00eancia. H\u00e1 v\u00e1rios estudos que refletem sobre isso. Com o p\u00f4r-do-sol, h\u00e1 muitas manifesta\u00e7\u00f5es nas crian\u00e7as e nas pessoas mais velhas de alguma instabilidade. A \u2018hora da bruxa\u2019 \u00e9 mais ou menos das sete at\u00e9 \u00e0s dez da noite. \u00c0s cinco ou seis da tarde, eu j\u00e1 come\u00e7o a ficar ansioso, porque sei que vou para casa e ele vai chorar e eu vou sentir esta impot\u00eancia. Falo mesmo do n\u00e3o querer, \u00e0s vezes, voltar para casa\u201d, conta.<\/p>\n<p>Sente tamb\u00e9m a falta dos momentos a s\u00f3s com S\u00f3nia. Diz que h\u00e1 dois meses que n\u00e3o sabe o que \u00e9 ter a mulher \u201cs\u00f3 para\u201d ele. \u201cFalo disto abertamente. \u00c9 preciso falarmos disto para desmistificar essa ideia romantizada da paternidade e para acabar com os tabus em torno da sa\u00fade mental. Estou diariamente com idosos de Norte a Sul do pa\u00eds. Contei isto a um grupo de idosos de Vila do Conde e eles disseram: \u2018O que tens, \u00c2ngelo, \u00e9 ci\u00fames dos teus filhos. Os teus filhos roubaram a tua mulher. E tu est\u00e1s triste por causa disso\u2019\u201d, revela.<\/p>\n<p>Acha o que sente \u201cmuito absurdo\u201d, mas \u00e9 real. \u201cTamb\u00e9m \u00e9 uma coisa que acontece. Com dois filhos, efetivamente, falta muito tempo para n\u00f3s sermos casal\u201d, admite.<\/p>\n<p>Impacto na fam\u00edlia <\/p>\n<p>A\u00a0depress\u00e3o de \u00c2ngelo afeta toda a fam\u00edlia. H\u00e1 \u201cmenos paci\u00eancia\u201d para o Francisco, menos capacidade de apoiar S\u00f3nia e isso reflete-se na din\u00e2mica e nas rotinas familiares. \u201cGostava de ter mais apoio dele, para poder dar tamb\u00e9m mais aten\u00e7\u00e3o ao Francisco. Nos primeiros dias, ainda tent\u00e1mos que fosse eu a dar banho ao Francisco para ter tamb\u00e9m esses momentos a s\u00f3s com ele. Mas o \u00c2ngelo tinha muita dificuldade em acalmar o Bernardo e em lidar com o choro dele\u201d, confessa S\u00f3nia Prior.<\/p>\n<p>\u201cE claro que eu, enquanto m\u00e3e e enquanto mulher, tamb\u00e9m gostava de ser cuidada e precisava desse apoio. Mas compreendo que \u00e9 uma coisa que ele n\u00e3o consegue controlar\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>\u00c2ngelo sabe que, \u00e0 medida que vai crescendo, Bernardo vai conquistar independ\u00eancia e isso vai ajudar a restabelecer a ordem na fam\u00edlia, no seu cora\u00e7\u00e3o e na sua alma. \u201cQuero muito que o tempo passe r\u00e1pido. Ent\u00e3o, vivo nesta ansiedade do tempo passar. Sei que os pr\u00f3ximos dois anos v\u00e3o ser terr\u00edveis. Esta falta de viver o aqui e o agora, aumenta tamb\u00e9m o meu sentimento de ang\u00fastia, de tristeza\u2026\u201d, tenta justificar.<\/p>\n<blockquote class=\"instagram-media\" data-instgrm-captioned=\"\" data-instgrm-permalink=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/DKUZqhfsR7U\/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading\" data-instgrm-version=\"14\" style=\" background:#FFF; border:0; border-radius:3px; box-shadow:0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width:540px; min-width:326px; padding:0; width:99.375%; width:-webkit-calc(100% - 2px); width:calc(100% - 2px);\">\n<\/blockquote>\n<p>E, na era das redes sociais, vem a inevit\u00e1vel compara\u00e7\u00e3o. Ver as publica\u00e7\u00f5es de pais e filhos num clima de aparente felicidade agudiza-lhe a tristeza. \u201cH\u00e1 uns dias, tirei uma foto maravilhosa da S\u00f3nia com o Bernardo. Quando a ia publicar, com texto todo bonito, percebi que n\u00e3o estava a ser sincero. Defendo a verdade para tudo e eu n\u00e3o estava a ser verdadeiro. Ia publicar aquela foto e ela ia transparecer que estava tudo bem. E n\u00e3o estava\u201d, conta.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que decidiu publicar a fotografia, mas com a legenda a revelar o que o atormentava. \u201cNunca tinha dito aquilo que sentia. E foi a\u00ed que muitas pessoas me mandaram mensagens e se identificaram com aquilo que estava a sentir. E esta normaliza\u00e7\u00e3o do imperfeito, de que as coisas n\u00e3o s\u00e3o sempre espetaculares, \u00e9 muito importante\u201d, defende.<\/p>\n<p>Depress\u00e3o p\u00f3s-parto ou burnout parental? <\/p>\n<p style=\"text-align:justify; margin-bottom:11px\">A ideia pr\u00e9-concebida de que a doen\u00e7a s\u00f3 afeta as mulheres, a vergonha em admitir que n\u00e3o se est\u00e1 bem e o estigma social impedem muitos homens de pedir ajuda. Afinal, a sociedade encara o homem como aquele que n\u00e3o chora. E se se est\u00e1 a viver, supostamente, um dos momentos mais felizes da vida, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00f5es para se estar triste. Mas o homem tamb\u00e9m chora, tamb\u00e9m sofre a priva\u00e7\u00e3o do sono, tamb\u00e9m tem sentimentos de impot\u00eancia. Estima-se que a depress\u00e3o p\u00f3s-parto afete um em cada dez pais.<\/p>\n<p>\u201cA depress\u00e3o p\u00f3s-parto paterna pode se desenvolver at\u00e9 seis meses ap\u00f3s o nascimento do beb\u00e9. \u00c9 importante termos isto em conta, porque muitas vezes a sociedade e at\u00e9 mesmo a fam\u00edlia vai normalizando, vai at\u00e9 julgando um bocadinho alguns sinais dos pais, como falta de interesse pelo beb\u00e9 ou pela vida familiar\u201d, alerta a psic\u00f3loga Isa Silvestre.<\/p>\n<p>De acordo com a psic\u00f3loga, h\u00e1 sintomas espec\u00edficos associadas \u00e0 depress\u00e3o p\u00f3s-parto no masculino. \u201cO que \u00e9 que os pais podem apresentar? Irritabilidade, comportamentos de risco para com eles, como por exemplo a falta de autocuidados, o consumo excessivo de \u00e1lcool ou de outras subst\u00e2ncias, at\u00e9 mesmo refugiarem-se em videojogos, por exemplo, em comportamentos de risco impulsivos, epis\u00f3dios de raiva, terem o sentimento de que est\u00e3o a falhar e que tamb\u00e9m n\u00e3o se est\u00e3o a adaptar bem no papel de pai e sentirem que n\u00e3o h\u00e1 aqui uma conex\u00e3o emocional\u201d, enumera.<\/p>\n<p>A psiquiatra Maria Moreno admite o conceito de depress\u00e3o p\u00f3s-parto paterna, mas prefere chamar-lhe outra coisa: \u201cNa minha cl\u00ednica, no meu dia-a-dia, na consulta, eu nem sempre lhe chamo depress\u00e3o p\u00f3s-parto. Porqu\u00ea? Porque, para mim, \u00e9 muito importante separar o que \u00e9 a depress\u00e3o p\u00f3s-parto na m\u00e3e da depress\u00e3o p\u00f3s-parto no pai. A depress\u00e3o p\u00f3s-parto na m\u00e3e \u00e9 muit\u00edssimo biol\u00f3gica\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNo pai, n\u00f3s sabemos que a depress\u00e3o p\u00f3s-parto est\u00e1 do outro lado da barreira. Ela \u00e9 muit\u00edssimo ambiental. Est\u00e1 muito ligada aos fatores externos. Mais do que uma depress\u00e3o habitualmente teria. Portanto, n\u00f3s temos duas doen\u00e7as em cada lado da barreira e, na verdade, faz-me sentido distingui-las. A depress\u00e3o p\u00f3s-parto do homem \u00e9 uma depress\u00e3o muito mais parecida com um burnout. Com um <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/burnout-parental\/exaustao\/achava-que-ia-comecar-a-bater-com-a-cabeca-nas-paredes-quando-ser-pai-e-mae-leva-a-exaustao-extrema\/20250322\/67dd7120d34e3f0bae9bedc9\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">burnout parental<\/a>\u201d, acrescenta a psiquiatra.<\/p>\n<p>O &#8220;cambalacho de hormonas&#8221; <\/p>\n<p style=\"text-align:justify; margin-bottom:11px\">A depress\u00e3o p\u00f3s-parto n\u00e3o \u00e9 um problema exclusivamente feminino, mas a realidade \u00e9 que atinge muito mais mulheres do que homens. Em Portugal, estima-se que atinja uma em cada cinco m\u00e3es. As altera\u00e7\u00f5es hormonais provocadas pela gravidez e pelo parto s\u00e3o um fator relevante. \u201cN\u00f3s estamos nove meses com um cambalacho de hormonas a fazer um beb\u00e9. Se pensarmos bem, fazer um beb\u00e9 \u00e9 uma coisa extraordin\u00e1ria. As nossas hormonas sobem, sobem, sobem at\u00e9 n\u00edveis nunca antes vistos e, de repente, com o parto, em 48 horas essas hormonas voltam a cair a pique\u201d, justifica a psiquiatra Maria Moreno.<\/p>\n<p>\u201cAs principais causas que fazem com que as mulheres estejam mais vulner\u00e1veis podem come\u00e7ar logo no processo de gravidez. Como \u00e9 que foi o processo de gravidez, se houve ou n\u00e3o apoio familiar, como \u00e9 que decorreu at\u00e9 em termos m\u00e9dicos e em termos psicol\u00f3gicos a adapta\u00e7\u00e3o da mulher ao novo estado, se existiram complica\u00e7\u00f5es que depois tamb\u00e9m podem prolongar-se para a fase do parto. Muitas vezes, estes fatores de risco associados a partos complicados, um eventual internamento do beb\u00e9 ou at\u00e9 situa\u00e7\u00f5es de sa\u00fade da m\u00e3e podem espoletar uma depress\u00e3o p\u00f3s-parto\u201d, acrescenta a psic\u00f3loga Isa Silvestre.<\/p>\n<p>E depois v\u00eam outras dificuldades pr\u00f3prias da maternidade &#8211; o cansa\u00e7o, a priva\u00e7\u00e3o de sono, as dores de um p\u00f3s-parto, os desafios da amamenta\u00e7\u00e3o, por exemplo \u2013 que deixam as mulheres mais vulner\u00e1veis. Quase todas experimentam uma tristeza inicial, a que os m\u00e9dicos chamam \u2018baby blues\u2019.<\/p>\n<p>\u201cA diferen\u00e7a entre o baby blues, que dura entre uma semana e 15 dias, e a depress\u00e3o p\u00f3s-parto \u00e9 quando essa tristeza se prolonga para al\u00e9m das quatro semanas. Estes sintomas de tristeza persistente, irritabilidade, epis\u00f3dios de raiva, impulsividade, sentimentos de culpa, o sentimento que n\u00e3o somos m\u00e3es suficientemente boas, a falta de liga\u00e7\u00e3o ao beb\u00ea ou, por outro lado, uma atitude muito perfecionista e muito obsessiva no cuidado com o beb\u00ea em que a mulher exclui outros intervenientes, outros pap\u00e9is fundamentais para o desenvolvimento emocional e at\u00e9 para o bem-estar e para o equil\u00edbrio da rela\u00e7\u00e3o familiar. \u00c9 muito importante estarmos atentos a estes sinais, compreendendo e ajudando a mulher porque o bem-estar emocional, quer da m\u00e3e quer do pai, e o equil\u00edbrio na rela\u00e7\u00e3o familiar, ser\u00e1 essencial para o desenvolvimento emocional e do beb\u00e9 e para o seu crescimento\u201d, refor\u00e7a a psic\u00f3loga<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de N\u00faria <\/p>\n<p>N\u00faria Viana tinha 36 anos quando engravidou da terceira filha. J\u00e1 tinha duas crian\u00e7as de seis e quatro anos. Foi uma gravidez desejada e os puerp\u00e9rios dos dois filhos mais velhos n\u00e3o tinha sido dif\u00edcil.<\/p>\n<p>\u00c9 empres\u00e1ria e garante que sempre foi uma mulher muito din\u00e2mica, muito ativa e muito alegre. J\u00e1 tinha tido os seus \u201ctemas\u201d no que diz respeito \u00e0 sa\u00fade mental, mas nunca se tinha sentido deprimida. D\u00e1 a cara para desmistificar que a doen\u00e7a s\u00f3 afeta m\u00e3es de primeira viagem, para refor\u00e7ar a import\u00e2ncia de pedir ajuda e a import\u00e2ncia da aten\u00e7\u00e3o que uma equipa m\u00e9dica tem na vida da m\u00e3e de um rec\u00e9m-nascido. Se n\u00e3o fosse a enfermeira do centro de sa\u00fade, talvez se tivesse deixado cair at\u00e9 a um ponto em que levantar-se podia ter sido mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>\u201cNa verdade, n\u00e3o me apercebi muito bem [que estava doente]. Aperceberam-se por mim. Felizmente, era acompanhada no centro de sa\u00fade por uma equipa espetacular composta por um m\u00e9dico de fam\u00edlia e uma enfermeira, que me acompanharam nos tr\u00eas p\u00f3s-partos. A enfermeira j\u00e1 me conhecia um pouco e come\u00e7ou a perceber que eu n\u00e3o estava bem, por compara\u00e7\u00e3o com as outras duas gravidezes que tinha tido e aos acompanhamentos do p\u00f3s-parto que tinha feito\u201d, come\u00e7a por contar.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia do centro de sa\u00fade <\/p>\n<p>Diz que se sentia \u201ca sobreviver em muita coisa\u201d, mas n\u00e3o valorizou. Afinal cuidar de tr\u00eas crian\u00e7as pequenas, de uma casa e das empresas implicava um trabalho \u00e1rduo. \u201cAchei que era normal e acabei por n\u00e3o me aperceber que estava nessa situa\u00e7\u00e3o. Foi a enfermeira que se apercebeu e falou com o m\u00e9dico de fam\u00edlia\u201d, revela.<\/p>\n<p>Juntos, enfermeira e m\u00e9dico, falaram com N\u00faria sobre a possibilidade de estar a atravessar uma depress\u00e3o p\u00f3s-parto. Inicialmente, recusou a ideia: \u201cachava que isso era imposs\u00edvel de me acontecer\u201d. \u201cSempre fui uma pessoa muito din\u00e2mica, muito ativa, bem-disposta, alegre\u2026 a vis\u00e3o que tinha era que isso poderia acontecer a pessoas que tinham quadros psicol\u00f3gicos, eventualmente, psicol\u00f3gicos um bocadinho mais dif\u00edceis, ou temas anteriores, etc. Nunca achei que poderia desenvolver uma depress\u00e3o, muito menos uma depress\u00e3o p\u00f3s-parto. Quando eles me disseram, a minha resposta foi nega\u00e7\u00e3o\u201d, assume.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico prescreveu-lhe a medica\u00e7\u00e3o indicada, mas N\u00faria recusou-se a tom\u00e1-la. Acabou por reconhecer que n\u00e3o estava bem, mas n\u00e3o se sentia capaz de enfrentar sess\u00f5es de psicoterapia. \u201cEstando j\u00e1 debilitada emocionalmente, senti que n\u00e3o conseguia enfrentar uma psicoterapeuta. Sabia que precisava de me mover em dire\u00e7\u00e3o a alguma coisa e acabei por procurar uma coach, que me ajudou nesse sentido. Optei por uma mulher, porque tamb\u00e9m j\u00e1 tinha sido m\u00e3e e acabava por haver uma afinidade maior. E, sendo uma mulher mais velha, acabou por me ajudar em muita coisa\u201d, revela.<\/p>\n<p>\u201cFoi quase um trabalho de psicoterapia. Ajudou-me a encontrar que me levassem a sair daquele estado e a fortalecer-me\u201d, conta. Quando se sentiu capaz de enfrentar um processo psicoterap\u00eautico, mergulhou a fundo e procurou uma psic\u00f3loga. Ainda hoje, j\u00e1 recuperada, tem sess\u00f5es de psicoterapia.<\/p>\n<p>Refor\u00e7a diversas vezes que \u201cisto foi o que resultou comigo, mas n\u00e3o significa que resulte com as outras m\u00e3es\u201d. \u201cA medica\u00e7\u00e3o e a psicoterapia \u00e9 o que resulta com a esmagadora maioria das mulheres e eu n\u00e3o as desvalorizo. Antes pelo contr\u00e1rio. Se sentirem que \u00e9 isso que vos vai ajudar, v\u00e3o em frente. S\u00f3 quero, com o meu exemplo, dizer que h\u00e1 alternativas, se sentirem que isso n\u00e3o vai ou n\u00e3o est\u00e1 a resultar\u201d, sublinha.<\/p>\n<p>Juntar as pe\u00e7as e dar nova forma \u00e0 vida <\/p>\n<p>\u00c9 diante de uma obra de Bordalo II, no Parque das Na\u00e7\u00f5es, em Lisboa, que fala com a CNN Portugal e com a TVI. O lince feito de pe\u00e7as de lixo \u00e9 uma verdadeira met\u00e1fora da hist\u00f3ria de N\u00faria. Seis anos depois, sente que foi capaz de juntar as pe\u00e7as e dar uma nova forma \u00e0 vida: \u201ctudo aquilo que fui aprendendo ao longo desse processo ajuda-me hoje a lidar com tudo isso\u201d. \u201cNa altura foi quando comecei a praticar desporto com maior regularidade e, hoje, \u00e9 uma pr\u00e1tica di\u00e1ria de que n\u00e3o abdico. \u00c9 a minha terapia individual\u201d, exemplifica.<\/p>\n<p>Revive o passado e deixa conselhos \u00e0s mulheres que foram m\u00e3es recentemente ou que est\u00e3o prestes a s\u00ea-lo: \u201csobretudo reunirem-se de pessoas que gostam delas e de quem elas gostam. Pessoas que sejam um suporte. Seja fam\u00edlia, amigos\u2026 isso \u00e9 fundamental. N\u00e3o desvalorizem os sinais e pe\u00e7am ajuda. N\u00e3o tenham vergonha de pedir ajuda, n\u00e3o tenham vergonha de admitir que est\u00e3o a passar por um mau momento ou por uma fase mais dif\u00edcil\u201d.<\/p>\n<p>\u00c2ngelo, um ano depois <\/p>\n<p>A conversa com \u00c2ngelo Valente aconteceu quando Bernardo tinha dois meses. Por conting\u00eancias editoriais, s\u00f3 agora \u00e9 publicada. Bernardo acabou de completar um ano. Poucos dias antes do pai fazer 43. Dez meses depois, n\u00e3o quisemos publicar a reportagem sem falar com ele.<\/p>\n<p>Em duas palavras, resume como se sente agora: \u201cestou fino!\u201d. Pediu ajuda, seguiu todos os conselhos dos profissionais que o acompanharam e agora olha para o filho e para os desafios da paternidade com seguran\u00e7a. Os medos e as inseguran\u00e7as que sente j\u00e1 s\u00e3o apenas os t\u00edpicos de um jovem pai que est\u00e1 a criar dois filhos num mundo cheio de instabilidade.<\/p>\n<p>Faz quest\u00e3o de refor\u00e7ar: \u201cpe\u00e7am ajuda! N\u00e3o tenham vergonha de admitirem que est\u00e3o mal\u201d. Afinal, a sa\u00fade mental n\u00e3o \u00e9 um problema s\u00f3 no feminino e \u201ca depress\u00e3o p\u00f3s-parto n\u00e3o afeta s\u00f3 as mulheres\u201d.<\/p>\n<p>\t            <script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u00c9 um problema de sa\u00fade mental associado \u00e0s jovens m\u00e3es, mas tamb\u00e9m afeta os pais. A coragem para&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":367919,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[10],"tags":[609,836,611,27,28,62287,607,608,333,832,604,1531,62286,135,610,476,15,16,301,830,14,2622,603,25,26,570,21,22,831,833,2558,2623,62,834,12,13,19,20,835,602,9077,1038,52,32,23,24,33,17,18,29,30,31],"class_list":["post-367918","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-portugal","tag-alerta","tag-analise","tag-ao-minuto","tag-breaking-news","tag-breakingnews","tag-burnout-parental","tag-cnn","tag-cnn-portugal","tag-comentadores","tag-costa","tag-crime","tag-depressao","tag-depressao-pos-parto","tag-desporto","tag-direto","tag-economia","tag-featured-news","tag-featurednews","tag-governo","tag-guerra","tag-headlines","tag-homens","tag-justica","tag-latest-news","tag-latestnews","tag-live","tag-main-news","tag-mainnews","tag-mais-vistas","tag-marcelo","tag-maternidade","tag-mulheres","tag-mundo","tag-negocios","tag-news","tag-noticias","tag-noticias-principais","tag-noticiasprincipais","tag-opiniao","tag-pais","tag-parentalidade","tag-paternidade","tag-politica","tag-portugal","tag-principais-noticias","tag-principaisnoticias","tag-pt","tag-top-stories","tag-topstories","tag-ultimas","tag-ultimas-noticias","tag-ultimasnoticias"],"share_on_mastodon":{"url":"","error":"Validation failed: Text character limit of 500 exceeded"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/367918","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=367918"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/367918\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/367919"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=367918"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=367918"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=367918"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}