{"id":36832,"date":"2025-08-20T03:27:35","date_gmt":"2025-08-20T03:27:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/36832\/"},"modified":"2025-08-20T03:27:35","modified_gmt":"2025-08-20T03:27:35","slug":"risco-de-malaria-na-amazonia-e-maior-em-regioes-parcialmente-degradadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/36832\/","title":{"rendered":"Risco de mal\u00e1ria na Amaz\u00f4nia \u00e9 maior em regi\u00f5es parcialmente degradadas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Luciana Constantino | Ag\u00eancia FAPESP<\/strong> \u2013 Em meio \u00e0s discuss\u00f5es preparat\u00f3rias para a COP30, que envolvem inclusive temas ligados \u00e0 sa\u00fade, uma pesquisa rec\u00e9m-publicada contribui para o entendimento da rela\u00e7\u00e3o entre a destrui\u00e7\u00e3o da floresta e o avan\u00e7o da mal\u00e1ria na Amaz\u00f4nia Legal. O estudo mostra que a cobertura florestal intermedi\u00e1ria, com 50% de desmatamento, aumenta os casos da doen\u00e7a em humanos e as taxas de infec\u00e7\u00e3o por mosquito Anopheles, com abund\u00e2ncia do subg\u00eanero Nyssorhynchus.<\/p>\n<p>De acordo com o trabalho, a associa\u00e7\u00e3o persistente entre desmate e doen\u00e7a refor\u00e7a a necessidade de interven\u00e7\u00f5es direcionadas, integrando o controle de vetores com a conserva\u00e7\u00e3o florestal. A mal\u00e1ria \u00e9 transmitida por meio da picada da f\u00eamea do mosquito do g\u00eanero Anopheles infectada por uma ou mais esp\u00e9cies de protozo\u00e1rio Plasmodium. O mosquito anofelino \u00e9 conhecido como carapan\u00e3, muri\u00e7oca, sovela e bicuda.<\/p>\n<p>Os pesquisadores realizaram coletas de campo em 40 pontos de Cruzeiro do Sul, localizado em uma fronteira de desmatamento no Acre. Juntamente com outras cidades no Vale do Rio Juru\u00e1, o munic\u00edpio \u00e9 considerado um hotspot persistente de incid\u00eancia de mal\u00e1ria \u2013 as interven\u00e7\u00f5es na \u00faltima d\u00e9cada n\u00e3o foram capazes de interromper os ciclos end\u00eamicos.<\/p>\n<p>As \u00e1reas selecionadas representam um gradiente de cobertura florestal e n\u00edveis de desmatamento. Os achados foram <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0001706X25002281\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>divulgados<\/strong><\/a> na revista cient\u00edfica Acta Tropica.<\/p>\n<p>\u201cNa pesquisa detectamos que o maior risco de transmiss\u00e3o de mal\u00e1ria ocorre quando h\u00e1 uma propor\u00e7\u00e3o de 50% de mata nativa pr\u00f3xima a locais de moradia, assentamentos ou n\u00facleos populacionais. O risco tamb\u00e9m \u00e9 alto quando a vegeta\u00e7\u00e3o \u00e9 fragmentada, permitindo maior contato de vetores que est\u00e3o na floresta com humanos. Por outro lado, ele diminui se o desmatamento \u00e9 completo, porque o ambiente fica in\u00f3spito para o vetor, ou quando a floresta \u00e9 restaurada para n\u00edveis acima de 70%, mostrando a import\u00e2ncia da conserva\u00e7\u00e3o e da restaura\u00e7\u00e3o\u201d, diz o bi\u00f3logo <a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/59089\/gabriel-zorello-laporta\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Gabriel Laporta<\/strong><\/a>, autor correspondente do artigo.<\/p>\n<p>Para avaliar como a estrutura da paisagem influencia a transmiss\u00e3o, foram usados dados de mosquitos vetores \u2013 abund\u00e2ncia e taxas de infec\u00e7\u00e3o \u2013 e casos de mal\u00e1ria em humanos. \u201cAchamos extremamente importante coletar n\u00e3o somente os vetores, mas tamb\u00e9m as amostras de sangue dos moradores. Testamos a infectividade no grupo dos vetores e dos hospedeiros. Esse padr\u00e3o de risco de transmiss\u00e3o no meio do gradiente de cobertura florestal apareceu nos dois conjuntos\u201d, explica o bi\u00f3logo \u00e0 <strong>Ag\u00eancia FAPESP<\/strong>.<\/p>\n<p>Professor do Centro Universit\u00e1rio Faculdade de Medicina do ABC (<a href=\"https:\/\/fmabc.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>FMABC<\/strong><\/a>), Laporta pesquisa mal\u00e1ria h\u00e1 mais de dez anos. A FAPESP apoiou o estudo por meio de aux\u00edlio Jovem Pesquisador (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/109305\/coorte-de-paisagens-zoonoticas-sob-efeito-de-desmatamento-e-mudancas-no-uso-da-terra-na-amazonia\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>21\/06669-6<\/strong><\/a>), de aux\u00edlio no \u00e2mbito da chamada Amaz\u00f4nia+10 (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/111405\/eco-epidemiologia-de-doencas-infecciosas-em-paisagens-da-regiao-amazonica-sob-efeito-de-desmatamento\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>22\/10392-2<\/strong><\/a>) e de uma bolsa de doutorado (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/213811\/estimativas-de-perdas-florestais-com-sensoriamento-remoto-e-drone-multiespectral-em-paisagens-zoonot\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>23\/08053-8<\/strong><\/a>).<\/p>\n<p>No projeto apoiado, os cientistas buscam compreender melhor os ciclos persistentes de transmiss\u00e3o de mal\u00e1ria, de doen\u00e7a de Chagas e de leishmaniose cut\u00e2nea frente a um cen\u00e1rio de desmatamento. Para isso, trabalham com integra\u00e7\u00e3o de modelagem de geoprocessamento e tecnologias de sensoriamento remoto aliadas a informa\u00e7\u00f5es de incid\u00eancia de parasitas humanos e n\u00edveis de infec\u00e7\u00e3o de mosquitos por Plasmodium vivax e P. falciparum, Trypanosoma spp. e Leishmania spp.. No total, ser\u00e3o cinco anos de acompanhamento, com previs\u00e3o de t\u00e9rmino em 2027.<\/p>\n<p style=\"text-align:center\"><img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/resumo-grafico.jpg\" style=\"height:386px; width:1000px\"\/><br \/>&#13;<br \/>\nRisco de transmiss\u00e3o diminui se o desmatamento \u00e9 completo, porque o ambiente fica in\u00f3spito para o vetor, ou quando a floresta \u00e9 restaurada para n\u00edveis acima de 70% (gr\u00e1fico: Gabriel Laporta et al.)<\/p>\n<p><strong>Passo a passo da ci\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Em 2021, um grupo de cientistas, incluindo Laporta, publicou artigo na Scientific Reports com achados de um estudo longitudinal espa\u00e7o-temporal baseado em dados coletados em assentamentos rurais na Amaz\u00f4nia j\u00e1 mostrando maior risco de mal\u00e1ria associado a desmatamento.<\/p>\n<p>Foram detectados dois picos para a ocorr\u00eancia de vetores: o primeiro por Plasmodium vivax, Nyssorhynchus darlingi e vetores locais, registrado entre 10 e 12 anos ap\u00f3s o in\u00edcio dos assentamentos. No segundo, entre 36 e 38 anos depois, os vetores locais n\u00e3o apareceram, com preval\u00eancia dos outros dois tipos (leia o artigo aqui: <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41598-021-85890-3#Abs 1\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>www.nature.com\/articles\/s41598-021-85890-3<\/strong><\/a>).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, em outra pesquisa ficou demonstrado que mudan\u00e7as nas paisagens da Amaz\u00f4nia diminu\u00edram a diversidade geral de mosquitos, permitindo que Nyssorhynchus darlingi se tornasse dominante (saiba mais aqui: <a href=\"https:\/\/journals.plos.org\/plosone\/article?id=10.1371\/journal.pone.0245087#sec008\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>https:\/\/journals.plos.org\/plosone\/article?id=10.1371\/journal.pone.0245087<\/strong><\/a>).<\/p>\n<p><strong>Combate constante<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m do desmatamento, entre as principais causas do avan\u00e7o de mal\u00e1ria em pa\u00edses end\u00eamicos, como o Brasil, est\u00e3o mudan\u00e7as nos tipos de mosquitos prevalentes, perda de biodiversidade, avan\u00e7o de grandes projetos de infraestrutura que modificam paisagens naturais, como usinas hidrel\u00e9tricas, atividades de minera\u00e7\u00e3o e urbaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas t\u00eam agravado o quadro, j\u00e1 que o aumento das temperaturas, aliado a chuvas e secas intensas, cria condi\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o de mosquitos. Sistemas de vigil\u00e2ncia em sa\u00fade, aten\u00e7\u00e3o a popula\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis e respostas r\u00e1pidas a desastres naturais est\u00e3o entre as medidas que podem ser adotadas para enfrentar esses casos.<\/p>\n<p>Reconhecendo que a crise clim\u00e1tica impacta diretamente a sa\u00fade das popula\u00e7\u00f5es e a necessidade de integrar as duas agendas, a presid\u00eancia da COP30, que acontece em novembro em Bel\u00e9m (PA), incluiu sa\u00fade nos dias tem\u00e1ticos.<\/p>\n<p>\u201cAs quest\u00f5es ambientais e de sa\u00fade p\u00fablica parecem distantes, mas est\u00e3o muito conectadas. Uma das formas de interven\u00e7\u00e3o em \u00e1reas como as que estudamos seria promover iniciativas sustent\u00e1veis que ofere\u00e7am renda para os moradores. A floresta conservada tem produtos com valor, mas eles tendem a ser menos lucrativos do que abrir terras para pastagens ou uso agr\u00edcola. O pagamento por servi\u00e7os ecossist\u00eamicos, por meio do mercado de carbono, por exemplo, pode ser uma alternativa. Uma confer\u00eancia como a COP30, que re\u00fane governantes e tomadores de decis\u00e3o, pode ser uma oportunidade para discutir como iremos substituir o modus operandi de hoje\u201d, comenta Laporta.<\/p>\n<p>Considerada um problema de sa\u00fade p\u00fablica global, a mal\u00e1ria \u00e9 end\u00eamica nos nove Estados da Amaz\u00f4nia Legal, que concentraram 138 mil dos 142 mil casos registrados no pa\u00eds em 2024, de acordo com o <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/saude\/pt-br\/composicao\/svsa\/cnie\/painel-malaria\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Minist\u00e9rio da Sa\u00fade<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p>O Brasil, por meio do <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/saude\/pt-br\/centrais-de-conteudo\/publicacoes\/svsa\/malaria\/politicas-de-saude\/elimina-malaria-brasil-plano-nacional-de-eliminacao-da-malaria\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Plano Nacional de Elimina\u00e7\u00e3o da Mal\u00e1ria<\/strong><\/a>, se comprometeu a chegar a 2030 com menos de 14 mil casos e alcan\u00e7ar o objetivo final at\u00e9 2035.<\/p>\n<p>No estudo, os pesquisadores alertam que a elimina\u00e7\u00e3o da mal\u00e1ria requer n\u00e3o apenas tratamentos eficazes, mas tamb\u00e9m estrat\u00e9gias abrangentes de controle de vetores. Apontam que uma solu\u00e7\u00e3o potencial \u00e9 tornar o ambiente menos favor\u00e1vel aos vetores anofelinos, mantendo a biodiversidade em \u00e1reas florestais conservadas. \u201cA combina\u00e7\u00e3o desses fatores ecol\u00f3gicos com protocolos de tratamento aprimorados pode alavancar os esfor\u00e7os de elimina\u00e7\u00e3o da mal\u00e1ria\u201d, escrevem no artigo.<\/p>\n<p>No mundo, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) estima que foram 263 milh\u00f5es de casos e 597 mil mortes pela doen\u00e7a em 2023, sendo que cerca de 95% dos \u00f3bitos ocorreram em pa\u00edses do continente africano, onde ainda h\u00e1 pouco acesso a servi\u00e7os de preven\u00e7\u00e3o, detec\u00e7\u00e3o e tratamento.<\/p>\n<p>A preven\u00e7\u00e3o individual \u00e9 feita por meio do uso de mosquiteiros e telas que protegem de mosquitos, al\u00e9m de repelente. Medidas coletivas incluem obras de saneamento e aterramento de criadouros do vetor, com melhoria das condi\u00e7\u00f5es de moradia de popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a provoca febre, calafrios, tremores, sudorese e dor de cabe\u00e7a, podendo levar, em casos graves, a convuls\u00f5es, hemorragias e altera\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. Normalmente, o paciente recebe tratamento em regime ambulatorial fornecido pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS).<\/p>\n<p>O artigo Intermediate forest cover and malaria risk in an Amazon deforestation frontier pode ser lido em: <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0001706X25002281?dgcid=author\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0001706X25002281<\/strong><\/a>.<br \/>&#13;<br \/>\n\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Luciana Constantino | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Em meio \u00e0s discuss\u00f5es preparat\u00f3rias para a COP30, que envolvem inclusive temas&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":36833,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[86],"tags":[8967,989,11483,11484,11485,11481,11489,9495,11488,11482,116,11486,1890,32,33,117,2776,11487,11490],"class_list":["post-36832","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-saude","tag-acre","tag-amazonia","tag-assentamento-rural","tag-colonizacao","tag-desmatamento","tag-doencas-negligenciadas","tag-doencas-tropicais","tag-epidemiologia","tag-flebotomineos","tag-florestas-tropicais","tag-health","tag-malaria","tag-mosquitos","tag-portugal","tag-pt","tag-saude","tag-saude-unica","tag-tripanossomiase","tag-vetores-anofelinos"],"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36832","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36832"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36832\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/36833"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36832"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36832"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36832"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}