{"id":370736,"date":"2026-05-06T09:05:12","date_gmt":"2026-05-06T09:05:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/370736\/"},"modified":"2026-05-06T09:05:12","modified_gmt":"2026-05-06T09:05:12","slug":"preto-como-a-estrada-escola-usa-video-que-indigna-tutela-defende-obra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/370736\/","title":{"rendered":"&#8220;Preto como a estrada&#8221;. Escola usa v\u00eddeo que indigna, tutela defende obra"},"content":{"rendered":"<p>T\u00e2nia Correia nem queria acreditar quando a filha mais velha, de 10 anos, chegou a casa com uma ficha para preencher com associa\u00e7\u00f5es \u00e0s cores da pele.<\/p>\n<p>O trabalho, no \u00e2mbito da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, numa escola da Grande Lisboa, pretendia abordar o tema da interculturalidade com os alunos do 5.\u00ba ano, depois de lhes ter sido mostrado em aula o v\u00eddeo &#8220;Meninos de Todas as Cores&#8221;, inspirado na <a href=\"https:\/\/mimosdeinfancia.blogspot.com\/2017\/12\/historia-completa-meninos-de-todas-as.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">obra hom\u00f3nima de Lu\u00edsa Ducla Soares<\/a>, editada pela primeira vez em 1980.<\/p>\n<p>Tal como o livro, que tem 46 anos e tem sido frequentemente reeditado (2010, 2014, 2016 e 2025), o v\u00eddeo, alojado no YouTube, no canal <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=SXz6IUHx0bg&amp;t=48s\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">&#8220;Hist\u00f3rias do Salta Letrinhas&#8221;<\/a>, compara as v\u00e1rias cores da pele com diferentes elementos e come\u00e7a assim: &#8220;Era uma vez um menino branco chamado Miguel, que vivia numa terra de meninos brancos e dizia: &#8216;\u00e9 bom ser branco porque \u00e9 branco o a\u00e7\u00facar, t\u00e3o doce; porque \u00e9 branco o leite, t\u00e3o saboroso; porque \u00e9 branca a neve, t\u00e3o linda'&#8221;.<\/p>\n<p>Entretanto, Miguel parte numa &#8220;grande viagem&#8221; por v\u00e1rias &#8220;terras&#8221;. Na &#8220;terra onde todos os meninos s\u00e3o amarelos&#8221;, uma menina dizia: &#8220;\u00e9 bom ser amarelo porque \u00e9 amarelo o sol e amarelo o girassol, mais a areia amarela da praia&#8221;.<\/p>\n<p>J\u00e1 na &#8220;terra onde todos os meninos s\u00e3o pretos&#8221;, Miguel &#8220;fez-se amigo de um pequeno ca\u00e7ador&#8221; que dizia: &#8220;\u00e9 bom ser preto como a noite, preto como as azeitonas, preto como as estradas que nos levam a toda a parte&#8221;.<\/p>\n<p>E assim continua pela terra onde &#8220;todos os meninos s\u00e3o vermelhos&#8221; e pela terra onde todos s\u00e3o &#8220;castanhos&#8221;.<\/p>\n<p>No fim, o menino volta \u00e0 &#8220;terra de meninos brancos&#8221; e diz: &#8220;\u00e9 bom ser branco como o a\u00e7\u00facar, amarelo como o sol, preto como as estradas, vermelho como as fogueiras e castanho como o chocolate&#8221;.<\/p>\n<p>O v\u00eddeo, assim como a aula onde foi visionado e o livro original, ter\u00e3o como objetivo promover a igualdade e combater o racismo. Por\u00e9m, o que a divulga\u00e7\u00e3o do mesmo acaba por fazer hoje em dia \u00e9 refor\u00e7ar estigmas e sentimentos de exclus\u00e3o ou de &#8216;n\u00e3o perten\u00e7a&#8217;, uma vez que se foca apenas na cor da pele e utiliza analogias anacr\u00f3nicas para a descrever.<\/p>\n<p>Embora o conte\u00fado pudesse ser considerado progressista e at\u00e9 acolhedor na d\u00e9cada de 80, a sociedade evoluiu e hoje sabe-se que &#8220;n\u00e3o se combate o racismo com associa\u00e7\u00f5es \u00e0s cores da pele&#8221;, como real\u00e7ou T\u00e2nia Correia, que \u00e9 tamb\u00e9m psic\u00f3loga e fundadora da cl\u00ednica <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/3ms.clinica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">3Ms<\/a>, ao Not\u00edcias ao Minuto.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de T\u00e2nia e da filha, cujo pai \u00e9 luso-angolano, muitas outras pessoas ficaram constrangidas com o v\u00eddeo. S\u00e3o mais de 800 as que, s\u00f3 na publica\u00e7\u00e3o que a psic\u00f3loga partilhou nas suas redes sociais sobre o assunto, admitiram estar at\u00f3nitas com o facto de v\u00eddeos como estes ainda passarem nas escolas portuguesas.<\/p>\n<p>Algumas revelaram at\u00e9 ter visto o mesmo v\u00eddeo nas aulas\u2026 h\u00e1 30 anos. E j\u00e1 na altura se sentiram constrangidas. Apesar disso, as imagens (e estes ensinamentos) continuam a passar, tr\u00eas d\u00e9cadas depois.<\/p>\n<p>                                                    Livro integra Plano Nacional de Leitura e &#8220;\u00e9 recomendado&#8221;<\/p>\n<p>Questionado pelo Not\u00edcias ao Minuto sobre o assunto, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou por lembrar que o livro &#8220;Meninos de Todas as Cores&#8221;, de Lu\u00edsa Ducla Soares, &#8220;integra o Plano Nacional de Leitura (PNL) h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada&#8221; e encontra-se &#8220;atualmente recomendado, no \u00e2mbito do PNL2027, para a faixa et\u00e1ria dos 3 aos 5 anos, no dom\u00ednio da educa\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria&#8221;.<\/p>\n<p>Sobre o v\u00eddeo em causa, o minist\u00e9rio tutelado por Fernando Alexandre ressalvou que este &#8220;constitui uma adapta\u00e7\u00e3o do texto liter\u00e1rio [acima descrito] para uma narrativa visual, n\u00e3o alterando a ess\u00eancia da obra original&#8221; e n\u00e3o v\u00ea problemas em que este seja utilizado &#8220;frequentemente&#8221; por professores como &#8220;recurso pedag\u00f3gico, com o objetivo de facilitar a compreens\u00e3o por parte das crian\u00e7as&#8221;, uma vez que respeita o conte\u00fado simb\u00f3lico e a intencionalidade educativa do texto&#8221;.<\/p>\n<p>Para o Governo, a obra &#8220;Meninos de Todas as Cores&#8221; continua assim a ser &#8220;amplamente reconhecida como uma refer\u00eancia \u00e0 diversidade e \u00e0 interculturalidade&#8221;. &#8220;Foi, inclusivamente, adotada por organiza\u00e7\u00f5es como a OIKOS e a UNICEF, no \u00e2mbito de campanhas conjuntas contra o racismo e a segrega\u00e7\u00e3o, tendo dado origem a m\u00faltiplas iniciativas educativas, como maletas pedag\u00f3gicas, exposi\u00e7\u00f5es itinerantes e representa\u00e7\u00f5es em teatro de marionetas. Adicionalmente, tem sido utilizada em projetos da Rede Europeia Anti-Pobreza, com o apoio do Alto Comissariado para as Migra\u00e7\u00f5es&#8221;, acrescentou o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar disso, o gabinete de Fernando Alexandre sublinhou, em resposta ao Not\u00edcias ao Minuto, que o v\u00eddeo em quest\u00e3o &#8220;n\u00e3o constitui uma recomenda\u00e7\u00e3o institucional, nem foi sujeito a valida\u00e7\u00e3o pr\u00e9via&#8221;. Por essa raz\u00e3o, o seu grau de utiliza\u00e7\u00e3o em contexto did\u00e1tico \u00e9 &#8220;desconhecido&#8221;.<\/p>\n<p>Evidenciou ainda o minist\u00e9rio que &#8220;a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento n\u00e3o assenta num programa fechado de recursos obrigat\u00f3rios, mas antes em orienta\u00e7\u00f5es curriculares que promovem a autonomia pedag\u00f3gica dos docentes na sele\u00e7\u00e3o de materiais adequados&#8221; e que &#8220;os professores que abordam temas como multiculturalidade, igualdade, racismo ou discrimina\u00e7\u00e3o enquadram a sua pr\u00e1tica nas Aprendizagens Essenciais e em documentos orientadores, da responsabilidade do Instituto de Educa\u00e7\u00e3o, Qualidade e Avalia\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>                                                    &#8220;Conte\u00fados como este devem ser j\u00e1 afastados das escolas&#8221;<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o do Governo e o facto de tanto o livro como o v\u00eddeo serem recomendados para utiliza\u00e7\u00e3o nas salas de aulas contrasta com o que defendem diversos psic\u00f3logos (e n\u00e3o s\u00f3) e com o sentimento que muitos internautas dizem ter tido ao visualizar as imagens.<\/p>\n<p>&#8220;Absurdo&#8221;, &#8220;completamente ao lado&#8221;, &#8220;triste&#8221;, &#8220;cheira-me a anos 80, no m\u00ednimo&#8221;, &#8220;esta hist\u00f3ria j\u00e1 n\u00e3o devia contada, temos de evoluir&#8221; s\u00e3o apenas alguns dos coment\u00e1rios que constam na publica\u00e7\u00e3o de T\u00e2nia Correia sobre o tema e que conta j\u00e1 com mais de 8 mil &#8216;gostos&#8217;.<\/p>\n<p>Uma seguidora da psic\u00f3loga vai mesmo direta ao ponto: &#8220;\u00c9 muito importante darmos estes testemunhos pois podem fazer com que mais fam\u00edlias fiquem atentas a estes conte\u00fados. A renova\u00e7\u00e3o dos manuais escolares \u00e9 urgente, mas \u00e9 um processo longo e moroso. No entanto, estas a\u00e7\u00f5es podem ser implementadas imediatamente. Conte\u00fados como este devem ser j\u00e1 afastados das escolas&#8221;.<\/p>\n<p>                                                    &#8220;As crian\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o iguais \u00e0s da d\u00e9cada de 80&#8221;<\/p>\n<p>O risco de n\u00e3o o fazer \u00e9 amplificar o racismo e a discrimina\u00e7\u00e3o, em vez do que, alegadamente, seria o objetivo da obra, do v\u00eddeo e da alus\u00e3o aos mesmos nas aulas.<\/p>\n<p>Para evitar situa\u00e7\u00f5es como esta, T\u00e2nia Correia, como psic\u00f3loga e m\u00e3e habituada a lidar com estes desafios, aconselha que professores, diretores e at\u00e9 o Governo ou\u00e7am quem enfrenta estes problemas.<\/p>\n<p>&#8220;As crian\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o iguais \u00e0s da d\u00e9cada de 80. O mundo n\u00e3o est\u00e1 igual, a nossa sensibilidade n\u00e3o est\u00e1 igual&#8221;, lembrou ao Not\u00edcias ao Minuto, acrescentando que o melhor ser\u00e1 sempre &#8220;perguntar, mandar um e-mail, perceber qual a melhor abordagem ao tema junto de quem passa por estas dificuldades&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Se fizesse um trabalho sobre uma crian\u00e7a, por exemplo, que anda de cadeira de rodas, eu teria todo o gosto em ouvir os pais, todo o gosto em aprender, porque h\u00e1 dificuldades que tenho a certeza que n\u00e3o antecipo, por muito que j\u00e1 tenha lido ou visto v\u00eddeos sobre o tema&#8221;, exemplificou, recusando a ideia de que \u00e9 preciso evitar &#8220;incomodar&#8221; os educadores.<\/p>\n<p>&#8220;Isto n\u00e3o \u00e9 escola e casa, n\u00f3s estamos em liga\u00e7\u00e3o. Temos de estar interligados para evitar tantos problemas&#8221;, salientou.<\/p>\n<p>                                                    &#8220;N\u00e3o temos de convencer as crian\u00e7as de que somos todos exatamente iguais&#8221;<\/p>\n<p>Sobre a abordagem, em concreto, a psic\u00f3loga defende que\u00a0&#8220;n\u00e3o temos de convencer as crian\u00e7as de que somos todos exatamente iguais&#8221;, \u00e9 positivo \u00e9 &#8220;falarmos do porqu\u00ea de algumas diferen\u00e7as a n\u00edvel de esp\u00e9cie&#8221; e &#8220;explicar como essas diferen\u00e7as s\u00e3o apenas a n\u00edvel adaptativo externo e como a n\u00edvel interno h\u00e1 muita coisa que \u00e9 igual, tanto a n\u00edvel de gostos, como a n\u00edvel de personalidades&#8221;.<\/p>\n<p>E para isso &#8220;temos de dar espa\u00e7o para falar realmente sobre a diferen\u00e7a e n\u00e3o estar logo a convencer de que \u00e9 tudo igual&#8221;.<\/p>\n<blockquote class=\"instagram-media\" style=\"background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);\" data-instgrm-captioned=\"\" data-instgrm-permalink=\"https:\/\/www.instagram.com\/reel\/DXXqZINCkn6\/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading\" data-instgrm-version=\"14\"><p>&#13;<br \/>\n                                                    &#13;\n                                                    <\/p><\/blockquote>\n<p>Somando a isso, como explicou T\u00e2nia Correia em conversa com o Not\u00edcias ao Minuto, &#8220;n\u00e3o podemos estar centrados s\u00f3 na quest\u00e3o das cores, temos de falar mesmo de v\u00e1rias caracter\u00edsticas enquanto humanos, que foram adaptativas de acordo com o ambiente onde crescemos&#8221;.<\/p>\n<p>Para a psic\u00f3loga, \u00e9 assim essencial &#8220;dar espa\u00e7o aos alunos para explorarem, trazerem tamb\u00e9m aquilo que s\u00e3o as suas pr\u00f3prias cren\u00e7as e os seus pr\u00f3prios preconceitos&#8221;. &#8220;Podemos e devemos falar abertamente destes temas. O nosso c\u00e9rebro est\u00e1 preparado para procurar o que \u00e9 diferente e rotular essa diferen\u00e7a. N\u00f3s podemos \u00e9 escolher o que fazemos com isso&#8221;, alertou, apelando a que as escolas tenham &#8220;conversas abertas com as crian\u00e7as e jovens&#8221; sobre este e outros temas importantes.<\/p>\n<p>&#8220;Isto [a reprodu\u00e7\u00e3o durante d\u00e9cadas de um v\u00eddeo como o &#8220;Meninos de Todas as Cores&#8221;] tamb\u00e9m revela um bocadinho a incapacidade que temos enquanto adultos de ouvir as crian\u00e7as, porque n\u00e3o acredito que, se os adultos tivessem reparado no desconforto constante que as imagens deixavam nas crian\u00e7as, nada tivesse mudado&#8221;.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de apresentar aos alunos livros que trabalham este tipo de quest\u00f5es &#8220;como um todo&#8221;, uma das formas de trabalhar a aceita\u00e7\u00e3o entre os mais novos \u00e9 levar at\u00e9 \u00e0s escolas cada uma das culturas existentes.<\/p>\n<p>&#8220;O que \u00e9 que se come, como \u00e9 que as pessoas habitualmente se vestem, que m\u00fasica ouvem, para perceberem que h\u00e1 pessoas vindas de v\u00e1rios pontos do mundo e, muitas delas n\u00f3s at\u00e9 j\u00e1 fomos misturando ao longo dos anos na nossa, porque Portugal n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds que esteve fechado. N\u00e3o est\u00e1 isento de misturas. E esse tipo de exposi\u00e7\u00e3o vai ajudar as crian\u00e7as dessas culturas a sentirem-se t\u00e3o especiais como os restantes colegas e estes a compreenderem e lidarem com estas quest\u00f5es desde cedo&#8221;, destacou a especialista.<\/p>\n<p>                                                    Coment\u00e1rios racistas t\u00eam vindo a aumentar nos \u00faltimos tr\u00eas anos<\/p>\n<p>Tanto como psic\u00f3loga com quase 40 mil seguidores s\u00f3 no Instagram, como como m\u00e3e de tr\u00eas meninas com ascend\u00eancia angolana, T\u00e2nia tem sentido, &#8220;nos \u00faltimos tr\u00eas anos que os coment\u00e1rios racistas t\u00eam vindo a aumentar e a serem feitos de forma muito mais p\u00fablica do que eram antes&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Podiam at\u00e9 sentir o mesmo, mas tinham de abafar o racismo fora de casa. Agora sentem-se validados. Ali\u00e1s, altamente validados&#8221;, lamentou. Uma das raz\u00f5es para isso acontecer \u00e9 o facto da extrema-direita ter conquistado uma maior representa\u00e7\u00e3o em Portugal nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>&#8220;Volta e meia chegam relatos de pessoas que t\u00eam mi\u00fados que ouvem coisas mesmo desagrad\u00e1veis na escola. De que n\u00e3o v\u00e3o brincar com eles porque n\u00e3o brincam com crian\u00e7as desta ou daquela etnia, que eles s\u00e3o assim porque s\u00e3o pobres, que deveriam ir para o pa\u00eds deles. Isto \u00e9 um discurso que tem aparecido muito nas mensagens que recebo. N\u00e3o aceitam as outras crian\u00e7as, que muitas vezes at\u00e9 s\u00e3o portuguesas, nasceram em Portugal&#8221;, real\u00e7ou.<\/p>\n<p>                                                    &#8220;Devemos criar um espa\u00e7o seguro para as crian\u00e7as falarem&#8221;<\/p>\n<p>Urge, portanto, falar destes temas de uma forma positiva e emp\u00e1tica nas escolas e em casa, perceber o que sentem as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8220;Em casa o nosso papel \u00e9, em primeiro lugar, criar um espa\u00e7o seguro para se falar do que quer que seja. E, muitas vezes, estas conversas n\u00e3o come\u00e7am nestes temas. Come\u00e7am em temas pequenos, de qualquer coisa que n\u00e3o gostaram. Nem que seja que n\u00e3o gostaram do lanche na escola. O nosso papel, enquanto pais \u00e9 escutar isso e dar espa\u00e7o para os nossos filhos falarem&#8221;, explicou T\u00e2nia Correia ao Not\u00edcias ao Minuto, lembrando que &#8220;\u00e9 nestas pequenas coisas que a crian\u00e7a percebe que os pais est\u00e3o dispon\u00edveis para ela&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Muitas crian\u00e7as aprenderam a lidar com o desconforto sozinhas. E isso torna-se t\u00e3o normal que quando h\u00e1 temas ainda maiores &#8211; como estes casos de racismo, agress\u00f5es, abusos sexuais, etc. &#8211; j\u00e1 nem contam aos pais. Sentem-se completamente sozinhas&#8221;, fez notar, acrescentando que &#8220;se h\u00e1 coisa que n\u00e3o pode existir em nenhuma fase da vida, muito menos na inf\u00e2ncia e na adolesc\u00eancia, \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de solid\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Eles dependem do adulto para resolver os seus problemas. T\u00eam poucos recursos&#8221;, reiterou.<\/p>\n<p>Para a especialista, &#8220;trabalhar estes temas&#8221;, ter essa disponibilidade para as crian\u00e7as, &#8220;ajuda-as a chegar a um ponto em que sofrem com a rejei\u00e7\u00e3o &#8211; porque ningu\u00e9m quer ser rejeitado &#8211; mas t\u00eam consci\u00eancia de que ignorantes s\u00e3o os outros. De que n\u00e3o h\u00e1 nada errado com elas. \u00c9 a quem discrimina que falta informa\u00e7\u00e3o, que falta desconstruir os preconceitos. A ignor\u00e2ncia est\u00e1 desse lado e n\u00e3o de quem \u00e9 discriminado&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o, claro que sim, n\u00f3s enquanto pais temos de denunciar, at\u00e9 porque isto influencia a vis\u00e3o que os nossos filhos t\u00eam sobre o mundo. O mundo \u00e9 um lugar onde eu tenho espa\u00e7o para falar e onde lutam por mim e pelos meus direitos enquanto eu n\u00e3o tenho esse poder, n\u00e3o \u00e9 um lugar onde temos de nos calar. As crian\u00e7as e jovens t\u00eam de se sentir protegidos. T\u00eam de sentir que podem contar connosco. Al\u00e9m disso, n\u00f3s estamos a servir de modelo da forma como eles v\u00e3o agir no futuro&#8221;, fez sobressair a psic\u00f3loga.<\/p>\n<p>E este n\u00e3o \u00e9 um problema s\u00f3 das crian\u00e7as &#8216;dos outros&#8217;. &#8220;N\u00e3o temos de lutar s\u00f3 pelos desafios dos nossos filhos. Acredito num mundo em que lutamos, n\u00e3o s\u00f3 pelas nossas crian\u00e7as, mas por todas. E quem diz crian\u00e7as, diz por todo o ser humano, porque eles s\u00e3o os adultos do futuro&#8221;, frisou T\u00e2nia Correia.<\/p>\n<p>Assim, casos de discrimina\u00e7\u00e3o nas escolas (ou fora delas) devem ser sempre denunciados, pois ao n\u00e3o se fazer isso &#8220;passa a ideia de que quando aparece uma pessoa que fala, o problema \u00e9 s\u00f3 dela&#8221; e faz com que esta den\u00fancia &#8220;perca for\u00e7a, express\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 papel de quem passa pelas situa\u00e7\u00f5es lutar por elas. Ou seja, quando n\u00f3s temos alguma quest\u00e3o racial em cima da mesa, a margem para quem passa por ela ter voz \u00e9 muito baixa. Se a pessoa est\u00e1 a ser v\u00edtima j\u00e1 vem de um lugar de inferioridade. Portanto, a voz que estas pessoas podem ter \u00e9 muito mais baixa do que as vozes de quem vem do privil\u00e9gio, nomeadamente dos caucasianos&#8221;, evidenciou a psic\u00f3loga.<\/p>\n<p>Para T\u00e2nia Correia, &#8220;quando uma crian\u00e7a passa por uma situa\u00e7\u00e3o de discrimina\u00e7\u00e3o, \u00e9 papel de toda a gente ouvir os pais e perceber como ajudar. Dar voz \u00e0 situa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o deixar que as v\u00edtimas lutem sozinhas. Porque isso tira-lhes muito poder&#8221;.<\/p>\n<p>Antes de concluir, a psic\u00f3loga deixou ainda dois apelos. Primeiro, &#8220;\u00e9 dever de todos cuidar das crian\u00e7as. Todos. Este \u00e9 um tema da comunidade. Por isso, devemos todos prestar aten\u00e7\u00e3o e perceber como podemos ajudar. Segundo, quando se trata de quest\u00f5es raciais, usem o privil\u00e9gio a\u00ed, porque faz diferen\u00e7a. Faz muita diferen\u00e7a usarmos o nosso privil\u00e9gio para tentar ganhar espa\u00e7o e defender as v\u00edtimas&#8221;.<\/p>\n<p>Leia Tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com\/politica\/2983638\/projeto-de-lei-para-criminalizar-praticas-racistas-em-consulta-no-site-da-ar\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Projeto de lei para criminalizar pr\u00e1ticas racistas em consulta no site da AR<\/a><\/p>\n<p>                                            <script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"T\u00e2nia Correia nem queria acreditar quando a filha mais velha, de 10 anos, chegou a casa com uma&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":370737,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[27,28,15,16,14,25,26,21,22,12,13,19,20,32,23,24,33,17,18,29,30,31],"class_list":{"0":"post-370736","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-portugal","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-featured-news","11":"tag-featurednews","12":"tag-headlines","13":"tag-latest-news","14":"tag-latestnews","15":"tag-main-news","16":"tag-mainnews","17":"tag-news","18":"tag-noticias","19":"tag-noticias-principais","20":"tag-noticiasprincipais","21":"tag-portugal","22":"tag-principais-noticias","23":"tag-principaisnoticias","24":"tag-pt","25":"tag-top-stories","26":"tag-topstories","27":"tag-ultimas","28":"tag-ultimas-noticias","29":"tag-ultimasnoticias"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116526837150419883","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/370736","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=370736"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/370736\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/370737"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=370736"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=370736"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=370736"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}