{"id":373346,"date":"2026-05-08T08:03:12","date_gmt":"2026-05-08T08:03:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/373346\/"},"modified":"2026-05-08T08:03:12","modified_gmt":"2026-05-08T08:03:12","slug":"carlos-brito-rompeu-com-cunhal-para-se-afastar-de-lenine-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/373346\/","title":{"rendered":"Carlos Brito. Rompeu com Cunhal para se afastar de Lenine \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>No dia da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, Carlos Brito encontrava-se em Lisboa onde era o respons\u00e1vel local pela estrutura do PCP. Por estar na clandestinidade, a queda do Estado Novo representou para ele um \u201cdia espantoso\u201d. \u201cAntes, n\u00e3o podia ver a fam\u00edlia, os amigos. O 25 de Abril foi para mim uma <strong>dupla ou tripla liberta\u00e7\u00e3o<\/strong>\u201d, relembrou em 2021.<\/p>\n<p>Durante os primeiros anos do PCP em democracia, Carlos Brito confirmou a sua influ\u00eancia no seio do partido. Foi um dos 230 deputados constituintes, sendo eleito pelo c\u00edrculo do distrito de Faro. Sobre essas primeiras elei\u00e7\u00f5es em democracia, reconheceu o \u201cespanto enorme\u201d que foi o curto resultado eleitoral dos comunistas (12,5%), muito longe do PPD de Francisco S\u00e1 Carneiro (26,4%) e ainda mais do PS de M\u00e1rio Soares (37,9%). A expectativa era assumidamente outra, depois da \u201cavalanche\u201d de inscri\u00e7\u00f5es na sequ\u00eancia do golpe militar e da facilidade que o PCP tinha em mobilizar apoiantes para as ruas.<\/p>\n<p>Ainda assim, o empenho de Carlos Brito na representa\u00e7\u00e3o do partido n\u00e3o seria, por enquanto, abalado. Foi eleito deputado nas seis elei\u00e7\u00f5es legislativas seguintes, desde 1976 a 1991, tendo liderado a <strong>bancada parlamentar<\/strong> dos comunistas durante 15 anos. Apesar de ter ocupado um lugar central na estrutura do PCP ao longo destes anos, garante que mantinha a capacidade de divergir da linha oficial do partido. \u201cQuando divergia, aceitava sempre, no entanto, a decis\u00e3o da maioria. Defendi muitas vezes, na Assembleia da Rep\u00fablica e noutras inst\u00e2ncias, solu\u00e7\u00f5es e op\u00e7\u00f5es com as quais n\u00e3o estavam de acordo.\u201d<\/p>\n<p>Se o debate era \u201c<strong>franco e aberto<\/strong>\u201d no grupo parlamentar comunista, o \u201cm\u00e9rito\u201d era de Carlos Brito, defendeu Vital Moreira numa <a href=\"https:\/\/causa-nossa.blogspot.com\/2021\/01\/memorias-acidentais-13-carlos-brito.html\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">cr\u00f3nica<\/a> que dedicou ao amigo em 2021. Este outro dissidente do PCP, que foi vice-l\u00edder da bancada de Brito durante sete anos, destacou tamb\u00e9m a sua \u201cconvicta dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 frente parlamentar, quando o partido a <strong>menosprezava<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, Carlos Brito esteve todos aqueles anos no centro de controlo da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do PCP. O seu gabinete era <strong>vizinho<\/strong> do l\u00edder do partido no sexto andar da sede oficial do partido, na rua Soeiro Pereira Gomes. Durante esses anos de grande proximidade com \u00c1lvaro Cunhal, o ent\u00e3o l\u00edder parlamentar do PCP j\u00e1 ia defendendo que junto deste se fosse \u201cesquecendo o marximo-leninismo\u201d, contou anos mais tarde. Carlos Brito explicou que, apesar de tudo, existia uma boa conviv\u00eancia entre os dois, porque o l\u00edder do partido via nele algu\u00e9m leal. \u201cO Cunhal sabia que eu n\u00e3o queria ser secret\u00e1rio-geral do partido\u201d, disse na mesma entrevista.<\/p>\n<p>Essa confian\u00e7a m\u00fatua ficou logo patente em 1980, quando Carlos Brito foi escolhido para ser o candidato apoiado pelo PCP \u00e0s <strong>presidenciais<\/strong> do ano seguinte. Na apresenta\u00e7\u00e3o da sua candidatura, afirmou que o seu \u201cobjetivo central e priorit\u00e1rio\u201d era \u201cbarrar o caminho ao <strong>assalto da rea\u00e7\u00e3o<\/strong> \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica\u201d, que os comunistas viam representado no general Ant\u00f3nio Soares Carneiro. Ora, dias antes de se realizar a elei\u00e7\u00e3o, Brito anunciou que \u201co Comit\u00e9 Central do PCP decidiu a desist\u00eancia da sua candidatura\u201d e apelou ao voto em Ramalho Eanes por este ser o melhor colocado para \u201cderrotar o candidato das for\u00e7as da rea\u00e7\u00e3o\u201d, que era apoiado pelo primeiro-ministro S\u00e1 Carneiro.<\/p>\n<p>Anos mais tarde, voltou a assumir um papel de destaque na estrutura comunista. Entre 1992 e 1998, dirigiu o <strong>Avante<\/strong>, o \u00f3rg\u00e3o oficial de comunica\u00e7\u00e3o do PCP. Desde cedo com uma paix\u00e3o pela escrita, Carlos Brito quis revitalizar o jornal, dando-lhe uma nova pujan\u00e7a. \u201cNo meu tempo, era um <strong>\u00f3rg\u00e3o vivo<\/strong>, pol\u00e9mico. Hoje n\u00e3o o \u00e9. E naquela altura foi muito dif\u00edcil que o fosse\u201d, lembrou em entrevista \u00e0 RTP. Essa resist\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 linha editorial do jornal vinha diretamente das mais altas esferas do partido. \u201cO camarada Cunhal dizia \u2018P\u00e1, isso n\u00e3o \u00e9 muito um artigo de um \u00f3rg\u00e3o central, \u00e9 mais um artigo de um seman\u00e1rio pol\u00edtico\u2019. E eu dizia-lhe \u2018Mas eu quero fazer do Avante um seman\u00e1rio pol\u00edtico\u2019\u201d.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 um grande sentimento de mal-estar e desgosto por ver que a dire\u00e7\u00e3o do PCP entrou por este caminho <strong>persecut\u00f3rio<\/strong> que \u00e9 um caminho de desastre para o partido.\u201d Assim, <a href=\"https:\/\/arquivos.rtp.pt\/conteudos\/entrevista-a-carlos-brito-2\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">reagia<\/a> Carlos Brito ao seu afastamento do partido, numa altura em que j\u00e1 n\u00e3o tinha esperan\u00e7a que se revertesse a decis\u00e3o. Dois anos depois da \u201ccarta-bomba\u201d, continuava a militar no PCP, mas o secretariado comunista estava a ultimar a sua suspens\u00e3o durante 10 meses. Nessa missiva privada, o hist\u00f3rico militante tinha considerado o clima de \u201c<strong>suspei\u00e7\u00e3o<\/strong>\u201d que se vivia no PCP era o seu \u201cpior veneno\u201d, prejudicando em grande medida o debate interno.<\/p>\n<p>No entanto, a carta n\u00e3o apontava apenas o dedo, apresentava tamb\u00e9m medidas concretas para uma \u201c<strong>profunda democratiza\u00e7\u00e3o<\/strong>\u201d do partido. Estas passavam por reformas \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do Congresso, atrav\u00e9s, nomeadamente, de outro m\u00e9todo de elei\u00e7\u00e3o do Comit\u00e9 Central com possibilidade de apresenta\u00e7\u00e3o de listas alternativas e voto secreto. Tamb\u00e9m se propunha a elei\u00e7\u00e3o de todos os coordenadores para p\u00f4r fim ao \u201c<strong>comando dirigista<\/strong>\u201d do partido. Al\u00e9m do mais, Carlos Brito pedia um incentivo \u00e0 liberdade cr\u00edtica com a promo\u00e7\u00e3o da \u201campla circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o e opini\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNunca <strong>ningu\u00e9m discutiu<\/strong> a carta comigo e, a partir deste momento, passo a ser tratado quase como um inimigo da dire\u00e7\u00e3o\u201d, contou. A deteriora\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es acelerou quando a revista Vis\u00e3o publicou esse texto \u2014 segundo o autor, contra a sua vontade. Ao recordar esses momentos de maior tens\u00e3o, o antigo diretor do Avante descrevia a sua postura como conciliat\u00f3ria, enquanto, por outro lado, acusava a dire\u00e7\u00e3o do partido de promover uma campanha n\u00e3o provocada contra a sua pessoa.<\/p>\n<p>Carlos Brito explicou que n\u00e3o tinha deixado de aceitar o programa pol\u00edtico do PCP e de acompanhar \u201cgrande parte\u201d dos seus estatutos. \u201cO texto [da carta-bomba] n\u00e3o contraria estas ideias\u201d, assegurou. Contudo, para ultrapassar o \u201c<strong>marasmo ideol\u00f3gico e pol\u00edtico<\/strong>\u201d em que via o seu partido de sempre, o hist\u00f3rico dirigente comunista pedia um \u201cregresso a Marx\u201d, leia-se, um <strong>afastamento de Lenine<\/strong>. Como consequ\u00eancia da exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica destas ideias e cr\u00edticas, Carlos Brito, assim como Edgar Correia e Carlos Lu\u00eds Figueira, diziam estar a ser\u00a0alvo de \u201csanha persecut\u00f3ria e estalinista\u201d por \u201cdelito de opini\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o do PCP rejeitou que esse fosse o caso quando anunciou a san\u00e7\u00e3o aos tr\u00eas militantes empenhados na renova\u00e7\u00e3o do partido, a 19 de julho de 2002. \u201cAquilo a que apelidam de \u2018<strong>delito de opini\u00e3o<\/strong>\u2019 \u00e9 t\u00e3o s\u00f3 o artif\u00edcio para disfar\u00e7ar a sua recusa em aceitar que a sua opini\u00e3o minorit\u00e1ria se n\u00e3o sobreponha \u00e0 maioria de quem dela discorda\u201d, denunciou o secretariado comunista, numa nota em que justificava as san\u00e7\u00f5es aos tr\u00eas militantes sem nunca os nomear.<\/p>\n<p>Depois, acrescentaram que os sancionados sabiam \u201cpela sua pr\u00f3pria experi\u00eancia de dezenas de anos de milit\u00e2ncia partid\u00e1ria, que as opini\u00f5es diferentes ou divergentes<strong> nunca foram impedimento<\/strong> para o assumir responsabilidades, mesmo das mais elevadas, no PCP\u201d. Ainda assim, segundo o secretariado do PCP, estes tr\u00eas militantes puseram em marcha \u201cuma violenta e continuada campanha de <strong>deturpa\u00e7\u00f5es<\/strong> e falsifica\u00e7\u00f5es, sobre os princ\u00edpios, pr\u00e1ticas e principais orienta\u00e7\u00f5es [do partido], visando atingir o seu prest\u00edgio e influ\u00eancia junto dos trabalhadores e da sociedade, dificultar a interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, quebrar a sua unidade e provocar a desagrega\u00e7\u00e3o org\u00e2nica\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"No dia da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, Carlos Brito encontrava-se em Lisboa onde era o respons\u00e1vel local pela estrutura&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":373347,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[27,28,15,16,14,25,26,21,22,12,13,19,20,46862,32,23,24,33,58,17,18,29,30,31],"class_list":{"0":"post-373346","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-portugal","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-featured-news","11":"tag-featurednews","12":"tag-headlines","13":"tag-latest-news","14":"tag-latestnews","15":"tag-main-news","16":"tag-mainnews","17":"tag-news","18":"tag-noticias","19":"tag-noticias-principais","20":"tag-noticiasprincipais","21":"tag-obituu00e1rio","22":"tag-portugal","23":"tag-principais-noticias","24":"tag-principaisnoticias","25":"tag-pt","26":"tag-sociedade","27":"tag-top-stories","28":"tag-topstories","29":"tag-ultimas","30":"tag-ultimas-noticias","31":"tag-ultimasnoticias"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/373346","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=373346"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/373346\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/373347"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=373346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=373346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=373346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}