{"id":37399,"date":"2025-08-20T13:58:57","date_gmt":"2025-08-20T13:58:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/37399\/"},"modified":"2025-08-20T13:58:57","modified_gmt":"2025-08-20T13:58:57","slug":"sobre-a-feira-do-livro-e-a-magica-das-palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/37399\/","title":{"rendered":"Sobre a Feira do Livro e a m\u00e1gica das palavras"},"content":{"rendered":"<p>Na imagem acima, corredores da Feira Pan-Amaz\u00f4nica do Livro e das Multivozes, em Bel\u00e9m (Foto: Augusto MIranda\/Ag\u00eancia Par\u00e1).<\/p>\n<p>Cresci em Icoaraci, distrito de Bel\u00e9m, vindo de uma fam\u00edlia pobre, mas cercado por livros, jornais e revistas. Esse ambiente de leitura \u2014 muitas vezes improvisado, constru\u00eddo com o pouco que havia na estante e com as idas semanais \u00e0 biblioteca p\u00fablica do bairro-\u00a0 que chegou a vir abaixo, fruto do descaso do prefeito Duciomar Costa e reconstru\u00edda quase do zero por Edmilson Rodrigues \u2014 \u00e9 determinante na minha trajet\u00f3ria. At\u00e9 hoje \u00e9 envolto em certo mist\u00e9rio para mim, o fato de aqui e ali surgirem livros em minha casa, j\u00e1 que dinheiro n\u00e3o sobrava para grandes arroubos culturais.<\/p>\n<p>Mas foi entre enciclop\u00e9dias adquiridas \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de mascates que batiam de porta em porta, livros (alguns escolares) e o jornal comprado por minha m\u00e3e quase todos os domingos e que ela n\u00e3o gostava ficassem com os cadernos desorganizados e fora de ordem antes da leitura dela, que descobri a for\u00e7a das palavras. Que elas transformam, emocionam, denunciam e criam mundos. \u00c9 desse lugar que parti para me tornar escritor, jornalista com algumas premia\u00e7\u00f5es na carreira e roteirista de televis\u00e3o e cinema. E \u00e9 esse mesmo caminho que a cada ano me leva \u00e0 Feira Pan-Amaz\u00f4nica do Livro e das Multivozes \u2014 n\u00e3o apenas como visitante ass\u00edduo, mas, com enorme orgulho, como autor que j\u00e1 chegou a lan\u00e7ar livro ali naquele espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Mais do que um evento liter\u00e1rio, a Feira se afirma, nesses dias, como uma grande celebra\u00e7\u00e3o da cultura amaz\u00f4nica. O Hangar Centro de Conven\u00e7\u00f5es, onde ela geralmente ocorre, costuma ficar completamente tomado por pessoas de diferentes idades, e se transforma em um lugar de conviv\u00eancia, troca e partilha. Entre estandes de editoras, livrarias independentes, coletivos criativos e espa\u00e7os de debate, Bel\u00e9m \u201cvive\u201d um momento raro: aquele em que o livro passa da a\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria ao gesto coletivo, do sil\u00eancio da leitura \u00e0 pot\u00eancia do encontro.<\/p>\n<p>As homenagens deste ano \u2014 \u00e0 escritora Wanda Monteiro e ao Mestre Damasceno \u2014 representam esse esp\u00edrito de valoriza\u00e7\u00e3o das nossas vozes. De um lado, a sensibilidade da escrita que dialoga com a cosmogonia amaz\u00f4nica; do outro, a for\u00e7a da tradi\u00e7\u00e3o oral e da musicalidade quilombola. Ao unir essas duas trajet\u00f3rias, a feira reafirma que leitura n\u00e3o se resume \u00e0 palavra impressa, mas se estende aos saberes transmitidos tamb\u00e9m na oralidade.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o impacto econ\u00f4mico \u00e9 intenso e n\u00e3o pode ser ignorado. Moro em frente a um \u2018sebo\u2019 de livros. Seu propriet\u00e1rio, semanas antes do evento, j\u00e1 se preparava e aguardava ansioso pela Feira, empacotando caixas e caixas de livros. Outro amigo tamb\u00e9m fez a mesma coisa, mas fazendo quest\u00e3o de transformar seu estande em um pequeno espa\u00e7o pol\u00edtico, com uma bandeira de Palestina Livre exibida orgulhosamente em uma das paredes.<\/p>\n<p>Os mais de cem estandes e os espa\u00e7os como o Beco do Artista e a Feira Criativa geram vendas, renda e visibilidade para autores, editores e artistas da regi\u00e3o (h\u00e1 os que reclamam por mais visibilidade, mas isso \u00e9 normal). O Beco do Artista \u00e9 um espa\u00e7o para a comercializa\u00e7\u00e3o de obras autorais e originais de artistas visuais, como quadrinistas, ilustradores e criadores de miniaturas,<a href=\"https:\/\/mapacultural.pa.gov.br\/oportunidade\/1807\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"> conforme um edital do Mapa Cultural do Par\u00e1<\/a>. J\u00e1 a Feira Criativa re\u00fane arte, vestu\u00e1rio e gastronomia, ou seja, um movimento para al\u00e9m da literatura.<\/p>\n<p>A movimenta\u00e7\u00e3o de pessoas aumenta o fluxo inclusive para ambulantes e taxistas, que do lado de fora, tamb\u00e9m faturam. H\u00e1 livros sendo vendidos, contatos sendo feitos, encontros que se desdobram em projetos.<\/p>\n<p>Outro aspecto essencial neste momento \u00e9 o CredLivro, que concede R$ 200 em cr\u00e9dito para professores da rede estadual comprarem livros na feira. A iniciativa, pelo menos na teoria, estimula o h\u00e1bito de leitura entre educadores e fortalece o elo entre literatura e sala de aula ao permitir que os professores levem os livros diretamente para seus projetos pedag\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Enquanto isso, os debates ocorrem simultaneamente em mesas redondas e palestras, abordando temas como a crise clim\u00e1tica, o protagonismo das mulheres amaz\u00f4nidas, o racismo ambiental, os saberes ind\u00edgenas e a literatura como forma de resist\u00eancia. A presen\u00e7a maci\u00e7a de jovens e crian\u00e7as nas atividades de media\u00e7\u00e3o de leitura demonstra que a feira tamb\u00e9m \u00e9 um espa\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o para as novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ser parte disso \u2014 como leitor, autor e cidad\u00e3o \u2014 \u00e9 lembrar que um menino de Icoaraci, que frequentava a biblioteca p\u00fablica para sonhar com outros mundos, hoje pode caminhar entre os corredores da feira e que j\u00e1 viu\u00a0 seus pr\u00f3prios livros alcan\u00e7arem novos leitores. \u00c9 confiar que essa experi\u00eancia compartilhada, vivida todos os anos em Bel\u00e9m, planta sementes e abre caminhos para que outras vozes amaz\u00f4nicas tamb\u00e9m flores\u00e7am. E que novos amantes de palavras m\u00e1gicas impressas surjam e se deixem transformar por livros. O mundo precisa e merece isso.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/20250816192543-GF00024495-F00431394.webp.webp\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"860\" height=\"573\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/20250816192543-GF00024495-F00431394.webp.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-162226\"  \/><\/a>Beco do Artista (Foto: Pedro Guerreiro\/Ag\u00eancia Par\u00e1).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Na imagem acima, corredores da Feira Pan-Amaz\u00f4nica do Livro e das Multivozes, em Bel\u00e9m (Foto: Augusto MIranda\/Ag\u00eancia Par\u00e1).&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":37400,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[989,4647,4508,877,169,315,114,115,11593,1907,7439,879,864,170,11594,11595,3295,32,33,11596],"class_list":{"0":"post-37399","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-amazonia","9":"tag-autor","10":"tag-belem","11":"tag-biblioteca","12":"tag-books","13":"tag-cultura","14":"tag-entertainment","15":"tag-entretenimento","16":"tag-escritoras","17":"tag-escritores","18":"tag-feira-do-livro","19":"tag-leitura","20":"tag-literatura","21":"tag-livros","22":"tag-meste-damasceno","23":"tag-pan-amazonica","24":"tag-para","25":"tag-portugal","26":"tag-pt","27":"tag-wanda-monteiro"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37399","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37399"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37399\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/37400"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37399"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37399"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37399"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}