{"id":37481,"date":"2025-08-20T15:12:13","date_gmt":"2025-08-20T15:12:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/37481\/"},"modified":"2025-08-20T15:12:13","modified_gmt":"2025-08-20T15:12:13","slug":"os-pides-estao-se-a-safar-vigilancia-popular-cronica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/37481\/","title":{"rendered":"\u201cOs pides est\u00e3o-se a safar, vigil\u00e2ncia popular\u201d | Cr\u00f3nica"},"content":{"rendered":"<p>No \u00faltimo m\u00eas de Julho, H\u00e9lder Malheiro e Augusto Dinis, de 37 e 44 anos, assinalaram com pompa os 50 anos da mais conhecida fuga da pris\u00e3o de Alcoentre. Estes dois homens fugiram agarrados a uma corda da cadeia e acabaram por ser detidos pouco depois, recordando, uma vez mais, que h\u00e1 coisas que nunca mudam e que a hist\u00f3ria tem uma terr\u00edvel tend\u00eancia para se repetir. Brincadeiras \u00e0 parte, a <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/fuga-prisao-vale-judeus\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">fuga de 2025<\/a> foi s\u00f3 uma amostra do que foi a grande evas\u00e3o daquela pris\u00e3o do concelho da Azambuja de onde escaparam, sem grandes dificuldades, 89 ex-agentes da PIDE, a 29 de Junho de 1975.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o da fuga? \u201cUm ligeiro desrespeito pelos regulamentos por parte de um pra\u00e7a da Guarda Nacional Republicana\u201d, escrevia ent\u00e3o O Jornal. Se um \u201cligeiro\u201d desrespeito leva \u00e0 fuga de quase nove dezenas de presos, nem quero imaginar se o &#8220;descuido&#8221; fosse maior. V\u00e1 l\u00e1 que os 89 ex-agentes n\u00e3o \u201cderam boleia\u201d aos outros 754 colegas que por l\u00e1 cumpriam pena naquele Ver\u00e3o Quente, detalhava o peri\u00f3dico. Mas o que ter\u00e1 feito o culposo GNR? Alegadamente, resolveu dar um \u201cpequeno passeio\u201d e saiu da \u00e1rea de vigil\u00e2ncia onde devia estar, nada de mais numa pris\u00e3o de \u201calta seguran\u00e7a\u201d que de alta seguran\u00e7a parecia ent\u00e3o ter pouco.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, todo o recinto era vigiado, com excep\u00e7\u00e3o precisamente do muro que os ex-pides usaram para fugir, alegadamente porque ningu\u00e9m com dois dedos de testa ia ousar escalar um muro de sete metros. Mas as previs\u00f5es falharam e os engenhosos presos lembraram-se que, com paus, n\u00e3o s\u00f3 se faz uma canoa como tamb\u00e9m se constr\u00f3i uma escada. Unidas as cabeceiras das camas na cela 32, l\u00e1 se fizeram uns degraus suficientemente altos para permitir a fuga.<\/p>\n<p>Segundo relatos da \u00e9poca, eram amplas as liberdades que os presos da PIDE gozavam dentro do estabelecimento prisional, com a coniv\u00eancia de quem por l\u00e1 mandava. Nos jornais escrevia-se que \u201ceram os presos que mandavam nos guardas prisionais\u201d e que as celas nem sequer eram fechadas \u00e0 noite, desrespeitando ordens e fazendo o que queriam: \u201cAquilo n\u00e3o \u00e9 uma cadeia, aquilo \u00e9 um hotel\u201d, onde s\u00f3 faltava terem espa\u00e7o para os presos \u201csatisfazerem as suas necessidades sexuais\u201d. Escrevia-se ent\u00e3o que, \u201cpara os pides, a vida na pris\u00e3o \u00e9 uma festa\u201d, onde at\u00e9 os altifalantes das celas estavam \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o para \u201cactividades culturais\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o resisto em voltar ao presente transcrevendo este par\u00e1grafo escrito h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo: \u201cCome\u00e7ada a construir h\u00e1 14 anos, a cadeia [de Vale de Judeus] poder\u00e1 vir a ser, conforme dizem os chamados especialistas, a mais segura da Europa, mas, neste momento, tal afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa de pura fantasia. Os sofisticados sistemas de vigil\u00e2ncia nunca funcionaram, ao contr\u00e1rio do que chegou a ser noticiado.\u201d A cadeia (ainda) pode vir a tornar-se a mais segura do continente, mas n\u00e3o h\u00e1 livro de fantasia que apague o cadastro que lhe deixa a sua j\u00e1 longa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Depois da fuga, nas estradas ergueram-se barricadas pelos membros dos Comit\u00e9s de Defesa da Revolu\u00e7\u00e3o (CDR). A revolta popular ganhou forma e houve quem visse nesta fuga a oportunidade de ajustar as contas com os agentes da pol\u00edcia pol\u00edtica, prometendo-lhes a justi\u00e7a que, para tantos, nunca chegou. Nas r\u00e1dios, quando a can\u00e7\u00e3o queria ser, segundo Fernando Tordo, \u201cquase como um notici\u00e1rio\u201d, ouvia-se com letra de Ary dos Santos, o Fado de Alcoentre: \u201cQue se passa? Ent\u00e3o isto n\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a? Ali andou m\u00e3ozinha de rea\u00e7a. Deixaram fugir mais oitenta e nove\u2026\u201d<\/p>\n<p>Entre os foragidos, 33 acabaram por ser detidos nos dias seguintes \u00e0 evas\u00e3o, mas ficaram por apurar as responsabilidades. Como tanta coisa neste pa\u00eds, a investiga\u00e7\u00e3o prometida ficou para depois de a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica acalmar. Depois de a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica acalmar, j\u00e1 n\u00e3o fazia sentido investigar coisa alguma. A culpa morreu solteira sem culpados pela fuga e Vale de Judeus continuou a ser um lugar de deten\u00e7\u00e3o (e de outras fugas).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"No \u00faltimo m\u00eas de Julho, H\u00e9lder Malheiro e Augusto Dinis, de 37 e 44 anos, assinalaram com pompa&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":37482,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[27,28,6916,1404,15,16,14,25,26,21,22,12,13,19,20,6918,6917,32,23,24,33,58,17,18,29,30,31],"class_list":{"0":"post-37481","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-portugal","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-cromos-do-verao-quente","11":"tag-cronica","12":"tag-featured-news","13":"tag-featurednews","14":"tag-headlines","15":"tag-latest-news","16":"tag-latestnews","17":"tag-main-news","18":"tag-mainnews","19":"tag-news","20":"tag-noticias","21":"tag-noticias-principais","22":"tag-noticiasprincipais","23":"tag-p2-verao","24":"tag-p2-verao-2025","25":"tag-portugal","26":"tag-principais-noticias","27":"tag-principaisnoticias","28":"tag-pt","29":"tag-sociedade","30":"tag-top-stories","31":"tag-topstories","32":"tag-ultimas","33":"tag-ultimas-noticias","34":"tag-ultimasnoticias"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37481","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37481"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37481\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/37482"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37481"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37481"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37481"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}