{"id":376548,"date":"2026-05-10T21:00:12","date_gmt":"2026-05-10T21:00:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/376548\/"},"modified":"2026-05-10T21:00:12","modified_gmt":"2026-05-10T21:00:12","slug":"gerard-e-david-as-fotografias-de-um-pai-nas-palavras-de-um-filho-exposicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/376548\/","title":{"rendered":"G\u00e9rard e David: as fotografias de um pai nas palavras de um filho | Exposi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 o regresso a um lugar onde j\u00e1 se tinham encontrado, em 2001, mas desta feita com uma invers\u00e3o de pap\u00e9is. Primeiro, foi o pai, G\u00e9rard Castello-Lopes (1925-2011), a mostrar dezenas de fotografias que tirou ao filho, David, quando este celebrava 20 anos, numa exposi\u00e7\u00e3o no Arquivo Fotogr\u00e1fico, em Lisboa (o tal lugar); agora \u00e9 o filho a olhar para o legado do pai atrav\u00e9s de uma retrospectiva em modo \u201cbest of pessoal\u201d, na qual tamb\u00e9m escreve comoventes, \u00edntimos e reveladores apontamentos n\u00e3o apenas sobre as imagens de G\u00e9rard, como tamb\u00e9m sobre muitas das alegrias e algumas das encruzilhadas que marcaram a sua vida. Escolhemos 13 desses d\u00edpticos multiplicadores de sentido, que nos d\u00e3o novas perspectivas de leitura da obra de um dos mais relevantes fot\u00f3grafos portugueses de sempre. <strong>S.B.G.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Paris, 1999<\/strong><\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        &#13;<br \/>\n                    &#13;<\/p>\n<p>Sou eu em segundo plano, com a minha T-shirt Nike Air. Esta fotografia foi uma ideia minha: um retrato duplicado por um auto-retrato no espelho do arm\u00e1rio de casa de banho do nosso apartamento. Tirei uma fotografia segundo esse princ\u00edpio e o meu pai disse: \u201cSim, boa ideia, vou fazer o mesmo.\u201d E fez. Melhor. E isso irritou-me.<\/p>\n<p><strong>Lisboa, 1957<\/strong><\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        &#13;<br \/>\n                    &#13;<\/p>\n<p>O meu pai dizia sempre que as pessoas realmente pobres e as pessoas realmente ricas aceitam facilmente ser fotografadas de passagem. Quem realmente n\u00e3o gosta s\u00e3o os pequenos burgueses. E isso v\u00ea-se. H\u00e1 armas de fogo nos olhos desta senhora.<\/p>\n<p><strong>Chambord, 1984<\/strong><\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        &#13;<br \/>\n                    &#13;<\/p>\n<p>\u00c9 sempre uma alegria ver, no mundo que nos rodeia, formas elementares. A curva de uma torre, o tri\u00e2ngulo de um peda\u00e7o de relvado, o rect\u00e2ngulo de um tanque. Deve haver algo que nos reconduz \u00e0 simplicidade dos jogos educativos da primeira inf\u00e2ncia, em que \u00e9 preciso encaixar os c\u00edrculos nos c\u00edrculos e os quadrados nos quadrados. E como n\u00e3o gostar destas duas personagens min\u00fasculas, que d\u00e3o a escala monumental da paisagem que as rodeia.<\/p>\n<p><strong>Cascais, 1987<\/strong><\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        &#13;<br \/>\n                    &#13;<\/p>\n<p>O meu pai disse muitas vezes que, na sua segunda fase fotogr\u00e1fica (a partir de 1982), se tinha dedicado a \u201crevelar o paradoxo das apar\u00eancias\u201d, paradoxo que considerava particularmente evidente nesta fotografia. Nunca compreendi verdadeiramente o que queria dizer com isso. Em contrapartida, muitas imagens da sua segunda fase \u2014 em particular esta \u2014 revelam, a meu ver, o paradoxo da fotografia: tirando partido do car\u00e1cter mec\u00e2nico do registo da luz, que confere \u00e0s imagens um selo de verdade, a fotografia tem, na realidade, o poder de trair subtilmente a confian\u00e7a que inspira. O objecto desta fotografia \u00e9 uma realidade objectiva: um rochedo que emerge do mar. A impress\u00e3o que transmite \u00e9 uma mentira: tr\u00eas mil toneladas de pedra que parecem voar sobre a \u00e1gua.<\/p>\n<p><strong>\u00d3bidos, 1957<\/strong><\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        &#13;<br \/>\n                    &#13;<\/p>\n<p>O sol abrasador portugu\u00eas de meio da tarde. Est\u00e1 demasiado calor para sair. Por isso, ficamos em casa, atr\u00e1s das paredes espessas de casas com 200 anos. Parece uma cena de western. Algu\u00e9m est\u00e1 prestes a morrer sob o sol. Voltei l\u00e1 em 2021.<\/p>\n<p><strong>Roma, 1958<\/strong><\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        &#13;<br \/>\n                    &#13;<\/p>\n<p>Nos anos 1950 e 60, a It\u00e1lia era um dos principais produtores de cinema do mundo. O meu pai, que era distribuidor de filmes, deslocava-se frequentemente para l\u00e1 em trabalho. Dos quatro padres, um est\u00e1 prestes a repreender o meu pai, outro esconde o rosto. Os dois \u00fanicos que parecem serenos ainda n\u00e3o viram que o meu pai os est\u00e1 a fotografar.<\/p>\n<p><strong>Figueira do Guincho, 1988<\/strong><\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        &#13;<br \/>\n                    &#13;<\/p>\n<p>Era na nossa casa de campo, a 40 quil\u00f3metros a noroeste de Lisboa. Havia um pequeno p\u00e1tio, coberto por uma esp\u00e9cie de tapete feito de canas de bambu, que servia de tecto. Essas canas n\u00e3o eram regulares e deixavam, por isso, passar a luz do sol. O meu pai disse-me: \u201cN\u00e3o te mexas\u201d e foi buscar a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica para imortalizar esse bumerangue de sol na minha nuca. Eu tinha seis anos e meio.<\/p>\n<p><strong>Paris, anos 1950<\/strong><\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        &#13;<br \/>\n                    &#13;<\/p>\n<p>O meu pai s\u00f3 exp\u00f4s esta fotografia muito mais tarde, porque via nela um artif\u00edcio f\u00e1cil de composi\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o \u00e9 totalmente falso. Mas, ainda assim, que equil\u00edbrio! E que prazer ver estas pessoas reduzidas a pequenos berlindes pousados na relva.<\/p>\n<p><strong>Bruxelas, 1958<\/strong><\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        &#13;<br \/>\n                    &#13;<\/p>\n<p>Demorei a perceber o que me agradava nesta fotografia. Mas acabei por encontrar a resposta: \u00e9 que este casal de meia-idade t\u00edpico da pequena burguesia parece ser o oposto do Atomium, ultramoderno e futurista, sendo ao mesmo tempo quase t\u00e3o geom\u00e9trico quanto ele \u2014 a senhora \u00e9 um rect\u00e2ngulo, o homem um tri\u00e2ngulo, ambos com uma esfera no topo.<\/p>\n<p><strong>Lisboa, 1998<\/strong><\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        &#13;<br \/>\n                    &#13;<\/p>\n<p>Era o ano da Exposi\u00e7\u00e3o Universal de Lisboa. Barcos tur\u00edsticos navegavam na bruma. Tudo \u00e9 belo nesta fotografia. Esta vaga estranha parece colada \u00e0 superf\u00edcie da \u00e1gua. O efeito poeticamente c\u00f3mico deste barco cortado a meio. Como se a fotografia tivesse sido tirada um pouco tarde demais.<\/p>\n<p><strong>Algarve, 1957<\/strong><\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        &#13;<br \/>\n                    &#13;<\/p>\n<p>Para onde olham? N\u00e3o sabemos. E, se o soub\u00e9ssemos, talvez fosse um pouco menos interessante.<\/p>\n<p><strong>Verdun, 2000<\/strong><\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        &#13;<br \/>\n                    &#13;<\/p>\n<p>A partir dos 17 anos, quis ser fot\u00f3grafo, como o meu pai. Houve, portanto, um breve per\u00edodo em que tir\u00e1mos fotografias juntos. Nesse dia, visit\u00e1vamos o cemit\u00e9rio de Douaumont, onde est\u00e3o enterrados muitos dos soldados mortos durante a Batalha de Verdun. Toda a for\u00e7a desta fotografia reside no facto de que \u2014 completamente absorvidos pela massa tranquila do tronco cortado e pela pureza dessa silhueta surpreendente, cuja natureza vegetal \u00e9 apenas evocada por um ramo que se projecta \u00e0 esquerda \u2014 demoramos algum tempo a reparar nas cruzes. A sua multiplicidade surge ent\u00e3o discretamente e confere, ao mesmo tempo, ao tronco cortado e \u00e0 silhueta do arbusto um car\u00e1cter absurdo e ligeiramente engra\u00e7ado. A fotografia que eu tirei \u00e9 muito inferior.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u00c9 o regresso a um lugar onde j\u00e1 se tinham encontrado, em 2001, mas desta feita com uma&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":376549,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[144],"tags":[207,205,206,1753,203,201,202,1413,204,114,115,698,981,2085,797,8219,32,33],"class_list":{"0":"post-376548","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-arte-e-design","8":"tag-arte","9":"tag-arte-e-design","10":"tag-artedesign","11":"tag-artes","12":"tag-arts","13":"tag-arts-and-design","14":"tag-artsanddesign","15":"tag-cultura-ipsilon","16":"tag-design","17":"tag-entertainment","18":"tag-entretenimento","19":"tag-exposicao","20":"tag-familia","21":"tag-fotografia","22":"tag-lisboa","23":"tag-p2","24":"tag-portugal","25":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/376548","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=376548"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/376548\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/376549"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=376548"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=376548"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=376548"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}