{"id":377058,"date":"2026-05-11T09:14:17","date_gmt":"2026-05-11T09:14:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/377058\/"},"modified":"2026-05-11T09:14:17","modified_gmt":"2026-05-11T09:14:17","slug":"maes-solo-no-brasil-superam-tamanho-da-populacao-de-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/377058\/","title":{"rendered":"M\u00e3es solo no Brasil superam tamanho da popula\u00e7\u00e3o de Portugal"},"content":{"rendered":"<p>Acordar \u00e0s 6h, preparar o caf\u00e9 da manh\u00e3, arrumar a filha, caminhar por cinco quarteir\u00f5es para deixar a menina na escola e j\u00e1 partir para mais um dia de trabalho. Ao final do expediente, por volta das 16h, passar na escola, pegar a filha e retornar para casa onde a rotina ainda inclui fazer o jantar, lavar a lou\u00e7a, a roupa e os demais afazeres que uma crian\u00e7a de 6 anos demanda. H\u00e1 4 anos essa \u00e9 a rotina da faxineira Lucimara Dias Castro, de 35 anos, moradora de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto (SP), que cria sozinha a filha.<\/p>\n<p>Lucimara chegou a morar junto com o pai da menina, mas quando o relacionamento acabou ela ficou com a guarda unilateral da filha, assumindo tudo \u2013 desde os cuidados di\u00e1rios, educa\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo a quest\u00e3o financeira.<\/p>\n<p>&#8220;Quando me separei, o pai dela mudou de cidade, e n\u00e3o tivemos mais contato. Como ele n\u00e3o liga para ela, tento ao m\u00e1ximo n\u00e3o deixar minha filha sentir essa aus\u00eancia. Independentemente de como eu estou, eu fa\u00e7o de tudo para que ela esteja bem e n\u00e3o falte nada&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Mais de 11 milh\u00f5es criam os filhos sozinhas<\/p>\n<p>Mulheres como a Lucimara, que assumem sozinhas os cuidados e gastos dos filhos, s\u00e3o comuns no Brasil. Dados do \u00faltimo levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Economia aponta que o pa\u00eds ultrapassou a marca de 11 milh\u00f5es de m\u00e3es que criam os filhos sozinhas. Apenas entre 2012 e 2022, foram 1,7 milh\u00e3o de novas m\u00e3es solo, passando de 9,6 milh\u00f5es para 11,3 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a maior parte das m\u00e3es solo (72,4%) vive\u00a0em domic\u00edlios monoparentais, sendo compostos apenas por elas e os filhos, ou seja, n\u00e3o moram com familiares que poderiam ajudar nas responsabilidades ou afazeres di\u00e1rios, deixando ainda mais evidente a sobrecarga que essas mulheres carregam.<\/p>\n<p>Dados complementares mostram que 15% dos lares brasileiros s\u00e3o chefiados por m\u00e3es solo, e a maioria dessas mulheres que criam os filhos sozinhas s\u00e3o negras.<\/p>\n<p>&#8220;Filho \u00e9 responsabilidade 50% do pai e 50% da m\u00e3e, quando um n\u00e3o faz, o outro automaticamente precisa fazer e fica sobrecarregado&#8221;, diz a especialista comercial Adriane Rodrigues, de 45 anos, e m\u00e3e solo de dois meninos: Pedro, de 19 anos e Enzo, de\u00a05.\u00a0<\/p>\n<p>Com filhos com idades bastante diferentes, ela viveu dois per\u00edodos como m\u00e3e solo. Primeiro do filho mais velho, quando ela se divorciou e passou a assumir a cria\u00e7\u00e3o total do menino, incluindo a parte financeira e depois com o filho mais novo, que ela cria sozinha desde quando ele tinha 10 meses.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje o Pedro, por j\u00e1 ser jovem, me ajuda bastante com os cuidados com o irm\u00e3o mais novo e tamb\u00e9m tenho minha m\u00e3e que, apesar de n\u00e3o morar muito perto, \u00e9 algu\u00e9m com quem eu posso contar. Mas por duas vezes eu precisei me reinventar e ser resiliente. Costumo dizer que m\u00e3e solo n\u00e3o tem tempo de chorar, \u00e9 preciso sempre seguir, porque meus filhos dependem de mim&#8221;, acrescenta Adriane.<\/p>\n<p>Sobrecarga<\/p>\n<p>O termo &#8220;solo&#8221; n\u00e3o se refere apenas a estar sem companheiro, mas abrange a totalidade das responsabilidades que recaem exclusivamente sobre os ombros da m\u00e3e. A <a class=\"internal-link\" href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/maternidade\/t-67212936\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">maternidade<\/a> por si s\u00f3 j\u00e1 traz consigo uma s\u00e9rie de novas obriga\u00e7\u00f5es para as mulheres. No caso das m\u00e3es solo, essas responsabilidades s\u00e3o intensificadas pela falta de partilha, o que gera grande sobrecarga.\u00a0<\/p>\n<p>E \u00e9 exatamente essa sobrecarga, que Iara Pereira de Andrade, 46 anos, considera a parte mais desafiadora no cuidado com as filhas. M\u00e3e solo, ela mora com duas das tr\u00eas filhas, sendo uma de 16 anos e outra de 11. Sem o aux\u00edlio do genitor, ela se desdobra para conciliar trabalho, casa e educa\u00e7\u00e3o das filhas.<\/p>\n<p>&#8220;Se fica doente \u00e9 voc\u00ea quem cuida, quem levanta \u00e0 noite para medicar e leva ao m\u00e9dico quando precisa. \u00c9 voc\u00ea que acompanha os estudos e se ela est\u00e1 se alimentando direito. Ent\u00e3o, a maior dificuldade \u00e9 essa carga da responsabilidade. Eu sei que mesmo numa fam\u00edlia padr\u00e3o, a m\u00e3e acaba ficando com a carga maior de cuidar dos filhos, mas quando voc\u00ea tem com quem dividir, n\u00e3o fica t\u00e3o pesado. E o dividir n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a parte do acompanhamento, tem a parte financeira tamb\u00e9m&#8221;, comenta Iara.<\/p>\n<p>Limita\u00e7\u00f5es e press\u00e3o social<\/p>\n<p>Al\u00e9m da responsabilidade de cuidado e financeira, as m\u00e3es solo acumulam fun\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas, o que limita o tempo dispon\u00edvel para o lazer e qualifica\u00e7\u00e3o profissional.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o ainda muito enfrentada por essas mulheres \u00e9 a press\u00e3o social, que existe at\u00e9 hoje. Ser m\u00e3e solo ainda \u00e9 estigmatizado e pode levar a julgamentos. Nesse cen\u00e1rio, o apoio emocional muitas vezes \u00e9 limitado, fazendo com que, al\u00e9m de toda a sobrecarga, essas m\u00e3es se sintam solit\u00e1rias e desamparadas.<\/p>\n<p>&#8220;Quando me separei, uma amiga, casada, me contou que o marido havia falado que n\u00e3o achava \u2018legal&#8217; ela continuar a amizade, uma vez que eu estava solteira. Ent\u00e3o, parece que voc\u00ea fica com carimbo. Infelizmente a sociedade traz esse pensamento machista&#8221;, completa Iara.\u00a0<\/p>\n<p><img data-format=\"MASTER_LANDSCAPE\" data-id=\"76974346\" data-url=\"https:\/\/static.dw.com\/image\/76974346_${formatId}.jpg\" data-aspect-ratio=\"16\/9\" alt=\"Iara Pereira de Andrade e duas de suas filhas, em selfie no espelho\" style=\"padding-bottom: 56.25%; height: 0; max-height: 0;\"\/>Iara e duas de suas tr\u00eas filhas: sem o aux\u00edlio do genitor, ela se desdobra para conciliar trabalho, casa e educa\u00e7\u00e3o das filhasFoto: Personal Archive<\/p>\n<p>Na busca por emprego, curr\u00edculo \u00e9 posto de lado<\/p>\n<p>&#8220;Com quem seus filhos v\u00e3o ficar enquanto voc\u00ea trabalha?&#8221; A pergunta costuma ser feita com frequ\u00eancia \u00e0s mulheres, m\u00e3es, que buscam recoloca\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho ou disputam um novo cargo. O peso do questionamento fica ainda maior se a mulher \u00e9 m\u00e3e solo. Nesse cen\u00e1rio, outras perguntas costumam surgir por parte dos recrutadores, como &#8220;quando a crian\u00e7a fica doente, quem cuida?&#8221;, &#8220;e o genitor&#8221;?<\/p>\n<p>Buscando por recoloca\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho, Iara diz que enfrenta essas perguntas com frequ\u00eancia. Mesmo tendo forma\u00e7\u00e3o e 15 anos de experi\u00eancia como secret\u00e1ria executiva, muitas vezes o curr\u00edculo \u00e9 deixado de lado e o questionamento sobre os filhos se torna o assunto principal nas entrevistas de emprego.<\/p>\n<p>&#8220;Durante um processo seletivo, a pessoa me perguntou quem levaria minha filha ao m\u00e9dico,\u00a0j\u00e1 que sou divorciada. Na hora eu fiquei impactada, eu n\u00e3o esperava esse tipo de questionamento, at\u00e9 porque eu quero me dedicar ao trabalho, quero ser reconhecida e valorizada pelo que sei fazer. Mas quando voc\u00ea pensa que vai ter que escolher entre o trabalho e o seu filho, \u00e9 uma quest\u00e3o muito delicada&#8221;, diz Iara.<\/p>\n<p>Desigualdade de g\u00eanero, ra\u00e7a e renda<\/p>\n<p>E essa quest\u00e3o vai muito al\u00e9m. A pesquisadora Mariene Ramos, que \u00e9 m\u00e3e solo, estudou o mercado de trabalho das m\u00e3es solo\u00a0no Brasil em seu mestrado em pol\u00edticas p\u00fablicas no Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea) e aponta que essas mulheres enfrentam uma combina\u00e7\u00e3o de desigualdades de g\u00eanero, ra\u00e7a e renda.\u00a0<\/p>\n<p>O estudo foi feito a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (Pnad) Cont\u00ednua do IBGE, de 2022, e mostrou que m\u00e3es solo apresentaram o menor rendimento m\u00e9dio entre os arranjos familiares, com sal\u00e1rio m\u00e9dio de R$2.322. O valor \u00e9 cerca de 40% menor do que o de pais com c\u00f4njuge (R$3.869) e 11,5% menor que o das m\u00e3es que vivem com parceiros (R$2.625).\u00a0<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, 21,9% das m\u00e3es solo trabalham como empregadas dom\u00e9sticas, n\u00famero superior ao\u00a0de m\u00e3es com c\u00f4njuge (11,8%) e quase 27 vezes maior que ao de pais acompanhados (0,8%). Vale lembrar que, diferentemente de m\u00e3es solo, pessoas com c\u00f4njuge contam ainda com o rendimento do parceiro para compor a renda familiar.<\/p>\n<p>A pesquisa tamb\u00e9m apontou que 60% das m\u00e3es que cuidam sozinhas dos seus lares s\u00e3o negras. Al\u00e9m disso, quase 15% das fam\u00edlias brasileiras s\u00e3o lideradas por m\u00e3es solo, com maior concentra\u00e7\u00e3o nas regi\u00f5es Norte e Nordeste.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Historicamente a profiss\u00e3o de dom\u00e9stica \u00e9 desvalorizada, e vemos que as m\u00e3es solos s\u00e3o a maioria. Essa pesquisa foi justamente para tra\u00e7ar o perfil dessas mulheres e mostrar que grande parte vive em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, e precisamos quebrar esse ciclo&#8221;, diz a pesquisadora.<\/p>\n<p>Falta de pol\u00edticas p\u00fablicas espec\u00edficas<\/p>\n<p>A falta de pol\u00edticas p\u00fablicas espec\u00edficas agrava a situa\u00e7\u00e3o. A pesquisadora destaca que a aus\u00eancia de creches acess\u00edveis e de programas de transfer\u00eancia de renda adequados limita a autonomia dessas mulheres.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o mais de 11 milh\u00f5es de m\u00e3es solo no Brasil, esse n\u00famero \u00e9 maior do que a da popula\u00e7\u00e3o de <a class=\"internal-link\" href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/portugal\/t-17438665\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Portugal<\/a>, por exemplo. O Brasil tem um pa\u00eds de m\u00e3es solo,\u00a0e precisamos olhar para elas&#8221;, diz Mariene. A popula\u00e7\u00e3o de Portugal segundo dados do pa\u00eds \u00e9 de 10,8 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Para a pesquisadora, faltam projetos voltados \u00e0 essas mulheres para que elas possam se desenvolver profissionalmente e ter maior autonomia.<\/p>\n<p>&#8220;O Estado precisa dar autonomia para essa m\u00e3e, como oferecer creches e escolas de qualidade e em tempo integral para que elas consigam trabalhar. E tamb\u00e9m ter projetos para qualificar essas mulheres, para que elas consigam ter melhores condi\u00e7\u00f5es de emprego. Assim elas poder\u00e3o melhorar a pr\u00f3pria vida e dar mais qualidade de vida aos filhos, quebrando esse ciclo&#8221;, acrescenta a pesquisadora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Acordar \u00e0s 6h, preparar o caf\u00e9 da manh\u00e3, arrumar a filha, caminhar por cinco quarteir\u00f5es para deixar a&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":377059,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[27,28,15,16,14,25,26,21,22,62,12,13,19,20,23,24,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":{"0":"post-377058","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-featured-news","11":"tag-featurednews","12":"tag-headlines","13":"tag-latest-news","14":"tag-latestnews","15":"tag-main-news","16":"tag-mainnews","17":"tag-mundo","18":"tag-news","19":"tag-noticias","20":"tag-noticias-principais","21":"tag-noticiasprincipais","22":"tag-principais-noticias","23":"tag-principaisnoticias","24":"tag-top-stories","25":"tag-topstories","26":"tag-ultimas","27":"tag-ultimas-noticias","28":"tag-ultimasnoticias","29":"tag-world","30":"tag-world-news","31":"tag-worldnews"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116555184194413966","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/377058","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=377058"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/377058\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/377059"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=377058"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=377058"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=377058"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}