{"id":377375,"date":"2026-05-11T14:15:55","date_gmt":"2026-05-11T14:15:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/377375\/"},"modified":"2026-05-11T14:15:55","modified_gmt":"2026-05-11T14:15:55","slug":"o-que-se-passa-na-nova-sbe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/377375\/","title":{"rendered":"O que se passa na Nova SBE?"},"content":{"rendered":"<p>Muito se tem escrito sobre o que se passa na Nova SBE nos \u00faltimos tempos. Esses temas s\u00e3o importantes. Mas entre especula\u00e7\u00f5es, interpreta\u00e7\u00f5es e ru\u00eddo, talvez valha a pena abrir um pouco a porta e mostrar algumas das coisas que realmente se passam dentro da escola. N\u00e3o s\u00e3o provavelmente aquelas que o leitor espera encontrar nas manchetes. S\u00e3o mais silenciosas e aparentemente menos interessantes. Porque aquilo que ocupa diariamente muitos dos corredores, gabinetes e salas da Nova SBE n\u00e3o s\u00e3o temas institucionais, mas perguntas dif\u00edceis sobre o mundo \u2014 e tentativas s\u00e9rias de lhes responder.<\/p>\n<p>As universidades existem para ensinar. Mas ensinar bem implica mais do que transmitir mat\u00e9ria j\u00e1 conhecida. Exige contacto permanente com a fronteira do conhecimento, com problemas ainda mal compreendidos, com ideias que est\u00e3o a ser testadas pela primeira vez. Uma escola deixa de ser verdadeiramente universit\u00e1ria quando deixa de investigar e treinar, de forma repetida, o m\u00e9todo cient\u00edfico. E aquilo que se investiga acaba inevitavelmente por moldar o que, e como, se ensina.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, os professores e investigadores da Nova SBE t\u00eam participado em trabalhos publicados em algumas das revistas cient\u00edficas mais exigentes e prestigiadas do mundo. Trata-se de uma performance na \u00e1rea sem paralelo em Portugal, estudando temas que v\u00e3o da criminalidade urbana \u00e0 migra\u00e7\u00e3o qualificada, das decis\u00f5es de m\u00e3es em zonas rurais do Paquist\u00e3o ao funcionamento do mercado obrigacionista americano. Apesar da sua diversidade, todos procuram compreender melhor como as pessoas decidem, como as institui\u00e7\u00f5es funcionam, e porque \u00e9 que algumas sociedades conseguem criar prosperidade enquanto outras permanecem bloqueadas.<\/p>\n<p>Foco-me apenas em 8 dos 40 artigos cient\u00edficos publicados em revistas de topo por investigadores da Nova SBE em 2025. Est\u00e3o todos acess\u00edveis na Internet, ou atrav\u00e9s de contacto direto com os autores.<\/p>\n<p>Num estudo publicado na Econometrica, o professor Nikita Melnikov e coautores estudam o impacto territorial dos gangues em El Salvador. O artigo explora um fen\u00f3meno quase cinematogr\u00e1fico: ap\u00f3s altera\u00e7\u00f5es na pol\u00edtica migrat\u00f3ria americana nos anos 1990, membros de gangues foram deportados dos EUA para El Salvador, onde recriaram sistemas de controlo territorial semelhantes aos de Los Angeles. O resultado? Pessoas que vivem literalmente 50 metros dentro de uma zona controlada por gangues apresentam piores rendimentos, menor mobilidade laboral e piores condi\u00e7\u00f5es de vida do que pessoas do outro lado da fronteira invis\u00edvel. O mecanismo central n\u00e3o \u00e9 apenas viol\u00eancia: \u00e9 a restri\u00e7\u00e3o da mobilidade quotidiana. A capacidade \u2014 ou incapacidade \u2014 de atravessar a cidade para trabalhar.<\/p>\n<p>Noutro extremo do mundo, os professores C\u00e1tia Batista e Pedro Vicente estudaram o impacto do \u201cmobile money\u201d em zonas rurais de Mo\u00e7ambique. O trabalho mostra que permitir transfer\u00eancias monet\u00e1rias por telem\u00f3vel melhora a capacidade das fam\u00edlias lidarem com choques econ\u00f3micos e clim\u00e1ticos. Curiosamente, por\u00e9m, o efeito n\u00e3o \u00e9 apenas \u201cmais tecnologia, mais desenvolvimento\u201d. O estudo sugere tamb\u00e9m que o acesso a dinheiro m\u00f3vel facilita a migra\u00e7\u00e3o rural, ao tornar mais simples o envio de remessas. Ou seja: uma tecnologia financeira aparentemente simples altera estruturas familiares, padr\u00f5es migrat\u00f3rios e decis\u00f5es de investimento.<\/p>\n<p>A migra\u00e7\u00e3o surge ali\u00e1s repetidamente como tema central. Num artigo recente na Science, a professora C\u00e1tia Batista e coautores discutem uma das grandes quest\u00f5es do debate contempor\u00e2neo: quando profissionais qualificados emigram, os pa\u00edses de origem perdem talento \u2014 ou acabam por ganhar? A resposta \u00e9 mais subtil do que o slogan \u201cbrain drain\u201d. Em muitos casos, a possibilidade de emigrar aumenta o incentivo para adquirir educa\u00e7\u00e3o, gera remessas, cria redes internacionais e pode at\u00e9 estimular novos sectores econ\u00f3micos nos pa\u00edses de origem.<\/p>\n<p>Mas a investiga\u00e7\u00e3o feita na Nova SBE n\u00e3o se centra apenas em pa\u00edses em desenvolvimento ou grandes fen\u00f3menos geopol\u00edticos. H\u00e1 tamb\u00e9m trabalhos sobre quest\u00f5es muito concretas do quotidiano das economias modernas.<\/p>\n<p>Um exemplo \u00e9 o debate sobre a semana de quatro dias. Num artigo recente no British Medical Journal, o professor Pedro Pita Barros e coautores perguntam se o NHS brit\u00e2nico estaria preparado para esse modelo. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apresentada como uma utopia ideol\u00f3gica, mas como um problema econ\u00f3mico e organizacional complexo: menos burnout poder\u00e1 significar menos absentismo, menos erros e maior reten\u00e7\u00e3o de profissionais \u2014 mas em sa\u00fade os ganhos de produtividade t\u00eam limites muito diferentes dos de outros sectores\u2026<\/p>\n<p>Outro trabalho, do professor Nicholas Hirschey e coautores, analisa o gigantesco mercado de d\u00edvida municipal dos Estados Unidos \u2014 o sistema que financia escolas, estradas ou sistemas de \u00e1gua. O artigo mostra como mercados aparentemente sofisticados podem continuar surpreendentemente ineficientes e caros, penalizando contribuintes e investidores atrav\u00e9s de custos escondidos e falta de transpar\u00eancia. O estudo tem li\u00e7\u00f5es claras, relevantes para a nossa governa\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m investiga\u00e7\u00e3o sobre empreendedorismo. O professor Miguel Ferreira e coautores utilizaram a lotaria de Natal espanhola para estudar o impacto de choques inesperados de riqueza na cria\u00e7\u00e3o de empresas. O resultado \u00e9 claro: acesso inicial a capital aumenta significativamente a cria\u00e7\u00e3o de novos neg\u00f3cios e emprego. Muitas vezes, a diferen\u00e7a entre uma ideia permanecer apenas uma ideia ou transformar-se numa empresa depende simplesmente da possibilidade de suportar o risco inicial.<\/p>\n<p>Nem toda a investiga\u00e7\u00e3o se centra em mercados ou desenvolvimento econ\u00f3mico. A professora Melissa Prado e coautores estudaram a rela\u00e7\u00e3o entre diversidade ideol\u00f3gica e desempenho de equipas de gest\u00e3o financeira nos Estados Unidos. O trabalho sugere algo simultaneamente intuitivo e provocador: equipas com perspectivas pol\u00edticas diferentes tendem a tomar melhores decis\u00f5es \u2014 at\u00e9 ao ponto em que a polariza\u00e7\u00e3o transforma diversidade em conflito improdutivo.<\/p>\n<p>E h\u00e1 ainda investiga\u00e7\u00e3o sobre a pr\u00f3pria ci\u00eancia. O professor Paolo Leone e coautores estudaram um tema cada vez mais importante: como criar sistemas de ci\u00eancia aberta, em que dados, c\u00f3digo e conhecimento possam ser partilhados de forma transparente sem destruir os incentivos individuais \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o. Parece um tema interno \u00e0 academia, mas afecta directamente a credibilidade da ci\u00eancia moderna e a velocidade a que novos conhecimentos conseguem ser produzidos.<\/p>\n<p>Talvez o aspecto mais interessante desta diversidade de temas seja precisamente aquilo que ela revela sobre uma escola moderna. Uma universidade n\u00e3o \u00e9 apenas um lugar onde se repetem conhecimentos estabilizados. \u00c9 um lugar onde se tenta perceber coisas que ainda n\u00e3o compreendemos completamente. Onde pessoas passam anos a investigar uma pergunta que ningu\u00e9m conseguiu \u201catacar\u201d antes. Onde se analisam dados de bairros controlados por gangues, aldeias mo\u00e7ambicanas, mercados financeiros americanos ou decis\u00f5es familiares no Paquist\u00e3o, n\u00e3o porque esses temas estejam \u201cna moda\u201d, mas porque ajudam a compreender melhor a condi\u00e7\u00e3o humana, as institui\u00e7\u00f5es e os limites das sociedades em que vivemos.<\/p>\n<p>O esp\u00edrito cient\u00edfico \u00e9 talvez uma das coisas mais dif\u00edceis de explicar \u2014 mas uma das mais importantes de preservar. A ideia de que o conhecimento n\u00e3o surge de slogans, de certezas instant\u00e2neas ou de posi\u00e7\u00f5es pr\u00e9-definidas, mas de d\u00favida disciplinada, curiosidade genu\u00edna e disponibilidade para descobrir que a realidade \u00e9 mais complexa do que gostar\u00edamos. Investigar \u00e9 aceitar viver na incerteza. \u00c9 fazer perguntas sem garantia de encontrar respostas simples.<\/p>\n<p>E \u00e9 tamb\u00e9m esse ambiente que se vive diariamente na Nova SBE. Um ambiente de debate, descoberta, experimenta\u00e7\u00e3o e confronto de ideias. Um ambiente onde professores, \u00a0investigadores, e alunos tentam compreender melhor o mundo. Porque, no fim, talvez seja isso que define melhor uma universidade: um lugar onde o conhecimento ainda est\u00e1 vivo, ainda incompleto, e ainda em constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Muito se tem escrito sobre o que se passa na Nova SBE nos \u00faltimos tempos. 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