{"id":378691,"date":"2026-05-12T14:11:28","date_gmt":"2026-05-12T14:11:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/378691\/"},"modified":"2026-05-12T14:11:28","modified_gmt":"2026-05-12T14:11:28","slug":"servir-o-pais-nao-se-compra-exige-se-com-verdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/378691\/","title":{"rendered":"Servir o Pa\u00eds n\u00e3o se compra \u2014 exige-se com verdade"},"content":{"rendered":"<p>Havia uma m\u00e1xima que se ensinava nas academias militares da nossa gera\u00e7\u00e3o: &#8220;A hist\u00f3ria militar \u00e9 para o oficial de Estado-maior o que o cad\u00e1ver \u00e9 para o estudante de Medicina.&#8221; Aprende-se com os mortos para salvar os vivos. Estudavam-se guerras passadas para sobreviver \u00e0s futuras.<\/p>\n<p><strong>Mas o mundo mudou de tal forma que essa equa\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o fecha. <\/strong>As guerras de amanh\u00e3 pouco se parecem com as de ontem, e as solu\u00e7\u00f5es que hoje se prop\u00f5em para refor\u00e7ar as nossas For\u00e7as Armadas parecem sa\u00eddas, essas sim, de um manual desatualizado.<\/p>\n<p>H\u00e1 algo profundamente contradit\u00f3rio no que se passa no Parlamento: os mesmos pol\u00edticos que h\u00e1 20 anos, nas juventudes partid\u00e1rias, militaram pelo fim do Servi\u00e7o Militar Obrigat\u00f3rio s\u00e3o hoje os que mobilizam essas mesmas juventudes para um novo &#8220;des\u00edgnio patri\u00f3tico.&#8221; O mundo mudou. Eles, aparentemente, n\u00e3o. Oferecer uma carta de condu\u00e7\u00e3o numa era em que os ve\u00edculos ser\u00e3o brevemente aut\u00f3nomos tem o mesmo valor simb\u00f3lico que distribuir cartas topogr\u00e1ficas a tropas que j\u00e1 usam GPS, ou ensinar datilografia na era da Intelig\u00eancia Artificial. O gesto \u00e9 bonito, quase nost\u00e1lgico, mas pertence ao cat\u00e1logo do passado. E \u00e9 um mau servi\u00e7o \u00e0 Na\u00e7\u00e3o, \u00e0 Rep\u00fablica, \u00e0s For\u00e7as Armadas e \u00e0 juventude, desde logo porque n\u00e3o perceberam que o problema dos efetivos n\u00e3o \u00e9 das For\u00e7as Armadas \u2014 \u00e9 do Pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>A quest\u00e3o do recrutamento n\u00e3o se coloca apenas em Portugal. <\/strong>Em todos os pa\u00edses da NATO, ap\u00f3s a queda do Muro de Berlim, o desinvestimento nas For\u00e7as Armadas e a ilus\u00e3o de uma paz perp\u00e9tua conduziram ao mesmo resultado. O <strong>exemplo brit\u00e2nico <\/strong>\u00e9 elucidativo: as For\u00e7as Armadas do Reino Unido, frequentemente apontadas como refer\u00eancia, contam hoje com 136.960 militares no ativo \u2014 em 1975 eram 338.000, uma redu\u00e7\u00e3o de cerca de 60% em meio s\u00e9culo. O efetivo operacional real, treinado e experiente, n\u00e3o andar\u00e1 acima dos 125.000, e existe ainda um d\u00e9fice de 8.590 pessoas face ao n\u00famero estipulado pelo governo. Em Portugal, com apenas 24.000 militares, a propor\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais preocupante. Por isso, quando se discute o n\u00e3o envolvimento direto na abertura do Estreito de Ormuz, a raz\u00e3o n\u00e3o \u00e9 tanto o Direito Internacional \u2014 \u00e9 que s\u00f3 se d\u00e1 o que se tem.<\/p>\n<p>Fecharam-se f\u00e1bricas de armamento, desativaram-se unidades militares no interior, curiosamente onde os jovens mais aderem ao servi\u00e7o militar, reduziram-se efetivos, e de repente o mundo desabou.<\/p>\n<p>Os deputados da Comiss\u00e3o de Defesa, depois de finalmente perceberem que existe um novo paradigma l\u00e1 fora, decidiram mostrar trabalho. Fizeram-no da maneira que sabem, na convic\u00e7\u00e3o de estarem a prestar um servi\u00e7o \u00e0s For\u00e7as Armadas \u2014 quando de facto n\u00e3o \u00e9 assim. Isto n\u00e3o se resolve por gera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea nem com medidas \u00e0 margem do conhecimento e da experi\u00eancia. O desfasamento entre a solu\u00e7\u00e3o proposta e a realidade \u00e9 revelador: ignoram que todos os militares j\u00e1 saem das For\u00e7as Armadas habilitados com carta de condu\u00e7\u00e3o. A verdadeira lacuna est\u00e1 nos condutores de ve\u00edculos especiais, pesados, articulados, de mat\u00e9rias perigosas e de combate \u2014 e para isso seis semanas n\u00e3o chegam. Quanto aos demais, arriscam engrossar as plataformas TVDE com forma\u00e7\u00e3o intensiva e experi\u00eancia insuficiente.<\/p>\n<p>Se me permitem a ironia, o \u00fanico ponto verdadeiramente \u00fatil do programa seria a recomenda\u00e7\u00e3o sobre Sa\u00fade Mental, mais pela possibilidade de aplica\u00e7\u00e3o aos pr\u00f3prios deputados, dado o espet\u00e1culo a que temos assistido.<\/p>\n<p><strong>O desacerto \u00e9 profundo<\/strong>: os tr\u00eas principais partidos n\u00e3o foram capazes de perceber, desde o in\u00edcio da discuss\u00e3o, que o drama dos efetivos \u00e9 uma quest\u00e3o de <strong>Cidadania<\/strong>. O que \u00e9 verdadeiramente imoral \u00e9 que, ap\u00f3s o fim do SMO, se continuem a atribuir \u00e0s For\u00e7as Armadas miss\u00f5es em n\u00famero e exig\u00eancia operacional crescentes, sem lhes atribuir os meios correspondentes. Vimo-lo nas recentes tempestades: mais militares e mais meios significariam maior empenhamento e menor sacrif\u00edcio das popula\u00e7\u00f5es. Os militares fazem falta ao Pa\u00eds, e \u00e9 o Pa\u00eds que deve decidir como quer, e se quer, que os jovens fa\u00e7am parte desse esfor\u00e7o coletivo. Para isso, o Comandante Supremo das For\u00e7as Armadas tem de sinalizar esse des\u00edgnio nacional, o primeiro-ministro de liderar o processo, e o ministro, com os Chefes, de operacionaliz\u00e1-lo.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 necess\u00e1rio falar verdade aos jovens, e com clareza.<\/strong> Estas medidas s\u00e3o uma forma engenhosa de adiar a discuss\u00e3o, e nada mais.<\/p>\n<p>Importa reconhecer que o atual ministro Nuno Melo e os Chefes militares t\u00eam feito um trabalho s\u00e9rio, dentro do poss\u00edvel. Muito se avan\u00e7ou. Mas \u00e9 precisamente aqui que reside o n\u00f3 g\u00f3rdio: se queremos que os jovens sirvam o Pa\u00eds, o Pa\u00eds tem de estar \u00e0 altura, garantir condi\u00e7\u00f5es dignas, forma\u00e7\u00e3o com valor futuro, reconhecimento social e liberdade de escolha informada. <strong>Servir n\u00e3o deve ser imposi\u00e7\u00e3o, mas possibilidade<\/strong>: uma entre v\u00e1rias formas de contribuir, seja nas For\u00e7as Armadas, na Prote\u00e7\u00e3o Civil, no voluntariado ou noutras \u00e1reas essenciais.<\/p>\n<p>A melhoria dos sal\u00e1rios, ainda que aqu\u00e9m das m\u00e9dias europeias, e a dignifica\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o j\u00e1 inverteram o ciclo de perdas. \u00c9 por a\u00ed o caminho. Se \u00e9 caro, sim, \u00e9. <strong>Na Defesa nada \u00e9 barato<\/strong>, e o mais caro de tudo s\u00e3o as vidas dos militares. Os partidos atribuem nas suas propostas alguns milh\u00f5es de euros, lavando as m\u00e3os como Pilatos, sem reparar que a lei dos efetivos ainda n\u00e3o foi aprovada, porventura por falta de cabimento or\u00e7amental, e que isso tem tanto ou mais impacto na gest\u00e3o dos recursos humanos como a pr\u00f3pria escassez de pessoal. <strong>Os Ramos <\/strong>sem poderem admitir pra\u00e7as em quadro permanente, com concursos condicionados ou suspensos, ficam paralisados na sua atividade futura. O que os pol\u00edticos deviam fazer, na d\u00favida, era discutir princ\u00edpios e valores, e deixar aos Chefes aquilo que eles sabem fazer melhor: gerir a coisa militar.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 aqui que a m\u00e1xima de Kennedy recupera toda a sua for\u00e7a<\/strong>: &#8220;N\u00e3o perguntem o que o vosso pa\u00eds pode fazer por voc\u00eas perguntem o que voc\u00eas podem fazer pelo vosso pa\u00eds.&#8221; Mas este apelo s\u00f3 faz sentido se for acompanhado de respeito, escuta e oportunidades reais. <strong>Os jovens de hoje n\u00e3o s\u00e3o menos comprometidos, s\u00e3o mais conscientes, mais informados e mais exigentes quanto ao sentido das escolhas que lhes s\u00e3o pedidas.<\/strong> Os meus filhos, \u00e0 quest\u00e3o se gostariam de ir para a tropa, disseram-me com uma simplicidade que me desarmou: &#8220;Oh pai, eu at\u00e9 ia, pela experi\u00eancia, pela aventura, para tu n\u00e3o ires.&#8221; <strong>Nessa frase cabe tudo o que a pol\u00edtica tem ignorado.<\/strong><\/p>\n<p><strong>No final<\/strong>, a pergunta que fica n\u00e3o \u00e9 t\u00e9cnica nem or\u00e7amental.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 moral. <\/strong><\/p>\n<p>Estamos dispostos a ser honestos com os nossos jovens? A dizer-lhes n\u00e3o o que \u00e9 f\u00e1cil de ouvir, mas o que \u00e9 verdadeiro? A exigir-lhes algo, mas tamb\u00e9m a merecer essa exig\u00eancia?<\/p>\n<p>Uma sociedade que s\u00f3 fala de deveres atrav\u00e9s de incentivos materiais perdeu algo essencial: o seu sentido de comunidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o se mobiliza pessoas com ofertas, mobiliza-se com convic\u00e7\u00e3o, prepara\u00e7\u00e3o e confian\u00e7a no pa\u00eds que representam.<\/p>\n<p>Que escolhas t\u00eam os jovens ucranianos perante uma lei marcial? A resposta a essa pergunta deveria bastar-nos.<\/p>\n<p><strong>Servir o pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 uma transa\u00e7\u00e3o. <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma escolha, e para que seja livre, consciente e duradoura, tem de ser constru\u00edda desde cedo: na fam\u00edlia, na escola, na forma como a Rep\u00fablica se relaciona com os seus cidad\u00e3os mais jovens.<\/p>\n<p>O pa\u00eds tem primeiro de se mostrar digno dessa pergunta. \u00c9 essa confian\u00e7a que est\u00e1 em falta. <strong>E isso chama-se Cidadania!<\/strong><\/p>\n<p>Coronel, Consultor de Defesa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Havia uma m\u00e1xima que se ensinava nas academias militares da nossa gera\u00e7\u00e3o: &#8220;A hist\u00f3ria militar \u00e9 para o&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":378692,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[27,28,15,16,14,25,26,21,22,12,13,19,20,32,23,24,33,17,18,29,30,31],"class_list":{"0":"post-378691","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-portugal","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-featured-news","11":"tag-featurednews","12":"tag-headlines","13":"tag-latest-news","14":"tag-latestnews","15":"tag-main-news","16":"tag-mainnews","17":"tag-news","18":"tag-noticias","19":"tag-noticias-principais","20":"tag-noticiasprincipais","21":"tag-portugal","22":"tag-principais-noticias","23":"tag-principaisnoticias","24":"tag-pt","25":"tag-top-stories","26":"tag-topstories","27":"tag-ultimas","28":"tag-ultimas-noticias","29":"tag-ultimasnoticias"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116562014274794286","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/378691","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=378691"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/378691\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/378692"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=378691"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=378691"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=378691"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}