{"id":380438,"date":"2026-05-13T22:54:13","date_gmt":"2026-05-13T22:54:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/380438\/"},"modified":"2026-05-13T22:54:13","modified_gmt":"2026-05-13T22:54:13","slug":"o-pcp-e-o-velho-habito-de-reescrever-a-historia-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/380438\/","title":{"rendered":"O PCP e o velho h\u00e1bito de reescrever a Hist\u00f3ria \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>Esta transcri\u00e7\u00e3o foi gerada automaticamente por Intelig\u00eancia Artificial e pode conter erros ou imprecis\u00f5es.<\/p>\n<p>Bem-vindos ao &#8220;Realpolitik&#8221;, uma conversa sobre pol\u00edtica e atualidade todas as semanas aqui na R\u00e1dio Observador e em podcast tamb\u00e9m. Eu sou o Miguel Pinheiro.<\/p>\n<p>Eu sou o S\u00e9rgio Sousa Pinto.<\/p>\n<p>E hoje, eu e o S\u00e9rgio vamos falar sobre as raz\u00f5es hist\u00f3ricas que nos trouxeram ao estado em que est\u00e1 o Meio Oriente e tamb\u00e9m sobre as li\u00e7\u00f5es que podemos retirar do resultado das elei\u00e7\u00f5es no Reino Unido. Mas antes, S\u00e9rgio, vamos conversar um bocado sobre a rela\u00e7\u00e3o que o PCP tem com a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. H\u00e1 dias morreu Carlos Brito, um dirigente hist\u00f3rico do partido antes e depois do 25 de abril. Mais tarde, ele tornou-se um dissidente, e o PCP emitiu um comunicado na sequ\u00eancia da morte dele, que chocou v\u00e1rias pessoas pela forma curta e fria como se referia a Carlos Brito. Como \u00e9 que tu olhaste pra isto tudo?<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao comunicado ou em rela\u00e7\u00e3o ao desaparecimento do Carlos Brito?<\/p>\n<p>O que tu quiseres, isto \u00e9 um programa livre.<\/p>\n<p>Bom, ent\u00e3o comecemos talvez pelo Carlos Brito. Em primeiro lugar, devo dizer que eu n\u00e3o conheci bem o Carlos Brito. Cruzei-me vagamente com ele e a mem\u00f3ria que guardo dele \u00e9 de um homem extraordinariamente af\u00e1vel, pessoa muito delicada, uma certa timidez, talvez. O Carlos Brito foi um homem extraordin\u00e1rio. Foi um homem que dedicou a vida toda \u00e0 pol\u00edtica e dedicou a vida toda \u00e0 liberdade. Foi dirigente do Partido Comunista, foi um homem muito pr\u00f3ximo de \u00c1lvaro Cunhal. Foi um homem que conheceu a persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica antes do 25 de abril, durante a ditadura. Foi preso, foi torturado, oito anos na pris\u00e3o, alguns anos no ex\u00edlio. Voltou pra Portugal, deputado eleito pelo Partido Comunista, 15 anos l\u00edder parlamentar. Foi um homem que deu tudo \u00e0 pol\u00edtica e a pol\u00edtica nada tirou. Um verdadeiro servidor, um servidor da causa p\u00fablica e um homem excecional. Rompe com o partido quando reconhece que as ditaduras do proletariado e o leninismo puro e duro, que j\u00e1 n\u00e3o existia sen\u00e3o sob a forma caricatural e cadav\u00e9rica no mundo, tinha que ser substitu\u00eddo por um regresso \u00e0 pureza do marxismo, \u00e0 ideia de que as solu\u00e7\u00f5es pra o socialismo n\u00e3o passavam pelas metodologias leninistas. Essa tentativa de pluralismo dentro do PCP foi mal sucedida e ele rompeu com o partido. E a partir do momento em que rompeu com o partido, e aqui entramos na segunda parte da tua quest\u00e3o, teve o tratamento que os partidos comunistas sempre destinaram \u00e0queles que passam a ser personas non gratas. S\u00f3 n\u00e3o foi apagado das fotografias porque essas pr\u00e1ticas s\u00e3o dos anos 20. H\u00e1 fotografias em que a mesma fotografia tem v\u00e1rias vers\u00f5es, com menos uma pessoa, com menos duas pessoas.<\/p>\n<p>Aquelas c\u00e9lebres fotos do Stalin, que primeiro estava com quatro ou cinco pessoas ao lado e depois a dada altura j\u00e1 s\u00f3 estava um.<\/p>\n<p>J\u00e1 s\u00f3 estava um. E, portanto, foi mal tratado pelo seu partido, e que se recolheu \u00e0 sua vida particular, sem estardalha\u00e7o, sem nunca atacar o partido, nem p\u00f4r em causa a sua orienta\u00e7\u00e3o, porque considerava que era seu dever n\u00e3o calar o que n\u00e3o podia ser calado em rela\u00e7\u00e3o a um partido que, do seu ponto de vista, se estava a afastar das exig\u00eancias do seu tempo e da necessidade de se integrar plenamente nos princ\u00edpios democr\u00e1ticos. Eram aqueles anos em que se debatia o centralismo democr\u00e1tico. Como \u00e9 evidente, \u00e9 99% de centralismo e 1% democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>E est\u00e1s a ser generoso.<\/p>\n<p>E estou a ser generoso. E que ele queria mudar, modernizar o partido, queria que o partido fosse diferente, independentemente das raz\u00f5es que existiam, se tinha raz\u00e3o, se n\u00e3o tinha. Era um comunista, eu n\u00e3o sou comunista, tu tamb\u00e9m acho que n\u00e3o. Parece-me que n\u00e3o, tem-me parecido que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Sherlock Holmes da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>As minhas capacidades dedutivas s\u00e3o extraordin\u00e1rias. Desapareceu com o sil\u00eancio incomodado do Partido Comunista. \u00c1lvaro Cunhal chamava a estas pessoas as folhas mortas ou as folhas ca\u00eddas.<\/p>\n<p>As folhas secas.<\/p>\n<p>As folhas secas da grande \u00e1rvore frondosa do marxismo-leninismo, iam caindo umas folhas aqui e acol\u00e1. E Carlos Brito n\u00e3o era uma folha qualquer. Foi um homem que deu toda a vida ao partido e que sacrificou a vida toda a combater o fascismo.<\/p>\n<p>Pois, o PCP tem desde sempre um problema com a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Ali\u00e1s, dos partidos portugueses \u00e9 aquele que guarda com zelo e segredo os seus pr\u00f3prios arquivos. Tudo aquilo \u00e9 mantido longe dos olhares de pessoas que estejam fora da seita. Ao longo da hist\u00f3ria, o PCP, conv\u00e9m dizer, tem 105 anos. J\u00e1 \u00e9 muito tempo, mas realmente sempre teve a mesma solu\u00e7\u00e3oQuando a hist\u00f3ria ia contra aquilo que eles entendiam que era a pureza, que era apagar a hist\u00f3ria. H\u00e1 os tr\u00eas casos mais c\u00e9lebres na hist\u00f3ria do PCP. Um \u00e9 logo o primeiro ou segundo, consoante as contas, secret\u00e1rio-geral, que era o Jos\u00e9 Carlos Ratos, que depois a dada altura passou a ser um adepto da ditadura e da uni\u00e3o nacional, o que obviamente era uma coisa que envergonhava o PCP, e ent\u00e3o apagaram o Carlos Ratos da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Foga\u00e7a.<\/p>\n<p>O Foga\u00e7a, que \u00e9 possivelmente o caso mais complicado. O J\u00falio Foga\u00e7a foi do secretariado do PCP. A dada altura, o PCP aprova a tese dele num congresso em 57, em que ele dizia que a forma de derrubar a ditadura era atrav\u00e9s de meios pac\u00edficos, portanto, haveria o derrube pac\u00edfico da ditadura. E ao fim de uns tempos, o \u00c1lvaro Cunhal decide o que n\u00e3o, que o que era preciso era-<\/p>\n<p>Era o levantamento nacional<\/p>\n<p>&#8230;o levantamento nacional, que depois ele explicou melhor no livro &#8220;Rumo \u00e0 Vit\u00f3ria&#8221;, um dos livros mais c\u00e9lebres dele. Portanto, teria que haver uma insurrei\u00e7\u00e3o popular armada. Ent\u00e3o, a dada altura, volto a simplificar muito a hist\u00f3ria, o \u00c1lvaro Cunhal, no sexto congresso, passa a adotar esta outra tese sobre aquilo que seria a forma do PCP contribuir para o derrube da ditadura. E \u00c1lvaro Cunhal, para impor o seu poder, decidiu que todos os que tinham seguido a linha anterior, a linha do J\u00falio Foga\u00e7a, tinham tido um desvio de direita.<\/p>\n<p>Desvio de direita, frasiosismo.<\/p>\n<p>Exatamente.<\/p>\n<p>\u00c9 sempre aqueles nomes, para quem n\u00e3o pensa o mesmo que n\u00f3s.<\/p>\n<p>Precisamente. E at\u00e9 l\u00e1 estavam, junto com Foga\u00e7a, alguns dirigentes que hoje em dia at\u00e9 s\u00e3o muito conhecidos, que depois acabaram por voltar. Mas o PCP nunca perdoou ao J\u00falio Foga\u00e7a por causa disso, e portanto a\u00ed foi um apagamento por raz\u00f5es pol\u00edticas, a que se juntou uma complica\u00e7\u00e3o, porque ele a dada altura foi preso. Ele era homossexual, foi preso com o companheiro. O PCP sempre negou que a homossexualidade por si tivesse sido considerada um problema. Uns dizem que o PCP nem sequer sabia que ele era homossexual, outros dizem que o problema \u00e9 que ele, por ser homossexual e por querer esconder as rela\u00e7\u00f5es que tinha, punha em causa as regras de seguran\u00e7a na clandestinidade, e que foi isso que o levou a ser preso e a p\u00f4r em risco o partido. Seja como for, a verdade \u00e9 que ele foi afastado. O momento mais simb\u00f3lico aconteceu na fuga de Caxias. Houve a fuga de Caxias em 61. Fugiram uma s\u00e9rie de dirigentes do PCP, outros ficaram para tr\u00e1s e o Foga\u00e7a ficou para tr\u00e1s. Ficou l\u00e1 na cadeia. Eles entenderam que ele n\u00e3o deveria ser um dos escolhidos para fugir. Mas a verdade \u00e9 que o Foga\u00e7a desapareceu das publica\u00e7\u00f5es do partido.<\/p>\n<p>J\u00e1 agora lembrar que o Carlos Brito fugiu do Aljube.<\/p>\n<p>Claro.<\/p>\n<p>Uma pris\u00e3o terr\u00edvel.<\/p>\n<p>Certo. E depois h\u00e1 aquele caso tamb\u00e9m conhecido do Pavel, do Francisco Paulo Oliveira, que \u00e9 um outro caso diferente. Ele esteve preso, ele fugiu precisamente do Aljube com a ajuda de um enfermeiro, e havia d\u00favidas sobre se aquele enfermeiro, que tinha sido da Juventude Comunista, estaria ao servi\u00e7o da PIDE e, portanto, no fundo, se o Pavel teria fugido com a ajuda da PIDE. Sendo que essa fuga foi planeada e pensada com dirigentes comunistas que estavam fora da cadeia, e ele acabou por ser reabilitado depois do 25 de Abril, pelo pr\u00f3prio partido. Mas enfim, h\u00e1 aqui um problema estrutural do PCP com a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, de facto. Quando o PCP n\u00e3o gosta daquilo que v\u00ea, apaga. E n\u00f3s vimos isso recentemente, quer dizer, na altura da queda do Muro de Berlim, tamb\u00e9m essa tentativa com v\u00e1rios dirigentes. O PCP tem um problema com a sua hist\u00f3ria, de facto.<\/p>\n<p>As vozes dissonantes no Comit\u00ea Central acabam por ser silenciadas, apagadas, afastadas. O Carlos Brito foi suspenso. Isto \u00e9 como o PS suspender o Salgado Zenha, por desvio ao pensamento social-democrata.<\/p>\n<p>N\u00e3o, mas repare, eu at\u00e9 admito que haja uma diverg\u00eancia.<\/p>\n<p>Se os partidos forem genuinamente democr\u00e1ticos, a diverg\u00eancia \u00e9 o p\u00e3o nosso de cada dia, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p>N\u00e3o, claro, mas at\u00e9 pode haver um ponto em que se torna, enfim, acho que v\u00e1rios outros partidos expulsaram militantes ou aconteceram cis\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o, mas h\u00e1 casos muito diferentes. O PS tamb\u00e9m teve expuls\u00f5es, mas o PS n\u00e3o teve expuls\u00f5es por causa de delito de opini\u00e3o. As expuls\u00f5es no PS ocorreram nos anos 70, quando se detetou aquilo que foi considerado um fen\u00f3meno de entrismo, que \u00e9 uma coisa que j\u00e1 ningu\u00e9m-<\/p>\n<p>Sim, grande palavra<\/p>\n<p>&#8230;o entrismo era uma estrat\u00e9gia defendida por certos partidos extremistas, que consideravam que em vez de criarem novos partidos para defenderem o seu ide\u00e1rio, o melhor era tomarem por dentro os partidos existentes. Este foi o caso maior Serra, que foi um processo conduzido pelo Ant\u00f3nio Reis, enfim, concluiu que aquilo era uma infiltra\u00e7\u00e3o trotskista, ou n\u00e3o sei o qu\u00ea. Julgo que era uma infiltra\u00e7\u00e3o trotskista, j\u00e1 n\u00e3o posso agora garantir o que \u00e9 que foi. Em c\u00e1lculos, eu tinha para a\u00ed tr\u00eas anos.E esses fen\u00f4menos acontecem. Ou quando um membro de um partido \u00e9 candidato por outro. A expuls\u00e3o em si mesma n\u00e3o \u00e9 algo que deva ser condenado. Agora, as raz\u00f5es da expuls\u00e3o \u00e9 que s\u00e3o lament\u00e1veis. O Carlos Brito, com tudo o que o partido lhe devia, com tudo o que a democracia lhe devia. E \u00e9 preciso tamb\u00e9m perceber uma coisa: ele sai j\u00e1 depois do 25 de abril, mas aqueles que sa\u00edram do PCP antes do 25 de abril tamb\u00e9m foram homens de grande coragem, porque a sociedade portuguesa \u00e9 uma sociedade muito pequena e realmente existiam, de um lado, o regime, a situa\u00e7\u00e3o, com todo o seu aparato policial e repressivo, e depois, melhor ou pior, havia, com forte influ\u00eancia nos meios intelectuais, o partido. Estar fora de tudo era a solid\u00e3o total.<\/p>\n<p>Ou seja, apesar de tudo, havia uma rede de apoio naqueles que estavam no PCP.<\/p>\n<p>Havia qualquer coisa. Uma vida de sacrif\u00edcio, de sofrimento, de persegui\u00e7\u00f5es e de vexames e humilha\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Claro.<\/p>\n<p>Mas havia qualquer coisa. Agora, por exemplo, aquilo a que se chamava o Reviralho, que geralmente eram as figuras da chamada oposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Oposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica era os velhos republicanos, os socialistas, os liberais, do Cunha Leal ao M\u00e1rio Soares, o Jos\u00e9 Miguel Cortes\u00e3o, aquela gente toda, aquelas gl\u00f3rias todas que vinham, umas mais recentes e mais jovens, como o Soares e outros mais antigos, que j\u00e1 vinham da &#8220;Siareiros&#8221;, que vinham da &#8220;Siare Nova&#8221;, que era o Reviralho. Ou os velhos republicanos. Esses tinham mais raz\u00e3o, porque esses sempre disseram: &#8220;Isto s\u00f3 cai com golpe militar.&#8221; E portanto, estavam sempre a organizar aquelas intentonas geralmente votadas ao insucesso. Enquanto \u00c1lvaro Cunhal trabalhava para o tal levantamento que ainda est\u00e1 para acontecer.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria realmente \u00e9 dif\u00edcil. De qualquer forma, n\u00f3s j\u00e1 voltamos para falar um pouquinho mais de hist\u00f3ria. Isto n\u00e3o \u00e9 o &#8220;E o Resto \u00e9 Hist\u00f3ria&#8221;, tens outro descansado, mas j\u00e1 voltamos para falar de Medio Oriente e tamb\u00e9m da hist\u00f3ria complicada.<\/p>\n<p>J\u00e1 agora, o &#8220;E o Resto \u00e9 Hist\u00f3ria&#8221; que \u00e9 um bel\u00edssimo programa.<\/p>\n<p>Claro. Quando eu disse: &#8220;Isto n\u00e3o \u00e9 o Resto \u00e9 Hist\u00f3ria&#8221;, foi com inveja. Ent\u00e3o at\u00e9 j\u00e1. Ol\u00e1, bem-vindos de volta ao &#8220;Realpolitik&#8221;. S\u00e9rgio, h\u00e1 uma frase famosa que diz que nos Balc\u00e3s um tiro ecoa durante d\u00e9cadas e no Medio Oriente acontece mais ou menos a mesma coisa. N\u00f3s andamos agora todos outra vez aos tiros por causa da interven\u00e7\u00e3o militar dos Estados Unidos, mas \u00e0s vezes conv\u00e9m fazermos zoom out. Pe\u00e7o desculpa pelo estrangeirismo.<\/p>\n<p>J\u00e1 agora, o Bismarck tamb\u00e9m dizia que os Balc\u00e3s n\u00e3o mereciam a vida de um granadeiro b\u00e1varo.<\/p>\n<p>Achas que o Trump diria a mesma coisa? O Medio Oriente n\u00e3o merece a vida de um soldado.<\/p>\n<p>H\u00e1 regi\u00f5es do mundo cujas circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas criam dificuldades de resolu\u00e7\u00e3o extrema. Os Balc\u00e3s s\u00e3o um cl\u00e1ssico da hist\u00f3ria europeia. E o Medio Oriente tem sido, desde 1918, desde a queda do Imp\u00e9rio Otomano, um espa\u00e7o de conflito e de antagonismos, no qual o Ocidente tem grandes responsabilidades, mas como n\u00f3s vivemos mergulhados na conjuntura, nunca ningu\u00e9m se interroga sobre as raz\u00f5es profundas que continuam a atuar. Est\u00e3o vivas, as causas permanecem entre n\u00f3s a atuar e a movimentar as for\u00e7as hist\u00f3ricas que se digladiam naquela regi\u00e3o. E o Ocidente tem grandes responsabilidades. Basta dizer que o Medio Oriente, aquilo a que n\u00f3s chamar\u00edamos o Crescente F\u00e9rtil, aquele enorme territ\u00f3rio entre o Tigres e o Eufrates e o Mediterr\u00e2neo, que assistiu ao nascimento da civiliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma zona conturbada que a partir do acordo Sykes-Picot, celebrado em 1918 entre os ingleses e os franceses, traindo todas as promessas feitas, quer aos sionistas, quer aos \u00e1rabes, partilharam, dividiram o Medio Oriente entre as pot\u00eancias ocidentais, que mantiveram uma rela\u00e7\u00e3o de tipo colonial ou tipo neocolonial. Neocolonial no sentido em que os povos se autogovernam, mas est\u00e3o sujeitos a uma explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de fora. E, portanto, esse primeiro acordo, Sykes-Picot, 1918, posterior ao fim da Primeira Guerra Mundial, vai criar uma zona de influ\u00eancia francesa, a S\u00edria e o L\u00edbano, e uma zona de influ\u00eancia inglesa, o chamado Mandato Palestiniano, a Jord\u00e2nia e o Iraque, fundamentalmente. E o Reino Unido mant\u00e9m uma influ\u00eancia naquilo a que n\u00f3s hoje chamamos os Emirados\u00c1rabes Unidos, mais o Qatar e o Bahrein, que n\u00e3o s\u00e3o Emirados \u00c1rabes Unidos porque n\u00e3o quiseram fazer parte.<\/p>\n<p>Ok, n\u00e3o sabia.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da Ar\u00e1bia Saudita \u00e9 um bocadinho diferente, mas a Ar\u00e1bia Saudita vai aparecer apoiada logo ao seguir a sua independ\u00eancia, que obt\u00e9m sozinha. Poucos anos depois, celebra um acordo com os Estados Unidos, j\u00e1 em troca de prote\u00e7\u00e3o militar e de capitais, porque a extra\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo exigia tecnologia que eles n\u00e3o tinham, com a Standard Oil e, portanto, a Ar\u00e1bia Saudita e a Standard Oil s\u00e3o irm\u00e3s g\u00eameas, at\u00e9 ao aparecimento da Saudi Aramco, que \u00e9 hoje, julgo eu, ainda a grande empresa, mais saudita j\u00e1 do que americana, que faz a explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo na Ar\u00e1bia Saudita, que \u00e9 a grande riqueza do pa\u00eds e \u00e9 o maior produtor de petr\u00f3leo. Mas o neocolonialismo era mais ou menos o mesmo. Tamb\u00e9m havia um fen\u00f3meno de neocolonialismo no Ir\u00e3o, em que era a BP, British Petroleum, que controlava o petr\u00f3leo do Ir\u00e3o. Nesse per\u00edodo, surge um pensamento liderado pelo Egito, um pensamento liderado pelo grande l\u00edder hist\u00f3rico do Egito, Gamal Abdel Nasser, que \u00e9 um pensamento pan\u00e1rabe. A ideia de que n\u00f3s temos estas fronteiras, que foram nos impingidas pelas pot\u00eancias ocidentais, que nos retalharam para partilhar os recursos da regi\u00e3o, mas n\u00f3s aspiramos a ter um Estado que coincida com a popula\u00e7\u00e3o, e a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 definida pela etnia e pela l\u00edngua. Portanto, \u00e9 isto que define um \u00e1rabe. Por oposi\u00e7\u00e3o a um pensamento que tamb\u00e9m aparece na altura, mais religioso, que considerava que havia uma dimens\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 pol\u00edtica, Nasser era um secularista e socialista. E aparece um pensamento de tipo religioso, que acha que verdadeiramente o que define os \u00e1rabes \u00e9 a sua identidade religiosa mu\u00e7ulmana. E, portanto, aparece uma s\u00e9rie de regimes, aparece o partido Baath no Iraque, um regime secular, toda a gente se lembra.<\/p>\n<p>O Saddam.<\/p>\n<p>O Saddam era um homem que se vestia \u00e0 ocidental, os s\u00edrios, \u00e0 ocidental, os eg\u00edpcios, \u00e0 ocidental. Os pa\u00edses seculares, para n\u00e3o falar dos turcos, do Kemal Pasha, da Turquia, que tamb\u00e9m era um pa\u00eds que foi ocidentalizado a trote, por determina\u00e7\u00e3o e modernizado do Kemal Pasha.<\/p>\n<p>E o Ir\u00e3o com o X\u00e1, tamb\u00e9m era.<\/p>\n<p>O Ir\u00e3o com o X\u00e1, tamb\u00e9m \u00e9 um pa\u00eds ocidentalizado. E depois existiam as petromonarquias. A Ar\u00e1bia Saudita desenvolve um pensamento pr\u00f3prio. \u00c9 um pensamento pr\u00f3prio que n\u00f3s ocidentais considerar\u00edamos obscurantista, chamado wahabismo. O wahabismo fez com que at\u00e9 h\u00e1 poucos anos atr\u00e1s, a Ar\u00e1bia Saudita fosse o pa\u00eds mais medieval da regi\u00e3o. Com aquelas limita\u00e7\u00f5es dos direitos das mulheres, ainda nos lembramos de algumas que ca\u00edram entretanto, julgo eu.<\/p>\n<p>Sim, j\u00e1 podem conduzir.<\/p>\n<p>J\u00e1 podem conduzir, j\u00e1 podem n\u00e3o sei o qu\u00ea. A Ar\u00e1bia Saudita era um pa\u00eds ultraconservador. E nesse aspeto distinguia-se dos tais pa\u00edses seculares. Depois h\u00e1 mais um caso, que \u00e9 o Koweit. O Koweit, historicamente, fazia parte da prov\u00edncia de Wassora, do Iraque. Portanto, em princ\u00edpio, era parte do Iraque. Quando se d\u00e1 a independ\u00eancia do Iraque, a Inglaterra imp\u00f5e a independ\u00eancia do Koweit. \u00c9 uma zona com uma relativa autonomia. Autonomia n\u00e3o, a independ\u00eancia. Conseguiu-se fragmentar mais ali uma fatia que continuou sob a prote\u00e7\u00e3o inglesa.<\/p>\n<p>Se eu estou bem a perceber, a tua tese \u00e9 de que isto \u00e9 tudo culpa do p\u00f3s-colonialismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o, isso n\u00e3o existe. Algu\u00e9m ter a culpa de tudo, isso nunca na vida vi. Agora, perceber que n\u00f3s hoje estamos a aprender at\u00e9 que medida ainda dependemos do petr\u00f3leo. Imagine-se num mundo nascido no s\u00e9culo XX, com o aparecimento dos primeiros coura\u00e7ados movidos a gas\u00f3leo e a gasolina e n\u00e3o sei o qu\u00ea, o desenvolvimento da ind\u00fastria autom\u00f3vel. O s\u00e9culo XX vivia daquele recurso fundamental. E o Ocidente queria controlar esse recurso e, portanto, manteve uma rela\u00e7\u00e3o, eu n\u00e3o diria mutuamente proveitosa. Os pa\u00edses \u00e1rabes foram-se libertando deste jugo. O Ir\u00e3o tem uma hist\u00f3ria tr\u00e1gica. Tinha o primeiro-ministro socialista Mossadegh, que foi derrubado pela CIA e pelos ingleses, e foi instalado o X\u00e1, que manteve as rela\u00e7\u00f5es interessantes para o Ocidente. E a Ar\u00e1bia Saudita, sobretudo a partir do Yom Kippur e das retalia\u00e7\u00f5es do mundo por todo o petr\u00f3leo, por causa da guerra de Israel. N\u00e3o fal\u00e1mos de Israel, \u00e9 outro abcesso que contribui para a trag\u00e9dia do M\u00e9dio Oriente, mas tamb\u00e9m se v\u00e3o libertando desta tutela do Ocidente. Continuam a depender dos Estados Unidos para a sua defesa, como \u00e9 reconhecido.<\/p>\n<p>N\u00e3o descreveria Israel como um abcesso, mas tamb\u00e9m conv\u00e9m falar do p\u00f3s-p\u00f3s-colonialismo, porque o Ir\u00e3o libertou-se do jugo, para te citar, p\u00f3s-colonial na revolu\u00e7\u00e3o de 78, 79, o X\u00e1 caiu e j\u00e1 se passaram quase 50 anos em que temos um regime que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 dependente do Ocidente, como \u00e9 um inimigo declarado do Ocidente. O Aiatol\u00e1 Khomeini, depois da revolu\u00e7\u00e3o, foi concentrando o poderEle juntou ao discurso tradicional religioso dos cl\u00e9rigos iranianos duas novidades modernas. Uma, o nacionalismo, que apesar de tudo conseguimos compreender bem, mas depois at\u00e9 come\u00e7ou a introduzir elementos de ret\u00f3rica de luta de classes, que ele foi retirar da ret\u00f3rica dos grupos extremistas. H\u00e1 um livro \u00f3timo que se chama &#8220;The Revolutionists&#8221;, de Jason Burke, que explica como \u00e9 que passamos do terrorismo de extrema-esquerda, muito apoiado por aqueles pa\u00edses, para o terrorismo isl\u00e2mico. Ele fala um pouco sobre isto, mas este regime p\u00f3s-p\u00f3s-colonial \u00e9 um regime de terror desde o in\u00edcio, desde o primeiro dia.<\/p>\n<p>\u00c9 uma ditadura com m\u00e3o de ferro.<\/p>\n<p>De terror internamente, claro, vale a pena, mas o ponto nem \u00e9 esse. Aliada \u00e0 altura, foram enforcadas fam\u00edlias inteiras, do av\u00f4 ao neto adolescente. Foi tudo. O Khomeini tem uma frase c\u00e9lebre em que diz que estamos a lidar com animais, n\u00e3o \u00e9 com seres humanos, \u00e9 com animais ferozes, mas mais do que o terror interno, que infelizmente existe em v\u00e1rias ditaduras e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel n\u00f3s acabarmos, nem desej\u00e1vel do ponto de vista pr\u00e1tico. Quer dizer, de repente queremos acabar com as ditaduras todas no mundo, n\u00e3o vai dar bom resultado. Claro que seria bom que toda a gente estivesse de m\u00e3os dadas, como \u00e9 \u00f3bvio. Mas uma das bases, desde o primeiro dia do regime iraniano, \u00e9 o terrorismo externo. Ali\u00e1s, come\u00e7ou com o sequestro, durante 444 dias, dos membros da embaixada dos Estados Unidos em Teer\u00e3o, um ato de terrorismo de Estado, e depois a cria\u00e7\u00e3o da chamada rede de resist\u00eancia, o eixo da resist\u00eancia que inclui o Hezbollah no L\u00edbano, o Hamas, os Houthis.<\/p>\n<p>O Hamas \u00e9 um caso curioso, porque o Hamas \u00e9 sunita.<\/p>\n<p>Precisamente, \u00e9 verdade. O Ir\u00e3o quis mostrar que n\u00e3o era apenas um l\u00edder dos xiitas, porque isso reduziria a sua capacidade de influ\u00eancia, mas que conseguia, em nome do combate ao Ocidente, tamb\u00e9m apoiar sunitas.<\/p>\n<p>Eu tenho que come\u00e7ar j\u00e1 por dizer, depois de teres feito esta den\u00fancia e esta descri\u00e7\u00e3o verdadeira do que \u00e9 o regime dos aiatol\u00e1s, do que \u00e9 a teocracia.<\/p>\n<p>N\u00e3o, mas o que eu quero dizer com isso, e j\u00e1 vais, \u00e9 que aquele regime assenta no terrorismo internacional, assenta na desestabiliza\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o e no combate ao Ocidente. Uma coisa \u00e9 indissoci\u00e1vel da outra, e isso j\u00e1 acontece h\u00e1 quase 50 anos. Agora, independentemente daquilo que n\u00f3s achamos sobre a interven\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos l\u00e1, n\u00e3o \u00e9 esse o ponto. O ponto \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 maneira, aquele regime tem na sua natureza a desestabiliza\u00e7\u00e3o do globo. \u00c9 s\u00f3 esse o meu ponto.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 tudo verdade, mas temos que reconhecer que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o regime iraniano que \u00e9 um fator de desestabiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Claro.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, n\u00e3o dissemos, e valia a pena termos dito, toda a gente sabe, mas de qualquer maneira explicar que os iranianos n\u00e3o s\u00e3o \u00e1rabes, s\u00e3o persas. O nome iraniano, ali\u00e1s, vem do ariano. Iraniano, ariano.<\/p>\n<p>Olha, n\u00e3o sabia disso.<\/p>\n<p>Mas isso \u00e9 tudo verdade. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que quando come\u00e7am a aparecer os movimentos laicos, seculares, de tipo socialista e nacionalista da S\u00edria. N\u00e3o sei se sabes que a S\u00edria houve uma altura em que esteve integrada no Egito, depois procurou integrar-se no Iraque. Quer dizer, o esfor\u00e7o do pan-arabismo sempre existiu. Mal sucedido, porque, como \u00e9 evidente, todos estes pa\u00edses eram autocracias e existiam rivalidades insuper\u00e1veis que dificultavam a consuma\u00e7\u00e3o destes processos. A L\u00edbia tamb\u00e9m esteve. Mas este pensamento pan-\u00e1rabe coexistiu com outro fen\u00f4meno que tem uma influ\u00eancia extraordin\u00e1ria no mundo mu\u00e7ulmano sunita, que \u00e9 a chamada Irmandade Mu\u00e7ulmana. A Irmandade Mu\u00e7ulmana \u00e9 muito mais que um movimento estritamente pol\u00edtico. \u00c9 um movimento que tem uma dimens\u00e3o social, tem infraestruturas de apoio social, escolas, hospitais.<\/p>\n<p>Como o Hezbollah, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Uma influ\u00eancia na sociedade enorme e que existe desde os prim\u00f3rdios. A Irmandade Mu\u00e7ulmana torna-se uma organiza\u00e7\u00e3o antiocidental com o problema relacionado com a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel. N\u00e3o era. Boa parte do radicalismo que tu t\u00e3o bem descreveste do regime iraniano, que tem aquele car\u00e1ter teocr\u00e1tico e ao mesmo tempo revolucion\u00e1rio, tem a ver com a rea\u00e7\u00e3o contra a ideia de um pa\u00eds humilhado e submetido \u00e0 prioridade dos interesses ocidentais, e tamb\u00e9m \u00e0 situa\u00e7\u00e3o relacionada com a exist\u00eancia do Estado de Israel, cuja exist\u00eancia o Ir\u00e3o nunca reconheceu e \u00e9 uma das raz\u00f5es pelas quais o problema do M\u00e9dio Oriente n\u00e3o se anuncia de f\u00e1cil resolu\u00e7\u00e3o, porque o Ir\u00e3o tem que aceitar o direito de Israel a existir pacificamente dentro das suas fronteiras. Israel tamb\u00e9m n\u00e3o d\u00e1 mostras de estar muito interessado em existir pacificamente dentro das suas fronteiras.<\/p>\n<p>Coisa que os outros Estados \u00e1rabes j\u00e1 foram reconhecendo nos \u00faltimos anos. Os acordos de Abraham permitiram uma certa converg\u00eancia. H\u00e1 uma grande desconfian\u00e7a neste momento em rela\u00e7\u00e3o aos Emirados \u00c1rabes, porque os demais Estados \u00e1rabes desconfiam da rela\u00e7\u00e3o de excessiva proximidade entre Israel e os Emirados \u00c1rabes.<\/p>\n<p>J\u00e1 agora, para introduzir mais confus\u00e3o nesta grande confus\u00e3o, \u00e9 preciso talvez dizer que as petromonarquias do Golfo s\u00e3o autocracias que existem por oposi\u00e7\u00e3o a uma esp\u00e9cie de sentimento democr\u00e1tico majorit\u00e1rio que \u00e9 favor\u00e1vel \u00e0 Irmandade Mu\u00e7ulmana. Ou seja, a Irmandade Mu\u00e7ulmana desejaria correr com aqueles xeiques todos e emires. Eu n\u00e3o tenho d\u00favidas que se esses pa\u00edses se democratizassem, a Irmandade Mu\u00e7ulmana tomava conta daqueles pa\u00edses.<\/p>\n<p>Claro. Tiveste um problema semelhante na Arg\u00e9lia, quando houve elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E tiveste no Egito.<\/p>\n<p>E em Gaza.<\/p>\n<p>Que \u00e9 o pa\u00eds de onde vem, originariamente, a Fraternidade Mu\u00e7ulmana, que hoje tamb\u00e9m, com a derrota do partido do Kemal Pasha Atat\u00fcrk, o senhor Erdogan tamb\u00e9m tem liga\u00e7\u00f5es. A Irmandade Mu\u00e7ulmana continua a ser uma for\u00e7a pol\u00edtica muito importante em todo este xadrez regional. E, portanto, a Ar\u00e1bia Saudita, os Emirados t\u00eam horror \u00e0 Irmandade Mu\u00e7ulmana e ao que ela significa.<\/p>\n<p>Portanto, no fundo, esta confus\u00e3o-<\/p>\n<p>E o Ocidente tamb\u00e9m prefere mil vezes ter l\u00e1 estas monarquias mais ou menos servis, pelo menos colaborantes.<\/p>\n<p>Ou, pelo menos, aquilo que veem como um poder estruturado.<\/p>\n<p>Um poder estruturado, sim. O princ\u00edpio da ordem.<\/p>\n<p>Precisamente. Se de repente tudo aquilo se transforma numa guerra civil permanente.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, basta ver o que aconteceu no Egito. A Irmandade Mu\u00e7ulmana e a Revolu\u00e7\u00e3o da Primavera \u00c1rabe, derrubou o Hosni Mubarak, um protegido dos Estados Unidos e do Ocidente, e instalou o senhor Morsi, que foi rapidamente derrubado pelo senhor Sisi.<\/p>\n<p>Portanto, esta confus\u00e3o vem de longe, n\u00e3o \u00e9? E n\u00e3o vai acabar t\u00e3o cedo.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que se poss\u00edvel.<\/p>\n<p>E seguramente n\u00e3o \u00e9 com uma interven\u00e7\u00e3o militar mal preparada que se resolve um problema com d\u00e9cadas e d\u00e9cadas. S\u00e9rgio, temos cinco minutos s\u00f3 para tirar uma ou duas pistas do que aconteceu nas elei\u00e7\u00f5es locais no Reino Unido, que aconteceram na quinta-feira. Os resultados foram sendo conhecidos tamb\u00e9m sexta e s\u00e1bado. Estamos a falar aqui num momento de grande indefini\u00e7\u00e3o. Neste momento em que estamos a gravar, o Starmer continua primeiro-ministro e h\u00e1 rumores de que um dos seus principais ministros, o Wes Streeting, vai demitir-se para o desafiar. Quando as pessoas estiverem a ouvir isto, se estiverem a ouvir em direto, j\u00e1 pode estar tudo mudado. De qualquer maneira, qual \u00e9 a principal li\u00e7\u00e3o que tu retiras? Aconteceu ali muita coisa, a subida do Reform do Nigel Farage, a subida dos Verdes tamb\u00e9m, mas qual \u00e9 a principal li\u00e7\u00e3o que tu retiras do que aconteceu no Reino Unido?<\/p>\n<p>Bem, em primeiro lugar, devo dizer que h\u00e1 imensos fen\u00f3menos relativamente aos quais eu n\u00e3o consigo extrair li\u00e7\u00e3o nenhuma. Fico a contempl\u00e1-los completamente.<\/p>\n<p>E a co\u00e7ar a cabe\u00e7a: &#8220;Meu Deus!&#8221;<\/p>\n<p>Est\u00e1tico e paralisado, que \u00e9 me dar a mim, que imediatamente me ocorreu s\u00f3 o esp\u00edrito como uma grande li\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. N\u00e3o, n\u00e3o tiro li\u00e7\u00e3o nenhuma. Eu contemplo a situa\u00e7\u00e3o inglesa como observador. Agora constato que v\u00e3o entrar num processo parecido com o afastamento pol\u00edtico de Margaret Thatcher. Ele certamente vai ouvir os membros do gabinete, alguns v\u00e3o dizer: &#8220;O senhor tem que sair, o senhor tem que ficar.&#8221; Ele a seguir far\u00e1 as suas contas dele, etc. Em segundo lugar, \u00e9 preciso explicar \u00e0s pessoas, que t\u00eam mais que fazer que acompanhar em detalhe a pol\u00edtica inglesa, que a derrocada pol\u00edtica do Labour \u00e9 uma coisa sem precedentes. Portanto, o Labour \u00e9 varrido, perde, salvo erro, 1700 lugares no poder local. Eles t\u00eam aqueles governos com devolu\u00e7\u00e3o de poderes na Esc\u00f3cia e em Gales. Em Gales, passa para sete deputados, tinha dezenas de deputados. Portanto, \u00e9 uma derrocada gigante.<\/p>\n<p>A chamada Muralha Vermelha desabou completamente.<\/p>\n<p>Essa Muralha Vermelha \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o. J\u00e1 tinha ro\u00eddo com o Boris Johnson.<\/p>\n<p>Mas eles reconstru\u00edram.<\/p>\n<p>Eles reconstru\u00edram e ela outra vez veio abaixo. Parece as muralhas de&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 uma fraca muralha.<\/p>\n<p>\u00c9 uma fraca muralha.<\/p>\n<p>Muralha de Lego.<\/p>\n<p>\u00c9 uma muralha de Lego. Mas em bom rigor, o problema que se p\u00f5e fundamentalmente ao Labour \u00e9 saber: por que um pa\u00eds que tem uma classe oper\u00e1ria muito orgulhosa, os ingleses, a classe oper\u00e1ria inglesa \u00e9 orgulhosa, o pa\u00eds da revolu\u00e7\u00e3o industrial, muito politizada, com forte sentido de classe, por que tudo isto, este mundo antigo est\u00e1 a esboroar-se todo? E n\u00f3s n\u00e3o vimos nada aparecer. Agora vem esta coisa do Reform UK, que \u00e9 um partido populista. E n\u00f3s temos que nos interrogar por que esta base social est\u00e1 em queda livre. Os conservadores n\u00e3o conseguem beneficiar nada com isto. Continuam a perder aqui, a ganhar acol\u00e1, mas cada vez mais acantonados, j\u00e1 n\u00e3o como partido nacional, no sudeste de Inglaterra, no Kent, na zona mais pr\u00f3spera. Os trabalhistas s\u00e3o uma esp\u00e9cie de partido metropolitano, nas cidades, Londres \u00e9 o grande basti\u00e3o trabalhista. Depois h\u00e1 os partidos nacionais, e o Reform est\u00e1 a transformar-se no verdadeiro grande partido nacional no Reino Unido. Quer dizer, esta julgo eu que deve ser a quest\u00e3o que nos deve interpelar: o que \u00e9 que os pol\u00edticos dos partidosEm cima no caso ingl\u00eas, que \u00e9 o pa\u00eds mais previs\u00edvel do ponto de vista democr\u00e1tico. Ou \u00e9 Labour ou \u00e9 Tory, ou \u00e9 Tory ou \u00e9 Labour. Por que at\u00e9 neste pa\u00eds com um sistema t\u00e3o consolidado, antigo e s\u00f3lido, n\u00f3s estamos a assistir a esta decomposi\u00e7\u00e3o? Quais s\u00e3o as for\u00e7as profundas, para sermos um pouco grandiloquentes, quais s\u00e3o as for\u00e7as hist\u00f3ricas que est\u00e3o a agir e que est\u00e3o a provocar o desaparecimento deste tal mundo antigo, enquanto estamos na expectativa de ver um mundo novo que manifestamente ainda n\u00e3o nasceu. Estamos a ver um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o. O que est\u00e1 a acontecer com a sociedade inglesa? Eu tenho sobre isso as minhas teorias, mas n\u00e3o me parece que tu estejas especialmente interessado neste momento.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o estou, S\u00e9rgio.<\/p>\n<p>Est\u00e1s interessado?<\/p>\n<p>O que tu achas? Quais s\u00e3o as for\u00e7as profundas?<\/p>\n<p>Pode ser. Em primeiro lugar-<\/p>\n<p>Tens dois minutos pra explicar as for\u00e7as profundas.<\/p>\n<p>Como \u00e9 que uma pessoa fala de for\u00e7as profundas em dois minutos?<\/p>\n<p>Tu \u00e9s capaz.<\/p>\n<p>For\u00e7as superficiais.<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m consegue, \u00e9s tu.<\/p>\n<p>Ok, ent\u00e3o muito rapidamente. Vinte anos duros, come\u00e7aram com a crise financeira internacional. Vinte anos de guerras, 20 anos de subida de pre\u00e7o de energia, 20 anos de aumento de infla\u00e7\u00e3o, 20 anos de diminui\u00e7\u00e3o do poder de compra, subida do pre\u00e7o da habita\u00e7\u00e3o, aumento da despesa com armas, pandemias, Covid, retra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Fen\u00f4menos novos preocupant\u00edssimos, uma porcentagem enorme da popula\u00e7\u00e3o que simplesmente n\u00e3o trabalha e vive subsidiada. Em Inglaterra h\u00e1 mais gente que n\u00e3o trabalha e que vive de subs\u00eddios do que gente desempregada, tecnicamente. Existem fam\u00edlias que v\u00e3o na terceira gera\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o conseguem integrar-se ou que n\u00e3o querem integrar-se no mercado de trabalho. Eu julgo que isso cria fen\u00f4menos de tens\u00e3o dentro dos setores mais desfavorecidos da sociedade, e est\u00e3o a criar os benefici\u00e1rios do welfare state, aqueles cujos partidos constru\u00edram o welfare state. Eu acho que est\u00e3o a revoltar-se contra uma percep\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos free riders, aos abusadores dos mecanismos do welfare state. Em cima disto, juntas a demagogia e o populismo relacionado com a den\u00fancia da imigra\u00e7\u00e3o, o facto da Inglaterra ter um problema ser\u00edssimo de imigra\u00e7\u00e3o, porque o peso da imigra\u00e7\u00e3o \u00e9 muito significativo, o contraste cultural.<\/p>\n<p>E a imigra\u00e7\u00e3o ilegal \u00e9 imposs\u00edvel de controlar.<\/p>\n<p>Que se agravou depois da sa\u00edda da Uni\u00e3o Europeia, um fen\u00f4meno extraordin\u00e1rio, o que significa que, afinal, a Fran\u00e7a sempre desempenhava um papel \u00fatil na conten\u00e7\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o. Eu imagino os ingleses com uma popula\u00e7\u00e3o cada vez mais diversa, que n\u00e3o respeita a fila, que n\u00e3o est\u00e1 ordeiramente na fila \u00e0 espera da sua vez e que passa \u00e0 frente, que para os ingleses \u00e9 quase o equivalente moral a um homic\u00eddio, porque por raz\u00f5es culturais e civilizacionais s\u00e3o um povo ordeiro e cumpridor.<\/p>\n<p>Sim, n\u00f3s em Portugal, por exemplo, pra n\u00f3s uma fila \u00e9 uma figura de estilo.<\/p>\n<p>A fila \u00e9 tendencial.<\/p>\n<p>Certo.<\/p>\n<p>Finalmente, no princ\u00edpio da fila est\u00e1 um com\u00edcio de prevaricadores. Mas em dois minutos n\u00e3o se consegue melhor do que isto.<\/p>\n<p>Mas olha, j\u00e1 foi muito bom, S\u00e9rgio.<\/p>\n<p>\u00c9?<\/p>\n<p>Bem, n\u00f3s vamos ter desenvolvimentos, seguramente. Se calhar na pr\u00f3xima semana, Inglaterra j\u00e1 estar\u00e1 a olhar pra um novo primeiro-ministro, vamos ver. Ou pelo menos no processo de, isto tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o r\u00e1pido. Mas n\u00f3s voltamos na pr\u00f3xima quarta, em direto ao meio-dia, em podcast tamb\u00e9m. Tamb\u00e9m sabe que pode seguir-nos nas plataformas de podcast para receber um alerta a cada novo programa, que \u00e9 uma coisa muito importante. N\u00e3o sei como \u00e9 que as pessoas podem viver sem isto. E at\u00e9 pra semana, S\u00e9rgio.<\/p>\n<p>At\u00e9 pra semana. Melhoras pro ego.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Esta transcri\u00e7\u00e3o foi gerada automaticamente por Intelig\u00eancia Artificial e pode conter erros ou imprecis\u00f5es. 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